Mostrar mensagens com a etiqueta religião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta religião. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Um artigo de opinião por Maria joão Marques

Nacionalidade, residência e sharia



Deve ser essencial, quer para a atribuição do título de residência, quer de nacionalidade, a recusa, por escrito, a recorrer a qualquer “tribunal” que não siga as leis portuguesas.


O Governo aprovou alterações à lei da nacionalidade, uma medida de elementar bom senso. Passa para dez anos o mínimo de residência legal para a generalidade dos imigrantes e para sete anos para os originários dos países de língua portuguesa. Não há números mágicos nestas leis, mas houve um objetivo declarado do PS de deixar entrar muita gente no país, porventura para angariar futuros votantes — já houve militantes do PS dizendo isso mesmo: que os imigrantes, depois de obterem nacionalidade, não se esquecerão do partido que os ajudou — e por ora há uma necessidade absoluta de fazer por integrar os que cá estão, de retirar os ilegais e de aos de mais tratar de lhes legalizar a permanência.


Mas não são só os números de anos a residir em Portugal que contam para atribuir a nacionalidade. Do que ficou fechado no Conselho de Ministros, pretende-se que os candidatos a atribuição da nacionalidade dominem a língua e a cultura portuguesas, que conheçam os mecanismos democráticos e declarem adesão à democracia. Tudo muito bem, mas não chega.


Não basta conhecer a cultura portuguesa. Para atribuir a nacionalidade tem de ser preciso estar integrado nela. Há uns tempos a esquerda nacional, no desligamento da realidade que a tem caracterizado, indignou-se muito por Pedro Nuno Santos (com todo o acerto) ter dito que os imigrantes devem respeitar a cultura portuguesa. Garantiram-nos que somente tinham de respeitar as leis portuguesas.


Bom, discordo, porque quando se vai à casa das outras pessoas aceitam-se as regras da casa das outras pessoas, mas mesmo pegando nesta veia minimalista de olhar para as obrigações dos imigrantes, pergunto: então se os imigrantes têm obrigação de respeitar as leis portuguesas, por que carga de água existe um tribunal da sharia na mesquita de Lisboa? (Este é conhecido; sabe-se lá quantos mais haverá nas pequenas mesquitas informais existentes nas zonas de grande densidade de imigrantes muçulmanos.)


Das duas uma: ou os imigrantes e os candidatos a nacionais portugueses respeitam as leis portuguesas e então não precisam de recorrer a tribunais da sharia; ou querem continuar a reger-se por esse maravilhoso quadro legal que em certas zonas do mundo leva ao apedrejamento de mulheres adúlteras e ao corte de mãos de ladrões (dos dois sexos) e então não têm qualquer vontade de seguir as leis portuguesas e, donde, não têm de ser cá recebidos.


Em qualquer dos casos, deve ser essencial, quer para a atribuição do título de residência, quer de nacionalidade, a recusa, por escrito, a recorrer a qualquer “​tribunal”​ que não siga as leis portuguesas. Repito: isto é necessário não só para a atribuição da nacionalidade como para a autorização de residência.


É certo que a comunicação social portuguesa gosta sempre de lavar com lixívia tudo o que se relaciona com o Islão. O PÚBLICO já escreveu um texto sobre o tribunal da sharia na mesquita de Lisboa, e quem lê até fica a pensar — isto se nunca tiver lido notícias sobre a condição feminina nos países islâmicos — que a sharia é inócua. Até se aceita benignamente as explicações sobre a poligamia — outra coisa que, sei lá, calhando, quiçá também não respeita as leis portuguesas mas é regulado na mesquita de Lisboa. O Expresso também já escreveu um texto apologista, no qual David Munir até diz, sem nenhuma contraposição factual, este estrondo: “Quando falamos da lei islâmica, sharia significa igualdade, transparência, fraternidade, respeito pelo próximo e pela sua crença, saber conviver com o outro, respeitar a mulher, ser honesto, justo. Isto é a sharia.”


Sim, é isso mesmo. Bravo para a clarividência dos media portugueses. O filho do presidente da comunidade islâmica, como qualquer muçulmano civilizado, chama à sharia barbaridade”. Já os nossos jornais, ao invés de denunciarem as atrocidades da sharia, tentam vender a coisa como benigna.


É extremamente grave e atentatório dos direitos das mulheres e crianças termos “tribunais” ilegais da sharia a decidir o que quer que seja em território nacional. Não precisamos chegar ao enorme “respeito pela mulher” que são as lapidações da sharia. A sharia também tem caminhos de “respeito pelo próximo” e pelas mulheres e pela “igualdade” que espoliam as mulheres nas heranças e que lhes diminuem os direitos parentais em caso de separação ou divórcio.


Os tribunais da sharia não são tribunais arbitrais, porque os tribunais arbitrais não podem decidir contra e à margem da lei portuguesa. E não aceito o argumento preguiçoso e mentiroso de que “são de adesão voluntária, é uma questão de liberdade”. Que graus de liberdade têm mulheres imigrantes, pobres, muitas vezes não falando a língua ou falando mal, sem nenhuma rede de apoio autóctone (digamos assim), para irem contra os preceitos sociais estabelecidos na sua comunidade, se estes preceituarem recorrer ao tribunal da sharia da mesquita mais próxima? Nenhuns.


De resto, a lei portuguesa está carregada de direitos inalienáveis de que os cidadãos portugueses não podem prescindir, mesmo se quiserem. Na lei laboral um trabalhador não pode acordar prescindir do direito a férias (pode, no máximo, encurtá-las uns tantos dias) ou, até, do horário para almoçar (que até tem duração mínima). E qualquer empregador que promova um acordo que retire direitos inalienáveis a um trabalhador leva uma multa pesada da ACT.


Ora, por que carga de água mulheres residentes em Portugal, ou já com nacionalidade, podem “livremente” (tosse) prescindir dos seus direitos parentais ou da sua parte da herança porque a sharia assim determina? E onde estão as multas pesadas para os “juízes” e os “tribunais” que decidem tais iniquidades? Ou, como se trata da vaca sagrada do Islão, tem de se aceitar tudo? E como as estropiadas são mulheres, também não interessa muito?


Há mais. Por falta de espaço, condenso. No Reino Unido, 22% das mulheres imigrantes não falam inglês, sobretudo vindas do Paquistão e Bangladesh. Temos, nós, país pobre, obrigação de receber famílias onde as mulheres ficam em casa, o que levará a rendimentos per capita baixos e aos intervalos do recebimento de prestações sociais?


A nacionalidade e a permissão de residência não são um direito dos cidadãos estrangeiros. Devem ser merecidas. E a mensagem aos imigrantes deve ser de exigência de respeito pelas nossas leis, economia e cultura. Não de rebaldaria.


A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico​

domingo, 11 de maio de 2025

Perdoai-lhes Senhor porque sabem o que fazem

Religião Montenegro e Ventura.png


O título deste texto foi inspirado nos evangelhos, mais propriamente em Lucas (23;34), quando Jesus disse: «Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem!».


Assim, no entremeio das eleições para as legislativas de 18 de maio, cinco dias antes do 13 de maio dia de peregrinação ao Santuário de Fátima surge a oportunidade de aproveitamento da religiosidade da população devota daquele dia e Luís Montenegro não poderia deixar perder a oportunidade deste dia e lança a sua esposa para a comunicação social (fica o benefício da dúvida). Montenegro encontra-se com a mulher, em peregrinação a Fátima e, para tal, televisões foram convocadas.


O líder do PSD deixou um almoço de forma discreta e decidiu ir cumprimentar a mulher, que se encontrava algures na zona de Mira negando aproveitamento político. Recordemo-nos quando foi ameaçada uma CPI por causa da SPINUMVIVA Montenegro lamentava que a família fosse envolvida no caso. Enfim são pontos de vista!


Temos um novo Papa e sobre a sua atuação fazem-se prognósticos sobre se seguirá o caminho do seu antecessor ou se irá manter uma postura mais conservadora. Há opiniões sobre o novo Papa conforme as várias visões sobre o Mundo conturbado que estamos todos a viver.


É interessante conhecermos como reagem alguns políticos ou próximos sobre como foi a atuação do Papa Francisco e de como será a do Papa Leão XIV, mas antes recordemos o que alguns deles disseram no rescaldo do falecimento do Papa Francisco.


Começo por uma atriz ressabiada (talvez por ter sido votada ao esquecimento), apoiante do partido Chega, de seu nome Maria Vieira que reagiu numa rede social à morte do Papa Francisco escrevendo “Eu sou cristã, mas nunca simpatizei com este Papa socialista e «wokista» que falseou e atacou os valores ancestrais do cristianismo. Agora é tempo de a Igreja Católica encontrar um Papa conservador e verdadeiramente cristão que recupere a Palavra de Deus e que ponha ordem na Igreja”. É esta uma visão caridosa que de cristã não tem nada.


Esta falsa cristã apenas demonstra a sua ignorância porque um dos valores e pilar do cristianismo é o amor ao próximo desconhecendo que esses ensinamentos são encontrados em várias passagens dos Evangelhos, como o do Sermão da Montanha e nas parábolas de Jesus Cristo que formam a base da ética cristã que se encontra nos Evangelhos.


Deixemos para trás esta senhora e vamos ao que afirmou o seu grande líder André Ventura quando se pronunciou sobre a morte do Papa Francisco. Ventura, que diz ter frequentado o seminário, mostra pelas suas afirmações que também parece desconhecer o fundamento da essência da mensagem pregada por Jesus Cristo.


As primeiras declarações de Ventura sobre o Papa Francisco remontam a outubro de 2020 quando, numa entrevista ao Diário de Notícias, afirmou sobre o Papa Francisco que “Eu acho que este Papa tem prestado um mau serviço ao cristianismo. Acho. Acho que tem mostrado a esquerda revolucionária quase como heroica e a esquerda europeia marxista como a normalidade. Acho que este Papa tem contribuído para destruir as bases do que é a Igreja Católica na Europa e acho que em breve vamos todos pagar um bocadinho por isso.”. André Ventura, nos últimos anos foi repetidamente crítico do Papa Francisco.


