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sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Meu querido mês de agosto ou o insuportável mês de agosto:Turismo e imigração

Turismo e Imigração.png


O TURISMO


“Meu querido mês de agosto” um tema cantado e popularizado por Dino Meira em 1992. Uma longa-metragem realizada por Miguel Gomes, um cruzamento de ficção com documentário cujo nome “Aquele Querido Mês de Agosto” adota o título da canção de Dino Meira, é uma narrativa onde um conjunto de músicos, em agosto, percorrem várias festas populares do Norte do país.


Estamos em pleno mês de agosto e o turismo vem a propósito, mas sem esquecermos a imigração que todo o ano cresce ao montão. O turismo excessivo é uma bênção para os governos e uma maldição para os moradores locais, mas Presidente da Câmara de Lisboa não vê “excesso de turismo” apesar do desmedido recorde de visitante.s


Os meses de verão, especialmente o mês de agosto, que nas décadas de oitenta de noventa era esperado com grande alegria pelos familiares dos emigrantes que, nessa altura, chegavam com carros e bagagens para visitar as suas terras natais e os familiares, tornou-se agora num pesadelo juntamente com as carradas de turistas a maior parte deles mais parecem os que antigamente se designavam por turistas do pé descalço, agora atualizados, mas não mais bem-educados.  


Esta catadupa de gente, juntamente com imigrantes de várias origens, assalta a nossas cidades tornando-as insuportáveis, sujas, barulhentas relegando os autóctones e fazendo deles cidadãos de segunda. Quem rejubila são os comerciantes de bares, de restaurantes, discotecas e de outras atividades destinadas a um turismo de vagabundagem e de excessos que agentes de turismo pouco escrupulosos promovem lá fora captando para Portugal, especialmente para o Algarve, uma espécie de lixo turístico, como consequência da ganância pelo dinheiro, a moral das pessoas e o seu comportamento está tendencialmente a regredir negativamente.


Só falta, se é que já não existe, como o que acontece na Tailândia enquanto destino turístico que carrega uma conotação negativa desde a Guerra do Vietname onde as fracas condições económicas dos locais, levaram à prospeção de uma economia sexual fortemente sustentada. Mas não apenas aqui também na República Dominicana que padece de precaridade laboral, o que serve de alavanca para outro tipo de negócios, incluindo este da exploração sexual por turistas. Há estudos que apontam para tal nomeadamente o de   Gomes, S.P. (2023), Tráfico de mulheres para fins de exploração sexual na zona sul de Portugal: perspetivas sociais.


O turismo de excesso em Albufeira passou a ser a prática corrente causando os mais variados desvios dos padrões do que deveria ser um turismo responsável e sustentável.


Basta ver o vídeo seguinte para confirmar o nível de excesso a que se chegou e que passa dos limites do aceitável e do razoável.



A região do algarve está altamente dependente do turismo, o que a torna vulnerável a flutuações sazonais e crises económicas globais.


O turismo excessivo ou sobreturismo é o efeito que o número crescente de visitantes tem numa cidade, nos marcos históricos e nas paisagens e ocorre quando o número de visitantes num destino ultrapassa a capacidade de suporte do local, causando uma série de problemas devidos a popularização através de redes sociais, filmes e sobretudo a promoção do destinos através de campanhas de marketing que tornam o destino demasiado atrativo para um grande número de turistas; voos baratos; facilitação do Governo deste tipo de turismo como via para o crescimento da economia porque, enquanto considerado como como exportação representa cerca de 14% das exportações portuguesas, ajudando a equilibrar a balança comercial do país. E é nisso apenas que os governos apostam descurando outras fontes de crescimento.


O turismo domina e representou no ano passado quase metade do crescimento global da economia portuguesa é nisso que os sucessivos governos se agarram sem que se faça por diversificar e deixar de ficar dependentes do turismo. Não necessitamos do turismo dos calções e dos chinelados, precisamos, isso sim, do turismo de qualidade. Por outro lado, o sobreturismo é uma das causas para o aumento desregrado da imigração e é uma das causas para que as propriedades para arrendamento para turismo possam exceder as habitadas pelas pessoas locais desagregando as comunidades. A subida a pique dos preços, as filas excessivas, as praias apinhadas, os níveis de ruído exorbitantes, os danos em sítios históricos.


Os portugueses, a população de Lisboa, a sua maioria, estão fartos do crescimento desregrado da imigração e do turismo.


A IMIGRAÇÃO


Estamos a ser pacificamente infestados por gente que chega a Portugal vindos da Ásia e da África com a ilusão que lhes “venderam” de ser um país “atrativo” onde tudo é fácil e onde há emprego para todos e onde terão acesso pleno e gratuito aos serviços públicos que entopem com prejuízo dos locais. O aumento da população devido à imigração pressiona os serviços como o da saúde, educação e habitação com prejuízo para todos. Estas circunstâncias levam a um aumento de atitudes xenófobas ou discriminatórias assim, são mais as desvantagens do que os benefícios gerados pela imigração descontrolada e de portas abertas. Os governos de António Costa tiveram nisso grande responsabilidade.


Manifestam-se várias opiniões favoráveis à imigração, algumas de importância pouco significativa um dos fracos argumentos é o do enriquecimento da cultura local através de novas tradições, que, com todo o respeito por essas culturas, não precisamos de sermos, por elas, aculturados no sentido da adoção de uma cultura estrangeira por contacto direto e prolongado, mesmo que de gastronomia e de culinárias se trate porque já apreciamos há décadas mesmo antes da enxurrada de imigrantes.


Há, contudo, dois aspetos que poderão ter algum efeito na nossa economia e na demografia. Quanto ao primeiro efeito é o de preencher lacunas no mercado de trabalho, especialmente em setores com falta de mão-de-obra. Quanto ao segundo embora possa ter efeito a médio prazo, devido ao envelhecimento da população podem ajudar a equilibrar a pirâmide etária, mas, no muito longo prazo irá contribuir para a mestiçagem e, talvez num século, a população do país que perderá as suas caraterísticas fenotípicas, isto é, propriedades físicas observáveis como a aparência, o desenvolvimento e o comportamento. Ano O fenótipo do organismo é determinado por seu genótipo, que é o conjunto de genes o organismo carrega, bem como por influências ambientais sobre esses genes.


O número de imigrantes em Portugal tem aumentado significativamente nos últimos anos. Em 2023, mais de um milhão de estrangeiros residiam no país, representando cerca de 10% da população portuguesa. Este aumento é notável, considerando que em 2018 havia menos de 480 mil imigrantes.


A imigração tem impactos variados. Por um lado, contribui para a diversidade cultural e pode ajudar a suprir a falta de mão-de-obra em certos setores. Por outro lado, pode gerar desafios em termos de integração e pressão sobre os serviços públicos e na habitação e até na proliferação de sem-abrigo.


 

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Jovens esses infelizes e zangados

Jovens zangados.png


O último Relatório Mundial da Felicidade mostra que os jovens em todo o mundo relatam níveis de felicidade mais baixos do que os mais velhos. Desde 2006 que os níveis relatados de felicidade dos jovens diminuíram na América do Norte, América do Sul, Europa, Sul da Ásia, Oriente Médio e Norte da África.


O que mostram os relatórios que tenha contribuído para os baixos níveis de felicidade dos jovens? Vejamos alguns a para do que me tem mostrado a minha observação não sistematizada e a perceção sobre essa realidade. Em primeiro lugar os relatórios mostram que os jovens enfrentam um maior esforço para atingirem a prosperidade do que as gerações anteriores. Não me parece ser de todo exato, depende do que eles entendem por prosperidade. Para muitos jovens, a prosperidade envolve atingir padrões de vida que garantam uma sensação contínua de contentamento e estabilidade emocional é uma ambição de todos quando são jovens. 


As gerações anteriores, os que os geraram não tinham à sua disposição nem salários elevados, nem acesso fácil a atividades culturais, nem capacidade económica para viajarem com frequência, tiveram de pagar a habitação de empréstimos durante dezenas de anos, tiveram que pagar os estudos aos seus descendentes, por vezes com grandes sacrifícios, a férias muitas vezes não eram as que desejavam ficando-se a maior parte das vezes no local de residência habitual. As famílias cortavam nas despesas para conseguirem economizar para um futuro incerto e para darem uma mesada aos filhos. O desemprego era, como agora ainda é, uma ameaça.


