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domingo, 8 de junho de 2025

A estratégia do embuste no diálogo político

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Uma das formas para percebermos o que alguns dos nossos interlocutores informados, sabedores, que se julgam infalíveis e exímios em dar cartas e depois baralhar de novo nos dizem é percebermos ao que se referem quando falam.


Vem isto a propósito de comentários que alguns leitores deixaram a um artigo que li há algum tempo num jornal diário relativamente à despesa pública e ao déficit mais folgados que o atual Governo herdou do anterior governo socialista que, em vão, tentei localizar, mas o que ainda tenho presente serve para o pretendido


A mentira e a desinformação são armas utilizadas para enganar alguns que, por não perceberem nada do assunto, acreditam em tudo, o que lhes dizem ou leem nas redes sociais.


Quando alguém aponta a esses referidos, plenos de verdades absolutas, algo que sai fora das suas falacias absolutas, mudam de agulha, trocam as voltas e, para confundir, utilizam outro tipo de estratégia para baralhar o seu interlocutor. Pode então verificar-se uma das seguintes situações: ou não se refuta o que diz por não termos bagagem para o contradizer, ou o argumento é tão faccioso e disparatadamente óbvio que não vale a pena contrariá-lo mais valendo deixá-lo ficar convencido de que enganou mais um papalvo que manipulou.


A forma mais comum de manipulação envolve tentar dominar ou mudar um ponto de vista ou opinião, isto é, a perspetiva ou crença que alguém mantém sobre alguma coisa e serve como ponto de referência para a visão que cada um de nós tem sobre qualquer situação.


Veja-se um exemplo. Imagine que você está a trocar impressões sobre política económica e que o seu interolocutor chama para a discussão a dívida publica e o défice. Coloque como princípio que o seu interlocutor tem como objetivo criticar a governação, por exemplo, do governo socialista, que terá cometido muitos erros, mas a quem se poderia atribuir ter conseguido baixar a dívida e o défice. Então, o seu interlocutor argumenta que esse governo socialista deixou uma dívida pública enorme e um défice também colossal. Você mostra que os valores são avaliados pelo rácio dívida/PIB, que é a medida da dívida ou do déficit como percentagem do Produto Interno Bruto, indicador utilizado por diversas entidades, que afirmam o contrário e que o governo pode vir a entrar em derrapagem orçamental por estar a gastar mais do que deveria.


Face aos dados inegáveis e como a comparação é feita em percentagem do PIB a resposta do seu interlocutor chega célere: não, não, isso é em valor relativo, em valor absoluto são milhões. Certo o seu interlocutor tem razão. Mas a comparação é sempre em valores relativos, o que facilita a comparação.


Ora, o nosso interlocutor, para defender a sua tese, ou melhor, a sua causa distorcida, utiliza esse argumento incorreto porque, ao comparar a dívida pública e os défices, é essencial reconhecer que estes indicadores são fundamentalmente diferentes na natureza e que o uso de medidas relativas geralmente fornece uma imagem mais clara do que olhar apenas para números absolutos. Isto é, não seguindo este critério o nosso interlocutor está deliberadamente a enganar-nos com a finalidade de defender o seu ponto de vista com valores absolutos que “enchem o ouvido”.


Ah! mas há as cativações exclama ainda! As cativações é outro conceito muito utilizado pelos detratores adversários e para enganar quem esteja pouco familiarizado com este tema. As cativações funcionam como se cada um de nós pegasse em parte do dinheiro que tem disponível para gastar e o guardasse numa gaveta para quando for necessário. Ou melhor, é como se o ministro das Finanças pegasse em parte do orçamento aprovado pela Assembleia da República para um determinado serviço público e guardasse o dinheiro numa gaveta.


Dizem: Ah! mas as cativações prejudicam alguns setores que necessitam de verbas. É uma meia-verdade usada pelos que são por natureza facciosos, porque isto das cativações é uma prática comum já com vários anos, aplicada quer pelos Governos socialistas quer pelos da direita ou centro-direita. Um caso concreto e mais recente é o do Governo de Luís Montenegro que tinha, em novembro de 2024, 789 milhões de euros em cativações por libertar.


As cativações são uma espécie de cautela orçamental para possibilitar que não haja derrapagens da despesa, porque ao condicionar a libertação da verba à autorização do ministro das Finanças, a fim de evitar que os serviços gastem sem ter primeiro concretizado um nível de receitas suficiente


Bem, fico por aqui, porque de finanças só percebo das minhas e, quanto à públicas é o que dizem por aí os especialistas e os trabalhos académicos de macroeconomia.


Divirtam-se e sejam facciosos porque o que está a dar para polarizar as sociedades são as verdades ditas alternativas, isto é, não factos, como dizer, a minha verdade é uma alternativa à sua que mesmo que seja um facto.


E, já agora, factos alternativos podem ser falsidades, inverdades, ilusões. Um facto é algo que realmente existe, são a realidade ou verdade. Uma alternativa é uma das escolhas em um conjunto de opções dadas e, normalmente, as opções são opostas uma da outra. Portanto, falar sobre factos alternativos é falar sobre o oposto da realidade (que é ilusão) ou o oposto da verdade (que é a mentira).


Também é usado como uma ‘interpretação alternativa’ de um facto para servir um qualquer propósito político ou ideológico.


Se essa interpretação alternativa é ou não válida normalmente depende do facto em questão e de como ele foi interpretado (ou mal interpretado).

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Meu querido mês de agosto ou o insuportável mês de agosto:Turismo e imigração

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O TURISMO


“Meu querido mês de agosto” um tema cantado e popularizado por Dino Meira em 1992. Uma longa-metragem realizada por Miguel Gomes, um cruzamento de ficção com documentário cujo nome “Aquele Querido Mês de Agosto” adota o título da canção de Dino Meira, é uma narrativa onde um conjunto de músicos, em agosto, percorrem várias festas populares do Norte do país.


Estamos em pleno mês de agosto e o turismo vem a propósito, mas sem esquecermos a imigração que todo o ano cresce ao montão. O turismo excessivo é uma bênção para os governos e uma maldição para os moradores locais, mas Presidente da Câmara de Lisboa não vê “excesso de turismo” apesar do desmedido recorde de visitante.s


Os meses de verão, especialmente o mês de agosto, que nas décadas de oitenta de noventa era esperado com grande alegria pelos familiares dos emigrantes que, nessa altura, chegavam com carros e bagagens para visitar as suas terras natais e os familiares, tornou-se agora num pesadelo juntamente com as carradas de turistas a maior parte deles mais parecem os que antigamente se designavam por turistas do pé descalço, agora atualizados, mas não mais bem-educados.  


Esta catadupa de gente, juntamente com imigrantes de várias origens, assalta a nossas cidades tornando-as insuportáveis, sujas, barulhentas relegando os autóctones e fazendo deles cidadãos de segunda. Quem rejubila são os comerciantes de bares, de restaurantes, discotecas e de outras atividades destinadas a um turismo de vagabundagem e de excessos que agentes de turismo pouco escrupulosos promovem lá fora captando para Portugal, especialmente para o Algarve, uma espécie de lixo turístico, como consequência da ganância pelo dinheiro, a moral das pessoas e o seu comportamento está tendencialmente a regredir negativamente.


Só falta, se é que já não existe, como o que acontece na Tailândia enquanto destino turístico que carrega uma conotação negativa desde a Guerra do Vietname onde as fracas condições económicas dos locais, levaram à prospeção de uma economia sexual fortemente sustentada. Mas não apenas aqui também na República Dominicana que padece de precaridade laboral, o que serve de alavanca para outro tipo de negócios, incluindo este da exploração sexual por turistas. Há estudos que apontam para tal nomeadamente o de   Gomes, S.P. (2023), Tráfico de mulheres para fins de exploração sexual na zona sul de Portugal: perspetivas sociais.


O turismo de excesso em Albufeira passou a ser a prática corrente causando os mais variados desvios dos padrões do que deveria ser um turismo responsável e sustentável.


Basta ver o vídeo seguinte para confirmar o nível de excesso a que se chegou e que passa dos limites do aceitável e do razoável.



A região do algarve está altamente dependente do turismo, o que a torna vulnerável a flutuações sazonais e crises económicas globais.


O turismo excessivo ou sobreturismo é o efeito que o número crescente de visitantes tem numa cidade, nos marcos históricos e nas paisagens e ocorre quando o número de visitantes num destino ultrapassa a capacidade de suporte do local, causando uma série de problemas devidos a popularização através de redes sociais, filmes e sobretudo a promoção do destinos através de campanhas de marketing que tornam o destino demasiado atrativo para um grande número de turistas; voos baratos; facilitação do Governo deste tipo de turismo como via para o crescimento da economia porque, enquanto considerado como como exportação representa cerca de 14% das exportações portuguesas, ajudando a equilibrar a balança comercial do país. E é nisso apenas que os governos apostam descurando outras fontes de crescimento.


O turismo domina e representou no ano passado quase metade do crescimento global da economia portuguesa é nisso que os sucessivos governos se agarram sem que se faça por diversificar e deixar de ficar dependentes do turismo. Não necessitamos do turismo dos calções e dos chinelados, precisamos, isso sim, do turismo de qualidade. Por outro lado, o sobreturismo é uma das causas para o aumento desregrado da imigração e é uma das causas para que as propriedades para arrendamento para turismo possam exceder as habitadas pelas pessoas locais desagregando as comunidades. A subida a pique dos preços, as filas excessivas, as praias apinhadas, os níveis de ruído exorbitantes, os danos em sítios históricos.