O tempo passou, já lá vão cinco anos, e, para Ventura, o Papa Francisco foi um “exemplo para todos os que querem servir a causa pública”. Face ao que antes tinha afirmado ficamos sem perceber qual é o verdadeiro pensamento de Ventura sobre o Papa Francisco, mas, fica confrontado com declarações passadas sobre o líder da Igreja Católica.


André Ventura sempre recusou acolher a mensagem do líder da Igreja Católica porque dizia ele, o Papa Francisco só queria que a Igreja ficasse “bem na fotografia” e acusava o Papa de estar a transformar a Igreja num “partido político de esquerda”.


Na celebração das Jornadas Mundiais da Juventude em 2023, aquando da visita do Papa Francisco a Lisboa, André Ventura foi um dos poucos ausentes. Afirmou então que “Confesso que podia ter estado no CCB (Centro Cultural de Belém) com Sua Santidade e não desejei esse encontro. “Peço a Deus que me perdoe por isso e tenho tido todas as dificuldades com a minha própria consciência” disse. Os hipócritas batem com as mãos no peito quando isso lhes convém. Ventura escreveria depois, numa carta reproduzida no Correio da Manhã que, embora dirigida ao Papa Francisco, que não terá sido enviada ao Vaticano.


Conforme a Agência Lusa, em 21 de abril de 2025, André Ventura citou João Paulo II: “Dizia um outro Papa, João Paulo II, a Europa é cristã, a sua matriz é cristã e não a devemos perder em nenhuma circunstância”. Segundo o DN o líder do partido disse que Francisco deixou a Igreja «diferente», mas não especificou se a Igreja melhorou ou piorou, contudo, afirmou que esta “tem de começar a ter mais posição de firmeza nas grandes lutas", nomeadamente “contra a cultura 'woke' e contra a sexualização das crianças”.


Regressemos agora à eleição do Papa Leão XIV e atentemos no que disse André Ventura aos jornalistas no concelho de Guimarães em declarações em que saudou a escolha do cardeal norte-americano Robert Francis Prevost como novo Papa, manifestando esperança, e achando que “é um nome que nos dá esperança de que no futuro possamos ter uma Igreja interventiva em áreas importantes”, e onde defendeu que é preciso uma “Igreja firme, forte em matéria de convicções, em todas as áreas, desde a espiritualidade, à imigração, ao acolhimento, ao combate à pobreza”, mas acrescenta que  espera que o novo Papa “seja um sinal de reforma para a Igreja” e «de doutrina»”. Será que para Ventura o combate à pobreza deve passar por acabar com o RSI-Rendimento Social de Inserção!


Referindo-se à imigração disse que há coisas que poderiam ser “poderia ser diferente”, como na “questão da imigração na Europa”.


Ao longo da história a religião serviu de alimento às almas e muitos políticos recorreram e ainda recorrem à retórica religiosa para construir pontes de identificação com os eleitores, criando uma sensação de esperança, pertencimento e reafirmação de valores compartilhados. Eles sabem que é um terreno poderoso e convincente para eleitores cuja fé os salva e se políticos estiverem desse lado então a convicção produz os efeitos desejados.  

sábado, 12 de novembro de 2022

Religião nas campanhas eleitorais: atitude e intenções dos candidatos

Religião nas eleições (2).png


Falemos de guerra, revoluções, levantamentos populares, manifestações, eleições e de religião. A longo de milénios a religião tem tido um papel importante na vida de milhões de seres humanos pois ela existe em todas as sociedades e é um elemento central da experiência humana que influencia o modo como se vê e reage ao meio que nos rodeia. Há evidências de que a religião interfere no mundo secular, nomeadamente na política.


Durante a Idade Média houve uma luta constante entre a Europa Cristã e os estados Muçulmanos que culminou com o crescimento do Ocidente nos séculos XVIII e XIX. A incapacidade do mundo muçulmano para resistir à expansão do Ocidente deu lugar a reformas para procurar restaurar a pureza do Islamismo para afirmação da sua identidade, o que originou as denominadas revoluções islâmicas pelas mais diversas formas embora em alguns casos até a repressão por governos teocráticos islâmicos para fazerem cumprir os preceitos religiosas como se tem verificado no Irão.


Há, e sempre houve, uma tensão entre o pensamento racionalista e a atitude religiosa. O desconhecimento e a falta de respostas científicas definitivas sobre a origem da vida, juntamente com a incapacidade das sociedades, na maior parte do Mundo, para resolverem problemas sociais prementes, e alguns até angustiantes, têm tido consequências que podem a vir a ficar num futuro próximo, se é que já não estão, fora de controle.  


A tristeza e a angústia da morte alimentam a ideia de fé que empurra emocionalmente as pessoas para a crença de uma vida após a morte onde a virtude é premiada e o mal castigado, mundos opostos que foram alimentados com a crença no divino.


A variedade de crenças e de organizações religiosas é enorme pelo que se torna difícil uma definição sociológica de religião que seja universalmente aceite. No contexto deste artigo o senso comum poderá ajudar à sua compreensão. No Ocidente as generalidades das pessoas identificam a religião com o Cristianismo que nos promete uma vida para além da morte. Contudo, estas crenças e muitos outros aspetos do Cristianismo estão ausentes na grande maioria das religiões do mundo. Por outro lado, nas principais religiões do mundo, existiram e existem agrupamentos e seitas com zelo dos seus crentes idêntico ao encontrado no Cristianismo. Grupos religiosos podem seguir o seu caminho sem se oporem necessariamente a outras organizações mais estabelecidas, como é o caso das inúmeras igrejas evangélicas.


Novas seitas e novos cultos estão constantemente a surgir como uma qualquer atividade negocial. As suas atividades, rituais e crenças tornam-se semelhantes e as cerimónias litúrgicas ajudam à criação do sentimento da qualidade da experiência religiosa.


Deve ainda salientar-se a importância do fundamentalismo religioso com o regresso literal aos textos das escrituras que emerge como resposta à modernização e à racionalização. Negando respostas sociais, refugia-se em respostas sociais assentes na fé defendendo a tradição, fugindo à secularização, isto é, à sujeição às leis civis, como acontece, por exemplo, com o fundamentalismo islâmico no Irão e Afeganistão e a opressão sobre o sexo feminino, porque a lei da “sharia”, lei islâmica, em parte é contrária aos direitos humanos e especialmente severa com as mulheres e meninas.


Os movimentos fundamentalistas surgem como resposta a uma crise económica generalizada, cultural, de identidade e de autoridade. Defendem a aplicação da «sharia» como único fundamento de organização da sociedade. Há duas correntes  fundamentalistas, os moderados e os radicais. Os primeiros mantêm pressão sobre os dirigentes para que estes provoquem a transformação da sociedade. Para os radicais não há compromissos com a atual sociedade e defendem por isso a rutura política e introduzem o conceito de revolução.


Manipular a religiosidade do povo e das suas crenças leva políticos a invocar o nome de Deus independentemente dos cultos e das liturgias que venerem. Vladimir Putin e os que o apoiam na injusta guerra invasiva da Ucrânia também tem a religião ao seu serviço.


O apoio por parte da Igreja Ortodoxa foi evidente quando as tropas de Vladimir Putin invadiram a Ucrânia e Kirill, o patriarca de Moscou da Igreja Ortodoxa Russa, não condenou as ações militares. Pelo contrário, abençoou as tropas russas e, até agora, não apelou a um cessar-fogo. Kirill o máximo representante da Igreja Ortodoxa Russa é um antigo aliado de Putin que, em 2012, chamou ao governo de Putin "milagre de Deus". O conceito de paz não tem qualquer valor para ele. O feriado por ele criado no dia 4 de novembro que diz ser o Dia da Unidade Nacional que também é o dia da glória militar da Rússia. É um feriado oficial no país. O feriado está associado à libertação de Moscou dos invasores poloneses em 1612 e simboliza a unidade nacional.


Manifesta-se uma espécie de simbiose entre alguns políticos e religiões tendo em vista a manipulação do povo ao serviço dos mais diversos interesses. Entra-se no domínio da relação e de participação da religião na política e reciprocamente. Uma evidência relativamente recente foi o caso que ocorreu nos EUA durante o mandato de Donald Trump que prometeu na campanha a revogação da “Emenda Johnson”, legislação que limita a capacidade de organizações religiosas isentas de impostos de apoiar ou opor-se a um candidato político que usou para apelar ao voto, com algum sucesso, dos eleitores evangélicos.


Já na presidência, Trump afirmou que "se livrou" da emenda e que as organizações religiosas eram livres para defender opiniões políticas na discussão pública. Mas, a “Emenda Johnson” ainda se encontra em vigor, apesar das repetidas afirmações contrárias de Trump e da promessa da sua revogação.  


O recurso às religiões maioritárias não se verificou apenas no Brasil na campanha para as eleições de novembro deste ano. Em 2016 durante a campanha eleitoral de Donald Trump verificou-se o mesmo quando o nome de Deus foi frequentemente proferido.Como se viu durante o mandato de Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil a palavra “Deus” em vários contextos era frequentemente utilizada nos seus comícios políticos. Na Europa estamos a testemunhar uma instrumentalização semelhante do cristianismo por políticas populistas de extrema-direita que utilizam o nome dado ao “Ser Supremo e Criador” para atrair os crentes para as suas “hostes” político-ideológicas.


 
   


Em Portugal André Ventura, do partido CHEGA, é o exemplo demonstrativo com as suas afirmações salvíficas no Tweet e com as suas intervenções públicas assumindo-se como o escolhido de Deus, o que caracteriza o discurso dos ditadores.