A habitação, educação e a saúde não eram acessíveis e a segurança financeira e o bem-estar geral não estavam facilmente acessíveis. Por princípio as dívidas de empréstimos para manter os estudos dos filhos associados aos baixos salários apertavam as suas finanças, atrasando marcos para a obtenção de casa própria. Aqui residia o princípio da poupança em lugar do consumo desenfreado da atualidade e não se punha à frente o ter em lugar do ser.


O aumento dos custos de habitação sempre foi uma grande preocupação para as gerações anteriores, mas estava na poupança em lugar do consumo e considerando a inflação os preços também não eram muitas das vezes acessíveis.


É certo que os jovens se defrontam com arranjos de trabalho precários que têm menos segurança e benefícios em comparação com as carreiras tradicionais. Se a instabilidade de emprego dificulta um planeamento e cria uma ansiedade em relação ao futuro, o espetro do desemprego também era uma sombra sobre a cabeça das gerações anteriores excluídos aqui as funções no serviço público.


O liberalismo económico e descontrolado (como a IL propõe, por exemplo) leva a que as taxas de desemprego dos jovens permanecem teimosamente altas em todas as economias desenvolvidas por ser uma mão de obra barata devida à inexperiência dos novos contratados o que leva a que a contratação laboral não passe a emprego efetivo.  


Apesar de haver alguns estudos sobre a falta de relacionamento fortes e presenciais devido a fatores como diminuição do tempo de lazer, mobilidade geográfica ou ansiedades sociais basta observarmos a realidade nos grandes centros urbanos onde a oferta de atividades lúdicas como concertos, discotecas, restaurantes onde se encontram sobretudo aos fins de semana. Ainda com isto relacionado verifica-se que têm, acesso a finanças auferidas pelo trabalho, quando o têm, ou as famílias mais ou menos abastadas que proporcionam aos filhos rendimentos através da compra de andares que depois alugam como AL ou como quartos.


Os jovens passam mais tempo nas redes sociais do que tempo dedicado ao estudo ou à leitura e muitos queixam-se da solidão e de casos de depressão, mas há um estudo de 2022 que encontrou uma forte correlação entre o aumento do uso das redes sociais e sintomas de depressão e solidão em jovens adultos que é, provavelmente, uma tendência global.


 

sábado, 6 de maio de 2023

De Lisboa de portas abertas até à saturação

Lisboa e imigração.png


Qualquer cidade e Lisboa, tal como muitas outras, apresenta uma imagem pública que é dada pelo conjunto de imagens e perceções de um número muito significativo de cidadãos. São imagens de grupo que operam no meio ambiente citadino. Cada um dos indivíduos tem uma imagem própria e única que pode aproximar-se da imagem pública de uma cidade.


Estas imagens são procedentes das várias interpretações que temos da cidade que não se limitam aos elementos físicos percetíveis. Há outros fatores que influenciam a imagem duma cidade como o significado social de uma determinada área e pelas funções centrais que a ocupam. Função central urbana é o conjunto das atividades sociais, comerciais, tais como venda de bens e serviços, centro de entretenimento e de instalações desportivas, áreas comerciais, restaurante, áreas residenciais, religiosos, entre outros, que usam os vários espaços duma área urbana. Isto é, são pontos na cidade que se destacam pela intensidade de atividade, implicando a junção num mesmo local de um grande número de pessoas, veículos e serviços.


Nas cidades existem várias espécies de orientação e de reconhecimento de lugares que nos são dados por sensações visuais de cor, polarização da luz, formas, perceção pelo olfato de cheiros característicos de alguns locais e bairros, ouvido com a receção de sinais sonoros, etc.


A imagem que se tem de uma cidade ou de uma área urbana não são apenas as vias, as ruas e avenidas, os edifícios, os bairros, os cruzamentos e todos os outros pontos marcantes. São também os seus habitantes permanentes ou temporários. Cada indivíduo acrescenta também um juízo de valor sobre as condições de qualidade urbana social e ambiental que ela oferece de acordo com interesses, objetivos e expectativas de vida de cada um.


Em cada freguesia, divisões administrativas da cidade circunscritas por áreas citadinas relativamente grandes, há elementos que, frequentemente, também nos servem de pontos de referência quando as atravessamos. Cada uma destas partes da cidade é diferente de outra. Para além dos seus aspetos físicos marcantes as gentes que as atravessam e que as frequentam concorrem também para a sua caracterização e para a perceção de uma divisão étnica e de classe. As cidades são, desta forma, centros de mudanças demográficas, sociais, económicas e políticas e atração para migrantes vindos das mais diversas partes.


A caracterização e a imagem típica de alguns bairros ou áreas das cidades podem ser modificadas pela intensificação da  imigração donde de levanta uma questão que é a de saber como é que ela afeta, ou não, o ambiente urbano.


Baseando-nos numa observação apenas visual e, como tal, falível, a leitura que se fez de alguns bairros e freguesias da cidade de Lisboa, no que respeita ao elemento humano, verificámos que se vem modificando substancialmente ao longo das últimas décadas. O que qualquer observador atento verifica é que a Lisboa que se conhecia está, a cada dia que passa, diferente, não apenas quanto ao seu ambiente físico, mas sobretudo ao nível das pessoas que nela circulam.


Três freguesias de Lisboa, São Jorge de Arroios, Anjos e Santa Maria Maior são aquelas a que dediquei disponibilidade para, por observação relatada tal como foi visualizada sem traçar ideias interpretativas, mas não deixando de formular alguma conjeturas que são, como já afirmei, apenas pessoais e, como tal, falíveis, já que uma investigação criteriosa deverá ter uma metodologia de análise e de recolha de informação muito diferente. Assim, deverá, quem ler este texto, destituir quaisquer pressupostos racistas ou xenófobos da minha parte, porque não é disso que se trata.


A freguesia de Arroios com apenas dois quilómetros quadrados é a que em Lisboa tem maior concentração de moradores por metro quadrado com tendência a aumentar devido à imigração. Segundo os dados da freguesia são 79 nacionalidades numa extensão de 2,3 quilómetros quadrados. A falta de alojamentos é um problema que tem vindo a ser agravado. Já não se alugam casas, nem quartos. Alugam-se camas a preço elevado em habitações sem condições.


Lisboa, no que se refere a algumas artérias e largos nas referidas freguesias, está a ser povoada, por gentes de outras raças, outras etnias, outras culturas, outras religiões que vagueiam pelas avenidas, ruas e praças.  Sentados ou deitados pelos poucos jardins, são gente possivelmente à espera de alguma coisa ou que estarão de passagem numa fase de transição para outro país da Europa. Muitos trabalharão, outros, aparentemente, estarão desocupados ou procuram emprego. Andam «sem eira nem beira» com mochilas às costas arrastando-se pelos bancos dos jardins olhando e manipulando insistentemente os telemóveis. São na sua maioria famílias e grupos de jovens que chegam aos magotes que entram pelas portas que lhes são abertas sem controle adequado.


Em alguns locais das referidas freguesias a desproporção entre o número de passantes autóctones e migrantes é claramente visível. A maior parte vêm de regiões da Ásia, como China, India, Nepal, Bangladesh, Paquistão e outros daquelas regiões geográficas. Na sua maior parte são gente pacífica, amável, sociável movimentando-se incessantemente numa azáfama supostamente com algum destino ou objetivo.


Contrastam com os africanos, especialmente os de Angola e de Moçambique cuja postura e comportamentos denotam alguma agressividade e atitudes provocatórias, sobretudo nos mais jovens, talvez geradas por desconfiança em relação aos ex-colonos que está latente nos seus rostos. Talvez porque não encontram ocupação e um trabalho digno e rentável ou, porque quando o encontram a maior parte das vezes é precário. O seu espírito gregário, leva-os para bairros suburbanos onde, desintegrados, organizam-se em gangues agressivos que se dedicam ao tráfico de droga e à violência. Em Lisboa, e na sua Área Metropolitana, bairros degradados são predominantemente habitados por migrantes e pelos seus filhos e netos vindos das ex-colónias portuguesas na África. O Rossio e o Largo de São Domingos são os lugares do encontro preferidos pelos africanos mais velhos.


Segundo dados do SEF desde janeiro de 2013 que os nepaleses passaram a constar das 10 maiores comunidades estrangeiras em Portugal, com 23.441 cidadãos com residência legal no país, ultrapassando os chineses. Ainda de acordo com o SEF, dados de 2022, as principais comunidades estrangeiras residentes em Portugal são de cidadãos do Brasil, 233.138, do Reino Unido 36.639, de Cabo Verde 35.744, da Índia 34.232, de Itália 33.707, de Angola 30.417, de França 27.614, Ucrânia 26.898, Roménia 23.967 e Nepal 23.441.