Os portugueses, a população de Lisboa, a sua maioria, estão fartos do crescimento desregrado da imigração e do turismo.


A IMIGRAÇÃO


Estamos a ser pacificamente infestados por gente que chega a Portugal vindos da Ásia e da África com a ilusão que lhes “venderam” de ser um país “atrativo” onde tudo é fácil e onde há emprego para todos e onde terão acesso pleno e gratuito aos serviços públicos que entopem com prejuízo dos locais. O aumento da população devido à imigração pressiona os serviços como o da saúde, educação e habitação com prejuízo para todos. Estas circunstâncias levam a um aumento de atitudes xenófobas ou discriminatórias assim, são mais as desvantagens do que os benefícios gerados pela imigração descontrolada e de portas abertas. Os governos de António Costa tiveram nisso grande responsabilidade.


Manifestam-se várias opiniões favoráveis à imigração, algumas de importância pouco significativa um dos fracos argumentos é o do enriquecimento da cultura local através de novas tradições, que, com todo o respeito por essas culturas, não precisamos de sermos, por elas, aculturados no sentido da adoção de uma cultura estrangeira por contacto direto e prolongado, mesmo que de gastronomia e de culinárias se trate porque já apreciamos há décadas mesmo antes da enxurrada de imigrantes.


Há, contudo, dois aspetos que poderão ter algum efeito na nossa economia e na demografia. Quanto ao primeiro efeito é o de preencher lacunas no mercado de trabalho, especialmente em setores com falta de mão-de-obra. Quanto ao segundo embora possa ter efeito a médio prazo, devido ao envelhecimento da população podem ajudar a equilibrar a pirâmide etária, mas, no muito longo prazo irá contribuir para a mestiçagem e, talvez num século, a população do país que perderá as suas caraterísticas fenotípicas, isto é, propriedades físicas observáveis como a aparência, o desenvolvimento e o comportamento. Ano O fenótipo do organismo é determinado por seu genótipo, que é o conjunto de genes o organismo carrega, bem como por influências ambientais sobre esses genes.


O número de imigrantes em Portugal tem aumentado significativamente nos últimos anos. Em 2023, mais de um milhão de estrangeiros residiam no país, representando cerca de 10% da população portuguesa. Este aumento é notável, considerando que em 2018 havia menos de 480 mil imigrantes.


A imigração tem impactos variados. Por um lado, contribui para a diversidade cultural e pode ajudar a suprir a falta de mão-de-obra em certos setores. Por outro lado, pode gerar desafios em termos de integração e pressão sobre os serviços públicos e na habitação e até na proliferação de sem-abrigo.


 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Porque não te calas? Não somos todos totós!

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O que escrevo na parte final do texto sobre as contas certas mostra que o Prof. Cavaco sabe muito bem não ser verdade  o que diz , mas serve para fazer de nós tótós.


Os ex-presidentes-Presidentes Cavaco Silva e Luís Montenegro talvez não tenham percebido que estão a prejudicar o PSD devido aos ímpetos do guru Prof. Cavaco.


Com ressentimentos em relação ao passado e ao situar-se nas trevas da “sua” economia e nos espaços bolorentos do seu entendimento do que é a moderna governação, tenta também enganar-nos. Curioso é que o Prof. Cavaco teça afirmações absurdas, urdidas durante os seus intervalos de letargia política. Senão vejamos. Esclareço desde já que, o que escrevo adaptar-se-ia a qualquer governo, fosse de que partido fosse em função se ao mesmo fossem dirigidas absurdas acusações opinativas.


Afirma aquele douto e ex-professor de economia que as “contas certas” foram uma armadilha montada pelo Governo socialista para “com sucesso, desviar a atenção dos órgãos de comunicação social…”. Parece ser uma afirmação sectária com alguma pinta de senilidade.


A primeira questão que Cavaco Silva não explica é se deve, ou não, qualquer governo defender contas orçamentais certas. Parece que do ponto de vista de Cavaco Silva, ao defender-se o primeiro pressuposto é uma armadilha distrativa para desviar a atenção dos governados e quem não defende o segundo pressuposto cai no despesismo e é criticado na mesma.


Segunda questão: ficamos sem saber se, conforme o ponto de vista do especialista Cavaco Silva, o Governo socialista deveria deixar, ou não, derrapar as contas públicas.


Terceira questão:  caso as contas públicas tivessem derrapado o que diria Cavaco Silva, nas circunstâncias atuais, sobre as contas do Governo?


Quarta questão: é a dúvida que nos levanta a afirmação de Cavaco Silva quando escreveu que “Nos capítulos sobre política orçamental dos tratados de Finanças Públicas, “contas certas” é um conceito que não existe”, e acrescenta “o que estará subjacente à expressão vaga e nebulosa “contas certas” inventada pelo poder socialista?” O conceito pode não existir, mas o que de certeza existe é o equilíbrio das contas públicas, o que vai dar no mesmo que sempre é recomendado. Então, e a redução da dívida pública que também foi diminuída também não interessa?


Expliquem-me por favor para ver se eu entendo: então ele e os seus seguidores da oposição de direita PSD andaram anos a criticar os governos socialistas pelo despesismo do Estado com alertas sobre a bancarrota por que o Estado, por falta de recursos financeiros, pudesse vir a não conseguir cumprir com suas obrigações financeiras. Agora o acerto das contas, as ditas contas certas são coisa que não existe?


Veja-se  o que disse o ex-Presidente da República Aníbal Cavaco Silva em maio de 2023 durante o discurso no Encontro Nacional do PSD: “os dados ‘vergonhosos’ movidos pelo PS foram salvos pelo antigo primeiro-ministro Pedro Passo Coelho que “Tirou o país da bancarrota”. Mas, então o país estava na bancarrota porque tinha contas certas ou foi por que menosprezou o problema das contas certas?


Afirmou ainda que “o governo do PS liderado por José Sócrates “deixou o país na bancarrota” e o governo de António Costa, apesar dos apoios europeus, “vai deixar ao próximo Governo uma herança extremamente pesada”. Mas, então, mais uma vez em que ficamos? Como diz o povo é preso por ter cão e preso por não ter? Não sou economista, mas o meu conhecimento penso ser suficiente para contra-argumentar escritos que facilmente caem no populismo.


Há vantagens e desvantagens do que ao equilíbrio orçamental diz respeito, assim, os déficits públicos referem-se à diferença entre as receitas e os gastos do governo em um determinado período. Existem vantagens e desvantagens associadas em função do contexto económico e político quando se analisam esses aspetos em função dos tempos de recessão ou desaceleração económica. Os déficits podem ser usados para financiar gastos públicos que estimulem a atividade económica e podem incluir investimentos em infraestrutura, programas de emprego e outros estímulos à economia como financiar investimentos em projetos de infraestrutura, educação e investigação, o que pode contribuir para o crescimento económico a longo prazo e para melhorar a competitividade do país.


Por outro lado, alguma flexibilidade orçamental permite ao governo responder a situações imprevistas, como desastres naturais, crises económicas ou emergências em saúde pública.


Em períodos de baixas receitas fiscais devido a recessões os déficits podem ser usados para manter a prestação de serviços públicos essenciais, evitando cortes severos que poderiam prejudicar a qualidade de vida.


No outro prato da balança encontramos as desvantagens dos déficits:


Endividamento, isto é, déficits frequentes podem levar a um aumento da dívida pública cujo pagamento de juros sobre essa dívida pode consumir parte significativa do orçamento do governo a longo prazo, limitando a capacidade de investir em outras áreas.


Inflação, quando circula muito dinheiro e o aumento nos níveis de preços pode prejudicar o poder de compra dos consumidores e afetar negativamente a economia.


Custos futuros quando o aumento contínuo de déficits pode resultar em custos significativos para o governo e o pagamento da dívida pode tornar-se pesado e levar os governos a ter que implementar medidas impopulares, como aumentos de impostos ou cortes de gastos. Veja-se no tempo de Passos Coelho resultado das políticas atribuídas a José Sócrates.


Necessidade de depender de crédito de empréstimos para financiar déficits e dependência de credores o que pode limitar a autonomia política e económica. Isto o Prof. Cavaco sabe muito bem, mas quer fazer de nós totós.


Por outro lado, é de salientar que a avaliação dos déficits públicos deve ser feita considerando o contexto específico de cada circunstância do país e internacionais. O equilíbrio entre vantagens e desvantagens muitas vezes depende da forma como os déficits são utilizados e da capacidade do governo em gerir suas finanças de maneira sustentável.


Mais ainda, Cavaco Silva recorre a outros economistas para defender a sua tese das ‘contas certas serem um bluff’, (palavra minhas). Um deles que já participou em eventos do BE e PCP, o que não traz mal nenhum, mas que o define como um economista de esquerda, apesar de se auto intitular como social-democrata radical.


Em agosto de 2018 o economista Ricardo Paes Mamede numa entrevista disse: “Sou economista social-democrata radical”. Na mesma entrevista afirmou que “Cavaco teve uma sorte enorme. Ele não é responsável por esse boom, e a parte em que é responsável mais-valia que não o fosse. É um momento verdadeiramente extraordinário na economia internacional, há uma quebra substancial do preço do petróleo, uma desvalorização forte do escudo face ao dólar, taxas de juro baixas e isso em simultâneo com a entrada de Portugal na então CEE, que significa um afluxo enorme de investimento direto estrangeiro ao país, de fundos europeus de coesão, para não falar do facto de que em 83 e 85 se esteve numa crise financeira profunda para haver o ajustamento externo, quando se sai da crise a tendência é para que haja crescimento. Cavaco Silva foi basicamente um sortudo dos diabos”.