Religião e Ventura.png


Quando a religião é posta na bancada da disputa eleitoral e da contenda política são implícitos os riscos do messianismo político.


Éric Zemmour, político de extrema-direita francesa derrotado na eleição presidencial em 2022 que apresentou ao eleitorado um discurso xenófobo, misógino e revisionista exalta "o anjo que lidera o exército de anjos contra o dos demónios" usa símbolos histórico-políticos e religiosos. Não faz nada de novo, limita-se a assumir explicitamente os "valores cristãos" que diz defender.


Em Medjugorje, uma vila situada no Sul da Bósnia e Herzegovina, onde alegadamente ocorrem aparições da Virgem Maria, Salvini em março de 2020 expressou a sua devoção a Nossa Senhora de Medjugorje como o fez em várias ocasiões. Orban procura a Bíblia para afirmações com conotação e insistência religiosa: “Os ensinamentos de Deus levaram-nos a não ver uma mera coincidência ou capricho do destino no facto de que, aqui e agora, há um governo cristão de fé a liderar a Hungria”.


Os populistas de extrema-direita na Europa e em outros lugares procuram os símbolos, a linguagem e os rituais do cristianismo, para torná-lo uma defesa contra o estrangeiro e fortalecer o senso de identidade nacional do ocidente.


Seja Putin, Orban, Bolsonaro, Zemmour, Salvini ou Trump, são a evidência do mesmo apelo aos valores cristãos, a mesma exaltação duma herança que a Europa está a perder. Contudo, paradoxalmente, esses populistas que se proclamam defensores da tradição cristã encontraram em Roma o seu inimigo mais firme no coração deste cristianismo com o Papa Francisco. Os apelos do Vaticano e os valores cristãos pela voz do Papa não lhes chegam aos ouvidos.


O lema “Deus, Pátria, Família” ao qual alguns acrescentam abusivamente liberdade, são a evidência do salto, não muito longo, para a as tentativas de ligação da religião às políticas populistas autoritárias. Este slogan criado nos anos 30 ainda se mantém e é mencionado na atualidade tendo como finalidade o apelo à religiosidade do povo e às suas crenças.


O lema da trilogia "Deus, Pátria e Família" não foi, como se poderá supor, invenção da educação do Estado Novo como base do ensino escolar do tempo da ditadura. No Brasil já era usado pelo movimento Integralista Brasileiro em 1932 inspirado no fascismo italiano que tinha sido criado por Mussolini entre as décadas de 1920-1940. Estes movimentos de natureza fascista baseavam-se nos ideais do cristianismo (católico), unidade nacional (entenda-se não existência de vários partidos), corporativismo, combate ao liberalismo e ao socialismo. A religião ficava assim simbolizada pela palavra Deus todo-poderoso e soberano.


Ideologicamente a esquerda critica o slogan “Deus, Pátria, Família” que associa à ditadura. Salazar, para destruir o espírito partidário, planeou e organizou a instituição que é a União Nacional que, embora com intuídos políticos, era considerado, por alguns um partido político e por outros um partido único.  O seu fim político consistia em criar no País a atmosfera dita, indispensável, para uma alegada reforma necessária na política e nos costumes.  Para Salazar os partidos fizeram-se para servir clientelas, mas a União Nacional nunca seria um partido político por que teria a aspiração mais alta de “organizar a Nação” sobe o lema Deus, Pátria, Família.


Mas será que, por a ditadura de Salazar não aceitar o sistema pluripartidário, desvalorizar a democracia e assentar a política na chamada União Nacional, de partido único, haverá razoabilidade para em democracia se odiar aquele slogan para sempre. Cada qual poderá tirar as ilações que entender sobre os significado e carga política que são atribuídos ao slogan, contudo slogans podem ser aplicado de cordo com propósitos pretendidos.


O populismo da extrema-direita portuguesa, dando como exemplo o caso português do partido CHEGA, que se apropriou do mesmo lema do regime ditatorial salazarista parece também valorizar os valores e princípios salazarista e antidemocráticos com arrazoados tais como estar contra o sistema, manifestações xenófobas e racistas, nacionalismo extremado, anti europa, etc. Para André Ventura a ideia de que o seu partido é de extrema-direita é falsa com alegação estranha de que, se o fosse, “não teria a implantação que tem no Alentejo”.


Mas, o que é, para ele, ser antissistema e pretender ser "uma nova Direita antissistema"? Será opor-se ao sistema económico, político, democrático, etc., vigente? Será ser contra a ordem estabelecida? Então que sistema propõe? Será ser antissistema por oposição à democracia? (Ver várias intervenções de André Ventura do partido Chega). Será que ser antissistema é estar contra a democracia e contra tudo o que ela conseguiu e representa? Não temos respostas satisfatórias da sua parte e clamar “Deus, Pátria, Família” não ajuda.


Durante a última campanha eleitoral no Brasil, na disputa pela presidência entre Lula e Bolsonaro, algumas vezes se dirigiam às igrejas e seitas religiosas para a captação de votos. Bolsonaro apoiado pelas igrejas evangélicas e Lula também à igreja católica que fizeram entrar no confronto eleitoral.


Os apoiantes de Bolsonaro após o apuramento dos votos reagiram mal à derrota e fizeram a saudação nazi em frente a um quartel, onde pediam a intervenção militar e de mãos levantadas em posição de prece invocavam Deus numa que exorcização dos resultados.


Religião nas eleições2.png


Se estivermos atentos ao que se passa no mundo de hoje e sobretudo em em alguns países podemos facilmente constatar através das notícias e informações que nos chegam que as religiões ao intrometerem-se na política ficam cúmplices da potencial instabilidade social criada e da perturbação do exercício democrático que deveria ser pacífico.


A ligação das igrejas evangélicas a Bolsonaro foi várias vezes referida na imprensa brasileira durante a campanha eleitoral, mas a igreja católica, mais discreta, por meias palavras terá dado o seu apoio ao lado oposto. Assim, é possível que a campanha dentro das igrejas ou nas redes sociais direcionada aos fiéis evangélicos tenha tido um papel relevante nos resultados.   


Religião nas eleições3.png


De acordo com pesquisas de opinião a massa dos apoiantes de Bolsonaro terá sido composta por membros das igrejas e fiéis simpatizantes do mundo evangélico, como fonte de “apoio inabalável”. Note-se que segundo o último censo demográfico brasileiro de 2010, (último conhecido porque o prazo para a recolha de informações para o Censo 2022 foi prorrogado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística até ao início de dezembro), 64,63% diziam ser Católicos Apostólicos Romanos, Evangélicas 22,16% e Evangélicos de Origem Pentecostal 13,30% estas duas últimas obtinham um total de 35,46%.  


 Os cristãos das igrejas evangélica estão do lado oposto ao que seria previsto oporem-se que era o da violência, da morte e das armas. Com os olhos postos na política abandonaram o lema de “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, deixando-o para o passado.


Pastores e “influencers” nas redes sociais escreveram barbaridades como a de que Jesus andaria armado se precisasse, o que contraria o Evangelho segundo São João, (18:10,11): “Simão Pedro, que trazia uma espada, tirou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. Jesus, porém, ordenou a Pedro: Guarde a espada! Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu? ".


Parece começar a emergir a tentativa de associação entre religião, armas e política. Não é por acaso que ocorrem fenómenos político-religiosos de nacionalismo cristão que nasce como ideologia duma extrema-direita global, que se descola como movimento organizado do fascismo tradicional.


Um século depois, pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, o partido de extrema-direita, Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni, o mais votado em Itália que tem as suas raízes fincadas no fascismo também recuperou o lema que popularizou Mussolini "Deus, Pátria, Família". Parece que tudo se está a encaminhar para uma tempestade complexa que poderá ser difícil de parar.


 

sábado, 18 de setembro de 2021

Um refrão sobre o povo da nossa terra

Gente da minha terra-2.png


Este texto foi escrito em 2016, já lá vão exatamente cinco anos. Reli-o e continuo a considerá-lo atual pelo que resolvi publicá-lo novamente após uma curta revisão e inseri algumas atualizações até porque é tempo de eleições autárquicas em que o nosso povo é mais envolvido e motivado para ir às urnas para eleger o seu poder local. 


No entanto, devo alertar para generalizações que não se deverão fazer. A generalização sendo uma operação mental que consiste em comparar as qualidades comuns a uma classe de indivíduos, desprezando as suas diferenças e reunindo essas qualidades comuns numa só ideia, corre-se o risco de transformar premissas em extensões arbitrárias de valores e de avaliações menos corretas podendo incorrer-se numa falácia. As generalizações podem, imprudentemente, levar a retirar uma conclusão geral da análise de uma situação particular ou de situações particulares que não são representativas de todos os casos possíveis.



Dizer, por exemplo, que os portugueses têm uma determinada característica estaria a incluir também portugueses que poderão não a ter. Exemplo: Pedro é político e boa pessoa. Por isso, todos os políticos são boas pessoas. Também quando se diz que os portugueses são invejosos não quer dizer que os portugueses X, Y e Z o sejam.


Quando me refiro à gente do meu país ou da minha terra, eu e o leitor, poderemos, ou não, estar incluídos nos atributos referidos. Se for o caso, cada um que calce o que lhe sirva. Muitos escritores o fizeram sem apelo nem agravo atribuindo-lhes características que nem todos tinham.


Resta esclarecer, para que puristas de género não me venham acusar de “machista”, que as palavras que escrevi quando foram do género masculino referem-se também ao feminino, evitando os parênteses à frente para (o/os) e o (a/as). Neste contexto, os portugueses e a gente do meu país são todos independentemente do género.


Para finalizar que me desculpem também os adeptos de futebol pela crítica que faço aos comentários que muitas vezes se vêm e ouvem nas televisões, as críticas não se dirigem a eles, mas sim aos que as pronunciam estupidificando os espectadores.