A população negra, imigrante ou não, tem tido um inigualável contributo para o desenvolvimento de Portugal, mas o sistema perpetua uma imagem pejorativa, sendo o racismo uma das armas para legitimar a subalternidade. Grande parte dos imigrantes africanos negros e negras ou seus descendentes estão incluídos na sociedade portuguesa enquanto mão-de-obra precária, barata ou desempregada.


Juntemos a estes, outro tipo de imigrante, os brasileiros, chinelados que trouxeram a moda dos calções que os portugueses, mesmos os mais velhos, rapidamente adotaram sem ligarem ao facto de parecer ridículos.


Imigrantes brasileiros abrem negócios de cabeleireiro nos bairros que se localizam a alguns metros ou quarteirões uns dos outros. Muitos dos passantes questionam e comentam nos locais de encontro e nos cafés onde vão beber a bica, como é possível estes negócios sobrevirem e serem lucrativos tão próximos uns dos outros e com clientelas escassas. Muitos abrem e, passado pouco mais de um ano, encerram portas dando lugar a mudança de ramo.


Um outro grupo de “invasores” que fazem de Lisboa uma autêntica «babilónia» são os turistas. No Martim Moniz formam-se filas intermináveis de turistas perfilam-se, tal e qual carreiros e formigas, para apanhar lugar na conhecida carreira circular 28 do elétrico.


Turistas para carreira 28 no Martim Moniz.jpg


Os mais jovens (dizem que são do Erasmus) espalham-se pela zona da Freguesia de Arroios e também que contribuem para a insustentabilidade ambiental da cidade. Residem temporariamente em Alojamentos Locais, quartos e partes de casa que alugam, muitas vezes sem recibo possibilitando a fuga aos impostos a proprietários especuladores. À noite nos bares do sítio encharcam-se com álcool, os restaurantes enchem-se, não apenas com estrangeiros turistas, mas também com portugueses que avisam que a vida está má e que não ganham para as despesas.


Quem chega à zona do Mercado de Arroios e à Praça do Chile vindo do Areeiro e da Av. Guerra Junqueiro tem a perceção de que chegou a um país diferente, tal a proliferação de gentes que aqui aportaram vindas do Nepal, Bangladesh e regiões similares. Deslocam-se a pé, em bicicletas e em motoretas. São transportadores de empresas de entrega de comida ao domicílio (takeaway), “Uber Eats”  e “Glovos”. Cruzam-se nas ciclovias, quando as há, circulam pelos passeios perturbando pacíficos peões incumprindo e desrespeitando as mais elementares regras de trânsito seguindo o exemplo dos ciclistas que começam a ser uma outra forma de poluição visual para os lisboetas. Os portugueses gostam de ciclismo, mas na Volta a Portugal ou à França e ficam-se por aí!


Se nos dirigirmos para sul descendo a Av. Almirante Reis, passada a zona do Anjos, chegamos à Rua da Palma e ao Largo do Intendente, voltamos a ter a mesma sensação, passarmos uma fronteira para um país da Ásia que se prolonga até ao Largo de Martim Moniz. Os vindos da zona do Médio Oriente abrem em pequenos cubículos restaurantes de Kebab e outras iguarias orientais a que se juntam outros vindos de outras zonas que vendem artigos de consumo alimentar e bebidas à mistura com bugigangas para turistas. Os chineses também dominam com armazéns de artigos de vestuário e calçado para revenda e minimercados de produtos alimentares para confeção das mais variadas gastronomias. Por cada 5 transeuntes 4 são de outras nacionalidades.


Neste percurso podemos observar a proliferação de lojinhas de venda e reparação de telemóveis, barbearias e minimercados que intervalam entre si a pouca distância uns dos outros, quase lado a lado, a que se juntam minúsculos estabelecimentos que expõem no exterior frutas e legumes de segunda escolha vendidos a preços mais baixos e no interior produtos diversificados de mercearia. Estas lojas de comércio local serão alugadas ou de propriedade de negociantes asiáticos onde trabalharão familiares ou conterrâneos a troco de alojamento e de baixo salário. A propósito passou a ser habitual lojas que fecharam e que não abriram para comércio e estão a ser alugadas a imigrantes para habitação.


Desembocando no largo de Martim Moniz deparamo-nos mais uma vez com várias nacionalidades, sobretudo pequenos grupos de africanos sentados nos muros que delimitam canteiros laterais. No que antes eram lagos, deparamos agora com água estagnada, espécie de pântanos onde são despejados lixo e embalagens de plástico que por lá flutuam.


O Governo parece defender insistentemente a política de portas abertas à imigração, muita dela ilegal e aparentemente descontrolada, possibilitando que partidos radicais, populistas da extrema-direita como o CHEGA aproveitem para fazer oposição com argumentos aberrantes xenófobos e racistas sem qualquer fundamento contra a imigração, cujo objetivo é assustar as populações com a insegurança e com prejuízos advindos da política de falta de controle na entrada de migrantes. A perceção do cidadão comum politicamente iletrado é a da concordância com tais argumentos.


A imigração tem vindo a ser utilizada como arma política conduzindo a tensões e agitação acrescidas. Esta situação é exacerbada pela cobertura mediática e pela retórica política da extrema-direita como a do partido CHEGA. Algumas pessoas podem encarar os imigrantes como uma competição por postos de trabalho, o que suscita preocupações quanto à segurança do emprego e aos salários. Esta situação pode gerar ressentimento em relação aos imigrantes e pode também agravar as desigualdades económicas existentes. A perda de empregos é uma falácia que a extrema-direita aproveita. O facto é que a maior parte dos imigrantes vai ocupar postos de trabalho rejeitados pelos locais que não aceitam alguns tipos de trabalho o que é aproveitado por empregadores pouco escrupulosos que exploram a situação dos trabalhadores imigrantes muitos deles que se encontram sem autorização.


É possível que o ténue crescimento do CHEGA mostrado nas sondagens seja devido ao incómodo e à rejeição que os lisboetas sentem em algumas freguesias e bairros potenciada pela “ocupação” em edifícios onde vivem imigrantes que pagam alugueres de casas sem condições mínimas de habitabilidade e de segurança que são perturbadores para os inquilinos que há muito lá vivem. Por outro lado, com a imigração a aumentar, e caso não haja políticas de emprego, sociais e habitacionais as áreas de construção clandestinas e precária nas cidades irá aumentar problemas como condições anti-higiénicas, criminalidade, ambientais, etc. Contudo, os argumentos são contrariados pela frequência com que setores e as mesmas pessoas que criticam essa política se vão utilizando da mão-de-obra dessas comunidades.


Segundo alguns relatórios a imigração é muitas vezes percebida de forma negativa por os habitantes locais temerem a perda de empregos para os imigrantes, o aumento do custo e da sobrecarga dos serviços como se verifica no SNS e as filas que se formam em alguns serviços da administração pública. Em alguns casos, o afluxo de imigrantes coloca pressão sobre os serviços públicos, como a saúde, a educação e a habitação, o que pode levar ao aumento dos tempos de espera nos serviços, superlotação e falta de recursos com prejuízo para os utentes naturais.


Uma política de imigração de portas abertas pressupõe a criação de condições para os receber considerando as vantagens que, segundo o Governo trazem para o país. Todas as decisões têm prós e contras há que pesar cada uma delas. Para aproveitar os impactos da imigração no desenvolvimento e enfrentar os seus desafios, os governos nacionais e locais precisam de colaborar e coordenar as suas atividades nessa área para benefício de todos. Porém, políticas destinadas a restringir a imigração poderão ter um forte impacto negativo nas cidades. São estas que atraem a maioria dos imigrantes por poder vir a ser uma proporção significativa de população economicamente ativa que é crucial como força de trabalho contribuindo para o seu desenvolvimento. Por outro lado, um argumento apresentado para a receção de imigrantes é defendido por questões que se prendem com a demografia e com o crescente envelhecimento da população.