Aqui está o que pensa da política cavaquista que enganou o povo durante os seus governos, mas que pretende agora enganá-lo com os seus argumentos falaciosos.


Sobre as contas certas o Prof. Cavaco sabe muito bem não ser verdade o que diz, mas serve para fazer de nós totós. É pena que alguns ainda acreditem

quinta-feira, 23 de março de 2023

Editorial do jornal Público: O Governo a abrir os cordões à bolsa














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Estamos longe de perceber se em causa estão medidas de alcance real ou propaganda. Sabe-se sim que há na sua génese um recuo do Governo após meses a fio de desgaste com as lutas laborais






O Governo anunciou esta quarta-feira uma revolução na função pública. Numa operação organizada que envolveu o ministro da Educação, a ministra da Presidência e o próprio primeiro-ministro, o Governo decidiu virar a página da prudência orçamental (para não lhe chamar austeridade controlada) para actualizar salários e “acelerar” as progressões na carreira de cerca de 60 mil professores e 350 mil funcionários públicos de carreiras sujeitas a avaliações do desempenho.


Antes de se julgar a decisão pelo seu mérito ou demérito e antes de se cair nos maniqueísmos ideológicos que têm enquadrado o debate público, constate-se uma realidade: a despesa pública fixa vai aumentar num quadro de grande incerteza financeira. O velho “monstro” do desequilíbrio das contas públicas não está ao virar da esquina, mas o António Costa somítico pode ter mudado esta semana.


Estamos ainda longe de perceber se em causa estão medidas de alcance real ou uma manobra de propaganda. Sabe-se sim que há na sua génese um absoluto recuo do Governo após meses a fio de desgaste com as lutas laborais, em particular as dos professores. António Costa jamais poderia aceitar uma recuperação do tempo de serviço congelado na era do resgate financeiro – chegou a ameaçar demitir-se na anterior legislatura se o Parlamento lhe impusesse a medida. Tratou por isso de caçar com gato o que não pôde caçar com cão.


Nominalmente, o primeiro-ministro vai poder dizer que não haverá reposição coisa nenhuma. O que está em causa, porém, é uma pura questão semântica. O Governo vai acelerar as progressões para compensar o congelamento das progressões entre 2011 e 2018, ponto final. O que não gasta de uma forma gastará de outra.


A notícia é boa para milhares de funcionários. Para professores com 40 ou 45 anos que permanecem nos primeiros escalões da carreira, é boa e absolutamente justa. Mas no futuro vai exigir mais impostos ou menos investimento público. Não há progressões grátis.


É prudente saber se o Governo não está a despir a pele da responsabilidade financeira depressa de mais. A abundante receita fiscal gerada pela inflação permite ao Governo ter mãos largas sem, eventualmente, aumentar o peso da despesa em relação ao PIB e sem comprometer as metas do défice. O problema é o futuro. E a credibilidade do Governo.


Ou os receios de António Costa sobre os impactes ingeríveis da reposição do tempo de serviço eram exagerados, e a sua decisão agora é irresponsável; ou, pelo contrário, a folga orçamental verificada no final de 2022 permitia a reposição do tempo perdido e a sua teimosia foi insensata.






terça-feira, 29 de março de 2022

A Europa deve afinar os seus objetivos










O risco de uma terceira guerra mundial deixou de estar no âmbito do impossível. A Rússia está agora a realizar ataques a poucos quilómetros das fronteiras da NATO e, dada a imprevisibilidade de Putin, não podemos descartar a possibilidade de um confronto direto entre a Rússia e a Aliança. Isso levantaria a possibilidade quase inimaginável de um conflito nuclear, que os nossos líderes têm o dever de evitar.


Como a Rússia e a Europa fazem parte de uma massa de terra ininterrupta, a estabilidade na ponta do continente é fundamental para a paz regional. Mas as barreiras diplomáticas entre a Rússia e a NATO estão a multiplicar-se. Raramente as organizações internacionais do pós-Segunda Guerra Mundial estiveram tão ausentes, ou mesmo impotentes, perante o conflito. Mesmo a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, criada com o objetivo de garantir a estabilidade entre a Rússia, Estados Unidos e Europa, está a mostrar-se inadequada para o desafio atual.


A União Europeia respondeu com firmeza à agressão da Rússia, demonstrando a sua unidade ao impor severas sanções financeiras e económicas. Mas a guerra na Ucrânia mostrou que a Europa não está suficientemente preparada para enfrentar os seus desafios mais imediatos. A UE deve agora concentrar-se em quatro prioridades.


Em primeiro lugar, a UE deve expandir as suas capacidades de segurança e defesa, e a "Bússola Estratégica" que está a ser elaborada deve servir para orientar a política neste domínio. Embora a Europa claramente deva investir nas suas capacidades militares, isso significa não apenas gastar mais dinheiro, mas também empreender tais esforços como europeus e não como Estados individuais. De acordo com a Agência Europeia de Defesa, os Estados-membros da UE gastam um total de cerca de 200 mil milhões de euros anualmente em defesa, mais do que a Índia, Rússia e Reino Unido juntos. A tarefa agora é melhorar a eficiência em vez de simplesmente aumentar os gastos militares ao nível nacional. E isso requer a adoção de uma visão europeia no planeamento militar nacional.


Em segundo lugar, a UE deve repensar a sua dependência energética da Rússia. A Europa depende do gás russo há muito tempo e pode ter de pagar um preço por fechar a torneira, como a Alemanha começou a fazer ao suspender o gasoduto Nord Stream 2. Como diz Nathalie Tocci, do Istituto Affari Internazionali, nenhum cálculo económico deve superar o que é necessário para a unidade europeia.
Em terceiro lugar, a Europa deve desenvolver uma política comum de migração com uma divisão geográfica de responsabilidade para aceitar refugiados das nossas respectivas vizinhanças a leste ou a sul. A partir de 2015, a então chanceler alemã Angela Merkel aceitou unilateralmente centenas de milhares de refugiados sírios, enquanto o resto da Europa olhava para o outro lado. Hoje, os Estados-membros da UE devem mostrar uma vontade comum de ajudar aqueles que fogem da guerra.


O êxodo de dois milhões de ucranianos para a Polónia desde o início da guerra destacou as incongruências da política de migração europeia. A solidariedade da Europa com os refugiados ucranianos é um gesto positivo que mostrou o melhor aos nossos cidadãos; mas deve também fazer-nos refletir sobre a nossa atitude muito menos acolhedora em relação aos refugiados de outras partes do mundo.


Por último, a Europa deve ajudar a mitigar os efeitos da guerra na segurança alimentar global. Como a Ucrânia e a Rússia juntas fornecem 19% da cevada do mundo, 14% do trigo e 4% do milho, o conflito também está a afetar muitas outras economias. Por exemplo, o Quénia, com uma população aproximadamente do mesmo tamanho da Ucrânia, obtém metade das suas importações de trigo da Rússia e da Ucrânia. Com 276 milhões de pessoas em todo o mundo sofrendo de fome severa, as regiões mais pobres, em particular, sofrerão como resultado do atual conflito.


À medida que a UE aborda estas prioridades imediatas, a missão fundadora da União de construir a paz e prevenir a guerra deve permanecer no seu cerne. Um mundo que ainda sofre com a pandemia da covid-19 e suas consequências, e atualmente parece incapaz de reverter as consequências das alterações climáticas, não pode dar-se ao luxo de um conflito deste tipo.


A Europa deve, portanto, usar os meios à sua disposição, incluindo sanções, para tentar mudar o comportamento de Putin. Acima de tudo, deve desempenhar um papel fundamental para evitar que as hostilidades na Ucrânia se transformem numa guerra entre as grandes potências.


O papel da China, que supostamente está a considerar vender armas à Rússia para ajudar no esforço de guerra de Putin, provavelmente será crucial para evitar um conflito global. O encontro mais recente entre Putin e o presidente chinês Xi Jinping, na véspera dos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano em Pequim, parecia sugerir uma quase aliança entre as duas potências.


Muitos traçaram paralelos com a visita do presidente dos EUA, Richard Nixon, à China em 1972, que anunciou uma reaproximação sino-americana destinada a combater a ameaça representada pela União Soviética. Mas enquanto a China pode ser tentada a formar uma aliança com a Rússia, uma guerra mundial não seria adequada para Xi, e tornar-se parte de tal conflito ainda menos.


Impedir que uma aliança China-Rússia se enraíze é fundamental para preservar o atual equilíbrio nas relações internacionais. A Europa pode e deve instar a China a desempenhar um papel na procura de um fim negociado para o conflito na Ucrânia. Para esse fim, é vital que os EUA, a UE e a NATO não sejam vistos como fracos e divididos na política interna ou externa.


Apesar da tragédia da guerra na Ucrânia, sinto-me orgulhoso do que a Europa fez nas últimas semanas. As respostas em Bruxelas, Paris, Berlim, Varsóvia e Madrid foram unânimes: a agressão de Putin não deve ficar impune. Uma UE mais assertiva e decisiva deve refletir não apenas a ressonância entre os governos nacionais, mas também a consciência dos cidadãos de que a sua segurança, interesses e princípios estão a ser ameaçados. Só com esta mentalidade a Europa realizará os seus objetivos.



Javier Solana, ex-alto representante da UE para as Relações Externas e Política de Segurança, secretário-geral da NATO e ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha, é presidente do EsadeGeo - Centro para a Economia Global e Geopolítica e membro ilustre da Brookings Institution.