Posto isto, relembro o refrão “Ó gente da minha terra” de um fado interpretado por Mariza entre outros cantores. Contrariamente ao que consta por aí não foi ela que o escreveu. O mérito deve-se à excecional interpretação. Esta canção tem música de Tiago Machado e poema de Amália Rodrigues e o refrão versa assim:


Ó gente da minha terra


Agora é que eu percebi,


Esta tristeza que trago


Foi de vós que recebi.


Inicio este “post” com esta quadra porque recordei autores como Eça de Queiroz e Guerra Junqueiro e outros tantos escritores e políticos que nas suas obras, cada um à sua maneira, traçaram perfis dos portugueses.


O povo português é muito acolhedor, sociável e hospitaleiro e recebe bem tudo quanto é estrangeiro e nos visita. Mostra, a seu modo, a sua subserviência disfarçada de hospitalidade. Genericamente é um povo que ajuda o seu próximo quando necessário, é solidário quando se trata de defesa dos interesses da sua comunidade em que se integra. Falsamente pacífico, introvertido apesar de alegre, preocupa-se mais com a vida dos outros do que em expor a sua. Há várias citações sobre os portugueses, algumas delas antagónicas.


Vejamos algumas dentre as várias personalidades do mundo da literatura e da política. Começo pelo Padre António Vieira, filósofo, escritor e orador português do século VIII que, numa das suas cartas escreveu: “Dizem que temos valor, mas que nos falta dinheiro e união; e todos nos prognosticam os fados que naturalmente se seguem destas infelizes premissas.”. Tem-se confirmado isto, os políticos que o digam.


Em 1997 António Lobo Antunes escrevia: “Eu gosto desta terra. Nós somos feios, pequenos, estúpidos, mas eu gosto disto.” Enfim, uma forma de nos olhar.


A gente do meu país tem uma incapacidade de autocrítica, tudo o que se faz de mal a culpa é sempre dos outros. Teve e tem a mania das grandezas. Fazer-se mais do que aquilo que é, é um dos seus atributos. Mostra aos outros aquilo que, na maior parte das vezes, não é.  A passividade e a falta de dinamismo são doenças sociais e crónicas que lhes foram inoculadas pela ditadura de Salazar que leva a nossa gente a ficar à espera que os problemas desapareçam. O "pai" Salazar e o clericalismo católico resolviam tudo menos a pobreza e a miséria, que a ambos interessava e estava patente nos seus discursos. "Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a pátria e a sua história. Não discutimos a autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a família e a sua moral. Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.". Pronunciava Salazar num discurso em 1936. "Ensinai aos vossos filhos o trabalho, ensinai às vossas filhas a modéstia, ensinai a todos a virtude da economia. E se não poderdes fazer deles santos, fazei ao menos deles cristãos."


A não ser na altura dos descobrimentos, salvo algumas exceções, a originalidade da gente do meu país é parca, imita o que vem de fora, às vezes nem sempre o melhor. Não valoriza aquilo que tem de bom. Busca no estrangeiro o que há de pior e que passa a chamar de novo conceito. Não procura o que o pode distinguir pela diferença.


Felizmente que já pós a revolução do 25 de Abril muitos portugueses e portuguesas distinguiram-se lá fora. Aliás, os portugueses que emigraram eram considerados muito bons trabalhadores. Mas, cá dentro o trabalho é bom para os outros.talvez resquícios do colonialismo. O aumento de direitos, regalias e de salários  estão na ordem do dia e, sempre que possível, a redução dos deveres.


Estão na moda há algum tempo os chamados novos conceitos, termo querido pelos que são escolhidos a dedo e que são chamados às televisões para perorarem sobre os seus negócios inovadores que, passados meses ou poucos anos, acabam por encerrar portas. Quase sempre estes inovadores não transportam a qualidade até quem se destina o produto ou serviço. Muito pelo contrário. Caso típico é o da restauração. Proliferam por aí restaurantezitos, os tais dos novos conceitos onde passaram a colocar toalhetes de papel ou de plástico “made in China” colocados sobre uma mesa de ripas de madeira, onde, por vezes, mal cabem o prato e os talheres que se dobram ao cortar o hambúrguer e onde as pessoas se sentam em pequenas cadeiras do mesmo tipo ripado ficando conforme os casos com parte do traseiro fora do assento. Mas o mais caricato é que alguns colocam no interior mesas altas com cadeiras que é preciso escalar para chegar à mesa para comer amostras de iguarias, a que chamam degustação, inventadas pelo chef.


Depois há a ementa. Sob a capa de gastronomia tradicional portuguesa mostram preços com poucas diferenças dos restaurantes clássicos decentes. Ementas enganadoras proliferam desde pataniscas de bacalhau com arroz de feijão que são farinha frita com o sabor do dito. Esparguete à bolonhesa com escassez de carne picada que se afoga no meio duma tomatada do tipo "Ketchup". Hambúrguer no prato com salada e batatas fritas identificadas pelo sabor como de proveniência das mais conceituadas indústrias de congelação alimentar, entre outras iguarias do género. Onde está o bom sabor tradicional da boa batata frita caseira que nas verdadeiras tascas se servia? Não está. É batata congelada frita ou pré-frita.


Os fãs dos novos "conceitos" gastronómicos destes insípidos locais a quem a critica faz publicidade. A esses locais “sem caráter” atribuem os seus inovadores proprietários nomes à antiga portuguesa que se iniciam por Tasca do…, ou da…, Taberna da…, ou do…, Mercado de…, ou da… Muitos deles pertencem a cadeias que proliferam pelas principais cidades do país. E lá vamos nós, a gente portuguesinha a correr para desfrutar do novo conceito do bem comer e bem servir. No entanto quem pensa diferente e emite outros juízos é de imediato apelidado de conservador de retrógrado que se recusa acompanhar o progresso, ou de um perfeito "cota" por não aderir aos tais novos "conceitos".


Mas não ficamos por aqui. Vamos agora à língua portuguesa. Recupero da minha memória Lauro António que tinha um programa de crítica de cinema na televisão. Para fazer a apresentação do excerto dum filme para divulgação apresentava a peça de lançamento que Herman José posteriormente parodiou numa das sua peças humorísticas dizendo a certa altura: “let´s look at a trailer”. Isto passou-se há umas dezenas de anos.


A riqueza da língua portuguesa é depauperada pelos “senhores da comunicação”, sobretudo da rádio, e por quem convidam, que usam e abusam de palavras inglesas para se exprimirem, produzindo com elas uma amálgama de frases das quais se perde o verdadeiro significado. O português não é uma língua falada por meia dúzia de pessoas, porra!


Se alguém quiser dar-se ao trabalho de analisar por exemplo de línguas como a francesa e a espanhola não encontrará palavras de origem anglo-saxónica no seu vocabulário mesmo em expressões científicas e técnicas. Para salvaguardar a sua língua procuram termos adequados para o mesmo conceito.


Sim, já sabemos que há uma linguagem científica que é internacional e que as comunicações em congressos e outros eventos, são feitos em inglês que é a língua oficial. A distinção é que, internamente, naqueles dois países procuram termos equivalente para o seu vocabulário.


Mas nós, a gente portuguesa, queremos parecer originais, dar nas vistas e temos a necessidade de internacionalização para se justificar a utilização da língua inglesa em Portugal. A internacionalização é lá para fora não é cá para dentro. Veja-se o caso de muitas universidades e outras instituições que, para se darem ares de internacionalização utilizam nas suas designações palavras inglesas: Nova School of Business and Economics; Católica Lisbon School of Business & Economics, entre outras.


Estamos a abdicar de um dos valores mais importante na nossa cultura, a língua. As televisões e os emissores de rádio dão uma ajuda para esta abdicação. A ânsia de ser “cool” é tal que usam e abusam de termos ingleses que muitos espetadores e ouvintes desses canais nem sabem o significado. São sumidades que falam para outras sumidades da modernidade bacoca.


Será que os linguistas portugueses não conseguirão encontrar termos adequados em português de palavras inglesas técnicas e específicas da linguagem científica? Estou em crer que sim. Mas, como somos portugueses gostamos de mostrar que estamos “in” e, de certo, modo mostrarmos a nossa subserviência, cedendo até na própria língua, perdendo aos poucos o pouco orgulho que ainda temos (exceção feita ao futebol). A nossa gente está a ser inconscientemente aculturada a vários níveis. A apropriação desses estrangeirismos está na moda, faz parte do parecer, e não do ser. Fica bem. Parece bem. É cool.


Vejamos apenas alguns termos que se encontram por aí na gíria da comunicação social: Stakeholder, Cool, Red Carpet, Roof, In, Out, Sunset, Skills, Frendly, Brunch, Players, Pack, Resort, Look, Fashion.


A partir destes termos amplamente utilizados podemos imaginar uma reportagem com uma locução como esta:


O sunset de hoje foi abrilhantado pela fashion e pelo look das personalidades na nossa vida social e artística que atravessaram a red carpet. O acontecimento cool foi posteriormente continuado com uma conferência sobre as possibilidades de negócio que tais eventos podem possibilitar e onde os players negociaram com outros stackeholders. Um dos intervenientes referiu as skills necessárias para o sucesso deste tipo de negócio.  O evento frendly foi organizado num conhecido Resort de luxo onde foi servido um brunch.


Cool, não acham?   


O fundador do PSD, Francisco Sá Carneiro disse em 1975 “Portugal precisa de apoio internacional generalizado e merece-o. Esse apoio, venha de onde vier, tem de respeitar a nossa independência e uma rigorosa não ingerência nos nossos assuntos.” O que vemos hoje é o contrário, sancionado pelo governo dos quatro anos de Passos Coelho. O desrespeito pela nossa independência também passa pela língua. Muita gente da nossa terra sustentou esta tese com o argumento de que quem empresta até nos pode matar se quiser, ainda que se cumpra o contrato. E há ainda quem aplauda teses como estas. Tudo o que é estrangeiro, mesmo que seja péssimo, é bom para a nossa gente. Tem que respeitar o estrangeiro mesmo que a faça padecer e humilhar. Até quando se discutiam as sanções a Portugal muita da nossa gente letrada sintonizava com europeus da união dizendo que regras são regras e devem ser cumpridas.