A maior diversidade cultural no país de acolhimento justificada pelas imigrações não se sobrepõe àquela em que os migrantes são vítimas de formas de segregação, discriminação ou confrontos culturais. A assimilação ocorre ao longo do tempo, à medida que os migrantes se instalam no país de acolhimento tem o contraponto de ser agente de uma alteração fenotípica da sua identidade física incluem-se neste conjunto as características morfológicas e fisiológicas de um indivíduo, que é um dos argumentos para os nacionalistas xenófobos e racistas.


Os defensores da imigração referem que tem sido um fator significativo no desenvolvimento das cidades, mas também dos seus problemas como causa de tensões e conflitos sociais devido a diferenças de língua, religião e costumes quando não há previamente um sistema que prepare a sua integração e mitigar os problemas decorrentes que são exacerbados pela insuficiência das infraestruturas e de instalações habitacionais que, aliás nas últimas semanas se agravaram com a organização de manifestações inorgânicas pela falta de habitação para os jovens e consequente mediatismo das críticas feitas às decisões tomadas pelo Governo para mitigar o problema.


As causas profundas das migrações são a pobreza e os conflitos e falta de oportunidades de emprego nos países de origem que não podem ser resolvidos por uma política de portas abertas nos países que escolhem para acolhimento. A imigração de portas abertas, mesmo promovida com integração e com políticas inclusivas deve ser normalizada, caso contrário as mudanças positivas trazidas pela imigração só causam danos e descontentamento nas sociedades de acolhimento. Ao deslocarem-se para as grandes cidades muitos migrantes são forçados a viver em condições de superlotação, com acesso limitado a comodidades básicas, como saúde, educação e habitação.


Trazem consigo culturas, línguas e tradições que enriquecem a diversidade das sociedades e contribuem para o crescimento económico ao trazerem novas competências e ideias que, no entanto, são condicionadas pelo nível de educação e profissão de origem. No entanto, a imigração também pode conduzir a conflitos entre diferentes grupos, uma vez que competem por recursos e empregos escassos, resultando por vezes em confrontos culturais e discriminação contra grupos minoritários.


 


 


 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Conservação do emprego e manutenção do trabalho

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O desemprego, independentemente da sua causa, para além de ser um flagelo social e económico é ainda um tormento para famílias e trabalhadores isolados que sofrem e sofreram da sua perda. Vivemos num sistema de economia de mercado onde as empresas sobrevivem apenas se tiverem resultados positivos. Quando estes resultados não se verificam há que garantir a viabilidade das empresas e então começa aquilo a que habitualmente se designa por reestruturação.


No mundo globalizado em que vivemos existe a necessidade de as empresas estarem atentas às mudanças políticas, económicas e sociais que ocorrem num país poderão vir a interferir com o desempenho e desenvolvimento empresarial.


A estratégia da reestruturação duma empresa é utilizada entre outras quando da aquisição ou fusão de outra empresa; quando existe a necessidade de mudança no segmento de negócio da empresa com um reposicionamento no mercado como reforço sua posição; quando a empresa está a atravessar dificuldades financeiras, quebra nos negócios, dívidas com bancos etc.


No entanto, para algumas empresas, a reestruturação não é mais do que um eufemismo para justificarem a dispensa de pessoal sendo os trabalhadores a pagar a crise empresarial que, não tendo causas macroeconómicas nem sociais, não poucas vezes, é resultado da má gestão dos empresários ou dos seus mandantes.


As empresas procuram um ajuste ou uma mudança para continuar a sobreviver, poder aumentar o lucro e produzir maiores resultados para seus acionistas ou donos. É esse um dos objetivos em regime de economia de mercado. N maior parte dos casos a dita reestruturação tem como alvo em primeiro lugar os recursos humanos com vista à demissão de funcionários ou de outras medidas lesivas dos seus interesses. A reestruturação pode também ser feita simulando ou provocando uma situação de falência, ou através da venda da empresa com a consequente redução de substituir e ou reduzir trabalhadores.


Numa economia liberal e de livre concorrência um governo, sendo a instância máxima de administração executiva, geralmente reconhecida tendo a liderança de um Estado, que não adote doutrinas ou ideias coletivistas, deve ser apenas um regulador, não devendo, não podendo intervir nem intrometer-se nas políticas empresariais. Sobre este tipo de intervenção tem-se o exemplo real do tempo do governo de Vasco Gonçalves, que governou o país entre julho de 1974 e setembro de 1975, e que adotou políticas intervencionistas indiscriminadamente em empresas em dificuldades, ainda que fossem pequenas empresas. O objetivo era, nessa altura, a coletivização da economia. Os sindicatos sob a área de influência do PCP ajudaram trabalhadores a destruir, sem o saberem, as empresas onde trabalhavam, sei do que estou a falar.


Muitos dos sindicatos na esfera da CGTP dizendo-se contra o “patronato” envolvem os trabalhadores através da manipulação verbal fazendo tentativas, a maior parte das vezes falhadas, para retroceder o processo e ao mesmo tempo ter visibilidade da comunicação social para mostrar que defende os trabalhadores. Claro que, face aos acontecimentos a presença de um sindicato, ainda que nada adiante, é sempre uma esperança para quem está em vias de perder o seu sustento.


Veja-se o caso da Triumph cujo processo culminou no despedimento coletivo e, mesmo assim, puseram os trabalhadores ao fim de 20 dias de “luta” a soltar gritos de vitória apenas e porque lhe foi passado pela administração da insolvência o documento para o fundo do desemprego.


O caso da Autoeuropa é ainda mais complexo porque em vez de negociações inteligentes que promovam a manutenção dos postos de trabalho, há oportunistas que querem o sol e a lua o que poderá, a prazo, vir a ser prejudicial aos próprios trabalhadores.


João Vieira Pereira numa opinião publicada no semanário Expresso vê assim o problema:


“… há uma parte da sociedade, nomeadamente a ligada a   partidos políticos ou outros lobbies que, de forma conservadora, insistem em ver o mundo do trabalho como foi retratado por Joel e   Ethan Coen no fantástico filme Hudsucker — (o grande salto). As novas   empresas já não são comandadas por um grupo de velhos gordos que   exploram ao máximo os trabalhadores contra um salário mínimo em   troca de tarefas repetidas à exaustão sem nexo aparente. As empresas   evoluem cada vez mais ao sabor dos clientes e não dos acionistas. Isso   obriga à alteração de horários e à adaptação do colaborador e da   empresa.   Se quem trabalha na Autoeuropa não percebe isto então pode dizer   adeus ao seu emprego. Chegará o dia em que a empresa procurará quem   perceba. Não porque querem maximizar o lucro, mas porque disso   depende a sua sobrevivência. E claro que tudo isto tem custos sociais e   cabe às empresas os corrigir, seja através de condições financeiras ou   outros similares.”.    


Mais uma vez, cá para mim, podem chamar-me o que quiserem.


 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A propósito da Web Summit

Inteligência artificial.png


 A tecnologia não vem "para substituir os humanos" naquilo que fazem, mas antes para "criar mais produtividade"


Cisco Systems, Kevin Bandy


Web Summit 09/11/2017


Sou a favor do mundo da tecnologia e das oportunidades para a aquisição de novas competências e, consequentemente, de novas formas de trabalhar que determinam novos tipos de emprego. A Web Summit originalmente organizada em Dublin, Irlanda, mas que me 2016 passou a vir para Portugal. É uma conferência mundial centrada nas tecnologias da internet e são uma oportunidade para as start-ups de tecnologia para se lançarem num mercado cada vez mais competitivo e isso está nas mãos dos mais jovens arriscarem em empreendimentos baseados na tecnologia.


Há, todavia, um reverso da medalha que é a questão do emprego, do trabalho e das novas profissões originadas pelas tecnologias que geram novas atitudes a que as sociedades dos diversos países não têm prestado a devida atenção: a reinvenção do trabalho.


As tecnologias disponíveis no mercado estão a simplificar e a rentabilizar nos dias de hoje o trabalho, seja nas fábricas, nos escritórios das empresas, na advocacia, na contabilidade, assessoria entre outros.


Trabalhos que antes eram realizados manualmente hoje estão a ser substituídos por plataformas inteligentes. O mesmo se passa nas fábricas de montagem de automóveis, por exemplo, onde máquinas robots fazem o trabalho que antigamente ocupavam vários postos de trabalho. O que antes dependia de horas de serviço agora se resume a poucos minutos ou até mesmo segundos.