© Project Syndicate, 2022.



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quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Catástrofe climática: não há retorno, o mundo está a caminho do fim

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A questão que deve estar permanentemente no espírito de todos nós e levantar sérias preocupações, apesar disso raramente ou nunca, escrevi sobre as crises climáticas, porque são múltiplas. O tema é premente e deve ser objeto de preocupação global.


Ao refletir sobre o comportamento e atitude das sociedades face às questões da grave crise que estamos a atravessar saltei da minha atitude de cética para a de pessimista, tendo como alicerce o seguinte pressuposto: embora os políticos e líderes dos governos mundiais estejam a proclamar, tardiamente, supomos com as melhores intensões, ações no presente para se travar ou  retroceder os efeitos de catástrofe causadas pelas as alterações climáticas, não se conseguirão minimizar com rapidez suficiente os seu efeitos  o que levará séculos, senão milénios, a recuperar tudo o que foi destruído durante cerca de dois séculos.


As ações do homem sobre o ambiente, por maldade, descuido, desinteresse, estupidez e ignorância como no caso dos incêndios catastróficos desencadeados durante décadas têm sido apenas um dos grandes causadores da destruição ambiental. Os incêndios e as inundações são as catástrofes que ultimamente têm sido mais evidenciadas pelos noticiários televisivos com imagens aterradoras, mas não são apenas estes, há os que têm menos visibilidade como a emissão em massiva de gases para a atmosfera causadores do efeito estufa, a sobrepesca, as várias formas de poluição, o desmatamento, acumulação de plástico nos oceanos, etc.


Em circunstâncias como estas não há que escolher palavras, não há que ser politicamente correto, não há que evocar valores morais nem éticos para nos pronunciarmos contra atos causadores de tragédias como a extinção de espécies, a extração de recurso sem controle apenas devido à avidez do lucro imediato. Os recursos extrativos dos países são explorados até à exaustão para exportação, contribuindo para o equilíbrio das suas balanças comerciais. Os países denominados do terceiro mundo, os mais pobres, também têm contribuído em grande escala para a danificação ambiental nos seus próprios países.


Os governos de todo o mundo são responsáveis pelas decisões que não tomam ou adiam. As empresas são também responsáveis cavalgando a onda das indecisões desses governos e orientam as suas decisões para a maximização do lucro e nós, a sociedade, tem iguais responsabilidades porque não resiste ao estimulo dado pelas técnicas de publicidade das empresas que são orientadas para uma sociedade de consumo.


Uma notícia do jornal Público de 12 de agosto escrevia que “Projeto piloto que permitiu recolher, entre março de 2020 e junho de 2021, 16,2 milhões de garrafas destinadas à reciclagem” terminou, e a devolução de garrafas em 23 supermercados deixou de dar desconto pelo que as entregas caíram 70%. Face a esta notícia podemos concluir, embora apressadamente, que a sensibilização das pessoas para as questões ambientais ainda não está assumida e interiorizada se não for compensadora. No editorial no mesmo dia no mesmo jornal Manuel Carvalho escrevia: “Porque, como o mostra a história das garrafas de plástico, é uma utopia acreditar que o combate à maior ameaça dos nossos tempos se pode fazer apenas com apelos à boa vontade. Custa dizê-lo, mas a realidade é o que é”.   


Debater o tema da crise climática e da poluição ambiental exige, naturalmente, distanciamento de interesses e de pensamentos nacionalistas enraizados, de espírito científico aberto, prática que os líderes políticos de todo o mundo parecem não possuir. Ficam-se por promessas e por boas intenções. Os líderes dos países industrializados dizem que estão a fazer tudo para a reduzir as emissões de carbono e pensam que os problemas climáticos e salvar o planeta passa apenas por isso e que tudo se irá resolver através de medidas paliativas. Mas salvar o planeta passa também pelo que já atrás referi. Sofrem da espécie da síndrome do “efeito da terceira-pessoa” pela qual se acha que o que acontece é apenas aos outros. Pode também ver aqui ou aqui.


O debate sobre o aquecimento global e a crise climática extremam pontos de vista que passam pela ignorância, obscurantismo e estupidez dos negacionistas até aos do politicamente correto e das posições não consensuais sobre que se pode ou não fazer.  O meu pessimismo, tendo em consideração as vãs promessas, qualquer que seja o objetivo apontado o ano 20?? já será o ponto sem retorno.


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Documentários e reportagens sobre fenómenos extremos causados pela crise climática que passam nos canais televisivos, nomeadamente a SIC, têm mostrado o terrível estado em que já nos encontramos.


Milhares de artigos científicos, comentadores da área climática e jornalistas de vários órgãos de comunicação, fazem alertas nos media que caem em saco roto.


Os discursos dos políticos raramente abordam a crise climática e a sustentabilidade ambiental, salvo quando há eventos internacionais sobre o tema.  Quer por imposições legislativas dos governos, quer por iniciativa de empresas mais responsáveis, tomadas demora na sua aplicação, quando não adiadas mais ou menos ano, mesmo sabendo que as consequências serão cada vez mais gravosas para o ambiente à medida que o tempo passa o que está à vista de todos. Ficam-se pelas boas intensões que um dia terão de ser tomadas, mas, segundo os cientistas, o tempo urge.


Apesar das evidências da crise climática que atravessamos há ainda líderes de governos liderados por fantasistas, irresponsáveis e negacionistas que recusam olhar o problema de frente recusando-se a qualquer tomada de medidas. Estes não fazem parte da solução, são o problema.  


 O editorial de Manuel Carvalho do jornal Público de 9 de agosto alerta para o fenómeno que tem que ser encarado com urgência e responsabilidade. Afirma ele que


“a resposta necessária contra a catástrofe exige dos políticos, dos gestores e de todos nós uma mudança de hábitos que pode estar para lá do que é possível. É preciso falar sem meias-palavras…”


Sublinha que as medidas a tomar irão implicar uma mudança de hábitos de consumo que poderá levar a um recuo civilizacional. Refere ainda que medidas como consumo de “menos carne, compra de menos televisões ou computadores, viajar menos”. A estes ainda podemos acrescentar trocar menos vezes de smartphone, de automóveis, de eletrodomésticos enfim, o abandono sustentável da sociedade de consumo e o regresso a uma austeridade de consumo assumida por todos. São tudo boas intensões. Intenções desajustadas à situação que esquecem que há mais vida para além da economia.


Concordo com Manuel de Carvalho quando escreve que, “uma travagem no modelo de economia e de sociedade voltado para a riqueza e o crescimento contínuo.” Pode ser uma das soluções.  Só uma mudança de atitude que tenha em vista a austeridade, a temperança, para utilizar um termo do catecismo da Igreja Católica, que louva a   virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados, usando com moderação os bens temporais como a comida, a bebida e o conforto com discrição.


A dúvida que sustenta o meu pessimismo baseia-se no pressuposto da dificuldade de mudanças de atitude e comportamentos numa sociedade de consumo como a nossa, em que o ter é mais importante do que o ser, e em que a publicidade, muitas vezes agressiva, incita ao consumo em massa e torna obsoletos objetos e bens materiais que anos após ano se vão substituindo por outros se irão alterar.


Os impressionantes progressos científicos e tecnológicos que, segundo o argumento deveriam ter sido suficientes para enfrentar a crise climática - pense em alternativas de carne, painéis solares, casas ecológicas, estes apenas dirigidos aos que têm disponibilidade financeira, não são suficientes. Quanto aos painéis solares, uma boa alternativa à produção energética, levam-me a imaginar as paisagens agora verdes e espaçosas a serem substituídas por painéis solares que se prologam em espaços espelhados até onde a vista alcança.   


Será que poderemos sair desta sucessão de acontecimentos que se repetem e colidem com obstáculos que contrariam uma desejável regeneração climática, numa espécie de círculo vicioso. Acho que não, nem numa nem em duas décadas. Alinho com o argumento do antropólogo Jason Hickel no seu último livro “Less Is More. Como o Degrowth Will Save the World ”, 2020, segundo o qual as sociedades ricas têm como objetivo fundamental o crescimento da economia cujos ganhos são imediatamente reinvestidos na mesma economia, produzindo mais bens, exigindo e arrancando cada vez maiores porções da natureza para alimentar os circuitos de extração de recursos minerais, e de produção de animais e vegetais, alguns destes últimos cultivados fora das suas regiões endémicas exaurindo as reservas aquíferas que vão contribuir para a mesma pegada ecológica, não a reduzindo, por vezes até aumentando-a.


Pergunto como será possível que, ao mesmo tempo que se procuram estratégias para descobrir fórmulas para a redução das emissões de carbono, preservar os ecossistemas e salvar espécies ameaçadas, defenda-se uma sociedade de consumo excessivo num suposto melhoramento das condições materiais de vida em todo o mundo?


Alguns afirmam que é tudo a penas uma questão de “vontade política”. Não me parece que seja apenas isso porque há razões psicossociais lógicas sérias para se ficar no status quo e adiar decisões drásticas mantendo a passividade quando se coloca a decisão de ter de abdicar de um bem menor no presente em favor de um bem maior no futuro, a preservação do nosso planeta. Tudo quanto possa criar entropias ao poder económico e financeiro mundial é sucessivamente adiado. São os intocáveis e, face a ameaças, clamam que as alternativas que se colocarem conduzirão ao apocalipse económico. Preferem o apocalipse climático com a destruição de bens e vidas humanas ao apocalipse económico, este que pode ter soluções várias e rápidas enquanto o climático não terá remédio conduzindo ao fim do planeta e da humanidade.


