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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Alojamento Local uma praga nas grandes cidades

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Em Portugal no Porto e especialmente em Lisboa a proliferação de AL-Alojamento Local é uma praga.


Tenho aversão, para não dizer raiva, a Alojamentos Locais onde quer que eles existam. A fim de evitar que me acusem de discurso de ódio esclareço que há uma diferença entre eles. A principal diferença é que a raiva é uma emoção momentânea, passageira e focada, uma reação a um evento específico enquanto, por seu lado o ódio é um sentimento profundo, duradouro e que se instala, consumindo a pessoa e envolve ressentimento e desejo de mal ao outro, ou até a um grupo, e tem um poder destrutivo maior.


Tenho raiva aos AL pelos seus efeitos nocivos significativos nas populações, nos edifícios, na pressão sobre o mercado habitacional, nos conflitos em prédios residenciais, e degradação da qualidade de vida comunitária.


Os alojamentos locais foram criados pelo Decreto-Lei n.º 39/2008, de 7 de março, durante o governo de José Sócrates para enquadrar a prestação de serviços de alojamento temporário em estabelecimentos que não reunissem os requisitos legalmente exigidos para se qualificarem como empreendimentos turísticos. Foi uma balda criada para concorrer com os serviços turísticos qualificados.


O aumento de AL contribui para a perda, diria expulsão de população residente nos bairros históricos, e não apenas nesses, já que muitos imóveis deixaram de estar disponíveis para arrendamento de longa duração.


Como é sabido a procura turística e outros que vêm temporariamente residir para o nosso país, estes a maior parte os muito jovens, inflaciona os valores de compra e arrendamento, tornando difícil para famílias e jovens que pretendem fazer modo de vida nas cidades. Esta rotatividade constante de turistas fragiliza laços sociais e reduz o sentido de pertença nos bairros.


Os AL’s são um contributo para a desigualdade social porque beneficia, sobretudo, proprietários e investidores gananciosos que compram andares em prédios de habitação que, em muitos casos põem em nome dos filhos para lhes garantir um rendimento que substitua a procura de trabalho, enquanto os residentes permanentes enfrentam maior precariedade habitacional com despejos e outros que tais.


Não ficamos por aqui, em prédios de habitação surgem frequentemente conflitos porque o AL gera tensões devido ao ruído, festas barulhentas até altas horas, entrada/saída constante de estranhos no edifício, batendo portas e degradando os edifícios destinados a habitação. Mas há mais, há andares que foram comprados em prédios de habitação que são transformados em alugueres de quartos alugados que são uma reprodução de AL, mas sem as autorizações e encargos legais.


Esta dinâmica turística introduz insegurança e instabilidade em ambientes tradicionalmente familiares com degradação das áreas comuns e maior utilização de zonas partilhadas sem sentido de responsabilidade, o que leva à deterioração do interior e exterior dos edifícios com o crescente conflito em prédios residenciais devido ao ruído e rotatividade de turistas.


Notam-se também problemas de salubridade com acumulação de lixo e práticas descuidadas dos hóspedes temporários que prejudicam a higiene e o bem-estar dos inquilinos. Por outro lado, geram-se custos adicionais com a manutenção dos edifícios que se tornar mais cara devido ao desgaste acelerado provocado pelo uso intensivo.


Tenho raiva aos Alojamentos Locais criados para servir quem não precisa de habitação para viver e que, sem contemplação pelos habitantes inquilinos fazem negócios chorudos e porque o Alojamento Local fragilizou a coesão social e comprometeu a estabilidade residencial em muitas cidades portuguesas.


Mas como tudo isto apareceu?


Vou tentar sintetizar a evolução do Alojamento Local que veio perturbar o mercado de habitação no nosso país e, sobretudo, nas grandes cidades.


A motivação foi o olhar guloso de proprietários, e não só, que entre 2008 e 2013 viram o crescimento do turismo urbano em Lisboa e Porto.


Naquelas datas deu-se a entrada moderada de AL ainda sem grande regulação. Deram-se os primeiros sinais de substituição de arrendamento tradicional por arrendamento turístico com o início da pressão nos bairros históricos a que os governos de José Sócrates e de Passos Coelho não prestavam atenção.


Entre 2014 e 2017 o AL teve uma expansão acelerada e tendo sido criado em 2014 o regime jurídico da AL com a explosão de registos de AL em Lisboa e Porto com o aumento das rendas e preços de imóveis em zonas centrais. Deram-se os primeiros sinais de gentrificação que foi a saída de residentes permanentes. O processo gentrificação urbano dá-se com a transformação de bairros antes considerados desvalorizados, resultando num aumento do custo de vida e dos preços dos imóveis. Este fenómeno ocorre quando pessoas de maior poder aquisitivo se mudam para áreas anteriormente habitadas por populações de baixos rendimentos forçando os moradores antigos a deixar as suas casas devido ao aumento dos alugueres e pressão económica dando lugar à valorização imobiliária e ao interesse de investidores nessas áreas urbanas. Além disso, a gentrificação pode ter impactos sociais significativos, como a perda de identidade cultural e a exclusão de comunidades locais.


De 2017 a 2018 devido ao aumento de pressão e durante o Governo de António Costa dão-se as primeiras restrições e a Lei 62 e 2018 dá poderes aos municípios para criar áreas de contenção. Face a esta lei os proprietários disparam para antecipar as restrições. Claro que, face às anunciadas restrições, os proprietários correram às licenças. Foi o efeito de antecipação às restrições. Assim, nos Bairros de Alfama, Mouraria, Bairro Alto e Madragoa mais de 25% dos fogos são convertidos em AL. Mas além destes bairros houve freguesias em que também dispararam os Alojamentos Locais e começou assim a perda acelerada de população residente e descaracterização cultural. Cresce a perceção pública de que o AL ameaça o direito à habitação.


Em 2019 também no Governo de António Costa  o reconhecimento oficial da especulação imobiliária e da necessidade de proteger a habitação cria-se o Regulamento Municipal do AL em outubro que impunha a contenção absoluta que era a de superior ou igual a 20% de fogos em AL e relativa entre 10 e 20%. Contudo nada disto adiantou visto que os conflitos em prédios e a pressão sobre serviços públicos mantêm-se.


Nos anos de 2020 a 2021 governava também António Costa tempo da pandemia COVID-19 dá-se a quebra abrupta do turismo e muitos AL ficam vazios e alguns proprietários reconvertem os seus andares para arrendamento de longa duração. Há um alívio temporário da pressão imobiliária, mas sem resolver estruturalmente o problema.


O AL passou de fenómeno marginal em 2008 a problema estrutural a partir de 2023, com impactos crescentes na habitação, demografia e convivência urbana.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Lisboa em Transformação: Reflexões sobre Políticas Urbanas, Imigração e Identidade

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Estamos em plena campanha para as eleições autárquicas e, neste contexto, surge a necessidade de refletir sobre o impacto das políticas municipais dos últimos anos em Lisboa. Questiona-se o papel dos apoiantes de Carlos Moedas e dos presidentes de freguesia, desafiando-os a apresentar os reais benefícios trazidos à cidade e aos seus habitantes, para além de uma série de consequências negativas associadas à gestão do turismo, imigração e ordenamento urbano.


Consequências do Turismo e Políticas Urbanas


Durante o mandato atual de Carlos Moedas Lisboa assistiu à continuação e intensificação de um turismo descontrolado, cujos efeitos adversos se fazem sentir tanto na vida dos residentes como na identidade da cidade. O incentivo e manutenção deste modelo têm resultado na proliferação de alojamentos locais, na escassez de habitação acessível para a população e na autorização de mais hotéis, em detrimento da construção ou renovação de edifícios para fins habitacionais não especulativos. As políticas de “licenciamento zero”, por sua vez, facilitam a abertura de atividades sem a devida avaliação técnica prévia, comprometendo a segurança, higiene, mobilidade e bem-estar público, além de sobrecarregarem os serviços de fiscalização e inspeção administrativa.


Imigração e Transformação dos Bairros


Outro ponto crítico refere-se à dispersão desregulada da imigração por vários bairros, excetuando as zonas habitadas pelas elites. Muitos imigrantes, substituindo a mão-de-obra local em setores que oferecem baixo rendimento ou pouca atratividade, abriram pequenos estabelecimentos comerciais — lojas, mercearias, restaurantes — que ocuparam o espaço deixado pelo comércio tradicional, destruído pelas grandes superfícies. Estas lojas, frequentemente de licenciamento duvidoso, apresentam elevada rotatividade, com negócios que abrem e fecham rapidamente, muitas vezes mantendo a etnia entre proprietários e funcionários.


Há também um crescimento visível de cabeleireiros — masculinos, a preços irrisórios, e femininos, geridos sobretudo por brasileiros — em praticamente todas as freguesias exceto nas de maior prestígio, onde o discurso de integração raramente encontra correspondência na vivência quotidiana.


Impacto no Espaço Público e Qualidade de Vida


No dia-a-dia, a experiência de caminhar pela cidade evidencia as consequências destas políticas: ciclovias pintadas de verde tiveram a promessa de Moedas de serem removidas ou alteradas. Foram mantidas porque «Carlos Moedas (PSD), decidiu retirar a proposta para avançar com o projeto de alteração da ciclovia da Avenida Almirante Reis por considerar que “o tema é demasiado relevante para jogos partidários”». Esta ciclovia na referida avenida cria constrangimentos à circulação, inclusive de veículos de emergência. O centro de Lisboa, especialmente áreas como a Praça da Figueira, Martim Moniz e Rossio, transformou-se num “espaço turistificado”, dominado por turistas de classe média-baixa, negócios voltados para o retalho turístico e estacionamentos de tuk-tuks.


O espaço público na Baixa lisboeta é ainda pressionado por grupos de ciclistas turísticos que desrespeitam peões, e pela proliferação desordenada de bicicletas e trotinetas. A sustentabilidade urbana parece reduzida a ciclovias e discursos ambientais, sem um plano coerente que priorize os interesses da população local e a redução efetiva da dependência do automóvel.


Identidade Urbana e Desafios de Integração


O percurso pelo eixo central da cidade, da Avenida Almirante Reis até ao Bairro das Colónias, revela uma mudança significativa no perfil demográfico: imigrantes asiáticos ocupam espaços antes frequentados por africanos, substituindo a mão-de-obra local em setores menos atrativos. Esta transformação ocorre num contexto de ausência de políticas eficazes de integração, o que fomenta uma sensação de transitoriedade e alienação entre novos e antigos moradores.