O vandalismo que infelizmente existe em toda parte em Portugal tem mais requinte. Nisso també temos que imitar e sermos ainda melhores. Tens um carro novo? Eu risco-o de uma ponta a outra. Para que serve uma floresta? Apenas para dar sombra e se é do vizinho rival ainda melhor, incendeia-se. O ramo da tua árvore incomoda-me, faz sombra na minha horta, se não o cortas deito-te a árvore a baixo. Há relatos especialmente a norte de homicídios devido à utilização de águas de um riacho. Um puxava a água e não deixava o outro regar. Não há negociação. Mata-se e pronto. As reservas naturais são anti progresso, não deixam que se construa. Incendeia-se e mata-se o bicho.


Somos um país de gente insana que provoca incêndios premeditados nas nossas florestas, loucos, alcoólicos, drogados, desempregados, dizem-nos nas televisões e como crédulos que somos acreditamos. Não há rede organizada mas atos isolados o que confirma a insanidade das gentes. Somos autores de espetáculos gratuitos para as televisões que vibram com tanta notícia.


Danificar com rabiscos, a que chamam "grafitis", paredes de edifícios públicos e outros,  faz parte do grupo da gente do vandalismo. Excluo daqui as pinturas que são um expressão artística urbana desde que escolhido o local certo. Esses que as fazem são outra gente.


A chamada mania das grandezas é outra nota que define a nossa gente e a que os sucessivos governos vão dando expressão, quer em tempo de abundância, quer em tempo de restrições, o chamado tempo das "vacas magras". Se uns fazem nós também temos que fazer, assim pensa a gente das autarquias. Quando há dinheiro esbanja-se em coisas de utilidade discutível para a comunidade local, depois vive-se na penúria.


Um caso histórico e paradigmático do passado é o Convento de Mafra, construção iniciada por D. João V com o ouro que vinha do Brasil. Homem fervorosamente católico, não está com meias medidas, e, para cumprimento duma promessa, caso obtivesse sucessão do seu casamento com a rainha D. Maria Ana de Áustria manda construir um convento gigantesco. Alto e importante desígnio nacional. E, a gente da nossa terra, vivendo na miséria, aplaudia com o apoio clerical. Maior convento não haveria no mundo, diziam.


O sentimento que se tem pela prosperidade e pelo desejo de possuir o que outros possuem faz parte e é característico da gente da minha terra. Tu tens? Eu invejo. Tu compras? Eu também. Tu viajas? Eu também. Se possível melhor, mesmo que isso me custe os olhos da cara e me endivide.


A gente do interior, fechada sobre si e pouco comunicativa, quando algum afoito intrometido tenta conversa refugia-se no estado do tempo. É a conversa da treta sem sentido cujo diálogo é quase sempre o mesmo. Veja-se este exemplo:


- Bom dia D. Zulmira! Então está a regar a suas couves?


- Pois é. Tem que ser.


- O tempo não tem estado nada bom. Tem sido uma desgraça para as alfaces.


- Tenha fé senhora. Deus há de ajudar.


- Olhe, nem queira saber! Tinha lá um feijão verde "sameado" estragou-se-me todo. Com isto assim não sei onde vamos parar.


- Tudo isto é uma calamidade e o governo não faz nada…


A gente da agricultura apresenta sempre a mesma escusa. No inverno é frio e a chuva e no verão é o calor e a seca. Basta escutar nos locais do interior a conversa entre vizinhos e conhecidos. Virgílio Ferreira tinha razão quando disse que "Frente a uma situação difícil, o Português opta pela espera de um milagre ou pela descompressão de uma anedota. O grave disto é que o milagre não vem e a anedota descomprime de tudo. Ficamos assim à mercê do azar e nem restos de razão para mexer um dedo". 


Face a algo imprevisto ou revés não é raro ver por esse país a mobilização de multidões, motivadas pela religião, em procissões de agradecimento aos mais diversos santinhos e santinhas de qualquer coisa ou lugar, e há mais do que muitos, pelo bem com que os agraciou ou pelo mal ter passado, não importa como aconteceu. Agradece-se pelo que aconteceu, ou pelo que parou de acontecer ou roga-se para que não volte a acontecer e aconteça o que ainda pode acontecer. Depois regressa-se a casa.


É o efeito da religiosidade da gente que vive obcecada com o divino que tudo resolve e a quem tudo é devido. A gente da minha terra faz manifestações e revolta-se quando um pároco é substituído, mas permanece queda a tudo o resto, mesmo ao que possa prejudicar ou mudar a sua vida ou a da comunidade. Facilmente manipulada por outras gentes lá se vai manifestando, de vez em quando, contra algo que não está bem, sobretudo quando descontente com o partido que ganhou ou não gosta dum primeiro-ministro pelos mais disparatados motivos.


E aqui a gente da minha terra divide-se entre o norte e o sul do rio Tejo. A norte o conservadorismo bacoco gerado pela ignorância. É como se um certo tipo de gene tivesse marcado a gente por sessenta anos de mentalização de Salazar que deu os seus frutos e se tem propagado através das gerações. A sul a gente é mais afoita e sem medo e também conservadora mas em sentido oposto porque aí a religião conta menos. São os "mouros" como lhe chamam os do norte. Não se deixam conduzir por homilias com matizes de política disfarçada.


As gentes de Portugal não gostam de discutir o papel da religião dominante, deveria dizer antes clericalismo dominante aceitando acriticamente a sua moralidade hipócrita. Seguem a preceito o postulado de Salazar "Portugal nasceu à sombra da Igreja e a religião católica foi desde o começo o elemento formativo da alma da nação e o traço dominante do carácter do povo português".


Somos ainda uma gente de fé que peregrina e cumpre promessas por graças que lhe foram concedidas por santos milagreiros. Locais de peregrinação são casos paradigmáticos onde se vão cumprir promessas de graças julgadas concedidas e fazer pedidos para aquilo que os Homens não lhes podem dar.


Somos uma gente maioritariamente cristã e crédula a quem é prometido o céu e acredita nos pregadores dos ofícios religiosos quando lhe dizem que as desigualdades sociais não têm importância na nossa curta vida, são condições de provação que serão compensadas na vida eterna. Assim é alimentado o espírito das mentes ingénuas e boas das gentes deste Portugal.


Em fevereiro de 1878 Eça de Queiroz em Cartas a Joaquim Araújo escrevia que “(...) o povo em Portugal, nas províncias, não é católico - é padrista: que sabe ele da moral do cristianismo? da teologia? do ultramontanismo (partidário da autoridade absoluta do papa) ? Sabe do santo de barro que tem em casa, e do cura que está na igreja."


Em 2012 a revista Sábado publicou uma crónica "Nós, os Portugueses" onde caracterizava a gente portuguesa escrevendo a certa altura: "Como se pode caracterizar, ainda que de maneira genérica, o povo português? Somos atenciosos, cordiais, flexíveis, facilmente nos moldamos à cultura do interlocutor e dialogamos, sem reservas, sobre diversos temas de forma animada. Contudo, e ainda que possamos achar uma certa piada às graças sobre os atrasos sistemáticos, para encontros, ou sobre o não cumprimento de prazos, apreciamos que os nossos “brandos e bons costumes” sejam respeitados!".


A arrogância e superioridade da nossa gente, quando em contacto com povos de outras culturas africanas e orientais, é notório pelo tratamento “por tu” sem que haja qualquer justificação de proximidade. É uma espécie de mostra de superioridade face ao seu interlocutor de outra cultura ou de outra cor de pele. Mas, cuspir para o chão e deitar objetos no espaço por onde passa ou frequenta que atingem o auge em momentos de concentração popular são reveladores da sua "superioridade".


Há outra gente, que frequenta meios cujas revistas cor-de-rosa se encarregam de divulgar. A gente do meu país, especialmente  a das grandes cidades, não passa sem a sua dose de cultura. Telenovelas, "Reality Shows” tais como “Big Brother”, "Quinta das celebridades", "Love on Top" e outras rasquices televisivas semelhantes, fazem parte das suas preferências culturais. A estas ainda se incluem a leitura de revistas cor-de-rosa que pode ser comprovado pelo número das tiragens semanais e onde proliferam fotografias de colunáveis a que se atribuem nomes de boa origem inglesa como "socialites", que passou a ser incorporado na língua portuguesa, tal e qual, jet set e outras piroseiras, misturadas com outras gentes que deixam devassar a sua vida privada.


Milhares das nossas gentes frequentam redes sociais, especialmente o Instagram, onde se expõem de corpo e alma, sobretudo de corpo,  para recolherem muitos "likes"  de seguidores(as) que os levarão ao êxtase da visibilidade e exposição.


O voyeurismo da vida dos outros vende, aliena, leva ao consumismo por imitação. Gente anónima, que quer mostrtar que existe, mas sobretudo, atores de telenovela e outros como futebolistas, treinadores, apresentadores de TV, políticos, banqueiros, cozinheiros (a quem agora se passou a chamar "chefs"), empresários de renome, ilustres desconhecidos (as) catapultados (as) pelo atrelar a outros (as) já bem conhecidos (as), sem profissão e por aí adiante, são vasculhados e expõem-se, deixam revelar a sua vida, a sua intimidade familiar, fazem poses frente às câmaras para fotografias que sabem sairão nas próximas edições. Passam a ser referências, exemplos modistas para quem compra e lê essas revistas e vê programas televisivos do género.


Nada escapa ao vasculho. Uns põem-se a jeito, outros para se tornarem popularuchos porque, quem não aparece esquece como diz a nossa gente. Reis e rainhas, príncipes e princesas, condes e condessas todos são servidos de bandeja à gente ávida de escândalos e conhecimento do modo de vida de tais nobres figuras. A vida dessa outra gente é o que interessa. Casamentos, trajes, divórcios, nascimentos, batizados, aniversários, festas, discotecas são essenciais são o pão para a alma.