Terceira Revolução Industrial.png


 Em 1998 Jeremy Rifkin no livro sobre Terceira Revolução Industrial onde tenta mostrar que “as evidências históricas negam o pressuposto neoclássico de que a inovação tecnológica estimula o crescimento económico permanente e o emprego. A falsa ideia de que a oferta cria a procura já levou a humanidade à armadilha da Depressão de 29. Naquela época, a crise foi resolvida por meio do receituário keynesiano, mas acreditar que a mesma fórmula será capaz de combater o desemprego tecnológico, além do enfraquecimento da procura do consumidor, é negar as novas realidades económicas. Isso porque a tendência de automação se mostra inexorável e atinge os três setores da economia: agrícola. industrial e de serviços.”.


O livro de Riftkin editado em 2011 nos EUA e em Portugal em 2014 vem na linha dum outro, este de Alvin Tofller “A Terceira Vaga” publicado em 1980 que na altura obteve grande sucesso. Diria que “A Terceira Revolução Industrial” é uma espécie de edição melhorada, atualizada e aumentada daquele.


Levanta, portanto, para além das consequências da revolução tecnológica a nível global levanto aqui a questão do emprego e desemprego num futuro mais ou menos próximo.


Em 2013 tornou-se banal, dizer que é melhor ter um emprego do que não ter nenhum e isso era afirmado pela direita em plena Assembleia da República. Esta afirmação é atribuída a André Gorz em «Métamorphoses du travail Quête du sens critique de la raison économique». Diz ele, num contexto de crítica à forma como é encarado o trabalho, que pouco importa qual o emprego, o importante é ter um. Isto é o mesmo que dizer que mais, pouco importa o montante do salário, desde que tanha emprego porque o trabalho assalariado é o principal meio de aquisição de rendimentos tendo a burguesia assalariada ainda que considere está fora do grupo dos assalariados.


De vez em quando surgem na comunicação social entrevistas e partes de estudos e ensaios sobre as questões do trabalho (ver aqui um caso) e previsões sobre o que ele será no futuro e algumas ficções como as de Arthur Clarke apontam para que “o objetivo do futuro é o pleno desemprego”. O fim do trabalho tem sido tratado por sociólogo, filósofos de várias nacionalidades como por exemplo o já referido Rifkin com The Ende of Work. Todavia a tese otimista era que os empregos destruídos eram substituídos por outros. Esta era a tese dos anos 80 e 90 quando as novas tecnologias da informação e comunicação começavam a difundir-se nas empresas e nos locais de trabalho, nas escolas e universidades. Pressupunha-se então que devido às tecnologias haveria desemprego e que outros, lia ela ligados surgiam em novos setores, à semelhança da primeira e segunda revolução industrial.


Aqui entram tecnologias ligadas à rede que se encontram numa fase de desenvolvimento exponencial, nomeadamente na área da inteligência artificial e da robótica que nos transmitem a ideia de que estamos a entrar numa sociedade de pós-trabalho, não já, mas daqui a mais ou menos uma década. Se o trabalho continua ainda a assegurar uma forma de redistribuição dos rendimentos da produção sob a forma de salário, a evolução para uma sociedade tecnológica poderá vir a agravar a equidade e a paz social.


Face ao menor tempo de trabalho necessário para efetuar tarefas facilitadas ou substituídas por tecnologias que Keynes já previu em 1930 dizendo que dali a 100 anos, e já passaram 87, o tempo ocupado pelo trabalho passaria a ser de 15 horas semanais.  Uma utopia, disseram e dizem alguns, e ainda o é de facto, mas, face ao futuro e ao desenvolvimento tecnológico acelerado, o que Keynes disse tem uma racionalidade económica. Ao contrário, o que temos assistido é à manutenção e até ao prolongamento do horário de trabalho, contrariando uma evolução que vinha a verificar-se a partir das últimas décadas do século XX.


A automatização derivada das inovações tecnológicas ao gerar ganhos de produtividade e sendo previsível que venha a obter ainda mais, a redistribuição tenderá a fazer-se ainda mais em direção a uma elite diminuta, também ela assalariada, mas com sobre-salário.


É também que entende o responsável da área digital da Cisco Systems, Kevin Bandy, que considera que a tecnologia não vem "para substituir os humanos" naquilo que fazem, mas antes para "criar mais produtividade", e destacou que Portugal está a desenvolver capacidades neste setor.


Para terminar, e para quem gosta dos Cepeche Mode, aqui vai uma das últimas músicas (2017) sobre a revolução no trabalho e para os mais radicais pode ser interpretado como a revolução do trabalho. Não sou muito apreciador da música desta banda mas as letras são representativas duma certa forma de ver o mundo.


 



 


E esta de 1983 



 


 

sábado, 26 de setembro de 2015

Carta fechada ao Senhor primeiro-ministro Passos Coelho e ao Senhor vice primeiro-ministro Paulo Portas

Carta fechada.png


 


Exmos. Senhores Ministro Passos Coelho e Vice Primeiro-ministro Paulo Portas,


Não posso deixar de elogiar V. Exas e o vosso Governo pelas coisas boas que fizeram e o serviço que prestaram ao país nestes quatro anos de excelsa governação. Há que, por isso, relembrar todas as transformações que fizeram no país que justamente não se têm cansado de elogiar durante esta Vossa campanha eleitoral.


Os portugueses governados por Vossas Exas assistiram a tudo com fantástico júbilo e, ao mesmo tempo, grande admiração pelas promessas sérias que lhe fizeram. É isto que conta mais do que todas as críticas que alguns alucinados andam por aí a dizer. As pessoas em cada mês receberam menos e às vezes nem sabiam quanto iriam receber, em cada ano viam anulados os subsídios que a seguir eram reintegrados, foram confortados com sobretaxas e novos escalões de IRS que a classe média acatou, sempre com celebrado contentamento por ficar cada vez mais empobrecida e aliviada por os seu filhos adultos ficarem desempregados ou mal pagos e satisfeitos pelos filhos jovens terem conseguido um estágio mal remunerado sem futuro e segurança. Despediam-se alegremente dos filhos de quem se viam livres porque finalmente saíam de casa e partiam.


Elogiaram as medidas por não saberem onde colocar as crianças quando iam para o emprego mal pago e ficaram aliviadas pela escassez de cuidados continuados para pais e avós. A ida às às urgência do privado, viam os doentes despachados se custavam mais do que valiam, e, ao lado, uma unidade de saúde familiar a acolher com decência e, no mesmo edifício uma outra, do passado, onde madrugavam desde as 6 da manhã. Tudo isto, agradecemos calorosamente elogiando Vs. Exas, Senhores Passos Coelho e Paulo Portas. Haver agora condições para poder ajudar a encontrar emprego aos que estão numa idade desesperada para ser útil. Alguns ingratos e piegas não têm a hombridade de lhes agradecer pela opção mais do que justa de tomarem a precaução de terem contribuído para o fecho de muitos restaurantes, lugares de hortaliça, retrosarias, a pequenas papelarias, enfim.


Queixumes e mais queixumes injustificados pela falta destes serviços na proximidade porque desconsideram o lado bom destes danos colaterais das medidas muito bem desenhadas e estudadas por Vs. Exas. a bem da nação.


O desemprego provocado foi no dizer V. Exa foi uma oportunidade e quanto a nós uma das boas medidas do excelente Governo pois possibilitou que os salários baixassem para maior competitividade e que assim mais tivessem emprego precário e de baixo salário porque a oferta de mão dobre competia entre si e isso foi saudável para fazer as pessoas trabalhar que são umas cigarras e os empresários portugueses, são uma cambada de ignorantes, nomeadamente os que não entenderam e rejeitaram o magnifico e inteligentíssimo projeto das TSU, naturalmente aconselhado vivamente por V. Ex. e que também essas tais cigarras, estupidas, incultas e ignorantes que são povo português, fez questão de chumbar em massa! V. Exa. Senhor primeiro-ministro foi mal compreendido e injustamente contestado. Uma injustiça que lhe foi feita.


Na mesma linha os estágios remunerados e comparticipados pelos Estado (IEFP) às empresas que criem empregos precário, a que alguns chamam empregos forjados para ocultar parte do desemprego das estatísticas, foi das melhores medidas que foram criadas para estimular o tão necessário emprego precário e rotativo que visa a estimular quer o investimento nacional que o estrangeiro.     


A subida do IVA da restauração associada à fuga de clientes por falta de recursos, a impossibilidade de trespasse, a subida da renda, a dificuldade de pagar à previdência que veio a contribuir para o desemprego de sujeitos desqualificados projetou braços para o desemprego, secou impostos e contribuições, anulou consumos, gerou depressões foram tudo medidas que nós todos agradecemos e elogiamos.