Enquanto grupos políticos radicais exploram o discurso de que os imigrantes retiram empregos aos autóctones, a realidade é marcada pela recusa de muitos portugueses em aceitar determinados trabalhos, criando uma dependência de mão-de-obra estrangeira — infelizmente, sem o controlo necessário para garantir coesão social e segurança.


Conclusão: Entre Potencial Cosmopolita e Desarticulação Urbana


Lisboa encontra-se num momento de transição, oscilando entre o potencial de uma cidade cosmopolita e os desafios de uma gestão municipal desarticulada. A falta de políticas de integração, o abandono do comércio tradicional, a turistificação desenfreada e a ausência de uma estratégia que valorize a qualidade de vida e o sentido de comunidade minam a confiança dos lisboetas e diluem a identidade da cidade. Sem uma mudança de rumo, Lisboa corre o risco de se tornar um espaço marcado pela insegurança, marginalidade e alienação, onde os interesses económicos se sobrepõem ao bem-estar dos seus habitantes.

segunda-feira, 10 de março de 2025

Imigrantes e o ato de perceber pelo cidadão comum

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Mais uma vez a propósito de imigração. Quando alguém fala ou escreve sobre imigração, já excessiva para a dimensão do nosso país e que já corresponde a 10% da população autóctone, é de imediato considerado racista e xenófobo ou, na melhor das hipóteses, simpatizante do partido Chega.


Quando alguém faz uma crítica desfavorável ou contesta a entrada exagerada de imigrantes acusam-no de ser por causa da cor da pele ou outros disparates congéneres. É evidente que há racistas e xenófobos empedernidos que se baseiam na cor da pele, mas que não reagem quando as entradas são de “raça caucasiana”, terminologia que se baseia na teoria das raças há muito tempo desatualizada e contestada. A questão não é essa, mas sim o excesso de imigração que está a afrontar o país.


Peças jornalísticas, artigos de opinião e editoriais são publicados em alguns jornais defendendo a imigração, seja clandestina ou não, seja proveniente, ou não, de redes de tráfico humano, o que interessa é que é preciso imigrantes e que haja portas abertas. E repetem-se as justificações costumeiras, tais como Portugal precisa de imigrantes, nós já fomos um país de emigração, os imigrantes vêm contribuir para o rejuvenescimento demográfico porque o país está a envelhecer, etc., etc.


Provavelmente os que defendem, com tenacidade e determinação, a imigração (que está descontrolada) é porque não residem ou não frequentam bairros onde os imigrantes do Bangladesh, Paquistão e de outras nacionalidades, sobretudo muçulmanos, já tendem a este ritmo a super a população que habita nesses bairros. O caso de Arroios, em Lisboa, tem 92 nacionalidades em cerca de dois quilómetros quadrados.


Por outro lado, esquecem-se de que a mão de obra dos imigrantes interessa mais a alguns exploradores de mão de obra porque lhes pagam menos salário do que aos trabalhadores nacionais.


Hoje, o jornal Público, e mais uma vez, publica um artigo sobre um imigrante de sucesso e dizem outros irão seguir. Certo, são exemplos raros, de sucesso, mas que não justificam a crescente proliferação de imigrantes que abundam pelo país mais concretamente em alguns bairros de Lisboa onde de juntam como bandos.


Sempre podemos encontrar uma explicação para este tipo gregário, o que, nem por isso, deixa de ser preocupante. Assim, uma hipótese para este comportamento é devido à influência dos hábitos culturais e ou necessidades económicas que origina a visibilidade que se tem dos imigrantes em espaços públicos. O caso mais comum que pode servir como exemplo são os imigrantes do Bangladesh, mas haverá com certeza outros, que tendem a reunir-se em espaços públicos ou ao abrirem pequenas empresas que são mais visíveis e que, por isso estão mais presentes nessas áreas. Aqui parece residir o problema para os habitantes dessas zonas que vivem nesses locais há décadas e que vêm os espaços públicos a serem ocupados por gente de outras nacionalidades.


Muita daquela população procura o nosso país para usufruir de regalias que lhes são concedidas. Trazem as suas mulheres subservientes que permanecem nas suas casas e que apenas servem para aumentarem a sua prole, enquanto eles trabalham ou são proprietários de minimercados, lojas de telemóveis ou outro tipo de negócios que surgem uns ao lado dos outros.


Têm-se assistido a um aumento de lojas de “souvenirs” que conseguem abrir sem licenças específicas, o que dificulta o controlo. A maior parte das vezes localizadas lado a lado do mesmo ramo. Isto devido ao “licenciamento zero” que permite a imigrantes a abertura de estabelecimentos comerciais sem qualquer aprovação da autarquia e que Carlos Moedas diz querer quer acabar com esta legislação.


O fenómeno gera a descaracterização dos centros históricos e o aumento dos preços das rendas. Grande parte das lojas é gerida por imigrantes que veem nelas uma forma de permanecer legalmente em Portugal e uma morada usada para validar mais de 1.600 atestados de residência.


Segundo o Observador o “Crescimento estimado de imigrantes sem-abrigo em Lisboa é de 25%. Chegam do Brasil, Índia, Nepal, Marrocos, Gâmbia, Senegal, Angola e outros países e alguns deixaram para trás um trabalho no Alentejo.” Que ultrapassam o número de portugueses sem-abrigo, dados de há um ano.


Por outro lado, em 2023 nasceram na Maternidade Alfredo da Costa (em Lisboa) 1.647 filhos de mães estrangeiras, o equivalente a 43% dos partos. Destes 18% são filhos de mães oriundas da Índia, Nepal, Bangladesh e Paquistão e 10% filhos de mães africanas.  Fonte: INE.


Há cerca de 500 mil estrangeiros registados na Segurança Social:  cerca de 200 mil são brasileiros, 41 mil da Índia, trabalhadores nepaleses e bengalis são cerca de 20% do total. Fonte: BP.


Há falta de informação porque há algumas instituições públicas, que continuam sem partilhar os dados que recolhem, mesmo com quem investiga este tema. Porque será? As instituições mantêm dados trancados porque defendem que essa informação pode ser útil para combater narrativas populistas que existem em torno da imigração.


“Imigrantes, descendentes de imigrantes, fazem e farão parte da nossa sociedade”, escreve o Público, “são portugueses e, como qualquer português, para vencer na vida, precisam de ter condições de trabalho, de educação, de saúde, de habitação e, claro, não ser sujeitos a discriminação ou à exploração de redes criminosas”. Todavia milhares de portugueses têm emigrado, jovens incluídos, porque não encontram condições de trabalho e de habitação, saúde que está caótica com a ministra da Saúde deste Governo.


Diferentes grupos de imigrantes podem gravitar em torno de diferentes tipos de trabalho com base em competências, oportunidades e redes sociais. Por exemplo, enquanto muitos imigrantes africanos podem estar envolvidos em trabalho manual ou trabalho de construção, os imigrantes de Bangladesh não vêm a trabalhar nesta área, contudo podem encontrar oportunidades em minimercados.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Meu querido mês de agosto ou o insuportável mês de agosto:Turismo e imigração

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O TURISMO


“Meu querido mês de agosto” um tema cantado e popularizado por Dino Meira em 1992. Uma longa-metragem realizada por Miguel Gomes, um cruzamento de ficção com documentário cujo nome “Aquele Querido Mês de Agosto” adota o título da canção de Dino Meira, é uma narrativa onde um conjunto de músicos, em agosto, percorrem várias festas populares do Norte do país.


Estamos em pleno mês de agosto e o turismo vem a propósito, mas sem esquecermos a imigração que todo o ano cresce ao montão. O turismo excessivo é uma bênção para os governos e uma maldição para os moradores locais, mas Presidente da Câmara de Lisboa não vê “excesso de turismo” apesar do desmedido recorde de visitante.s


Os meses de verão, especialmente o mês de agosto, que nas décadas de oitenta de noventa era esperado com grande alegria pelos familiares dos emigrantes que, nessa altura, chegavam com carros e bagagens para visitar as suas terras natais e os familiares, tornou-se agora num pesadelo juntamente com as carradas de turistas a maior parte deles mais parecem os que antigamente se designavam por turistas do pé descalço, agora atualizados, mas não mais bem-educados.  


Esta catadupa de gente, juntamente com imigrantes de várias origens, assalta a nossas cidades tornando-as insuportáveis, sujas, barulhentas relegando os autóctones e fazendo deles cidadãos de segunda. Quem rejubila são os comerciantes de bares, de restaurantes, discotecas e de outras atividades destinadas a um turismo de vagabundagem e de excessos que agentes de turismo pouco escrupulosos promovem lá fora captando para Portugal, especialmente para o Algarve, uma espécie de lixo turístico, como consequência da ganância pelo dinheiro, a moral das pessoas e o seu comportamento está tendencialmente a regredir negativamente.


Só falta, se é que já não existe, como o que acontece na Tailândia enquanto destino turístico que carrega uma conotação negativa desde a Guerra do Vietname onde as fracas condições económicas dos locais, levaram à prospeção de uma economia sexual fortemente sustentada. Mas não apenas aqui também na República Dominicana que padece de precaridade laboral, o que serve de alavanca para outro tipo de negócios, incluindo este da exploração sexual por turistas. Há estudos que apontam para tal nomeadamente o de   Gomes, S.P. (2023), Tráfico de mulheres para fins de exploração sexual na zona sul de Portugal: perspetivas sociais.


O turismo de excesso em Albufeira passou a ser a prática corrente causando os mais variados desvios dos padrões do que deveria ser um turismo responsável e sustentável.


Basta ver o vídeo seguinte para confirmar o nível de excesso a que se chegou e que passa dos limites do aceitável e do razoável.



A região do algarve está altamente dependente do turismo, o que a torna vulnerável a flutuações sazonais e crises económicas globais.


O turismo excessivo ou sobreturismo é o efeito que o número crescente de visitantes tem numa cidade, nos marcos históricos e nas paisagens e ocorre quando o número de visitantes num destino ultrapassa a capacidade de suporte do local, causando uma série de problemas devidos a popularização através de redes sociais, filmes e sobretudo a promoção do destinos através de campanhas de marketing que tornam o destino demasiado atrativo para um grande número de turistas; voos baratos; facilitação do Governo deste tipo de turismo como via para o crescimento da economia porque, enquanto considerado como como exportação representa cerca de 14% das exportações portuguesas, ajudando a equilibrar a balança comercial do país. E é nisso apenas que os governos apostam descurando outras fontes de crescimento.