Há pouco mais de dois anos tivemos uma amostra disso quando o mundo estava numa fase decisiva para travar a tempo o agravamento da crise climática que foram as tentativas da administração dos EUA, leia-se, Trump, para desmantelar grande parte das leis de proteção ambiental e ao retirar-se do acordo climático de Paris abrindo caminho para mais acidentes industriais em larga escala e catástrofes futuras.  As consequências das políticas governamentais só se fazem sentir várias décadas depois das decisões tomadas, quando os que as protelaram ou as fizeram aplicar já estiverem fora dos governos.


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Algumas das soluções propostas são radicais e potencialmente inexequíveis. Há estudos de economistas que avançam a solução de reduzir o crescimento económico (decrescimento), como se pode verificar pelos gráficos da Our World Data. Ver gráfico anterior.


Os defensores do decrescimento argumentam que não podemos continuara a crescer sem que daí ocorra a já anunciada catástrofe climática. Mas como será isso possível quando o PIB tem tido um crescimento que apenas abrandou com a pandemia covid-19.


Podemos observar a correlação positiva entre o crescimento do PIB per capita e o aumento das emissões de CO2.


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Ao considerar-se o desempenho de uma economia em função do seu crescimento, algo acontece à medida que toda essa atividade económica se expande, é que a quantidade de energia e recursos que usamos também aumentam. Assim, a única solução é uma transformação extrema do nosso modo de vida. Por outro lado, os países mais pobres, ditos do Terceiro Mundo, precisarão de um mínimo de crescimento para elevar os seus bastante baixos padrões de vida e para alimentar a sua crescente população.


Enquanto redigia este texto li um artigo de opinião de João Miguel Tavares, com o qual muitas vezes discordo, que, oportunamente, veio em auxílio dos meus argumentos e que pode ler aqui. Escreveu JMT que:


“…. Alerto apenas para o facto de muitas discussões partirem do pressuposto de que as pessoas ainda não estão convencidas da existência do aquecimento global (por exemplo), e só por isso não agem. Infelizmente, o problema é bem mais assustador: elas estão convencidas, mas ainda não sofreram o suficiente por causa dele para justificar uma alteração drástica do seu modo de vida…”.


Pois é. É este o ponto fundamental das questões climáticas. E, mais uma vez, até lá funciona nas pessoas a síndrome da terceira-pessoa.


Nota: As minhas desculpas por algumas imperfeições do texto porque este foi escrito ao correr da pena.


 


 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

O alcance da lógica de o Reino Unido retirar Portugal da lista “verde”





In Editorial do Jornal Público 03/06/2021


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Quando o Ministério dos Negócios Estrangeiros aponta para uma medida “cuja lógica não se alcança”, não parece considerar a “lógica” das multidões desregradas que, no Porto, fizeram tábua rasa da situação de calamidade







Não serão essas imagens de baderna e irresponsabilidade as principais causas da decisão, certo. O Reino Unido prepara-se para o desconfinamento geral no dia 21, vive numa situação de incerteza no controlo da pandemia e não quer correr riscos. Em segundo lugar, depois de se pôr fora da União Europeia, o país deixou de se sentir com especiais deveres de solidariedade com os seus Estados-membros. Finalmente, sendo emissor de turistas e não receptor, o Reino Unido fica com uma tarefa fácil para restringir a lista “verde” dos destinos para onde os seus nacionais podem viajar.



Sobra, no entanto, a questão da “lógica”, o tal cerne da questão que o MNE não consegue alcançar. Aí há uma mistura de factos com invenções, que tanto podem servir para justificar a transferência de Portugal da lista verde para a âmbar como para a tornar hipócrita e delirante. Ninguém sabe onde Londres foi buscar a variante nepalesa que supostamente grassa em Portugal, e aí entramos no domínio da hipocrisia. Mas o mesmo não acontece com os outros argumentos: Portugal está hoje numa situação pior do que há três semanas – como refere o comunicado britânico, a taxa de positividade de Portugal “quase duplicou desde a última revisão”. E a imagem de controlo e segurança do país também se degradou por culpa própria.


É aqui que vale a pena questionar a declaração do MNE sobre as supostas “regras claras para a segurança dos que aqui residem ou nos visitam”. Um país que se abre a finais de futebol e acolhe sem controlar uma horda de adeptos nem exibe “regras claras” nem inspira confiança. Se o aumento de casos é um preço a pagar para salvar a economia, a decisão de acolher a final do futebol, enquanto a França ou a Alemanha impunham quarentenas aos britânicos, não só não ajudou essa estratégia como a pode comprometer. Essa exibição de negligência e descontrolo há-de ter pesado na decisão de Londres. 


sábado, 8 de maio de 2021

O trio de Odemira e do sudoeste alentejano

 


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Não, não lhes vou falar do Trio Odemirada que surgiu em 1955, primeiro a dois que depois passou a trio com a entrada de um terceiro elemento que, em 2019, celebrou os 60 anos de carreira. Vou falar de um trio, este não musical, que se instalou em Odemira em que os seus elementos são protagonistas e coniventes pelo que se passa no sudoeste alentejano.


No concelho de Odemira os referidos protagonistas dos acontecimentos chegaram à ribalta, não fosse a covid-19. Mas deixemo-nos de graças porque a coisa é agreste lá para aquelas bandas.


É um trio da irresponsabilidade, da indiferença, do deixa andar, dos culpados, como queiram.


Os elementos do trio que protagonizam a desgraça são: em primeiro lugar os empresários agroindustriais que lançam para o ar o chavão “criamos riqueza”, seja lá o que eles entendam por isso, mas apenas quando lhes convém. São áreas extensíssimas de estufas que empregam mão de obra com facilidade de adaptação, por necessidade de sobrevivência, à exploração. São os trabalhadores usados para criar riqueza, resta saber para quem, (não, não sou contra a iniciativa privada, bem pelo contrário, mas há a ética, meus senhores, a ética!);


O segundo elemento do trio são os imigrantes que trabalham naqueles empreendimentos que vivem em condições de trabalho e de habitabilidade impensáveis e desumanas na segunda década do século XXI;


O terceiro elemento do trio é o Governo e os ministérios, instituições e organismos por ele tutelados que deveriam supervisionar, dentro das suas competências, e fiscalizar os dois anteriores elementos do trio.


Não fosse a gravidade da situação causada pela covid-19 os factos relacionados com imigração ilegal, tráfego humano, escravatura versão século XXI, condições de habitabilidade indignas para seres humanos e exploração salarial que vieram para a opinião pública continuariam bem guardados no segredo das gavetas. Só agora alguma comunicação social acordou para o pesadelo comentando, relatando e produzindo peças ditas de investigação para telespectador ver e, por vezes, até confundir. Segura o tema porque também é um “postigo” de comunicação por onde possa atacar o governo socialista. Afirmar que, daqui para a frente, a imagem do Zmar ficará degradada com o anátema de um covidário, é demagógico e, no mínimo, ridículo.


Miguel Sousa Tavares, já tinha denunciado esta situação num artigo de opinião publicado no semanário Expresso em fevereiro de 2021 onde escreveu: “… E, além disso, tudo contribui para as exportações, não interessando saber também se, nos olivais do Alqueva ou nas estufas do Mira, todos os trabalhadores são estrangeiros e a maior parte das empresas também, tirando partido de infraestruturas pagas pelos contribuintes portugueses, de água subsidiada pelos contribuintes portugueses e de subsídios ao investimento com dinheiro europeu do qual parte é nossa.


Mas seria de facto curioso fazer as contas e perceber quanto do saldo final dessas exportações representam lucros que ficam cá, impostos e contribuições sociais que se pagam aqui. Para que desta agricultura industrial não fique apenas o rasto de uma situação social que nos envergonha e um desastre ambiental e paisagístico como aquele que cada vez mais vai crescendo no Alentejo.”.


E, acrescenta que: “Qualquer ministro da Agricultura responsável estaria em pânico com o que se está a passar no Alentejo com as culturas superintensivas de olival e amendoal à conta da água do Alqueva e com as estufas do Sudoeste à conta da exaurida barragem de Santa Clara…”


Para finalizar pergunto eu:


Alguém acredita que a freguesia do concelho de Odemira, em cerca sanitária nos próximos meses, será um destino turístico preferencial como é justificado pelos gerentes do resort Zmar(?) que se opuseram e opõe à requisição civil para alojamento dos trabalhadores das empresas agrícola? Eu não!


Alguém acredita que haja uma depreciação económica do resort Zmar, projeto que está à beira da falência, afastará a possibilidade de um possível investidor tal como foi dramatizado pelos ditos proprietários do Zmar? Eu não!


Alguém acreditou que a requisição civil incidiria também na imaginada ocupação das casas de férias dos proprietários? Eu, não!


Alguém acredita que os donos de restaurantes, que vivem situações seguramente muito mais dramáticas do que os donos do projeto Zmar, na prática falido, também sofreram as consequências da prioridade à saúde pública para não falar de todos os que perderam o emprego nessa área? Eu, sim!


A explosão de posições públicas dadas pela comunicação social incidiu sobre o resort Zmar mas, sobretudo, pelo regime de semiescravidão em que trabalhadores imigrantes se encontram, que foi obsequiada ao longo de anos com o silêncio sobre a vergonha da exploração de seres humanos sem que lhes seja garantido o mínimo de direitos em troca do trabalho que contribui para a nossa economia.