As empresas também lhes estão extremamente agradecidas por mudarem leis do trabalho e manter impostos (IRC) para uns e descida para outros, justamente o que aconteceu em quatro anos: mais de sessenta alterações fiscais, uma dezena de orçamentos retificativos, leis inconstitucionais que depois regressam à base com enorme atrito, tribunais que não saíram do parque jurássico em rapidez e economia, atolando-se em alterações de locais e sistemas, gerando caos de que ainda se não recompuseram. Os pensionistas, os reformados e os aposentados do Estado estão animados e reconhecidos a Vs. Exs, especialmente ao Senhor Vice Primeiro-ministro Paulo Portas desde o bem-aventurado dia em que foi promovido a este cargo de responsabilidade governativa e os defendeu ficando agradecidos pela instabilidade saudável em que os colocaram sistematicamente. A pobreza que dizem ter aumentado não existe, não a vemos por aí, são meras mentiras e invenções para descredibilizar a Vossa governação plena de sensibilidade social como nunca houve outro após o 25 de abril de 1974. A abertura de cada vez mais cantinas sociais que o Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, dirigido pelo Vosso competentíssimo ministro Pedro Mota Soares, são prova da irradicação da pobreza no nosso país onde a diferença entre ricos e pobres tem diminuído substancialmente graças às medidas tomadas pelo Vosso Governo. É reconhecido que outros, sem um espírito de sacrifício em tão alto grau como o Vosso e, portanto, sem pretensões de a Vós serem equiparados, não podem servir o seu país com uma seriedade tão absoluta, sejam quais forem as funções que eventualmente exerçam ou venham a exercer.


Durante a campanha eleitoral que tem sido da Vossa parte um exemplo de integridade e honestidade, sem manipulação pela comunicação social e outros afins, como tem sido a da oposição.


Saem por aí números de forjadas estatísticas sobre o aumento défice provocado pela impossibilidade da venda do Novo Banco que foi uma medida da maior virtuosidade para todos os portugueses. Era para ter sido uma venda rápida e agora já não o será e, por isso, chamam a V. Exa. Senhor primeiro-ministro Passos Coelho troca-tintas porque hoje diz uma coisa e noutro dia o seu contrário. Infâmias! A Vossa esplendorosa política é bem demonstrativa com a subida do emprego, subida da confiança empresarial, subida do produto, subida do investimento, subida das exportações. Os detratores que há por aí, argumentam com a subida da dívida e que o défice não está controlado e que a balança comercial não resiste a cada tremor da economia. Balelas! Este país está em francos progressos e a caminho de ser uma das dez melhores economias do mundo como já o disse o Senhor primeiro-ministro Passos Coelho.


A esfusiante campanha também feita por V Exa, Senhor vice primeiro-ministro Paulo Portas, umas vezes nas feiras, outras nas televisões, palcos, jantares, é por todos aplaudido, não só pelos da sua corte que somos nós todos os portugueses, excetuado uma minoria de rebeldes que a oposição radical manobra e onde vagueiam abandonados, irritados, revoltados, os eleitores que vitimou, mas esses não contam. Dizem alguns difamadores da nossa praça que V. Exa é capaz de tocar qualquer instrumento e coloca a voz de palhaço-rico e umas vezes zurze o povo com o pingalim de circo e outras faz de bailarina acrobática para se manter no poder e minimizar a perda de votos que teria sem a ajuda do nosso querido primeiro-ministro. Que injustiça!


O Senhor primeiro-ministro Passos Coelho, sempre preservando a verdade que sempre lhe foi peculiar, fornece sobre o BES/Novo Banco explicações dignas de aplauso fala calorosamente com senhoras de cor-de-rosa que lhe dizem mentiras e outras coisas desagradáveis e injustas que o Senhor primeiro-ministro não merece. O Senhor primeiro-ministro Passos Coelho bem sabe, e disse-o, que há famílias que pagam menos impostos do que há quatro anos e que o Estado Social está melhor que nunca, o que é verdade. Não há dúvida que isto é uma verdade irrefutável como já o tinha sido sobre outros assuntos já em 2011.


Essa gentalha da oposição que chama a V. Exa, Senhor primeiro-ministro Passos Coelho, mentiroso e trapalhão, são uns ingratos e mal-agradecidos que não sabem dar valor à estabilidade política e social que criou ao longo dos quatro anos que foram bem curtos para as medidas que devia ainda ter tomado, mas, que, graças a Deus, irá continuar a tomar no próximo Governo que, sem dúvida, irá ser novamente seu.


Quanto às privatizações imprescindíveis estas foram um sucesso da qual viremos todos beneficiar porque vão ser mais bem geridas por privados do que o eram pelos incompetentes gestores que ganhavam salários chorudos dos nossos impostos e que agora passarão pra gestores de outras empresas privadas onde passarão a ser duma competência sem mácula. Empresas muito bem vendidas a baixo custo, limpas de dívidas para que os seus compradores delas possam usufruir melhor e lucrar.  Isto nós todos os portugueses não esqueceremos quanto foi benéfico para a nossa economia e para o emprego que estão em pleno crescimento de sucesso.


Nesta espécie de resenha uma coisa ainda permito-me acrescentar, é que, pense-se o que se pensar, diga-se o que se disser, em relação ao Vosso Governo uma realidade subsiste: ficaram provas reais, indiscutíveis e indesmentíveis de que, em consequência da Vossa fantástica governação só benefícios resultaram para o país. Quanto às pessoas, essas, foram sempre, como já disse anteriormente, mal-agradecidas. Afirmo-o por amor à verdade a que V. Ex. Senhor primeiro-ministro nunca faltou.


Por tudo o que foi escrito, e pelo que ainda não o foi, poderão Vs. Exs. avaliar o prazeroso ânimo que se tem apossado de todos nós, portugueses, por esta legislatura.


 


De V. Exa.


Atentamente


Venerando e obrigado


 


O Blog Zoomsocial


 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Segura o tacho ó Nuno este é o teu país

Nunomelo_país.png


Há um crédito que Nuno Melo, deputado europeu pelo CDS/PP, me merece, é poder rir à gargalhada à custa dele. Numa coluna, apenas uma, mas mais larga, denominada “Linhas direitas” cujo título mais apropriado seria o de “Linhas da direita”, escreve uma série de meias verdades bordadas com matizes de falsidades. Em síntese, a economia está a crescer, diz, está tudo bom, e Portugal está bem e melhor. Se assim for como será depois se a coligação ganhar as eleições? Voltamos à mesma conforme Passos Coelho disse em tempo não muito longínquo, manteremos o mesmo rumo e nada será alterado.


Somos os maiores, ou quase, da zona euro. Maravilha de país. Deve ser por isso que Portugal virá a ser, como diz o seu líder do Governo Passos Coelho, uma das maiores dez economias do mundo. Segura o tacho ó Nuno!


Esta direita é falsa como as cobras. Estas, ainda têm desculpa porque é da sua natureza, mas os partidos desta direita são premeditadamente falsos.


Nuno compara e mistura Portugal com tudo sobre a Grécia. Deve ser o único e fraco argumento sem sustentabilidade que tem. Torneia premeditadamente a questão real de Portugal. Talvez gostasse que a Grécia não fosse ajudada e entrasse num colapso irreversível. Mas foi. E foi-o também pelo Parlamento alemão. Com uma mãozinha de Merkel e de Schäuble, votou a favor de novo resgate com 454 votos a favor, 113 contra e 18 abstenções. Onde se posiciona agora o CDS e o PSD com a sua coligação?


Nuno Melo, no seu artigo, e também a sua gente, revertem para o passado, sempre o passado, até no da Grécia, e esquecem o presente.


Para Nuno Melo Portugal é o país das maravilhas, mas sem Alice. Como Alice, também sonha em grande. Pois então! De alguns dados positivos que nada têm a ver com a atuação do Governo embandeira em arco e canta loas épicas de crescimento e prosperidade. Todavia, omite propositadamente o outro lado do espelho do país maravilhoso que não é o de Alice mas o dele.


O que está por detrás do espelho por onde Nuno Melo mira Portugal? Apenas isto:


Trabalhar era para o objetivo para ter uma vida digna acima do limiar da pobreza, agora é a garantia a sobrevivência e, mesmo assim abaixo desse limiar. Há cada vez mais portugueses que trabalham mas continuam a depender de apoios sociais. Outros, ainda, contribuem para aumentar a sopa dos pobres. É o teu país ó Nuno!