O turismo domina e representou no ano passado quase metade do crescimento global da economia portuguesa é nisso que os sucessivos governos se agarram sem que se faça por diversificar e deixar de ficar dependentes do turismo. Não necessitamos do turismo dos calções e dos chinelados, precisamos, isso sim, do turismo de qualidade. Por outro lado, o sobreturismo é uma das causas para o aumento desregrado da imigração e é uma das causas para que as propriedades para arrendamento para turismo possam exceder as habitadas pelas pessoas locais desagregando as comunidades. A subida a pique dos preços, as filas excessivas, as praias apinhadas, os níveis de ruído exorbitantes, os danos em sítios históricos.


Os portugueses, a população de Lisboa, a sua maioria, estão fartos do crescimento desregrado da imigração e do turismo.


A IMIGRAÇÃO


Estamos a ser pacificamente infestados por gente que chega a Portugal vindos da Ásia e da África com a ilusão que lhes “venderam” de ser um país “atrativo” onde tudo é fácil e onde há emprego para todos e onde terão acesso pleno e gratuito aos serviços públicos que entopem com prejuízo dos locais. O aumento da população devido à imigração pressiona os serviços como o da saúde, educação e habitação com prejuízo para todos. Estas circunstâncias levam a um aumento de atitudes xenófobas ou discriminatórias assim, são mais as desvantagens do que os benefícios gerados pela imigração descontrolada e de portas abertas. Os governos de António Costa tiveram nisso grande responsabilidade.


Manifestam-se várias opiniões favoráveis à imigração, algumas de importância pouco significativa um dos fracos argumentos é o do enriquecimento da cultura local através de novas tradições, que, com todo o respeito por essas culturas, não precisamos de sermos, por elas, aculturados no sentido da adoção de uma cultura estrangeira por contacto direto e prolongado, mesmo que de gastronomia e de culinárias se trate porque já apreciamos há décadas mesmo antes da enxurrada de imigrantes.


Há, contudo, dois aspetos que poderão ter algum efeito na nossa economia e na demografia. Quanto ao primeiro efeito é o de preencher lacunas no mercado de trabalho, especialmente em setores com falta de mão-de-obra. Quanto ao segundo embora possa ter efeito a médio prazo, devido ao envelhecimento da população podem ajudar a equilibrar a pirâmide etária, mas, no muito longo prazo irá contribuir para a mestiçagem e, talvez num século, a população do país que perderá as suas caraterísticas fenotípicas, isto é, propriedades físicas observáveis como a aparência, o desenvolvimento e o comportamento. Ano O fenótipo do organismo é determinado por seu genótipo, que é o conjunto de genes o organismo carrega, bem como por influências ambientais sobre esses genes.


O número de imigrantes em Portugal tem aumentado significativamente nos últimos anos. Em 2023, mais de um milhão de estrangeiros residiam no país, representando cerca de 10% da população portuguesa. Este aumento é notável, considerando que em 2018 havia menos de 480 mil imigrantes.


A imigração tem impactos variados. Por um lado, contribui para a diversidade cultural e pode ajudar a suprir a falta de mão-de-obra em certos setores. Por outro lado, pode gerar desafios em termos de integração e pressão sobre os serviços públicos e na habitação e até na proliferação de sem-abrigo.


 

sábado, 2 de outubro de 2021

Pela Avenida Almirante Reis ida e volta

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Tenho por hábito fazer caminhadas pelas ruas da área central da cidade Lisboa, hábito entretanto interrompido voluntariamente devido ao confinamento que me limitou ao espaço limítrofe da minha residência.


Hoje iniciei a minha dependência de exercício físico moderado que também me desperta os sentidos para a observação de lugares e pessoas que de movem pelos espaços da minha caminhada.


O trajeto definido para hoje foi a descida de toda a Av. Almirante Reis tendo como objetivo Martim Moniz, Largo de São Domingos, Rossio com regresso pelos mesmo trajeto.


Durante este meu périplo tive a oportunidade para estar atento a mudanças que se terão dado desde há quase dois anos. A atividade e o fluxo ininterrupto de pessoas pareceram-me terem recuperado para os de antes da pandemia.


As ciclovias descendente e ascendente lá estavam, lindas, pintadas a verdezinho, como Medina as sonhou, o que prova que Lisboa é uma cidade com sustentabilidade ambiental dada apenas pelo verde das ciclovias que agora Moedas quer eliminar.


Ambulâncias desciam a avenida com as sirenes a gritar para os veículos automóveis se encostarem à direita da via cujo espaço era diminuto o que as obrigou a invadir o espaço das ciclovias para poderem rapidamente progredir em direção ao ponto de socorro, suponho, do Hospital de São José.


Durante todo o meu trajeto de descida da Avenida tive oportunidade de contar os velocípedes que a desceram ou subiram por aquelas verdes ciclovias. Pasmem-se: quatro. Sim, quatro que subiam e não dei por algo que descesse. Podem perguntar durante quanto tempo. Foi o tempo que, ao meu passo de passeio, demorei a descer aquela via, ou seja, cerca de meia hora até ao Martim Moniz.  Em trinta minutos subiram aquela artéria quatro utilizadores de bicicletas, em oito horas de trabalho passariam teoricamente sessenta.


Talvez Fernando Medina me dissesse que não tenho visão de futuro porque daqui a 100 anos passarão a ser muitas mais. Temos é que acabar com os automóveis na cidade para ela ficar mais verde, exaltaria. Temos que pôr todos a andar de bicicleta, mesmo quem não saiba nem possa pedalar, crianças, homens, mulheres, idosos e idosas, doentes para irem a uma consulta hospitalar. Pois então! É assim que uma cidade fica menos poluída. Não é como esse Moedas que pretende trazer ainda mais automóveis para dentro da cidade com a promoção de preços baixos para estacionamento.


Apenas por curiosidade, Lisboa, nos censos de 2020, tem uma população dos 15-64 anos de 280124 pessoas e com 65 e mais anos apresenta 143990 pessoas, mais de metade da considerada em idade ativa (Fonte INE).   


Mas voltemos ao meu circuito. Ao chegar à Praça de Figueira deparei-me com um cenário próximo do pré-covid-19, turistas estrangeiros por todo o lado que espreitavam as ementas colocadas à porta dos restaurantes populares e baratuchos, pois os que agora para aqui viajam aparentam ser de classe média baixa e, sobretudo, mais jovens. O centro de Lisboa voltou a ser um “espaço turistificado”, desordenado. Entenda-se por turistificação, segundo alguns geógrafos, uma paisagem que pode apresentar-se destruída em decorrência do uso turístico ou da especulação imobiliária, e, para outros, especialmente os que não conheceram a paisagem antes pode ter outro valor, que gere atratividade e mereça destaque.


A articulação entre Câmara e o Governo, pode direcionar o planeamento da cidade dando prioridade a novas procuras do espaço urbano de sobrevalorizando o atendimento turístico, deixando para segundo plano os interesses da população local.


Terá sido Medina o responsável? De qualquer modo bem-vindos a Lisboa da covid (ou ex-covid?), do turismo e das bicicletas e do salve-se quem puder. Sim, das bicicletas! Como assim?


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Da Praça da Figueira dirigi-me para o largo de S. Domingos onde a Igreja do mesmo nome, arquitetura religiosa barroca, muito visitada depois do violento incêndio que quase a dizimou a 13 de agosto de 1959, mas onde ainda se podem ver as colunas corroídas pelo calor que as calcinou.


Acedi ao largo através do percurso pedestre que liga a Praça da Figueira ao referido largo pela Rua Dom Antão Vaz de Almada. Qual o meu espanto e perplexidade quando me deparo com um grupo excursionistas de mais de uma dúzia de bicicletas que transportavam estrageiros que ocupavam a maior parte do espaço pedonal e que se dirigiam em direção à referida Praça atrás de outro velocípede pedalado por um sujeito de calção e capacete que me pareceu ser o guia. Pedalavam equilibrando-se nas duas rodas sem qualquer respeito pelos peões que naquele momento se deslocavam no passeio que deveria ser apenas a eles destinado, mas que eram obrigados a desviarem-se. Pensei: bem visto ó Medina! Mas olha que eu, mesmo assim, votei em ti.


Não, Fernando Medina não perdeu por causa das bicicletas e das trotinetas em desmando pela cidade, mas ajudaram. A sustentabilidade das cidades não se faz com as bicicletas e com as trotinetas e com ciclovias pintadas de verde não, não vão salvar a cidade nem o planeta. Evitar e reduzir automóveis nas cidades é uma coisa, substituí-los por outros preferencialmente e sem critério, de costas viradas para a maioria dos cidadãos, é outra.


Era a hora de regressar seguindo o itinerário no sentido inverso, desta vez em direção a norte pelo passeio da direita, felizmente que ainda os há, mesmo que bicicletas driblando perigando peões que se passeiam pelo piso da calçada portuguesa.


O troço de Martim Moniz pela Avenida antigamente denominada Avenida D. Amélia que após a revolução republicana de 1910 mudou para a denominação atual até ao denominado Bairro das Colónias é acompanhada pela muda de gentes que se deslocam para cima e para baixo com predominância das provenientes da Ásia que se começam a sobrepor-se aos africanos que nas últimas décadas dominavam e que deverão ter escolhido novos lugares.


Estes asiáticos – chineses, paquistaneses, indianos, bangladeshianos, nepaleses - são imigrantes que vieram substituir a mão-de-obra que nega trabalho em algumas áreas e no pequeno comércio variado que dá ao português muita preocupação e pouco rendimento. Contrariamente aos que grupos racistas e nacionalistas da extrema-direita nacionalistas e neonazis que dizem que esses vieram tirar o trabalho aos autóctones, numa inversão propositada do problema. A falta de mão de obra em alguns serviços, deve-se aos autóctones que não querem trabalhar nesses serviços.  


Já próximo da Praça do Chile e passando pela Rua Morais Soares pareceu-me que tinha ultrapassado fronteiras encontrando-me nos espaços de Katmandu e de Daca a estes imensos brasileiros.


Ao regressar a casa chegou-me à memória Margarida Martins agora ex-Presidente da Junta de Freguesia resultante da agregação das antigas freguesias de São Jorge de Arroios e Pena e com a quase totalidade do território da antiga freguesia dos Anjos que terá observado, não me lembro em que circunstâncias nem em que lugar, que Arroios era a freguesia mais multicultural de Lisboa.