Vergonha é a palavra tantas vezes proferida por André Ventura do Chega mesmo a despropósito, mas que agora viria a propósito aplicá-la faz vistinhas de circunstância eleitoral, ele e outros que se lhe juntam, como o IL e o CDS. Talvez para eles a exploração de imigrantes não seja uma vergonha para o país.


A responsabilidade não é do Estado, é de quem o gere e o geriu e que não apenas do atual governo. É, sobretudo, da direita que nos governaram nas últimas décadas.  A dignidades daquelas pessoas só foi vista como um problema quando pôs em perigo a nossa saúde. Bem pode agora a direita apontar o dedo ao Governo, que a tem em parte, mas também foram cúmplices no seu tempo de governação do que se passa agora. Porque isto é apenas a ponta do iceberg que a covid-19 tornou ainda mais visível.  

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

As eleições nos EUA e os golpes baixos de Donal Trump

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Penso não haver ninguém que não considere os EUA como um regime democrático, excetuando, claro está, os radicais comunistas ortodoxos. Mas vejamos os factos no que se refere a Donald Trump.


As afirmações que ele tem feito ao longo do seu mandato apontam num sentido oposto à democracia, isto é, a tomada de poder em direção a uma potencial ditadura reforçadamente autocrática por via administrativa e posteriormente criar uma dinastia colocando em altos cargos familiares próximos.


 Donald Trump não escondeu a sua estratégia. No fim de setembro, admitiu publicamente o objetivo de nomear à pressa a juíza ultraconservadora Amy Coney Barrett para o Supremo Tribunal a fim manter e reforçar a ampla maioria conservadora no tribunal para julgar eventuais questionamentos sobre o resultado da eleição.


Aliás, ele tem o objetivo ao lançar dúvidas sobre a integridade da eleição ao afirmar, sem apresentar provas, que a votação por correspondência levará a fraudes. Mas o certo é que a prática do voto por correspondência é muito comum nos EUA e foi intensificada este ano devido à pandemia. Trump não esclarece também se vai aceitar uma derrota em favor de Joe Biden, pressiona e pretende fazer uma guerra jurídica na disputa do poder.


Para ser reeleito Trump aposta no tudo ou nada colocando a democracia americana sujeita ao maior teste de stresse desde há mais de desde há 155 anos, data da guerra civil em que os sulistas participaram para lutarem a favor da manutenção da escravidão.


Penso que é consensual, de acordo com analistas políticos dos EUA, que Trump tentou enfraquecer a democracia em atos sistemáticos que ganharam mais força com a proximidade das eleições. A maneira como Trump desafia abertamente as normas democráticas não tem precedente nos EUA. Trump tem pretensões de criar uma crise institucional. Tem feito acusações de suposta fraude eleitoral, na tentativa de minar a vontade dos eleitores ao saber que as sondagens não estavam a inclinar-se para o seu lado.


Pelas informações que nos chegam pela comunicação social dos EUA a sua resposta ao coronavírus colocou em risco a saúde e o bem-estar do país. As suas mentiras tornaram-se em mentiras amplificadas pelos seus irresponsáveis adeptos nas redes sociais e que representam problemas terríveis para o país e para as pessoas que desconhecem a verdade dos factos.


A atitude de Trump tem-se refletido, não apenas na imprensa americana, mas também na estrangeira, que se resume, como citou o jornal francês Le Monde em editorial, após o primeiro debate presidencial, em “Quatre ans de trumpisme ont largement contribué à fragiliser l’une des plus grandes démocraties du monde. C’est une leçon pour toutes les autres” (Quatro anos de trumpismo contribuíram largamente para fragilizar uma das maiores democracias do mundo. É o declínio de uma das maiores democracias do mundo).


O jornal britânico Financial Times num artigo publicado com o título "Imagem democrática dos EUA está a sangrar", escreveu que a "reputação em declínio do país pode ser avaliada e medida" e que “que menos de um terço dos franceses e alemães têm uma visão favorável da América. Com 41% de vantagem, a opinião da Grã-Bretanha sobre os EUA era uma baixa recorde. O impacto de Trump é ainda mais forte. Apenas 16 por cento do mundo confia no presidente dos Estados Unidos para fazer a coisa certa, ainda menos do que os 19 por cento que pensaram isso sobre Xi Jinping da China. A alemã Angela Merkel obteve uma avaliação positiva de 76%. As pesquisas foram realizadas bem antes do debate presidencial desta semana”.


Pelo que conhecemos desde a sua posse, em janeiro de 2017, Trump tem gerido o governo como se fosse uma das suas empresas seguindo o comportamento típico dos novos líderes populistas, que não têm provocado ruturas democrática repentina, mas vão minando as instituições, agindo de maneira cada vez mais autoritária. Vejam-se os casos europeus em alguns países do leste.


Para conhecermos as atuações de Trump ao longo do seu mandato basta fazer algumas pesquisas na imprensa internacional. Um dos casos mais divulgados, em dezembro de 2019, quando foi considerado como o terceiro presidente da história americana a sofrer um processo de impeachment, ao ser acusado de abuso de poder por ter pressionado o líder da Ucrânia a investigar Biden em troca da libertação de verbas para ajuda militar e de, quando foi descoberto, ter obstruído as investigações. O governo sob a sua tutela atuou ainda para que testemunhas importantes não fossem ouvidas e, em janeiro, foi absolvido por um Senado muito polarizado pela maioria republicana que têm interesses em que ele se mantenha no poder devido a privilégios concedidos.


Segundo os artigos publicados os estragos na democracia americana foram tantos que o novo presidente terá muito trabalho ao ter que enfrentar de facto a Covid-19, a crise económica, as questões raciais, de imigração e ambientais.


Quanto à economia dos EUA Joseph Stiglitz, Prémio Nobel de Economia, escreveu um artigo em janeiro de 2020, também publicado pelo jornal Expresso onde colocava a verdade sobre a economia de Trump. Stiglitz afirmou em certa altura: “Para se obter uma boa leitura da saúde económica de um país, tem de se começar por analisar a saúde dos seus cidadãos. Se forem felizes e prósperos, serão saudáveis e viverão mais tempo. Neste aspeto, entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos estão no final da lista. A esperança de vida nos EUA, já relativamente baixa, caiu nos dois primeiros anos da presidência de Trump e, em 2017, a mortalidade na meia-idade atingiu a taxa mais elevada desde a Segunda Guerra Mundial. Isso não é uma surpresa, porque não houve nenhum presidente que se tenha esforçado tanto para garantir que mais americanos fiquem sem seguro de saúde. Milhões perderam a cobertura do seguro e a taxa de pessoas sem seguro aumentou, em apenas dois anos, de 10,9% para 13,7%.


Um dos motivos da diminuição da esperança de vida nos Estados Unidos é o que Anne Case e o economista vencedor do prémio Nobel, Angus Deaton, chamam de mortes por desespero, causadas por álcool, overdose de drogas e suicídio. Em 2017 (o ano mais recente para o qual existem dados disponíveis satisfatórios), essas mortes foram quase quatro vezes mais do que em 1999.” Pode consultar aqui o artigo.


 

As eleições nos EUA e os golpes baixos de Donal Trump

Trump_eleiçõesEUA-2 (1).png


Penso não haver ninguém que não considere os EUA como um regime democrático, excetuando, claro está, os radicais comunistas ortodoxos. Mas vejamos os factos no que se refere a Donald Trump.


As afirmações que ele tem feito ao longo do seu mandato apontam num sentido oposto à democracia, isto é, a tomada de poder em direção a uma potencial ditadura reforçadamente autocrática por via administrativa e posteriormente criar uma dinastia colocando em altos cargos familiares próximos.


 Donald Trump não escondeu a sua estratégia. No fim de setembro, admitiu publicamente o objetivo de nomear à pressa a juíza ultraconservadora Amy Coney Barrett para o Supremo Tribunal a fim manter e reforçar a ampla maioria conservadora no tribunal para julgar eventuais questionamentos sobre o resultado da eleição.


Aliás, ele tem o objetivo ao lançar dúvidas sobre a integridade da eleição ao afirmar, sem apresentar provas, que a votação por correspondência levará a fraudes. Mas o certo é que a prática do voto por correspondência é muito comum nos EUA e foi intensificada este ano devido à pandemia. Trump não esclarece também se vai aceitar uma derrota em favor de Joe Biden, pressiona e pretende fazer uma guerra jurídica na disputa do poder.


Para ser reeleito Trump aposta no tudo ou nada colocando a democracia americana sujeita ao maior teste de stresse desde há mais de desde há 155 anos, data da guerra civil em que os sulistas participaram para lutarem a favor da manutenção da escravidão.


Penso que é consensual, de acordo com analistas políticos dos EUA, que Trump tentou enfraquecer a democracia em atos sistemáticos que ganharam mais força com a proximidade das eleições. A maneira como Trump desafia abertamente as normas democráticas não tem precedente nos EUA. Trump tem pretensões de criar uma crise institucional. Tem feito acusações de suposta fraude eleitoral, na tentativa de minar a vontade dos eleitores ao saber que as sondagens não estavam a inclinar-se para o seu lado.


Pelas informações que nos chegam pela comunicação social dos EUA a sua resposta ao coronavírus colocou em risco a saúde e o bem-estar do país. As suas mentiras tornaram-se em mentiras amplificadas pelos seus irresponsáveis adeptos nas redes sociais e que representam problemas terríveis para o país e para as pessoas que desconhecem a verdade dos factos.