É o mundo que tem material para os cronistas da vida mundana cuja pobreza e vazio intelectual são evidentes para quem os vê e escuta, com o distanciamento necessário, em alguns programas televisivos. Essa gente comentadora é colocada à frente das câmaras para abordar temas sérios com uma frivolidade confrangedora. Não é por acaso que programas de qualidade duvidosa têm as audiências que têm. É o mundo da outra gente, que a nossa gente ajuda a viver. Os canais de televisão oferecem conteúdos que as gentes gostam de ver. Dá à gente o que ela quer. Cabe aqui a pergunta que é de saber quem surgiu primeiro, se o ovo ou a galinha, no sentido de saber se não terão sido criados certos “apetites” que depois são exigidos como ofertas. Dar a provar para gerar necessidade.


Fertiliza-lhes a imaginação, ajuda-os a sonhar com uma vida a que nunca terão acesso. Ficam-se pelo sonho. E sonhar é bom. Fazem-lhe esquecer e alienar-se do que é importante. Mas a realidade é inexorável, e volta sempre, mas não constatam que é nela, e por ela, que devem lutar


De norte a sul as gentes do meu país adoram futebol. Sofrem, vibram, participam de forma passiva uns, mais ativamente e furiosamente outros. Deslocam-se atrás do seu clube para onde quer que vá. São desportistas do passeio que transforma o espírito desportivo, que deveria ser pacífico, numa atividade grupal insana e de rivalidades permanentes. E, mais uma vez, as televisões ajudam com debates intermináveis onde os participantes gritam, ofendem-se mutuamente, insultam-se, mexem-se convulsivamente nas cadeiras, gesticulam. Sei lá? E isto tudo tem audiências. É o que importa afinal. Captar audiências à custa da confusão que desinforma, mais do que informa.


Os senhores da bola são gente que se dão ares de especialistas e que acha que o futebol também é uma ciência com estatuto e linguagem própria. Vê-se pelas declarações futebolísticas que são duma pobreza confrangedora. Usam uma linguagem composta por palavras que juntas nada dizem de objetivo. São os intelectuais da bola.


Vejamos alguns vídeos:  


 



 


Retira-se que:


Sim… foi um bom jogo… Para mim e para a equipa… Chegou-se a um resultado positivo… Que era a vitória. Vamos festejar esta vitória e pensar no próximo jogo. É sempre importante conseguir as vitórias…


 


Pois claro. digo eu!... O óbvio


 



 


Dedicatórias, vitórias do grupo da união e do trabalho… O jogo já é história, temos que pensar é no próximo…


Frase profunda do comentador


… compreensão que temos que fazer do adversário…


Alta psicologia.


Parabéns a todos…


Que mais se poderia dizer?


Não tenho nada a apontar aos meus jogadores. Fizemos tudo para superar os cinco jogadores… Por várias vezes superámos quatro, por várias vezes superámos três, nunca conseguimos ultrapassar os cinco, mas… foi profundamente ingrato…


 



 


Filosofia da melhor.


 


 …jogo tradicionalmente difícil e tornou-se na realidade difícil… porque  (?) uma boa equipa, uma equipa que nas últimas quatro jornadas teve três vitórias, uma equipa que se bate muito bem… nunca desiste e via à procura do resultado… mas acabou por ganhar na minha perspetiva a melhor equipa… tivemos as melhores oportunidades, podíamos ter feito um pouco mais cedo… era um campo que tínhamos que vencer e que era uma jornada importante…


Do mal, o menos, em futebol o que mais se poderá dizer? Nada… E o resto é o vazio…


O seguinte vídeo mostra de facto a elegância e a fluidez verbal da terminologia futebolística.


 



 


É disto que a gente do meu país, amante do futebol, gosta. Por isso o futebol merece um pouco mais de desenvolvimento. Tendo pretensões a mostra que há uma ciência futebolística, já que não o é pelo discurso pelo menos tenta pelos métodos. Assim, fazem estatísticas com dados ao segundo de golos marcados e por marcar, lances, remates à baliza por jogador, cartões amarelos e vermelhos dos jogos, lesões por jogador, resumos semanais, mensais e até anuais, comparações que não conduzem a resultado nenhum, nem contribuem para nada a não ser demonstrar o indemonstrável. E, na época seguinte, nada se avançou repete-se mais ou menos o que se disse na época anterior, até à exaustão da paciência da outra parte de nossa gente que não vai em cantigas de futebol enquanto tema de discussão.


Não há técnica, nem estatísticas nem o que quer que inventem para prever quem ganha ou perde jogos, se assim fosse todos os especialistas ganhavam o totobola. Os jogos ganham-se com as pernas dos jogadores e uma bola a saltar dum lado para o outro até que haja uma abertura para ela entrar no retângulo duma das balizas. Certezas nunca há. Os inquisidores futebolísticos, porque há uma inquisição futebolística, escusam de culpabilizar treinadores e jogadores lançando-os na próxima oportunidade à fogueira da opinião pública dos adeptos e clubistas. É o que muitas vezes se verifica quando um clube perde um jogo e, sobretudo, se for um campeonato.


É um fenómeno mundial, dizem sociólogos. Pois é, não é por acaso. Não veem que tudo isto é, em todo o mundo, um negócio de milhões para alguns. O futebol deixou de ser um desporto de competição para ser um mercado e um negócio que a nossa gente e outras gentes alegremente acarinham. Se a isto juntarmos ainda os furiosos gangues de adeptos que se auto denominam claques, apadrinhadas pelos clubes, que utilizam a violência gratuita uns contra os outros e contra outros cidadãos com intuitos desmoralizadores sobre as equipas adversárias temos um perfeito caldo de cultura.


Para além do futebol há o delírio dos concertos e dos festivais que começaram a proliferar por aí, especialmente durante os meses de verão, e tão do agrado especialmente da nossa gente jovem mais urbana cujos ascendentes fugiram há muito do interior para as grandes cidades para mudar da vida.


É o delírio. Todos os lugares querem ter visibilidade e a melhor forma é um festival "rock". As televisões ajudarão à promoção. São autênticas migrações de jovens deslocando-se de norte a sul para verem os seus ídolos. As entradas são caras, sem contar com deslocações, estadia e alimentação, mas os euros aparecem sempre. Para as contas do país da nossa gente é que é o problema porque, o caché pago funciona como importações o que vai ajudar ao desequilíbrio da balança comercial. São milhões de euros. Mas que importa isso. Quem promove e organiza festivais sabe que é dinheiro em caixa e daí a proliferação deste tipo de negócio. É bom porque movimenta as economias locais, mas muito melhor é para quem os organiza. Até a “Festa do Avante” para atrair a gente jovem convida grupos "rock". Ainda bem!


Mais uma vez nos dizem que não é só cá. Lá fora, no estrangeiro, e o mesmo. Pois é, mas também nos dizem que somos uma país pobre e que temos que pagar com juros os milhares de milhões que a troika nos emprestou por termos gasto acima das possibilidades. Afinal quem paga tudo isto?


Na política os jovens filhos da nossa gente ingressam pelas juventudes partidárias. Gente jovem a quem a educação para os valores não lhes foi transmitida nem incutida que quer obter o sucesso a qualquer preço. Valem-se da intriga, da mentira, denegrindo pessoas… pegam na política do vale tudo, do desdém pelo próximo que colocam ao serviço da política filiando-se num partido que os possa catapultar para lugares onde possam viver à custa do erário público.


Mesquinhez, inveja, egoísmo, mexeriquice, passividade, iliteracia, conservadorismo a vários níveis, desprezo pelos bens de terceiros, desprezo pelo nosso património cultural e florestal, dar importância ao parecer, mais do que ao ser, etc., etc..


Mas nada disto é recente, pois Guerra Junqueiro dizia em 1896 que somos "Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (...)


A imbecilidade reproduz-se ao longo dos anos e neste século XXI mantém-se, emerge sempre que uma oportunidade surge. O facto novo que confirma a dose de estupidez que agora começou a percorrer a nossa gente urbana são as manifestações negacionistas. Grupelhos de gente do meu país, manipulada pelas redes sociais, que rejeita hoje as recomendações resultantes da investigação  científica sobre vacinação e alterações climáticas agitam-se com teorias da conspiração e pós-verdades ficando-se pelo domínio da estupidez demonstrada em manifestações de ódio, rebeldes, agressivas e sem nexo. 


É a gente do meu país!



 


 


 


 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O simbólico na política

Política e religião.png


Deus e o Diabo passaram a ser moda na política, sobretudo para alguns políticos com grandes responsabilidades para com os seus países que aproveitam a fé e as crenças das populações utilizando o nome de Deus em vão. Pretendem fazê-las acreditar que a sua eleição, consequentes procedimentos e condutas foram e serão emanadas da vontade de Deus, símbolo da Divindade principalmente pai, juiz, todo-poderoso e soberano.


Também nas monarquias absolutas (absolutismo) as correntes da teoria política faziam acreditar ao povo na doutrina do Direito Divino dos Reis, que defende que a autoridade do governante emana diretamente de Deus, e que não podem ser depostos a não ser por Deus.


Raramente referem o Diabo também conhecido por demónio, é o símbolo do malvado e simboliza todas as forças que perturbam, ensombram, enfraquecem a consciência e a fazem virar-se para o indeterminado.  O seu papel é, segundo a mitologia judaico-cristã, o de despojar o Homem da graça de Deus para o submeter ao seu próprio domínio.


Em Portugal o Diabo estreou-se na política com Passos Coelho a dizer que ele, o diabo, vinha aí aquando do acordo parlamentar do PS como o PCP e o BE. Passos Coelho, aos despedir-se dos deputados do PSD, numa mensagem catastrófica disse-lhes que “Gozem bem as férias que em Setembro vem aí o Diabo”.