A propósito, em fevereiro de 2019, o Jornal de Notícias escrevia que “Passear pelo Largo do Intendente, ou Avenida Almirante Reis ilustra esta realidade. As esplanadas e os restaurantes são autênticas Torres de Babel, com clientes de todo o mundo sentados, lado a lado. A isto junta-se a diversidade de lojas, de templos religiosos e aromas que, por si só, nos transportam para outras paragens do Mundo.


Orgulhosa desta diversidade, Margarida Martins, a presidente da Junta de Freguesia de Arroios, atribui esta fraternidade à aposta na integração logo a partir dos bancos da creche. "Na maioria dos casos, há 24 nacionalidades de meninos que crescem juntos. Habituam-se a ver-se como iguais, convivendo com as diferenças, onde a língua portuguesa é sempre o elo de ligação", explicava.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

O alcance da lógica de o Reino Unido retirar Portugal da lista “verde”





In Editorial do Jornal Público 03/06/2021


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Quando o Ministério dos Negócios Estrangeiros aponta para uma medida “cuja lógica não se alcança”, não parece considerar a “lógica” das multidões desregradas que, no Porto, fizeram tábua rasa da situação de calamidade







Não serão essas imagens de baderna e irresponsabilidade as principais causas da decisão, certo. O Reino Unido prepara-se para o desconfinamento geral no dia 21, vive numa situação de incerteza no controlo da pandemia e não quer correr riscos. Em segundo lugar, depois de se pôr fora da União Europeia, o país deixou de se sentir com especiais deveres de solidariedade com os seus Estados-membros. Finalmente, sendo emissor de turistas e não receptor, o Reino Unido fica com uma tarefa fácil para restringir a lista “verde” dos destinos para onde os seus nacionais podem viajar.



Sobra, no entanto, a questão da “lógica”, o tal cerne da questão que o MNE não consegue alcançar. Aí há uma mistura de factos com invenções, que tanto podem servir para justificar a transferência de Portugal da lista verde para a âmbar como para a tornar hipócrita e delirante. Ninguém sabe onde Londres foi buscar a variante nepalesa que supostamente grassa em Portugal, e aí entramos no domínio da hipocrisia. Mas o mesmo não acontece com os outros argumentos: Portugal está hoje numa situação pior do que há três semanas – como refere o comunicado britânico, a taxa de positividade de Portugal “quase duplicou desde a última revisão”. E a imagem de controlo e segurança do país também se degradou por culpa própria.


É aqui que vale a pena questionar a declaração do MNE sobre as supostas “regras claras para a segurança dos que aqui residem ou nos visitam”. Um país que se abre a finais de futebol e acolhe sem controlar uma horda de adeptos nem exibe “regras claras” nem inspira confiança. Se o aumento de casos é um preço a pagar para salvar a economia, a decisão de acolher a final do futebol, enquanto a França ou a Alemanha impunham quarentenas aos britânicos, não só não ajudou essa estratégia como a pode comprometer. Essa exibição de negligência e descontrolo há-de ter pesado na decisão de Londres. 


quarta-feira, 2 de junho de 2021

Turismo sobrevivência e subserviência face aos Reino Unido

Ingleses nos champions Porto (2).png


 


A subserviência perante o que é estrangeiro, sobretudo a Inglaterra, parece ser o nosso fado desde séculos. Alianças, tratados, acordos e outros que tais raramente no favoreceram dando-nos em troca migalhas quais pedintes europeus.


Quando há algo que nos desagrada que provenha da Inglaterra lá estamos nós a curtir as mágoas que nos causam as decisões vindas da grande ilha europeia. Ainda em janeiro deste ano, no auge da segunda vaga da pandemia, o Reino Unido   proibiu a entrada de pessoas e bens não essenciais oriundos de um conjunto de países do hemisfério Sul devido à nova estirpe de coronovírus detetada no Brasil. Portugal surge incluído neste grupo devido à "forte ligação" com o Brasil, o que levou o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, a considerar "absurda" e "sem lógica" a decisão do Reino Unido suspender os voos com Portugal, medida "súbita e inesperada" cujos fundamentos disse desconhecer.


Nesta declaração está claro a questão do turismo que ansiosamente o nosso Governo espera como pão para a boca. A nossa dependência do turismo inglês é crónica. Anos e anos a nossa economia vive na dependência do turismo. Anos e anos em que os governos, de direita e de centro-esquerda que se alternaram no poder não reformaram a economia para diversificar a nossa dependência externa, nomeadamente de Inglaterra e no século XXI chamada Reino Unido.


Há séculos, pelo menos desde o início do século XVIII que os tratados com a Inglaterra nos são desfavoráveis mesmo em circunstância favoráveis Portugal e a Inglaterra eram aliados na guerra da Sucessão de Espanha; mesmo quando o comércio entre ambos atingira um nível mais elevado a Inglaterra olhava para Portugal como um útil comprador para os seus têxteis. Portugal fica a olhar porque a sua política industrial na época foi um fracasso, “pisca o olho” à nossa aliada e vê nos mercados ingleses de vinho a forma de desenvolveras exportações e surge o tratado de Methuen. E, pasme-se, como este tratado veio com vantagens para a nossa aliada mais antiga. O conjunto de medidas acordadas entre ingleses e portugueses limitava gravemente a economia já que vista que não podiam diversificar a sua agricultura e estabelecer acordos comerciais com outras nações, ao passo que o consumo em grande escala do tecido inglês tornava Portugal uma das nações mais endividadas da época. Para minorar as dívidas acumuladas e a falta de dinamismo económico, Portugal aumentou a cobrança sobre o ouro extraído no Brasil. Posteriormente constatou-se que os ingleses compravam menos vinhos do que os portugueses adquiriam os tecidos britânicos. Além disso, Portugal devia dinheiro aos ingleses e tornou-se cada vez mais dependente da Inglaterra.


Pode perguntar-se o que tem isto a ver com o turismo? A nossa dependência do Reino Unido com efeitos no turismo sem contrapartidas. as receitas de turismo do Reino Unido em Portugal até outubro de 2019, antes da pandemia, de acordo com dados do Banco de Portugal, subiram 7,8% para 2.931 milhões de euros. O turismo é razão da nossa subserviência face aos Reino Unido e também da nossa sobrevivência.


No editorial do jornal Público de 30 de maio Manuel Carvalho escrevia com mostras de indignação e sobre a falta de respeito mostrado para com os portugueses pelos órgão de poder intervenientes: “Os britânicos voltaram a gozar de privilégios no Porto que se julgavam extintos há séculos. Como outrora, tiveram por estes dias direito a leis exclusivas e a estatutos de excepção. Puderam fazer o que os indígenas não podem, como reunir-se aos magotes com cerveja na mão, assistir a um jogo de futebol ao vivo, deambular em hordas pela rua e, aqui e a ali, dar largas ao mau feitio estimulado pelo álcool. Tinham prometido que nada disto aconteceria, que eles viriam e iriam numa bolha de segurança, que teriam os movimentos condicionados por “fanzones”, que haveria a garantia de que todos tinham feito testes e seriam acompanhados. Era mentira.”.


E mais adiante acrescenta: “Os jovens que jogaram a final do campeonato de râguebi acreditaram que a recusa da DGS da presença de 500 espectadores se baseava na aplicação de um critério universal, como manda o Estado de direito. Os jovens que noite sim, noite não são convidados pela polícia a desamparar os miradouros, também. Os donos dos restaurantes que correm com os clientes que se atrasam na sobremesa à hora do fecho, também. Os adeptos do futebol que sonharam com uma última jornada com duas ou três mil pessoas nos estádios, também. Quem se sujeita ao cumprimento da lei não pode aceitar que o Estado o trate como um pária no seu próprio país.”


E termina: “Mas há um equilíbrio obrigatório entre os eventuais ganhos de imagem lá fora e o insulto à dignidade dos portugueses cá dentro. Um país decente não ajusta nem suspende as regras em vigor. Nem para os adeptos do Sporting, como aconteceu no final do campeonato nacional, nem para estrangeiros.”


Parece termos voltado aos idos anos 80 quando íamos para o Algarve fugindo do calor abrasador de agosto em Lisboa para nos refrescarmos nas águas tépidas da costa algarvia.  Lá tínhamos que pagar a carestia dos cafés e dos restaurantes, baratíssimos para os ingleses veraneantes que tomavam conta do Algarve e que pensavam ser deles, e nós, na nossa terra éramos, uns pobretanas mal recebidos naqueles espaços. Nada tenho contra os ingleses nem tão pouco sentimentos xenófobos, mas a discriminação é irritante.


João Miguel Tavares num artigo de opinião caracterizou melhor do que eu o sentimento da altura “Tristemente, ocupávamos mesas sem conseguir consumir com um entusiasmo comparável ao dos britânicos – e sem deixar comparáveis gratificações. Havia histórias míticas sobre jantares bem regados que acabavam com gorjetas que valiam um mês de salário. Nenhum português pós-FMI podia competir com isso. Triste consequência: éramos maltratados pelos nossos próprios compatriotas, que nos atendiam em último, nos serviam em último, e nos traziam a conta em primeiro.”.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Dois pontos do artigo de Teresa de Sousa

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In jornal Público 29 de maio de 2021


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“A vida humana não tem prazo de validade, mas o mais indigno foram os estereótipos com que a questão foi sendo tratada, incluindo na comunicação social. Os “velhos” – quer dizer, os que têm mais de 65 ou 70 anos – foram e são olhados como equivalentes a “inúteis”. Reformados, fechados nas suas casas, tendo como única ocupação olhar para os televisores e matar o tempo que lhes sobra. Nada disto é verdadeiro. A maioria das pessoas com 65 ou mais anos tem hoje uma vida activa, que inclui, muitas vezes, um trabalho exactamente igual aos outros nos mais variados sectores. A sua vida é tão activa como a de uma pessoa de 30 ou 40 anos. Vão ao supermercado, arrumam a casa, ajudam as famílias, vão ao cinema e ao teatro, lêem livros, frequentam os restaurantes. E trabalham. Mas, nessa altura, era “prioritário” vacinar um rapaz saudável de 30 anos, professor ou bombeiro, cheio de saúde.


Como interpretar isto? Ainda tenho dificuldade em perceber, a não ser recorrendo à ironia: resolver o problema da sustentabilidade do regime de pensões.”