A atitude de Trump tem-se refletido, não apenas na imprensa americana, mas também na estrangeira, que se resume, como citou o jornal francês Le Monde em editorial, após o primeiro debate presidencial, em “Quatre ans de trumpisme ont largement contribué à fragiliser l’une des plus grandes démocraties du monde. C’est une leçon pour toutes les autres” (Quatro anos de trumpismo contribuíram largamente para fragilizar uma das maiores democracias do mundo. É o declínio de uma das maiores democracias do mundo).


O jornal britânico Financial Times num artigo publicado com o título "Imagem democrática dos EUA está a sangrar", escreveu que a "reputação em declínio do país pode ser avaliada e medida" e que “que menos de um terço dos franceses e alemães têm uma visão favorável da América. Com 41% de vantagem, a opinião da Grã-Bretanha sobre os EUA era uma baixa recorde. O impacto de Trump é ainda mais forte. Apenas 16 por cento do mundo confia no presidente dos Estados Unidos para fazer a coisa certa, ainda menos do que os 19 por cento que pensaram isso sobre Xi Jinping da China. A alemã Angela Merkel obteve uma avaliação positiva de 76%. As pesquisas foram realizadas bem antes do debate presidencial desta semana”.


Pelo que conhecemos desde a sua posse, em janeiro de 2017, Trump tem gerido o governo como se fosse uma das suas empresas seguindo o comportamento típico dos novos líderes populistas, que não têm provocado ruturas democrática repentina, mas vão minando as instituições, agindo de maneira cada vez mais autoritária. Vejam-se os casos europeus em alguns países do leste.


Para conhecermos as atuações de Trump ao longo do seu mandato basta fazer algumas pesquisas na imprensa internacional. Um dos casos mais divulgados, em dezembro de 2019, quando foi considerado como o terceiro presidente da história americana a sofrer um processo de impeachment, ao ser acusado de abuso de poder por ter pressionado o líder da Ucrânia a investigar Biden em troca da libertação de verbas para ajuda militar e de, quando foi descoberto, ter obstruído as investigações. O governo sob a sua tutela atuou ainda para que testemunhas importantes não fossem ouvidas e, em janeiro, foi absolvido por um Senado muito polarizado pela maioria republicana que têm interesses em que ele se mantenha no poder devido a privilégios concedidos.


Segundo os artigos publicados os estragos na democracia americana foram tantos que o novo presidente terá muito trabalho ao ter que enfrentar de facto a Covid-19, a crise económica, as questões raciais, de imigração e ambientais.


Quanto à economia dos EUA Joseph Stiglitz, Prémio Nobel de Economia, escreveu um artigo em janeiro de 2020, também publicado pelo jornal Expresso onde colocava a verdade sobre a economia de Trump. Stiglitz afirmou em certa altura: “Para se obter uma boa leitura da saúde económica de um país, tem de se começar por analisar a saúde dos seus cidadãos. Se forem felizes e prósperos, serão saudáveis e viverão mais tempo. Neste aspeto, entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos estão no final da lista. A esperança de vida nos EUA, já relativamente baixa, caiu nos dois primeiros anos da presidência de Trump e, em 2017, a mortalidade na meia-idade atingiu a taxa mais elevada desde a Segunda Guerra Mundial. Isso não é uma surpresa, porque não houve nenhum presidente que se tenha esforçado tanto para garantir que mais americanos fiquem sem seguro de saúde. Milhões perderam a cobertura do seguro e a taxa de pessoas sem seguro aumentou, em apenas dois anos, de 10,9% para 13,7%.


Um dos motivos da diminuição da esperança de vida nos Estados Unidos é o que Anne Case e o economista vencedor do prémio Nobel, Angus Deaton, chamam de mortes por desespero, causadas por álcool, overdose de drogas e suicídio. Em 2017 (o ano mais recente para o qual existem dados disponíveis satisfatórios), essas mortes foram quase quatro vezes mais do que em 1999.” Pode consultar aqui o artigo.


 

domingo, 20 de setembro de 2020

Sim, senhor ministro! É o modelo sueco à portuguesa

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Após a “bronca” do convite de Luís Filipe Vieira  para que o senhor primeiro-ministro António Costa integrasse a Comissão de Honra de candidatura à presidência do Benfica, após a retirada da dita comissão e após as vozes contrárias ao convite se terem aparentemente calado o senhor primeiro-ministro António Costa parece estar possuído de uma qualquer síndrome de incertezas quando comunica ao país medidas tomadas, a tomar, ou a não tomar, para debelar ou mitigar a crise que ataca a saúde pública no que se refere à covid-19.

Contrariamente à primeira fase da pandemia onde as medidas foram enérgicas e atempadas nas suas últimas intervenções, talvez devido ao cansaço, parece apresentar uma falta segurança quanto ao que diz no que à covid-19 se refere. Esta insegurança poderá ter como causa os contactos com entidades e especialistas que lançam para o ar pontos de vista contraditórios que me parecem ser mais opiniões do que dados científicos.

Na semana passada na conferência de imprensa, após a reunião do gabinete de emergência para a vovid-19, António Costa lança para o ar nada de novo, colocando-se numa atitude de vocês aí amanhem-se e protejam-se uns aos outros porque se a coisa agravar a responsabilidade é vossa.

"A manter-se esta tendência, chegaremos aos mil novos casos por dia. Temos de travar esta tendência. Não podemos parar o país", declarou o primeiro-ministro na conferência de imprensa. E acrescentou ainda: "Agora, não vamos poder voltar a parar o país, como aconteceu em março. Agora, o controlo da pandemia depende da responsabilidade pessoal de cada um de nós. Não podemos voltar a privar as crianças do acesso à escola, não podemos voltar a proibir as famílias de visitarem os seus entes queridos nos lares, não podemos separar as famílias no Natal como fizemos na Páscoa. Temos mesmo de travar a pandemia por nós próprios através da nossa responsabilidade pessoal".

São verdades que aparentemente parecem ser incontornáveis. A escolha é uma das três: economia, infeção covid ou morte. Claro que a economia prevalece porque sem economia a infeção covid continua e a morte surge lenta, mas inexoravelmente. A morte social pela morte da economia conduz à morte física no seu todo quando não pelo menos ao nível psicológico.

O que o primeiro-ministro disse na conferência, contrariamente ao que disse na primeira fase da pandemia, demonstrou falta de sensibilidade social para com setores mais frágeis e desresponsabilização pelo que venha a acontecer no futuro próximo, mesmo que ao Estado caiba a responsabilidade pela saúde pública.

Se no início de setembro António Costa se indignava porque o governo britânico condicionava os seus cidadãos que regressassem de Portugal a uma quarentena obrigatória agora deixou de fazer parte das suas preocupações.

Quando o resto da Europa reage a escalada de novos casos com restrições parciais devido à aceleração no ritmo de contágio está a ser evidente que na maior parte dos países europeus os Governos evitam confinamento total, mas adotam medidas focadas em regiões e sectores específicos para tentar travar número de novos casos, em Portugal parece vir a seguir-se o modelo da Suécia pela estratégia do chefe de governo António Costa. Modelo mais desumano e de despreocupação pela saúde publica e de desinteresse pelos mais idosos do país.

Se há poucas semanas os noticiários das televisões nos atulhavam e atulham nas horas de ponta com o que se passa nos lares de todo o país António Costa agora até já nem se importa com isso quando afirma que “não podemos voltar a proibir as famílias de visitarem os seus entes queridos nos lares.”. Estranha-se esta afirmação quando é sabido que o vírus é transportado para o interior dos lares por pessoas do exterior. Ou será que são produzidos pelos velhinhos que lá se encontram acamados ou não? Podemos colocar ironicamente a seguinte questão: será que transportar o coronavírus para o interior lares de idosos poderá ser bom para segurança social que, com um maior número de mortes, acaba por pagar menos reformas.

O primeiro-ministro António Costa pretende agora adotar o modelo sueco esquecendo-se de que na Suécia o comportamento social dos suecos nada tem a ver com o dos latinos a que, nós portugueses, feliz, ou infelizmente, pertencemos. Os suecos são um povo dado a poucos contactos considerados socialmente físicos de abraços e beijinhos. Dão muita importância e gostam de manter a distância do seu espaço pessoal e, como tal, gostam que não o invadam, evitam toques e contactos físicos desnecessários. Assim, para eles o combate à covid-19, é visto hoje como uma visão totalmente normal. Nós os latinos somos especialistas nos contactos físicos os suecos encantam mais pelo uso da palavra e pela maneira como expressam exteriormente emoções

O Governo sueco deixou a cargo dos cidadãos a responsabilidade pela sua saúde. Não impôs um confinamento à população, antes apelou às pessoas para que aplicassem o distanciamento social físico, comportamento que não é muito difícil de adotar num país com baixa densidade populacional e cuja cultura valoriza o individualismo e a autodisciplina e onde restaurantes, bares, ginásios, lojas e cabeleireiros mantiveram-se em atividade. Desligando-se dos problemas dos locais descurou também a situação dos locais onde se encontram os seus idosos.

A população da Suécia é de 10 milhões e 278 mil habitantes aproximadamente o mesmo número de população de Portugal 10 milhões e 286 mil habitantes, (fonte PORDATA estimativas em 2019). A Suécia apresenta hoje, 20 de setembro, um total de 88237 casos e 5865 óbitos por covid-19 contra os 68025 casos e 1899 óbitos de Portugal, números muito menores do que os da Suécia.