Há poucos dias ouvimos António Costa a recuperar o Diabo e a dizer que a: extrema-direita ataca Europa para "reeditar todos os diabos”. Diabo, aqui no sentido alegórico sobre o desentendimento no passado entre as nações europeias que culminaram em guerras.


Bolsonaro no Brasil invocou várias vezes o nome de Deus durante a campanha eleitoral e na tomada de posse. Aproveitou a boleia das seitas evangélicas que utilizam a religião mais para fins lucrativos do que para elevação dos espíritos, e por lá foi dizendo que : "Também quero agradecer a Deus por esta missão, porque o Brasil está numa situação um tanto complicada, com uma crise ética, moral e económica, tenho certeza de que não sou o mais capaz, mas Deus capacita os eleitos", isto é, não é o “mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos”.   Depois de ter sido eleito Jair Bolsonaro foi a um culto na Assembleia de Deus Vitória em Cristo do pastor evangélico Silas Malafaia, que o apoiou na campanha e celebrou o seu casamento com Michelle Bolsonaro.


Recentemente Donald Trump em 18 de fevereiro de 2018 no twitter “O lema da nossa nação é em Deus que confiamos”. Donald Trump disse à CNN a Jake Tapper que "tem um ótimo relacionamento com Deus" e com os evangélicos. Isto foi em 12 de janeiro de 2016. Por sua vez, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, disse em  12 de maio 2018 que "a fé na América está voltando a crescer" - graças ao presidente Donald Trump.


Os políticos ao incluírem Deus nos seus discursos sabem que as crenças religiosas têm ainda muita força na consciência das pessoas e que são fatores que ainda atraem eleitores menos esclarecidos. Quando os políticos, incorporam conceitos religiosos, independentemente de estarem a testemunhar as suas convicções e sentimentos religiosos pode ser que estejam também a utilizar a religião como uma instrumentalização para reforçarem um discurso de legitimação. Isso porque a religião, pelo facto de ser um elemento constitutivo da cultura de um povo, tem poder de persuasão.


 Na Venezuela temos em presença Deus e o Diabo em luta pelo poder, não literalmente, está claro. A oposição a Maduro liderada por Juan Guaidó, que se autoproclamou Presidente interino, declarou, perante uma concentração de milhares de pessoas, no leste de Caracas: " Hoje, 23 de janeiro, na minha condição de presidente da Assembleia Nacional e perante Deus todo-poderoso e a Constituição, juro assumir as competências do executivo nacional, como Presidente Encarregado da Venezuela, para conseguir o fim da usurpação da Presidência da República, um Governo de transição e eleições livres",


O BE não fala de Deus nem do Diabo, mas quer tudo e mais alguma coisa que só Deus conseguiria dar. O BE quer tudo e mais alguma coisa, mas também não quer. Quer aumentos salarias para toda a função pública, quer a contabilização de toda a carreira para os professores, quer enfermeiros sejam ouvidos e que o Governo ceda a todas a reivindicações. Quer cobrar mais impostos às empresas e às empresas como se já não bastasse o sugadouro do Estado que depois vai para as reivindicações muitas vezes irrealistas da função pública exigida pelos sindicatos. Quer mais saúde, isso todos queremos, enfim, quer tudo, mas não quer tudo. É também contra a “U.E. da austeridade”, não sabemos é se quer outra, é contra os EUA…


Quanto à Venezuela, O BE se por um lado, não quer que Portugal reconheça Juan Guaidó na Venezuela, por outro, também não quer Maduro. Quer defender uma mediação internacional para eleições livres, mas não diz que mediação. Será a dos EUA, da ONU, de Cuba, da China, da Rússia? De todos ao mesmo tempo? Parece que por aqui Deus e o Diabo andam de mãos dadas.


Por último há ainda o oportunismo direitista daquele execrável e tendencioso programa de José Eduardo Moniz na TVI, “Deus e O Diabo” porque chama muito pelo Diabo e muito pouco por Deus. Por isso dizem muitas seitas religiosas que o diabo está em todos o lado causando toda a espécie de mal. Nesse contexto o diabo torna-se ferramenta do poder das Igrejas católicas e evangélicas e do Estado, o diabo adquire consistência explicativo da realidade quando as pessoas não conseguem encarar e superar as dificuldades.


 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Quando o sagrado profana a política ou Cristianismo tóxico

Religião e política.png


Política e religião parecem ter-se apropriado gradual e reciprocamente uma da outra. As exposições de doutrinação religiosa e sermões feitos pelos clérigos católicos durante as chamadas homilias não raras vezes têm conotações político-ideológicas em combinação com a preleção que deveria ser da serventia religiosa.


Alguns políticos têm-se apropriado da religião e invocam o nome de Deus nos seus discursos políticos como indutores para convencimento político assim como os discursos e preleções de âmbito religioso e de fé cujo lugar é no recolhimento das cerimónias religiosas apropriam-se das narrativas próximas das de partidos políticos para o mesmo efeito.


Veja-se dois exemplos dos mais evidentes nos discursos de Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil.


Donald Trump no discurso inaugural do 45º presidente dos EUA a 20 de janeiro de 2017 teve várias alusões à religião e a Deus estas são apenas algumas que podem confirmar aqui no site da Casa Branca: A Bíblia diz-nos: “quão bom e agradável é quando o povo de Deus vive unido em unidade”. “Seremos protegidos pelos grandes homens e mulheres de nossos militares e policiais e, mais importante, somos protegidos por Deus”. E, “sim, juntos, vamos tornar a América ótima novamente. Obrigado, Deus te abençoe, e Deus abençoe a América.”. Ainda noutro momento, na conferência da CPAC - Conservative Political Action Conference em fevereiro de 2018 além de várias referências a Deus no mesmo discurso disse “Na América, não adoramos o governo, adoramos a Deus”  o que também pode ver aqui.


Bolsonaro, quando da eleição de Donald Trump, apercebeu-se logo do peso das muitas igrejas evangélicas. Jair Bolsonaro verificou que esse peso poderia ser ainda mais claro, e recorre a uma semântica que tende a anular a laicidade do Estado.  Vimos na televisão quando ele ganhou as eleições e logo que foi anunciado como tendo sido o candidato eleito fez uma oração de agradecimento acompanhado com naturalidade por um pastor evangélico que muitos consideraram como causa de preocupação. E termina com "Brasil acima de tudo e Deus acima de todos".


Mais recentemente, no discurso na tomada de posse de Bolsonaro verificamos que citou “Deus” 12 vezes. Jair Bolsonaro ao ser empossado deixou claro que há uma preocupação inédita em demonstrar a sua fé em Deus.


Bolsonaro falou em “Deus” 12 vezes. Já “ideologia” e variantes foram mencionadas nove vezes, sempre no sentido negativo. O terceiro termo mais usado foi “família”. Enunciar tantas vezes palavras e assuntos de cariz religioso num estado que, segundo a Constituição, é um Estado laico é de facto, preocupante.


É um Cristianismo tóxico.


Em Portugal dá-se o inverso, também preocupante, em que clérigos com responsabilidades hierárquicas na igreja católica se reservam o direito de, abertamente, fazerem política, genérica, mas sugestiva, nas intervenções durante cerimónias que deveriam ser meramente religiosas, assim como seria também preocupante um político falar sobre sua fé num qualquer comício ou intervenção pública. Púlpito e palanque deveriam estar distantes.


Refiro-me à homília do bispo auxiliar de Braga D. Nuno Almeida que mais pareceu ser um discurso cujas palavras parecem já termos ouvido vindo de um qualquer partido político da oposição de direita, como por exemplo esta afirmação em que houve claramente uma tentativa para influenciar o sentido do voto sem mencionar nomes ou partidos: “Não nos deixemos seduzir com a propaganda política profissionalmente orientada, mas balofa e a fingir; não permitamos que alguns euros a mais na reforma ou no salário comprem as nossas convicções profundas”.


Uma breve análise do conteúdo desta afirmação sugere algumas questões:  a quem se está a referir D. Nuno quando fala de “propaganda política profissionalmente orientada, mas balofa e a fingir”? Não será, com certeza, referência à direita porque esta tem feito oposição ao Governo com argumentação idêntica.  D. Nuno deixa recados aos fiéis para o tempo eleitoral que se aproxima.


O Bispo auxiliar de Braga não está preocupado com o que se passa no seio clerical da igreja com a pedofilia e de outros crimes que levou o Cardeal brasileiro a denunciar a complacência do Vaticano,  devido ao encobrimento pela Igreja de padre que abusou sexualmente dos filhos, a dizer que “Tenho a impressão de que as denúncias de abusos vão aumentar, porque estamos apenas no começo. Estamos a esconder isso há 70 anos, o que foi um grande erro". Podemos de facto afirmar como ele o fez, quando afirma que “corremos o de deixar a política em algumas mãos muito sujas”, assim sendo poderíamos então afirmar que também corremos o risco de a igreja estar entregue, de facto, a mãos também elas muito sujas. Digo isto com amargura por ser católico, mas desconfiar do clero que gere a igreja, apesar de o Papa Francisco ser uma personalidade ímpar que aponta para o caminho do Evangelho com enorme esforço e luta contra o conservadorismo obsoleto de alguns nomeadamente em Portugal.   


O bispo auxiliar D. Nuno Almeida não se preocupa com a corrupção na igreja (que também pode ver aqui ou aqui) que o Sumo Pontífice a admitiu, numa conversa com superiores de ordens religiosas publicada na íntegra na revista "Civiltà Católica". Não, com isso, o senhor Bispo Auxiliar não se preocupa em denunciar. Preocupa-se, isso sim, em fazer uma amálgama entre política e religião.