 


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“Só uma nota final ao cuidado dos responsáveis. Já toda a gente reparou que, nas ruas de Lisboa, há hoje dois tipos de pessoas: os portugueses, todos de máscara, e os estrangeiros quase todos sem máscara. Nem no rosto nem na mão. Talvez no bolso, não sei. Cruzo-me com imensos. Nunca vi um agente da PSP chamar a atenção para o facto. Percebo que os turistas nos fazem falta. Mas talvez fosse conveniente – no aeroporto, nos hotéis, nos restaurantes ou a própria PSP – informá-los delicadamente de que a máscara na rua continua a ser obrigatória. Quando os cientistas nos explicam todos os dias o significado das variantes e como o vírus se vai adaptando aos graus de imunidade que encontra pela frente, talvez não fosse má ideia.”

segunda-feira, 8 de junho de 2020

O regresso à normalidade segundo Clara Ferreira Alves


Deixar a bonacheirice de vez




(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 06/06/2020)




Clara Ferreira Alves



Em Portugal, nação valente e imortal, morre-se clandestinamente. O Presidente e o primeiro-ministro andam por aí em concertos, almoços e praias como se nada se tivesse passado, no torvelinho de regras de desconfinamento que obedecem a conveniências económicas e a contraditórias indicações da nova autoridade sobre as nossas vidas, a DGS. Posso ir ao Campo Pequeno, não posso ir à praia nem ao ginásio. Para as vítimas de covid, nem uma palavra pública e sonante.


Nem um ramo de flores. Como sempre, envergonhado, horrorizado pela sua condição de pobreza ou de doença, ou das duas, o país fez de conta que nada se tinha passado. Há enterros de covid clandestinos, morreu de quê, ninguém sabe, e pessoas que estiveram doentes e fingem que nunca estiveram doentes. Psicologicamente, os danos permanecem invisíveis e confinados, dentro das famílias. O atavismo faz de nós sobreviventes medrosos e clandestinos. Ninguém conhece ninguém que tenha morrido de covid, não vá dar-se o caso de sermos confundidos com putativos portadores do vírus. Teve uma pneumonia, não era covid, era outra coisa. Em Portugal, tudo é sempre outra coisa.


Ao contrário de países onde os mortos tiveram um rosto e um nome, aqui tornaram-se o que só acontece aos outros. Uma psicóloga veio dizer que era melhor assim, para não traumatizar. Os ricos têm horror de dizer que apanharam, exceto se tiver sido “na neve”, chique, e os pobres têm horror de perder qualquer coisinha. Incluindo o emprego ou o subsídio. Quanto aos trabalhadores da saúde, não sabemos quem teve e não teve. Nem quantos, nem onde, muito menos porquê.


Há uma razão atávica para isto, classista e estratificada na consciência coletiva, que aprecia a clandestinidade como um serviço público, assim tendo sobrevivido ao apagão da História secular e a uma ditadura, e uma razão turística para isto. Quanto menos se souber sobre o covid em Portugal, melhor. Por mais que este período aconselhasse recolhimento intelectual e pensativo sobre o futuro, sobre o clima, o ambiente, o modelo, a infraestrutura, o uso dos fundos europeus, sobre a educação e a saúde públicas, a agricultura intensiva e os usos e abusos da mão de obra imigrante, sobre as terras, as águas e o ar, sobre os meios de transporte, o que vai acontecer é o que costuma acontecer. Lisboa como a grande estalajadeira da Europa e do mundo, e Portugal como lar de terceira idade para pensionistas ricos.


O Presidente veio anunciar uma “boa notícia” lá para agosto, quando estivermos entretidos na fila do semáforo para a praia. Champions, um campeonato de futebol, pode vir cá parar. Estamos salvos. O país da Web Summit e das magnas reuniões e cimeiras, do turismo religioso e laico, o país dos estádios e recintos, marcha em frente com glória. Venham os turistas, infetados ou não porque o aeroporto vai abrir sem restrições, venham todos, somos o país covid free. Os mortos não falam. Há para aí uns surtos, em regiões sem interesse para o turismo, nos subúrbios de Lisboa e nos meios de operários e imigrantes. Estamos salvos.


A qualidade do ar em Lisboa, cidade verde, não esqueçamos, que nunca foi boa conforme atestam os medidores mundiais, em breve vai voltar a ser péssima e altamente poluída porque os carros regressam em força, e as horas de ponta também. Se pensam que meia dúzia de pistas de bicicletas vão mudar isto, pensem duas vezes. Com o desespero acrescido da paragem forçada, vamos ter o abandono de todas as regras e o salve-se quem puder. Mais alojamento local, mais barato, mais turismo, mais barato, mais voos, mais carros, mais poluição. As lojas grandes não podem abrir, dentro dos aviões voa-se lado a lado. E os turistas vão desembarcar, claro. Covid free, não esqueçam. O que são mil e tal mortos? A Grécia, menos mortos e infetados, acolheu já um avião do Qatar (a Qatar Airways nunca parou e o hub de Doha também não, sendo agora o único hub ativo da Ásia) com 12 pessoas com covid lá dentro. E recuou. Imaginem o movimento entre Portugal e o Brasil. Ou Espanha. Não interessa, covid free, enfiem-se dentro dos carros porque os transportes públicos são perigosos, e venham trabalhar. Em agosto, podemos ter Champions. E estamos em saldos.


O turismo vai ser repensado? Não. Podemos continuar a depender do turismo low cost e que consome escassos recursos naturais? Não. É assim a vida, a nossa vocação não é inventar, é servir.


Depois de tantos meses de sacrifícios e privações, regressar à normalidade significa o quê? Regressar à normal normalidade de ver Lisboa histórica convertida num parque temático onde não existia uma casa para arrendar e os alojamentos locais se tornaram, com a famosa hospitalidade, o único modelo de negócio? Ouvir as rodinhas no empedrado, esbarrar nos tuk tuks e ouvir os aviões aterrar e descolar da Portela de dois em dois minutos? Abrir as portas de par em par a todos os estrangeiros que queiram fugir de países infetados? A Tailândia, que depende mais do turismo do que nós, não abrirá à Europa e aos Estados Unidos antes do último trimestre, para acautelar novos surtos, e nós falamos de estabelecer corredores bilaterais com o infetadíssimo Reino Unido, que ultrapassou os 50 mil mortos. Aproveitando o facto de a Espanha exigir quarentena e que baixe o britânico número de mortos e infetados. Corredores bilaterais significam apenas que os ingleses desembarcam quando e como querem em Portugal, sem serem maçados pela vigilância. E nós desembarcaremos no Reino Unido? Não, obrigado, podem ficar com as praias. Ninguém por aqui passa férias em Margate ou Blackpool. E, se vier o ‘Brexit’, cada vez mais hard devido à incompetência épica de Boris e amigos, abriremos corredores nos aeroportos, para não serem maçados com a fila dos não europeus. Lá para o sr. D. Fradique é o que quiser. É este o interesse da pátria. Temos o Algarve à disposição de Vexas. E damos a água para o golfe.


Apreciar-se-ia um plano económico de um Governo que respeitasse o ambiente, diversificasse do turismo para outras formas de criação de riqueza e de investimento, pusesse um travão no desenvolvimentismo sem regras e sem gosto, preservasse regiões do Norte e do Alentejo (o Algarve perdeu-se), cuidasse do interior e das zonas costeiras, diminuísse a selvajaria imobiliária e especulativa das capitais e dos capitais e pensasse, por uma vez, não nos estrangeiros mas nos portugueses. Nos que pagam impostos e não nos que não pagam impostos. Usando os fundos europeus não para meia dúzia de compinchas do crony capitalism, ou para empresas e empreendimentos fictícios, para enriquecimento sem causa e para obscuros negócios escorados na banca e aconchegados nos escritórios da advocacia milionária.



Deixemos de vender o país a retalho a quem quer comprar, a angolanos e chineses, e de vender os esmaltes e joias. Portugal tem uma nova geração qualificada e empreendedora que não obedece às regras do passado e ousa arriscar. Está na altura de deixarmos de exportar os cérebros e empreendedores que educámos e qualificámos, os verdadeiros champions, e importarmos turistas baratos e capitalistas infames. De deixarmos de vez a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros e irremediavelmente estraga toda a disciplina e toda a ordem.



sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Época piscinal

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Tempo de férias. A política da oposição de direita anda torta e baseia-se oportunisticamente em obter créditos partidários com as tragédias dos incêndios e do assalto ao paiol de Tancos. Apercebo-me que a direita não acrescenta qualquer valor que credibilize a sua política de oposição, antes pelo contrário.


Neste tempo de férias a ver o mar da varanda, sem o bulício e a barulheira infernal e ruidosa da comunicação social que, também ela, oportunisticamente, aproveita o que pode para captar audiências. Cria quando lhe convém ruído informativo, sabe-se lá com propósitos. Neste tempo dedico-me a observar o que por aí se diz que não seja política desligando-me dos infinitos e enfadonhos noticiários televisivos de mais de uma hora e tal.


Conduzo o meu pensamento para o turismo vindo de fronteiras que o  Espaço Schengen  diluiu que este ano afluiu ao Algarve e verifico no local onde me encontro que superou em muito o dos anos anteriores. Entre eles, também portugueses, vindos de outros lugares do país para estas bandas onde me encontro e que se contam pelos dedos, aos quais se juntam alguns autóctones das zonas limítrofes.


Sem que faça por isso, da varanda donde contemplo o mar, chegam-me aos ouvidos conversas, frases, ruídos, telefonemas. Destes apenas consigo ouvir um dos participantes da conversa: o do lado de cá.


- Sabes lá, estou aqui na piscina do apartamento. Brutal. Os miúdos estão delirantes. A água está espetacular. Passamos os dias aqui.


_ ????


Ah! Claro, sim… isto aqui é ótimo!


- ???


- Estamos fartos de dar mergulhos.


- ???


- Não, ainda não fomos à praia.


-???


- Vamos ficar aqui mais uma semanita. Isto aqui na piscina está espetacular. À noite vamos até à cidade próxima tomar um copo.


- ???


- Os miúdos? Claro que não vão tomar copos! É uma forma de dizer…


A conversa continuou, mas o meu interesse dispersou por outras vias. Como é que há pessoas, e não são poucas, acreditem, que vêm passar férias ao Algarve indo para hotéis e aldeamentos, e até aqui tudo bem, para ficarem “mergulhadas” à volta e dentro duma piscina quando têm à disposição um mar com águas quentes e calmas e também mais saudáveis do que o cloro e o suor em águas paradas onde se refrescam.


O que afirmo para os portugueses serve também a muitos dos estrangeiros que vêm para o Algarve procurar sol e mar, mas que se enfiam nas piscinas dos hotéis quando nos seus países do interior norte da Europa as têm em abundância de verão e de inverno.