A solidariedade foi substituída pela caridadezinha, sinal da decomposição social. É o teu país ó Nuno!


Desregulação e desvalorização do trabalho e respetivas consequências sociais em conivência com a troika e o entusiasmo de quem se preparava para ocupar o poder, (já agora também um pouco de passado). É o teu país ó Nuno!


Tornaram as pessoas mais pobres na impossibilidade de desvalorização da moeda. É o teu país ó Nuno!


Os salários reduzidos, quer pela subida brutal dos impostos sobre o trabalho, quer pelo desmantelamento das convenções coletivas e pelo corte das pensões, entre outras. É o teu país ó Nuno!


O emprego aumenta virtualmente com valores ínfimos. É o teu país ó Nuno!


Os salários baixos passaram a ser a regra, apesar de Passos Coelho umas vezes dizer que é preciso baixar salários e outras vezes dizer que se devem aumentar salários, e o ministro da Economia, Pires de Lima, diz que é preciso aumentar o salário mínimo. Balelas! É o teu país ó Nuno!


Quem trabalha tem cada vez menos a garantia duma vida digna. É o teu país ó Nuno!


Há 880 mil portugueses a receber o salário mínimo em 2011 eram 345 mil (Fonte INE). É o teu país ó Nuno!


Não se aumentou meio milhão de postos de trabalho, mesmo com salários baixos, mas os que perderem o emprego só puderam regressar ao mercado de trabalho aceitando condições degradantes. É o teu país ó Nuno!


Os jovens que ingressam no mercado de trabalho têm que aceitar salários mais baixos do que o que era oferecido aos seus pais. É o teu país ó Nuno!


A competitividade é conseguida através da escassez, da pobreza, da miséria e logo com o assistencialismo. É o teu país ó Nuno!


Portugal à Frente, nome dado à coligação significa: crescimento da taxa de pobreza, desemprego a baixar por obra dos salários baixos, pela emigração, subemprego, precarização e desistência de procura de trabalho nos centros de emprego, o que reduz estatisticamente a taxa de desemprego. É o teu país ó Nuno!

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O diabo das promessas

 


Promessas_2.pngPromessas de Passos.png

Quatro anos de Passos Coelho e do seu governo provocaram nos portugueses divisões e feridas sociais que irão levar muito tempo a sarar e a esquecer.


Diz ele que não lhe interessam as eleições e que, por isso, irá continuar a seguir o mesmo caminho seguido até aqui mas, ao mesmo tempo, vai abrindo aqui e ali “os cordões à bolsa” distribuindo umas benesses que, caso ganhe as eleições, irá recuperar à custa de alguns e a qualquer preço. Os discursos laudatórios ao fim da crise e ao crescimento anémico e vão ter custos agravados ao chegarem ao poder. Serve para obter o poder a qualquer custo.


Não haverá ninguém que não ache positivo a redução ou a eliminação da sobretaxa do IRS, lá para 2016 se a receita fiscal aumentar conforme preveem, (espécie de cenoura para enganar os potenciais votantes que o ajudem a manter-se no poder). É mais uma das artimanhas, mas, entre linhas também vão dizendo que, se a receita fiscal diminuir, este imposto da sobretaxa do IRS pode voltar a subir.


Não é preciso lançar cartas do Tarot para se adivinhar o que vai acontecer caso a coligação, apoiada por Cavaco Silva, ganhe as eleições para justificar recuos no processo de austeridade que, dizem, ter abrandado ou terminado: o perdão ou a reestruturação da dívida grega, uma crise financeira de última hora, a dificuldade do cumprimento das metas do défice por causa das pensões em pagamento, os custos salariais com a educação pública, ou qualquer outra desculpa que não será difícil encontrar no atual contexto europeu, serão o motivo para retirar o que andam por aí a distribuir voltando às mesmas políticas que os moveram até aqui e, se possível, procederem ao seu agravamento.   


Passos Coelho, diz por aí, querer travar um combate sem tréguas às desigualdades sociais e à pobreza, fala em promessas e esperança de prosperidade coisa que esqueceu durante quatro anos escudando-se com o programa imposto no memorando da troika, mas lá ia dizendo que o seu programa era o mesmo e que tencionava ir mais além.


Entre confiar em Passos Coelho e no se acólito Presidente Cavaco mais vale confiar no diabo que, de acordo com a mitologia judaico-cristã, é falso, tentador e perfilha a traição e a arte da manipulação. 


Não podemos esperar da coligação PSD/CDS qualquer mudança de rumo a não ser a continuação da mesma política social, económica e fiscal com que governou até aqui, e o mesmo pensamento político sobre a sociedade.


Passos Coelho entrou para a política pela mão da JSD não por convicção pelos ideais da social-democracia mas por interesse, assim como tantos outros que lá se encontram. Não é por isso difícil perceber a distorção que o partido de que é líder tenha vindo a degenerar e a esquecer as suas raízes.     


Seguir as políticas ditadas pela Alemanha e a dos seus aliados do norte desdenhando o povo do seu país para se mostrar um fiel e bem comportado bom aluno dos “mestres” da destruição duma Europa que se quer mais unida, é outro dos pressupostos convictos de Passos Coelho, talvez como forma de se perfilar para voos mais altos no domínio dos lugares europeus porque, se assim não for não terá emprego. Quem não o conhecer então que se atreva a comprá-lo.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O regresso dos fantasmas

Os Fantasmas.png


Surpreendidos pelo documento "Uma década para Portugal" apresentado pelo Partido Socialista sucedeu-se o contra-ataque com duas reações opostas, uma à direita do PS outra à esquerda. A primeira, desvairada, agita o fantasma da troica e do regresso ao passado, argumento que já mais do que gasto ao longo de quatro anos, e diz que não apresenta nada de novo. A intervenção de ontem de Paulo Portas no Parlamento foi disso a prova da preocupação da maioria. A segunda, tenta colar o PS à direita, afirmando que é um documento que não se distingue em nada do que a direita propõe.


Não vou agora abordar os aspetos eventualmente mais polémicos do documento, que alvoroçou e promete alvoroçar a campanha eleitoral. Não é por acaso que Maria Luís Albuquerque já avançou com uma promessa baseada na diminuição dos prazos de devolução dos salários da função pública apresentada no PE, (agora Programa de Estabilidade, antes PEC Programa de Estabilidade e Crescimento). Isto é, numa tentativa de desespero, e contrariamente ao que ela tinha avançado na passada semana, tenta fazer ajustamentos em função do documento do PS. Passos Coelho disse que o documento apresentado pelo PS era eleitoralista, e isto o que é?


O que falta em todas as propostas não são as mexidas na regulação do mercado de trabalho nem a descida da TSU das empresas e do IRC mas outro tipo de incentivos que estimulem as empresas ao investimento e à da criação de emprego na agricultura, na indústria e nos serviços. Tudo quanto seja reduzir encargos das empresas com o trabalho e os impostos são apenas redução de custos que vão aumentar o lucro das empresas que não será reinvestido mas para acrescentar à distribuição de dividendos aos acionistas e aos donos das empresas. Temos como exemplo o caso mais gritante da EDP.


A partir de agora a direita fará tudo para conquistar alguns votos ao Partido Socialista e os partidos à esquerda deste farão tudo para colar o PS à direita para conquistar também alguns votos. Entre os partidos à esquerda do PS a guerra da caça ao voto também vai iniciar-se não se sabe ainda é em que moldes.


Será que no centro onde o PS se coloca é onde estará a virtude? Uma coisa é certa, já basta desta direita que nos afoga, não apenas na austeridade mas também nos argumentos sem sentido, falaciosos e sem a certeza de que fala verdade aos portugueses.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O regresso da TSU

Para mim, qualquer medida anunciada por Passos Coelho por melhores e boas que sejam as intensões traz sempre “água no bico”, como popularmente se diz. Aliás, como bem conhecemos é bem conhecida a sua estratégia para enganar e mentir, sendo assim que conseguiu ganhar as eleições em 2011 aproveitando-se, na altura, de algum descontentamento da anterior governação que, apesar dos PEC, nada se comparou com os estragos que fez no país encoberto pela “troika”.


Vem isto a propósito do anúncio feito sobre a redução da TSU (Taxa Social Única), encargo das empresas que incide sobre o salário mensal de cada trabalhador e que é encaminhado para a Segurança Social.