Numa passagem do Novo Testamento, Evangelho segundo São Mateus, 22,16 [1], os fariseus dirigem-se ao Mestre acompanhados pelos seus discípulos e dizem-lhe: “…Mestre sabemos que que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não olhas à condição das pessoas. Diz-nos, portanto, o teu parecer: É lícito ou não pagar o imposto a César?… Mas Jesus, conhecendo-lhes a malícia, retorquiu: porque me tentais, hipócritas?... e mais à frente diz: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.  Por analogia posso então dizer que “Dai, pois, à religião o que é da religião e à política o que é da política”.


Aliás, o que vemos hoje no século XXI, embora em doses mais subtis, não é novidade dado que a separação de poderes laico e religioso, isto é, Igreja e Estado, é mais aparente do que real. E criticamos nós países como o Irão que são repúblicas teocráticas, nas quais os vários poderes são supervisionados por um corpo de clérigos.


Mais uma vez temos um Cristianismo tóxico.


Podem fazer-se as leituras que cada um entender sobre a homília de D. Nuno, mas esta é a minha, porque não tenho que ser politicamente correto e apesar de saber que, quem se mete com a Igreja leva.


 


 


 


[1] Bíblia Sagrada, Difusora Bíblica, Fátima, maio 2010, p.1606

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Sob a capa da proteção

ContratosdeAssociação_Igreja.pngA comunidade clerical da igreja católica quando as coisas não lhe correm de feição intromete-se diretamente na política. Neste registo, o cardeal patriarca e os bispos resolveram interferir apoiando a manifestação organizada pela minoria de colégios privados que, segundo a lei, vão perder contratos de associação deixando assim de “sacar” o dinheiro dos contribuintes para manter privilégios de alguns alunos.


Acreditando nos números de pessoas que foram divulgados e estiveram envolvidas na manifestação até parece que todos os colégios participaram. Pensando melhor, e sabendo que há milhares de colégios privados espalhados pelo país, uma minoria tinha contratos de associação e que uns poucos deixaram de o ter pergunta-se donde vieram tantos milhares para o dito protesto sob a proteção dos bispos? A resposta é simples: as maiorias dos “protestantes” que foram mobilizados nada tiveram a ver com as escolas porque, se assim fosse, as ditas escolas privilegiadas que perderam contratos de associação resumiam-se apenas a algumas centenas contando com professores, pais e alunos. Podemos até imaginar as homilias mobilizadoras que, terão sido feitas propagandeando e mobilizando esta operação de ilusionismo. Muitos terão sido recrutados em algumas juventudes partidárias de direita.


A igreja católica é a comunidade dos fiéis da religião católica e os clérigos também a integram, mas estes zelam mais pelo interesse dos seu grupo do que pelo da comunidade, rebanho que dizem apascentar.


Durante o Governo anterior, perante o desastre social que provocou, não vimos a mesma veemência por parte dos clérigos, nomeadamente dos bispos. Antes pelo contrário. Perante os factos deitavam “água na fervura”. Zelam mais pelos interesses que lhes possa trazer, e aos seus satélites laicos, alguns benefícios financeiros às custas da caridadezinha que a tantos estimula o ego.


Não, não sou antirreligioso, nem anticatólico, porque sou um deles, sou antes contra uma mentalidade clerical egocêntrica, egoísta, hipócrita, interesseira da hierarquia da igreja que olha apenas para si e disfarça estes adjetivos com uma falsa caridade e interesse pelo próximo.


Apesar de tudo devemos reconhecer que a igreja católica, enquanto comunidade religiosa, tem prestado contributos em apoios socialmente importantes.  Mas num rebanho há sempre ovelhas ranhosas.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Injustiçado ou perda da razão



 


 



"Esta crise é uma oportunidade de bondade,


de caridade, de solidariedade. Bendita crise 


que nos trouxe ao essencial."


César da Neves


 


 




 


Esta vítima da injustiça humana só pode ter perdido a razão…


Agora passarei a ser mais um inimigo que o condena não à morte, mas à tolice mórbida.


 


César das Neves entrou num estado de espírito que é dominado pelas emoções ou pelos sentidos com perda da noção da realidade circundante, quero dizer, entrou em êxtase. Para o confirmar basta ler o arquivo que escreveu no Diário de Notícias no dia 18 de novembro.


O que este senhor amigo dos pobres, como se pode confirmar pela sua entrevista à TSF no dia 17 de novembro é um pregador, qual bispo da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) que foi predestinado para pregar a redenção das almas pecadoras, qual profeta enviado do reino de Deus se vê cruxificado.


Num dia afirma que "obrigar empregadores a pagar mais pelo trabalho é dificultar a vida aos desempregados com menores habilitações.". Aqui está uma subtil forma de colocar uns contra outros. Pois… Vejamos a ideia: vale mais ter menos ordenado e ter trabalho do que aumentar o ordenado mínimo porque beneficia os têm mais qualificações. Portanto… Tirem as conclusões que cada um quiser. Anda contra a corrente, inclusivamente dos parceiros sociais e da OIT (Organização Mundial do Trabalho) esta que apresentou um relatório onde aborda aquela e outras questões sobre o trabalho.


Se tinha dúvidas agora deixei de as ter, César das Neves é o eleito, e um mandatário de alguns setores do PSD e do governo para dizer aquilo que não podem ou não querem dizer publicamente.


 


Logo no dia seguinte uma explosão de confirmação do seu credo e profissão de fé (talvez para agradar ao D. Policarpo ex-cardeal de Lisboa). César das Neves considera-se o eleito pelo qual Deus, por Jesus Cristo, morreu para o salvar a ele, a vítima da humanidade. Claro que o artigo é suposto ser uma ironia aos que ele considera como inimigos.


Veja-se esta grande tirada irónica dirigida aos que o criticam a ele, o incompreendido:


 


"As razões da condenação acumulo-as a cada momento. Pequenas e grandes traições, mentiras e violências, egoísmo e mesquinhez; sobretudo a terrível tibieza e mediocridade em que mergulham os meus dias. De fora não se vê a podridão que tenho dentro. Nem os meus inimigos, que têm tanta razão nos insultos, nem eles sabem do mal a metade. Sou todos os dias muito justamente condenado à morte."


 


E mais esta:


 


Mas não sou eu que estou ali pendurado. É Ele. Ele, a única pessoa a poder dizer com verdade não merecer a morte, é Ele que está ali. "Jesus estará em agonia até ao fim do mundo" (Pascal , 1670, Pensées, ed. Brunschvicg n.º 553, ed.Lafuma n.º 919). Ele está em agonia, e a culpa é minha. E graças à morte d"Ele a minha tem remédio. A morte, em si mesma, é definitiva. Quem morre fica morto. Mas porque Ele quis morrer por mim, a minha morte tem saída. A minha morte pode ir para a vida. Se me agarrar a Ele, o único que voltou da morte.


 


Quem morre fica morto!!? Fez-me lembrar a Lili Caneças que uma vez disse, estar vivo é o contrário de estar morto.


 


Esta vítima da injustiça humana só pode ter perdido a razão… Agora passarei a ser mais um inimigo que o condena não à morte, mas à tolice mórbida.


A mistura de religião com política e com a economia passou a ser transcendente e, ao mesmo tempo servir para ironizar com o próximo. Ele esqueceu-se do primeiro mandamento que diz "não invocarás o santo nome de Deus em vão".


 


Em "post" anterior, sob o título "Os polémicos paradoxais", escrevi sobre os comentadores polémicos sem referir quaisquer nomes. Aqui está um, entre muitos, dos que poderiam constar. Penso até mais,ao escrever estas linhas, apesar dos meus poucos dotes para a escrita e um entre muitos desconhecidos, acho que lhe estou a dar a importância que nem sequer merece.


terça-feira, 14 de maio de 2013

Uma questão de fé ou o domínio do real e do concreto

 



Tenho profundo respeito por quem professa uma religião e tem fé, seja la com base cristã ou não, quando a mesma assenta numa base sincera da sua crença e contribua para a formação de valores espirituais e sociais do Homem. Nada tenho contra quem, de forma ativa e militante, a vive e a pratica.


 


 Em campo diferente mas de certo modo semelhante, situo os apoiantes e admiradores do desporto, nomeadamente do futebol, que, não fazendo parte do domínio da fé como a religião, é vivido pelos adeptos quando se mobilizam para apoiar os seus clubes sem que disso lhes advenha qualquer prejuízo ou vantagem a não ser o prazer de uma vitória ou o desgosto de uma derrota.


 


As multidões que se movimentam naqueles dois campos são imensas. Veja-se o caso de Fátima nas datas mais comemorativas das aparições para onde se deslocam, em peregrinação ou não, pessoas das mais diversas classe e estratos sociais procurando algo milagroso que cure os seus males espirituais e ou materiais. Numa atitude meramente de fé procuram algo que circunstâncias pessoais fizeram perder, ou a sociedade não lhes concedeu ou retirou, sem qualquer certeza de que, esse algo, venha a ser obtido ou concedido, julgando previamente que o que procuram não está nas mãos do Homem nem da sociedade, mas apenas numa crença que ultrapassa o domínio da razão.


 


Em contraponto, quando se trata da necessidade de adesão em massa para atos concretos que não sejam meramente de fé, cujo objetivo é reivindicar ou opor-se a algo que contribua para modificar uma realidade social vivida no domínio do concreto, mesmo que cada um se sinta prejudicado em particular, a capacidade de mobilização é menor. Num contexto social, a consciência político-partidária e grupal sobrepõe-se racionalmente, equacionando em cada um temores, incertezas, desconfianças, que condicionam uma participação que poderia contribuir, sem ser somente no domínio da fé, para modificar as suas vidas. A adesão a expressões públicas e coletivas de um sentimento, de um desagrado ou de uma opinião está muita aquém daquelas que são expressas no domínio da fé, do abstrato e do incerto.


 


 Porque será que, no domínio do real e o concreto, a fé de muitas pessoas na sua própria voz deixa de existir?