Não frequentam a beira-mar a não ser para dar uma voltinha ao fim da tarde. Para estes frequentadores de alojamentos com piscina, vir para o Algarve e passar os dias na piscina deve ser uma espécie de estatuto.


Em Agosto, para passar férias em empreendimentos turísticos com piscina não é necessário ir para o Algarve. Em qualquer ponto do país, quer próximo, quer afastados da costa, há sítios agradáveis onde, quem quiser, pode fazer turismo piscinal fora da confusão do sotavento algarvio.


Gostos! Cada um tem os seus.


Eu, cá por mim, sigo para o interior norte onde o calor aperta, mas onde a vegetação cada vez mais rara ajuda a retemperar forças apesar de sujeitos dominados por obsessão ou fúria fazerem dos incêndios a sua prática.  


 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Contratempo em Barcelona

Há mais de duas semanas que me encontro afastado das lides da alimentação do blog e a causa esteve em Barcelona, já que resolvemos, eu e a minha mulher, ir visitar a cidade de Gaudi. Era nosso objetivo visitar os vários monumentos das arquiteturas emblemáticas únicas e distintas concebidas por aquele arquiteto e, de seguida, chegarmos a Saint Tropez no sudeste da França.


O bom tempo proporcionava a viagem em automóvel através de Espanha, calma e realizada em dois dias, com uma paragem para descanso na pequena cidade de Guadalajara, a cerca de sessenta quilómetros a nordeste de Madrid.


Atravessar aquela grande metrópole, próximo da hora de ponta, pelas circulares até encontrarmos a saída para Barcelona foi algo de aterrador. Não é a primeira vez que viajamos por terras de Espanha, vários itinerários já foram percorridos, mas parecia que todos os veículos do país tinham confluído para as autovias circulares que envolvem a cidade. Tudo fazia lembrar um carrocel de loucura. Ao fim de mais de meia hora lá estava a tão esperada saída A2- E90 para Guadalajara onde tires circulam em catadupa em direção a cidades, algures.


Guadalajara ficou com o meu telemóvel. Não sei se o perdi ou mo roubaram. Ainda estou para saber. Às dez da manhã, a cerca de cem metros do carro, ainda estava no meu bolso traseiro das calças, quando lá cheguei… onde estás? Onde te deixei que não te encontro? Esforço em vão. Ficou o benefício da dúvida. Talvez caído no banco do jardim onde antes nos tínhamos sentado. Este é o segundo telemóvel que ficou em Espanha, o outro foi em Mérida, há poucos anos atrás.


Finalmente Barcelona. Mais uma vez chegados a hora de ponta. Perto das 19 horas. Foi mais de uma hora para chegar ao centro com paragens sucessivas entre túneis e desvios. Motas, motinhas e motoretas proliferam nascendo e esgueirando-se pelos mais recônditos e estreitos espaços, resvés entre os veículos parados nas três faixas das circulares. Um autêntico inferno de motociclos. Surgem de todos os lados motociclistas de mochila às costas. No centro de Barcelona parques destinados a este tipo de veículos não faltam.


O nosso destino era um hotel moderno que tínhamos previamente marcado, localizado



no centro antigo da cidade, muito próximo da Catedral Gótica.


A Via Laietana passou a ser a nossa avenida de referência no meio de uma cidade de morfologia ortogonal onde facilmente nos podemos perder nos inúmeros cruzamentos, se não tivermos bem presente um claro mapa mental da cidade.


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Deambulámos de carro pela cidade tentando chegar ao nosso destino, o hotel próximo da catedral. Procurámos aqui e ali a quem passava sem nunca obtermos uma indicação correta até que estacionámos o carro na Plaza d’ António Lopez no términos da Avenida Laietana, frente a uma cervejaria. Aproveitámos para beber uma água e uma coca-cola. Regressámos passados uns escassos 10 minutos. Entrei no carro e preparei-me para arrancar quando me veio a ideia de que, talvez ali, me indicassem como chegar ao nosso destino. Saí novamente do carro tendo deixado a Manuela à espera. Entrei novamente na cervejaria. Quando regressei andava a minha mulher a procurar pela mala de mão onde tinha todos os documentos, cartões e todo o dinheiro disponível  O que tinha acontecido?!


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Nos breves momentos em que me ausentei, um sujeito tinha acenado e apontava para o carro levando as mãos à cabeça. A Manuela sai do carro para ver o que significavam aqueles sinais, dá a volta por detrás do carro para onde o sujeito apontava, quando se apercebeu do golpe já foi tarde, outro individuo que se encontrava na proximidade já lhe tinha levado a mala que deixou no chão dentro da viatura e que, por azar, inadvertidamente, tinha também guardada a minha carteira.


O que se passou de seguida foram momentos de desespero. Andámos mais de quinhentos metros para encontrar polícia. La Rambla foi onde conseguimos encontrar uma patrulha que estava a terminar o turno e que, atenciosamente, nos conduziu na viatura da patrulha até ao comissariado onde tivemos que apresentar participação do roubo e preencher papelada durante de mais de duas horas. Lá se encontrava, por acaso, àquela hora um polícia intérprete português, mas, mesmo assim, com problemas de comunicação linguística.


Para nos deixarem contactar pelo telefone o Visa Internacional para cancelamento dos carões multibanco e outros foi um drama. Apenas podíamos utilizar uma cabina pública que lá se encontrava. Mas como ligar se não tínhamos sequer moedas? Por fim lá consentiram que pudéssemos fazer uma chamada, e nada mais.


Já noite, sem comer, regressámos ao carro que, depois das voltas que a polícia deu para nos levar ao comissariado, já nem sabíamos onde se encontrava o carro. Tínhamos a referência da Via Laietana, foi assim que, perguntando, conseguimos chegar ao local ajudados também pela intuição espacial. Tínhamos estacionado o carro num pequeno espaço entre outros dois embora à justa, dava para sair com alguma dificuldade. Espanto nosso! O carro que estava estacionado à frente do nosso tinha saído e encontrava-se um outro que deixou um intervalo não mais de dois dedos. Foi mais uma vez com a ajuda de pessoas da cervejaria que, ao fim de pelos menos dez manobras conseguimos ver-nos livres daquele local, reiniciando a busca do hotel.


Àquela hora da noite, talvez vinte e três horas, de cada vez que parávamos para pedir informações sobre a localização do hotel, deparávamos com sujeitos isolados, não sei se romenos ou magrebinos, encostados aos edifícios, com ar suspeito que se aproximavam solícitos para tentar ajudar.  Um dos mais evidentes foi um deles que, quando saí do carro para perguntar, se aproximou de mim e à minha pergunta começou a indicar-me uma rua estreita que subia para algures, de sentido proibido dizendo que o hotel era para ali, mas que o carro não podia ir por lá, dizia:


-  Hay que aparcar el coche aquí y subir con las maletas por aquella calle que el hotel estaba hacia allí.


Sem lhe ligar nenhuma voltei para o carro e segui novamente para a Via Laietana onde encontrei um pequeno largo com uma praça de táxis cuja maior parte dos motoristas não eram, de certo, pelo seu semblante, de origem espanhola. Talvez magrebinos, talvez de outras origens. Parei para fazer a mesma pergunta a um deles. Espantado, como se nunca tivesse ouvido o nome do hotel pela primeira vez, sabendo nós que era bem conhecido. A referência era a proximidade da catedral gótica. O taxista puxou do seu smartphone e pesquisou. Procurou, mas nada. Virou-se para um colega próximo e fez-lhe a mesma pergunta que eu lhe tinha feito:


- Sabes dónde se encuentra este hotel? Yo sé que es por aquí - mostrou o smartphone - pero no estoy viendo!


O outro pegou no seu smartphone e procurou também e, ao fim de quase cinco minutos lá encontrou. Finalmente! Pensei. A Manuela continuava sentada no carro sempre atenta a movimentos suspeitos.


- Es allí justo delante – indicou o taxista.


Era do outro lado da Via Laietana, no largo em frente, mas não podia entrar lá com o carro. Teria de atravessar a avenida, colocar o carro no parque subterrâneo e levar as malas para o hotel que era ali muito perto, à direita.


Agradeci a informação. Dirigi-me para o carro e fui em direção ao parque. Olhei para o largo. De facto, o largo era espaçoso e lá se encontrava a indicação do parque pago. Era mesmo ali a catedral, e o hotel era próximo, numa rua à direita.


Finalmente chegámos ao hotel para fazer o check-in. Contámos o que se passou. Na receção já sabiam, pela polícia, que íamos chegar mais tarde. Tínhamos-lhes, entretanto, pedido para os avisar.


No carro guardávamos uma espécie de ração de combate que costumamos transportar para eventuais emergências. Água, uns patés, umas fatias de pão do tipo forma embalado, um chouriço fuet, uma lata de conserva e pouco mais. Foi isso que nos valeu nessa noite e no atribulado dia seguinte.


Sem documentos de identificação, sem cartões, sem dinheiro e apenas com os passaportes que, por estratégia, tinham sido guardados noutro local, dirigimo-nos, logo de manhã cedo, à sede do banco BBVA, próximo do hotel. Pensei ingenuamente que estaríamos safos, pois é neste banco que tenho conta em Portugal.  Lá chegados a primeira desilusão. O BBVA em Espanha nada tem a ver com o de Portugal com quem não têm protocolo. Já tiveram, em tempos, disseram-nos, e, como tal, nada podiam fazer. Aconselharam-nos a ir ao Consulado de Portugal em Barcelona e, talvez lá, conseguíssemos alguma coisa. Pedimos a direção e, com grande favor, pesquisaram na net e deram-nos o endereço.  Era lá para cima, numa rua perpendicular quase no fim da Via Laietana, perto do El Corte Inglês, na Ronda de Sant Pere.


Tínhamos marcado dois dias no hotel que se encontrava esgotado e, enquanto caminhávamos sentíamo-nos como duas pessoas que, se não conseguíssemos resolver o problema, seríamos dois potenciais sem abrigo arrastando as nossas duas malas pela grande cidade. Restava-nos para dormir o carro que se encontrava no parque subterrâneo.


Barcelona é uma cidade cuja população supera a de Lisboa, 1 milhão e 600 mil de habitantes e 506 mil habitantes respetivamente. As densidades populacionais das duas cidades também diferem sendo de 15900 hab/Km2 para Barcelona e de 6450 hab/Km2 para Lisboa.


Galgámos acima a dita via sem pequeno almoço com o calor perto do meio-dia já se fazia sentir. Perguntávamos onde era a rua do Consulado, mas as indicações eram por vezes contraditórias. Será que percebiam o que nós dizíamos? A expressão das pessoas a quem perguntávamos era esclarecedora. Mas, com a nossa insistência lá nos fizemos compreender e saber o que queríamos.