Antes de continuar devo esclarecer que as empresas privadas da indústria, comércio e serviço numa economia de mercado como a nossa, e a par de alguns setores do Estado, são os motores do dinamismo económico de qualquer país. A iniciativa privada e o investimento produtivo que dela advém é essencialmente positivo para o crescimento económico.


Dito isto, voltemos à TSU.


É certo que a redução dos diversos custos dos fatores de produção das empresas são importantes para a sua rentabilidade. As duas componentes da dinâmica e do crescimento económico, não incluo aqui a especulação financeira, são o capital e o trabalho. Isto é, a iniciativa e o capital necessário para implementar a ideia que a determinou, e o fator trabalho que é essencial. Ora, é neste fator que Passos Coelho e o seu Governo mais têm intervindo desvalorizando-o através de cortes salariais, facilitando os despedimentos, já para não falar do aumento de impostos diretos e indiretos sobre os salários e pensões. Está ainda presente a altura em que pretendeu aumentar a TSU dos trabalhadores e baixá-la às empresas. A mobilização coletiva que abrangeu milhões de trabalhadores travou energicamente aquela medida.


Enquanto baixava salários avançou com a redução progressiva do IRC (Imposto sobre Rendimento Coletivo), imposto pago pelas empresas sempre com a justificação  de fomentar a criação de postos de trabalho. Ainda está por avaliar o impacto desta medida naquele objetivo que deve ter sido na prática nulo.


Surge agora a mesma justificação da criação de emprego para baixar a TSU das empresas.


A verdadeira dimensão desta medida está ainda pouco clara mas não irá com certeza ter impacto significativo na tal criação de emprego. O que irá ter, isso sim, é o efeito da descapitalização, ainda mais, da Segurança Social.


Dizem as luminárias do PSD, como Marco António Costa, um dos porta-vozes da propaganda do Governo, que o valor que sairá dos cofres da Segurança Social será compensado por verbas através do orçamento do Estado. Não nos admiremos depois que haja buracos financeiros que mais tarde do que cedo iremos todos pagar. Acrescenta ainda mais, o número de postos de trabalho que serão criados irão compensar o que lhe é retirado.


Se estimarmos o valor que a Segurança Social vai perder com a redução da TSU das empresas na ordem dos milhares de milhões de euros ficamos a pensar quantas centenas de milhar de postos de trabalho teriam que ser criados para compensar a perda de verbas.


A dita reforma da legislação laboral não se transformou numa criação de emprego que gerasse descontos significativos para a Segurança Social, antes pelo contrário, os despedimentos verificados não só vieram aumentar os pagamentos provenientes do fundo do desemprego e das reformas antecipadas, mas também os postos de trabalho perdidos não foram recuperados pelo mesmo número de trabalhadores dispensados e, quando o foram, o salário auferido pelos mais jovens que entraram é muito menor pelo que os descontos para a Segurança Social também são menores.


O objetivo da criação de postos de trabalho pela redução da TSU das empresas pode estar cheia de boas intensões mas não é mais do que “a montanha pariu um rato” podendo ser avaliada através de cálculos simples como os que apresento nas tabelas abaixo. O objetivo parece ser apenas o de contribuir para o agravamento da descapitalização e consequente sustentabilidade da Segurança Social.


A metodologia que adotei para a construção das tabelas é apenas um exercício de simples de estimativa do cálculo da redução da TSU nos custos de trabalho das empresas.


Coloquei hipóteses para quatro cenários de empresas: A, B e C, cada uma delas com 10, 20, 50 e 100 trabalhadores respetivamente.


Em cada uma das diferentes empresas, com o mesmo número de trabalhadores, seria praticado um salário médio SM1, SM2 e SM3. O salário médio mensal a pagar a cada trabalhador em cada uma das empresas A, B e C com o mesmo número de trabalhadores seria de 500, 800 e 1250 euros respetivamente.


A TSU de referência para o cálculo é 23,75% que é paga atualmente pelas empresas.


Simulação da redução progressiva da TSU em cada empresa para 23%, 22% e 20%, valores que parecem ser adequados sem haja uma quebra muito brusca das receitas para a Segurança Social.


Analisadas as tabelas pode verificar-se que os ganhos com os custos de trabalho são maiores, como é óbvio, para as empresas com maior número de trabalhadores e que pagam salários mais elevados.


Sabendo que a percentagem de empresas em Portugal pertencem ao grupo das PME (Pequenas e Médias Empresas) não é previsível que a baixa da TSU dê lugar à contratação de trabalhadores, a não ser que seja imprescindível a criação de um posto de trabalho, caso contrário isso não se verificará se nas empresas não houver crescimento.


Os cálculos resultam de contas muito simples como pode ser observado nas tabelas que representam vários cenários supondo que a empresa está estabilizada e numa situação de crescimento anémico da economia.


Suponhamos que a minha empresa tem 10 trabalhadores a quem pago, em média, a cada trabalhador 500 euros por mês. O custo mensal com os salários seria de 5000 euros. Se a este valor acrescentar os 23,75% da TSU em vigor teria que disponibilizar mensalmente 6187,50 euros em custos salariais.


Suponhamos ainda que é reduzida a TSU para 23%, menos 0,75%, o custo salarial será de menos 37,5 euros mensalmente. Se na melhor das hipóteses a taxa for reduzida, por exemplo, para 20% o custo salarial mensal para os 10 trabalhadores reduz para 187,50 euros.


A decisão de vir a admitir mais um ou dois trabalhadores será considerada apenas e se, a produtividade aumentar substancialmente e o meu ramo de negócio também cresça a um ritmo que justifique as admissões, caso contrário manteria o mesmo número de trabalhadores e obteria um ganho mensal de 187,5 euros se a taxa fosse de 20%.


O mesmo se passaria para outras empresas. Quanto maior for a empresa em número de trabalhadores menores serão os encargos com os custos do trabalho reportados à TSU, não se antevendo por isso, qualquer garantia da criação de novos postos de trabalho.


Nos cenários apresentados não é líquido a criação de mais postos de trabalho por se baixar a TSU. A sua redução será apenas mais um valor que não será distribuído pelo fator trabalho.


Cenário A



N.Trab.



SM/Emp



Empresa



Sal. Méd/Trab



Sal. Médio Tot



% TSU/Empresa



Encargo TSU



Custos Trabalho



10



SM1



A



500



5000



23,75



1187,5



0



23



1150



-37,5



22



1100



-87,5



20



1000



-187,5



SM2



B



800



8000



23,75



1900



0



23



1840



-60



22



1760



-140



20



1600



-300



SM3



C



1250



12500



23,75



2968,75



0



23



2875



-93,75



22



2750



-218,75



20



2500



-468,75



 


Cenário B



N.Trab.



SM/Emp



Empresa



Sal. Méd/Trab



Sal. Médio Tot



% TSU/Empresa



Encargo TSU



Custos Trabalho



20



SM1



A



500



10000



23,75



2375



0



23



2300



-75



22



2200



-175



20



2000



-375



SM2



B



800



16000



23,75



3800



0



23



3680



-120



22



3520



-280



20



3200



-600



SM3



C



1250



25000



23,75



5937,5



0



21



5250



-687,5



20



5000



-937,5



18



4500



-1437,5



  


Cenário C



N.Trab.



SM/Emp



Empresa



Sal. Méd/Trab



Sal. Médio Tot



% TSU/Empresa



Encargo TSU



Custos Trabalho



50



SM1



A



500



25000



23,75



5937,5



0



23



5750



-187,5



22



5500



-437,5



20



5000



-937,5



SM2



B



800



40000



23,75



9500



0



23



9200



-300



22



8800



-700



20



8000



-1500



SM3



C



1250



62500



23,75



14843,75



0



23



14375



-468,75



22



13750



-1093,75



20



12500



-2343,75



 


 Cenário D



N.Trab.



SM/Emp



Empresa



Sal. Méd/Trab



Sal. Médio Tot



% TSU/Empresa



Encargo TSU



Custos Trabalho



100



SM1



A



500



50000



23,75



11875



0



23



11500



-375



22



11000



-875



20



10000



-1875



SM2



B



800



80000



23,75



19000



0



23



18400



-600



22



17600



-1400



20



16000



-3000



SM3



C



1250



125000



23,75



29687,5



0



23



28750



-937,5



22



27500



-2187,5



20



25000



-4687,5