Chegados ao Consulado expusemos o nosso caso à rececionista que lamentou o facto e tentou diminuir o nosso desânimo dizendo que não éramos os primeiros. Primeira grande ajuda! Mandou-nos tirar uma senha e aguardar. Não havia muita gente, apenas duas pessoas na altura, ambas portuguesas. Entretanto outras foram entrando, possivelmente emigrantes, a maior parte por causa de revalidação de documentos O tempo de espera foi relativamente elevado até sermos chamados para expormos o nosso caso ao chanceler.


Atendidos que fomos e relatado o acontecido, o mesmo lamento pelo sucedido.


A solução passava por contactarmos em Portugal alguém da família que nos pudesse enviar dinheiro pela Western Union e essa era uma solução mais rápida. No mesmo dia teríamos o dinheiro.


Queríamos evitar se possível, dissemos-lhe, porque seria complicado. Mandou-nos aguardar. Passados breves momentos regressou e conduziu-nos ao gabinete do senhor Cônsul. Pessoa muito afável que nos recebeu com muito delicadeza. Algumas soluções foram propostas, uma delas era através do Banco Caixa Geral filial da CGD onde também tínhamos conta e que ficava na Avinguda Diagonal (Avenida Diagonal) que era lá para cascos de rolha. O cônsul pediu à secretária para ligar para o gerente do Banco para marcar um encontro connosco para tentarmos resolver o problema.  Ficava muito longe e não tínhamos dinheiro para os transportes. O cônsul propôs ceder-nos o seu passe para transportes públicos. A confusão era tal para apanhar transporte, para quem, como nós, desconhecia Barcelona e se encontrava numa situação fragilizada que resolvemos antes ligar do consulado para uma das nossas filhas pedindo para nos enviar dinheiro. E assim foi.


Estávamos há mais de doze horas sem termos ingerido alguma espécie de alimento ou bebida. Resolvemos, por isso, sair do consulado e ir ao hotel comer o que ainda sobrava da ração que tínhamos guardado. Quando chegámos recebemos, entretanto, uma chamada da nossa filha a dizer que já tinha enviado o dinheiro. Regressámos novamente ao consulado para dizer que não necessitávamos de ir ao Banco Caixa Geral porque esse problema já tinha sido ultrapassado. Agradecemos e partimos desta vez, e mais uma vez, pela Via Laietana abaixo para ir à estação dos correios que era no extremo oposto.


Esperámos algum tempo até sermos atendidos e, após confirmações e mais confirmações, assinaturas e mais assinaturas lá nos foi dado o dinheiro que tinha sido enviado e dirigimo-nos ao hotel com os olhos bem abertos para todos os lados, apesar do nosso estado de fraqueza física e psicológica em que nos encontrávamos.


O nosso destino que era Saint Tropez foi cancelado. Queríamos deixar Barcelona e Espanha o mais rápido possível. Nesse mesmo dia conseguimos comer uma refeição quente num dos muitos snacks da Via Laietana. Queríamos no dia seguinte sair dali para fora.


No largo da Catedral de Barcelona, de estilo gótico, encontravam-se miríades de turistas. Uma espécie de babilónia onde línguas e culturas se entrecruzavam. Sentados nas escadarias, e frente à porta da Catedral, turistas aguardavam para entrar enquanto outros tiravam fotografias. A escadaria era local de encontro e de convívio.


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Como a Catedral de Barcelona ficava perto do hotel resolvemos, já ao fim da tarde, tirar umas fotografias e percorrer algumas das ruas do bairro gótico que, àquela hora, proliferava de gentes dos mais diversos pontos do globo. Nada mais vimos de Barcelona, a cidade de Gaudi.


A nossa intenção era não mais voltar ali, tal foi o trauma. Mas isso não vai acontecer. Logo que possamos, e o mais breve possível, lá iremos novamente. Iremos à tal cervejaria à frente da qual estacionámos o carro e, desta vez, comermos tranquilamente (?) umas verdadeiras tapas espanholas como nunca tínhamos visto e comido em Espanha que, por ingenuidade e descuido, não nos deixaram sequer provar.



 

terça-feira, 14 de março de 2017

Pontos de vista

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  1. Em países da Europa os centros históricos das capitais são os locais onde se concentra a maior para do turismo. Não é preciso ir mais longe, basta conhecer as cidades da vizinha Espanha sobretudo as “plazas mayores” que ficam entupidos de turistas em algumas épocas do ano. Em Portugal, nomeadamente em Lisboa, quando o turismo diminui divaga-se sobre as causas responsabilizando a autarquia. Quando, pelo contrário o turismo cresce divaga-se sobre as dificuldades que o turismo causa à cidade culpabilizando a mesma autarquia. Falava-se da desertificação da baixa. Há certos especialistas que surgem da sombra lamentando que a ”Baixa tenha passado de desertificada a estranha aos lisboetas”. Afinal em que ficamos? Algumas almas lamentam certos espaços terem fechado na Baixa Pombalina. De certo que sim, mas esses lamentam o acontece designando-o como o "último exemplo da barbárie" que, segundo certo sociólogo, “foi o encerramento do restaurante Pessoa”. "… um restaurante típico de Lisboa, aberto desde 1800 que foi remodelado no ano de 1950. Tinha azulejos típicos da época, tinha clientes e, de repente, no verão fechou e não voltou a abrir", descreve o dito. Continua escrevendo que “em frente às portas fechadas e ao prédio em obras na esquina da Rua dos Douradores”. Mas então a decisão de fechar ou não um negócio não depende da iniciativa privada? Os clientes que diz que tinha seriam os suficientes para manter o negócio? Deveria ter sido proibido de encerrar? Ou achará ele, sociólogo, que deveria ser nacionalizado? A câmara de Lisboa subsidiar este tipo de negócios.? O que é de facto uma pena é perderem-se o património dos tais azulejos antigos.   Que solução propõe? Eleições autárquicas da direita a quanto obrigas! Ainda me recordo de quando Nuno Abecassis do CDS, presidente da Camara de Lisboa em coligação com o PSD entre 1979 e 1985 permitiu a demolição da fachada do histórico edifício do teatro e cinema Monumental.

  2. Quando não há nada que valha a pena para criticar o Governo o seu apoio parlamentar inventam-se focos de tensão entre os partidos da esquerda que o apoiam nas circunstancias justificáveis. Esta é a última: “Há um foco de tensão crescente entre o governo e os partidos à esquerda que o apoiam no Parlamento. BE, PCP e verdes querem aprofundar o debate sobre a reestruturação da dívida... O governo não tem sinalizado vontade em escavar o assunto… O PCP marcou para 23 de março um debate ‘urgente’ sobre o tema”. Estes são os factos, a questão é a de saber onde é que está a grande divergência que é, há muito, é conhecida. Todos sabemos que o BE e o PCP têm posições diferentes do governo naquela matéria. Conclusão: quando nada há de novo sobre o tema fala-se de velhos casos como se fossem a grande notícia. Assim funciona a direita!

  3. Saiu um livro que ensina a detetar mentirosos. O autor diz que aprendeu a detetar mentirosos com a CIA e o FBI. Ponham-se a pau políticos e comentaristas da política porque podem agora ser apanhados a mentir quando aparecerem nos ecrãs da televisão. Basta que toque na cara, esfregue as mãos devagar, afasta e cruza os braços nos primeiros quatro minutos de uma conversa, para que muito provavelmente esteja a mentir. A base científica poderá ser válida, mas cuidado com as falsas interpretações dos princípios científicos. Ah! Há mais, para o autor “Existe uma grande probabilidade de ser assim, mas existe uma probabilidade mínima de não ser". A ideia não é julgar as pessoas pelos sinais, mas "criar um caminho de investigação". Boa!

  4. Assunção Cristas parece ter procuração para a lavagem dos meandros de Paulo Núncio. E, sobre a resolução do BES, pasme-se, disse ao jornal Público, sobre a resolução tomada no caso que “nós não discutimos os cenários possíveis no Conselho de Ministros. Aliás, a resolução do BES foi tomada pelo BdP e depois teve de ter um diploma aprovado pelo Conselho de Ministros.”, e continua, “Esse decreto-lei foi aprovado com uma possibilidade regimental que era à distância, eletrónica. Eu estava no início de férias e recebi um telefonema da ministra das Finanças a dizer: “Assunção, por favor vai ao teu email e dá o OK, porque isto é muito urgente, o BdP tomou esta decisão e temos de aprovar um decreto-lei.” Como pode imaginar, de férias e à distância e sem conhecer os dossiers, a única coisa que podemos fazer é confiar e dizer: “Sim senhora, somos solidários, isso é para fazer, damos o OK.” Mas não houve discussão nem pensámos em alternativas possíveis — isto é o melhor ou não —, houve confiança no BdP, que tomou uma determinada decisão.”.

  5. Paulo Baldaia o elo de ligação da direita com o Diário de Notícias, disse que um ano depois mudou tudo para ficar tudo na mesma. E, e o mesmo que terá apoiado Marcelo diz que leva ao colo o Governo e que mais tarde cobrará. Tipo cobrador de fraque pergunto eu? Não conseguindo elogiar Passos Coelho pela oposição que faz Baldaia lá vai dizendo que “deve ser tido em conta a sua larga experiência política que lhe tem permitido manter mais ou menos unido…”. Vimos nos quatro anos que esteve no governo! Via lançando achas entre o BE e o PCP elogiando Catarina como “forte líder sozinha… atuando de fora tem uma grande influência no governo.” Força Baldaia!

  6. Para Baldaia “amortizar a dívida continuou a ser uma miragem”, disse a 13 de março. Ou se enganou ou foi intencional porque Portugal pagou 1.700 milhões de euros ao FMI que permitiram baixar a dívida em mais um ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB)na segunda semana de fevereiro de 2017.

  7. Baldaia acusa o país, ou serão os portugueses de não “cuidarmos de perceber que geringonça não é apenas a coligação parlamentar, é todo o país e a economia que o sustenta”. “Se eu fosse de esquerda estaria decidido a entregar o poder à direita para ela endireitar o país” diz este diretor do Diário de Notícias, acrescentando ainda que “continuamos sem fazer as reformas estruturais do país”. Mas o que são afinal para esta gente reformas estruturais. A direita que ele defende também não diz o que são nem tão pouco as aponta e propõe objetivamente as potenciais reformas que faria se voltasse ao poder. Talvez nem seja necessário porque todos já as conhecemos. É a raiva da direita traduzida sob a forma de jornalismo.


 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Uma vista de olhos sobre a imprensa de hoje

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- Começo pelo artigo de opinião de João Miguel Tavares no jornal Público que intitula “António Costa: demasiado bom para o nosso bem”. Não há muito para dizer sobre este artigo, é mais do mesmo, no que se refere ao que ele costuma escrever. Resta apenas perguntar se Passos Coelho, de quem ele parece ser fã, foi demasiado bom para o nosso mal em tudo o que fez durante quatro anos de Governo.


Já é costume muitos editoriais de jornais escritos muitas das vezes pelos seus diretores tentar arranjar distorções imprimida aos factos por efeito de preconceitos, interesses pessoais que conduzam a falhas nas políticas mesmo que ocasionais e pontuais.


- É opinião generalizada que duma maneira geral a abertura do ano letivo em termos comparativos com os anteriores não esteve mal. Pelo não houve grandes notícias sobre isso ao contrário do que acontecia no anterior governo. Assim sendo, o que alguns senhores se entretêm a fazer é esgaravatar para se conseguir algo onde pegar. Então diz Paulo Baldaia que desde setembro ocupa a cadeira principal da redação do Diário de Notícias que o ano escolar não começou na perfeição (reparem que não é bem, é a perfeição que ela agora exige), que os problemas não foram em número reduzido nem rapidamente resolvidos e de seguida atira-se ais sindicatos, os da GCTP, claro está, por estarem muito caladinhos. Lança veneno provocatório no sentido de desestabilizar o que está mais ou menos estabilizado.


Para ele, editorialista, o problema é que tudo correu tão mal no início do ano letivo que não percebe porque não houve manifestações por parte dos sindicatos. E critica a Fenprof por ter contestado tanto no “tempo da outra senhora”. Porque estão acomodados no corporativismo. De seguida cospe mais veneno sobre a mesma CGTP avançando já com as futuras renegociações da contratação coletiva, E vai lá mais uma acha provocatória “Uma negociação do orçamento não se apenas sobre o deve e o haver do Estado também se joga nas negociações paralelas”, com os empresários estão a ver? Quem tem acompanhado as negociações na concertação social sabe que a CGTP sai sempre sem concordância. Pica aqui, pica ali para a ver se encontra minhoca que desacredite e desestabilize uma geringonça que até hoje tem funcionado.


- Falta de funcionários fecha escolas e deixa salas sem limpeza é um dos títulos num jornal de hoje e daí parte-se para divagações mais ou menos anti ministério da educação. Se bem me lembro foi no Governo de Passos Coelho que se começou a cortar no orçamento da educação e consequentemente no pessoal auxiliar. Era o tempo do não há alternativa. Só agora é que se lembraram disso, mas à época, a não ser o sindicato, estas mesmas pessoas que agora comentam nada diziam.


- A Associação de Turismo de Cascais está em polvorosa. Hoteleiros teme fuga de turistas. Porquê? Porque a Associação de Turismo de Cascais vai propor à Câmara Municipal a aplicação de uma taxa turística de cerca de 1,50 euros por noite até um máximo de cinco. Insurgem-se os representantes da hotelaria porque temem perder clientes para outros municípios. Será que os turistas estrangeiros, tendo em conta o seu nível de vida e a escolha de Cascais como destino, vão retrair a sua vinda por causa deste valor? Quem escolhe Cascais para fazer turismo sabe o que quer e para onde vai.               


- Não sei se será coincidência ou não com o Prémio Nobel que foi dado a Bob Dylan, o certo é que o Diário de Notícias de hoje dá destaque de primeira página ao cantor Emanuel com uma frase sua onde diz que “Nós Pimba” “É uma obra-prima da Música Popular” e mais afirma que “Sou um operário da música, não sou uma vedeta.”


Desconheço o propósito da entrevista de duas páginas que lhe foi concedida, mas teve direito a publicidade gratuita. Talvez para o ano possa ser nomeado para um Nobel da música pimba.


- Leio quase sempre as críticas de cinema porque gosto da sétima arte. Gosto de ler as críticas que João Lopes escreve no Diário de Notícias. Todavia, a sua compreensão só é acessível algumas pessoas porque intelectualizadas e com considerações socio-filosóficas tornando-se porventura incompreensível para a maior parte das pessoas. É dirigida a uma elite de cinéfilos. Será que tem que ser mesmo assim?


 


 


 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

IVA da restauração e o erro de António Costa

Restaurantes.pngEsta minha opinião em termos de notícia já está desatualizada, mas na vida real mantem-se atual. A promessa eleitoral de António Costa de baixar o IVA da restauração de 23% para 13% concretizado a partir de 1 de julho deste ano teve como consequência a quebra de receita cujo efeito no consumidor não se fez sentir e que agora tornou mais problemático a elaboração do Orçamento de Estado para 2017.


Poucos foram os restaurantes que mantiveram os preços, na generalidade, a maior parte deles, até o aumentou, e nos locais frequentados por turistas é melhor nem falar.


O índice de negócios do setor restauração e similares revelou em agosto, já deduzida a sazonalidade, um aumento significativo em comparação com 2015. Todavia, neste mesmo ano, a perceção dos frequentadores de restaurante era de que o negócio estava em alta, o que podia ser verificado pelo aumento da quantidade de pessoas a frequentá-los e pela abertura de novos espaços. Claro que a opinião dos representantes da restauração, como a de quaisquer outros setores, o negócio está sempre mau, mesmo que esteja melhor.


Não tenho a certeza absoluta se houve ou não crise na restauração, mas a perceção é de que houve de facto muitos restaurantes que fecharam e outros abriram com os chamados novos conceitos sobre os quais já me referi noutro “post”.


Em muitos dos restaurantes fora de locais insuportavelmente turísticos a inclusão nas ementas de doses e meias doses e dos chamados menus de refeição, como se verifica em Espanha e em França, pode ser um indicador do setor que a crise terá afetado alguns segmentos do setor.


Costumo andar por aí de norte a sul do país, quer seja de verão quer de inverno, é em Lisboa que passo a maior parte do meu tempo. Nestas deambulações frequento vários tipos de restaurantes dos quais excluo aqueles que são pertença de pretensiosos chefs que as televisões se encarregaram de publicitar com programas de culinária e concursos onde júris, mais ou menos emproados, classificam as iguarias dos concorrentes. Estes não são representativos da maior parte da população frequentadora de restaurantes, são destinados a uma classe que ainda aprecia comer com comodidade e experienciar uma dose de inovação e qualidade, mais do que quantidade, pelas quais pagam um elevado preço. A frequência de restaurantes classificados como casas de pasto, turístico-triviais, familiares, e outros, quer no interior, quer no litoral, e em cidades como Lisboa, leva-me a poder avaliar, embora subjetivamente, os preços e qualidade dos serviços, instalações e ambientes.


Começam a rarear os restaurantes onde podemos degustar uma refeição com mesas cobertas por toalhas de pano que, além de decorativas proporcionam comodidade distinguindo-se das mesas comedouro dos restaurantes abertos à luz de novos conceitos. Curioso é que até os mais populares ainda mantêm a sua tradicional cobertura de toalha de pano, embora com uma proteção de papel.


É vulgar vermos agora mesas de restaurantes com preços elevados, com mesas de madeira cobertas com toalhetes de papel ou sem eles dando à refeição a condição de estar a comer em cima duma tábua de madeira. Espaços há, que se refugiam na designação de tasca, não nos preços, onde se servem os clientes colocando diretamente sobre a mesa de madeira o prato e respetivos acessórios. São os novos conceitos importados de Paris. Baixa qualidade e alto preço. Curiosamente, esses locais de comedoria alguns dias da semana encontram-se plenos de clientela que paga mais do que o que o serviço e a qualidade merecem. Indiretamente, quem fornece o serviço está a chamar otários aos clientes que gostam de os frequentar.


A baixa do IVA da restauração de 23% para 13% foi uma bênção para os proprietários de alguns desses restaurantes que, para além disso, também limitaram a qualidade da oferta. 


No entanto ainda se encontram restaurantes, e são cada vez menos, a preços acessíveis, conceito também subjetivo, que merecem aquilo que se paga tendo em conta o atendimento, a comodidade, a variedade e a qualidade dos ingredientes.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

No verão o meu país é de outros

Mar do algarve.jpg


 


Na praia do barlavento algarvio onde me encontro a língua portuguesa é algo raro por entre os linguajares das mais diversas origens. Espanhol, inglês, alemão abundam.


Da varanda não vejo o mar a não ser que me empertigue ou me levante, culpa duns centímetros a mais da parede. No ano anterior podia simultaneamente escrever e contemplar o oceano virado a sul. Coisa fantástica e inspiradora.


Ao fim da tarde, odores dos mais variados chegam às minhas narinas. Cheiros de champôs, geles de banho, colónias e perfumes oriundos dos duches dos regressados a casa vindos da praia.


Os que se preparam para a noite aprimoram as toaletes. Elas, especialmente. Vestem-se a rigor para uma noite que julgam será bem passada no inferno da cidade mais próxima. Estrangeiros em catadupas começam a ocupar os restaurantes das proximidades onde uns poucos e tristonhos portugueses se esfalfam, sem sucesso, para conseguirem, em vão, um lugarzito.


Os que ficam preparam o seu repasto pós banho do qual me assaltam outros tantos odores dos mais diversos que, numa espécie de jogo, tento identificar. Grelhados, parecem ser de peixe. Qual será? A calma brisa do cair da tarde transporta-me um outro. Será guisado ou estufado de carne? A minha pituitária deteta um odor característico das beiras que me parece ser de coelho guisado. Coelho à caçador? Talvez! Mas quem se lembra de cozinhar próximo do mar coelho e ainda por cima à caçador! Quanto a gastronomia já vi de tudo, o possível e o improvável. Até frango com amêijoas!


Gritos de bebés estafados da praia com a birra que lhes provoca a tortura do banho da tarde ecoam pelo ar.


Vindas de apartamentos da colina virada para o mar, onde também me encontro, vozes impercetíveis, estrangeiras, que não consigo identificar quebram o quase silêncio que surge ao pôr-do-sol e associam-se ao chilrar dos pássaros que procuram abrigo para a noite.


Dias, tardes e noites de férias na praia que se repetem, numa espécie de círculo infinito até à consumação. Da minha varanda donde não vejo o mar, a não ser de pé, volto a sentir os cheiros do final do dia.


Preparo-me para partir. Vou para o norte e centro onde outros odores me aguardam.