No início de agosto de acordo com a Bloomberg o Produto Interno Bruto (PIB) sueco foi de -8,2% no segundo trimestre numa primeira estimativa do Instituto Nacional de Estatística da Suécia. As previsões dos economistas apontavam para uma queda homóloga de 7,4%. Os dados provisórios representam o pior desempenho económico trimestral desde que há registos.

Ao contrário dos outros países nórdicos, a Suécia não impôs um bloqueio total na economia e na vida dos cidadãos, tendo apenas dado indicações gerais sobre o confinamento parcial da sociedade. Esta estratégia resultou numa das taxas de mortalidade mais elevadas de toda a Escandinávia. No entanto, a Bloomberg aponta que as novas informações indicam que, apesar da estratégia suave, o país poderá não ter conseguido manter o nível de consumo por parte dos cidadãos.

Na passada quarta-feira, o banco central sueco manteve as previsões realizadas em abril. No primeiro cenário, o produto interno bruto (PIB) poderá contrair 6,9% em 2020, antes de voltar a crescer 4,6% em 2021 e numa previsão mais negativa, prevê que o PIB poderá contrair 9,7% e a recuperação mais lenta, crescendo apenas 1,7% em 2021.

Se comparamos com as previsões em Portugal as diferenças são relativamente poucas, mesmo tendo em conta as diferenças das economias até 17 de setembro e de acordo com o Conselho de Finanças Públicas Portugal terá em 2020 uma queda no PIB de -9,3% prevendo-se que irá crescer em 2021 4,8%.

António Costa parece assim querer aguentar a economia mesmo que tenha de recorrer às ideias da espécie de cientista louco, Anders Tegnell, epidemiologista chefe da Agência de Saúde Pública da Suécia que tem aconselhado o governo sueco. Aliás o primeiro-ministro da Suécia foi criticado e admitiu ter havido erros. Mas disse também querer manter a sua estratégia. O epidemiologista Anders Tegnell, que desenhou a resposta da Suécia à pandemia também admitiu que morreram demasiadas pessoas e que podiam ter sido impostas mais restrições.

Por aqui também alguns jornalistas traçam opiniões favoráveis à estratégia sueca e não me parece que “a pulsão de vida, de vida em sociedade, é aquilo que, em última análise, vai conseguir a cura.”. O medo e o controle pela segurança de cada um individual e coletivamente quebram a produtividade e a insegurança por desconhecimento do que o futuro lhes reserva não faz gastar dinheiro aos cidadãos para que ajudem a funcionar a economia. Um dos maiores problemas não é a perda de consumo interno é o recuo das exportações devido ao recuo de encomendas do estrangeiro que está também a braços com um perigoso aumento de casos covid.

O que é grave é que António Costa agora pareça agora querer seguir o modelo que se reconhece estar errado por muitos elogios lhe façam em vez de adotar modelos mais originais é para isso que servem os gabinetes de crise de saúde pública em situação pandémica.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Janela covid, o estado da emergência e o estado da contingência

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Após uma primeira fase bem-sucedida, na fase atual parece-me que António Costa e o seu Governo adotaram o modelo sueco para contenção da epidemia, isto é, nada fazer, fazer pouco ou fazer de conta. Como se sabe primeiro-ministro sueco, Stefan Löfven, defendeu que o seu país escolheu a estratégia “correta” contra a pandemia, apesar de o número de mortes na Suécia ter sido muito superior ao resto dos países escandinavos.

O jornal Público de 27/08 anunciou que “A ministra do Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, confirmou nesta quinta-feira que o Governo irá prolongar a actual situação de alerta que está no continente, com excepção da Área Metropolitana de Lisboa, que continuará em situação de contingência.” Alegou a ministra que “as novidades” surgirão a 15 de setembro, com a elevação das restrições em todo o território. A ministra justifica que viveremos por essa data “um contexto mais difícil dado o contexto internacional, mudança de rotinas e a chegada do outono”, uma vez que um pouco por toda a Europa registam-se aumentos de novos casos de infeção “e o Governo não pode ficar indiferente a esse aumento” pelo que atuará "preventivamente relativamente à mudança de contexto”.

No mesmo dia 27/08 foram também conhecidos os novos casos detetadas: 399 infeções em Portugal nas últimas 24 horas, o maior número de 402 novos casos desde 10 de julho. Dos novos casos, 186, 47% foram identificados na região de Lisboa e Vale do Tejo, No Norte há 161 novos casos, o que corresponde a 40% do total e é o valor mais elevado desde 8 de maio.

Portugal registou hoje sexta-feira 28/08 mais seis mortes e 401 casos de infeção pelo novo coronavírus, o que corresponde a um aumento de 0,7%. Este é novamente o maior número de casos diários desde 10 de julho sendo o RT de 1,00 o que significa que cada pessoa infetada infeta outra.

Contudo as notícias insistem apenas nos lares de idosos como se esses fossem os grandes transmissores da doença esquecendo que a doença vem do exterior para dentro dos lares provavelmente levada pelos assintomáticos mais jovens que, em cadeia transmitem aos seus familiares.

O Governo tem a perceção de que tudo vai piorar não apenas pelas razões que a ministra apontou e que atrás foi referido. O Governo durante o período de férias abriu quase todas as janelas para a covid-19 entrar. A partir de outubro é que vamos sentir as consequências da abertura. Emigrantes portugueses que resolveram vir a Portugal, desconhecendo se poderiam ser potenciais portadores, assim como estrangeiros, sobretudo ingleses, que têm vindo a entrar ultimamente sem qualquer controle sanitário, apesar de tudo com contentamento da indústria turística algarvia que, de facto, se encontrava e encontra numa crise sem precedentes.

Há também grupos de procedência fora da europa, países de elevado risco que para Lisboa se têm dirigido com o intuito da obtenção de nacionalidade portuguesa para posteriormente darem o salto para outros países. São grupos, normalmente mais jovens, que se juntam e convivem em ambientes pouco salubres e que se espalham por vários locais das grandes cidades, sobretudo em Lisboa, e dos quais não se tem qualquer informação.

Para muitos de nós, portugueses, o contributo será o aumento do número de infeções consequência imediata das decisões de abertura quase sem limites, sendo Lisboa o concelho com maior crescimento de casos na última semana diferença entre o n.º de casos registados até dia 17 e até dia 24 de Agosto.

O Governo em vez de ter em conta a perigosidade de férias resolve contentar a população e contribuir para o descuido. Vendo a coisa a agravar decidiu agora pelo recuo, adotando uma estratégia preventiva em relação ao combate à propagação da pandemia da covid-19 em Portugal e abandonar a estratégia de aprovar medidas reativas em função da evolução dos dados epidemiológicos. O que deveria ter sido feito prevendo e por isso antecipando o que agora faz ao arrepio do controle da situação. A mudança de tática foi previamente comunicada ao Presidente da República.

Sempre fomos um povo de acolhimento sem restrições, mas neste momento gravoso para a nossa saúde pública, um pouco de contenção talvez fosse mais inteligente.

Não venham depois argumentar que foi o começo das aulas, o regresso ao trabalho, a falta de cuidado das pessoas, etc. sim, será isto tudo agravado por todo o resto causado pela obsessão do Governo pela abertura das portas e janelas. Somos os maiores, esperemos que não venhamos a ser os piores por ultrapassarmos a gravidade do que se passa em Espanha, França, Itália. Pretendem fazer-nos acreditar que é uma segunda vaga. Não há segundas vagas, o que há é o descuidado comportamento de todos e de quem nos governa.

Para Ventura do Chega num documento que entregou hoje, sexta-feira, um projeto de resolução no parlamento para revogar a decisão do Conselho de Ministros de declarar a situação de contingência. Ventura está naquela em que MORRA QUEM MORRER, FIQUE INFETADO QUEM FICAR, QUE MORRA, PIM! QUE VIVA A ECONOMIA, PUM! Parodio claro com "O Manifesto Anti Dantas" de José de Almada Negreiros.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Preparar vilanagem os milhões virão aí

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O cansaço de António Costa e o de alguns dos seus ministros e secretários de estado estão a vir à tona depois destes meses todos de Covid-19, coronavírus, Novo coronavírus SARS-CoV-2 ou lá o que é que nos tem trazido a todos numa azáfama de paciência e de receios fundados empurrando a economia para o limite de um precipício no alto duma arriba.


O esforço de Mário Centeno e de todos nós foi destruído no espaço de três meses. Alguns comentadores da esquerda radical, um dos quais me escuso dizer o nome, escreve contra tudo e todos quantos têm elogiado Centeno pelo seu trabalho.  Se fossem potenciais candidatos a ministros diria que estariam no domínio da síndrome de que grande parte dos portugueses sofre: a chamada dor de cotovelo. Mas não, são apenas comentadores de política e partidários de uma esquerda que está sempre contra todos e tudo o que não provenha do seu sectário mundo político-ideológico, mesmo que, comprovadamente, seja bom e se mostre útil, eficaz, e traga riqueza que possa vir a melhorar Portugal e a vida dos portugueses. Convém aqui esclarecer que no quadro dos extremistas de direita também os há, e até piores, mas aí o que muda são as moscas e o resto. Para bom entendedor meia palavra basta!


Saiu no Expresso no dia de Santo António um artigo de Sousa Tavares muito acutilante sobre o pós Covid-19, com o qual em parte concordo,  e o que nos poderá trazer se forem cometidos os mesmos erros do passado. Refiro-me aos oportunistas e clientelistas dos costume no que se refere a verbas de milhões a fundo perdido que se esperam da União Europeia para fazer face à crise causada pela pandemia Covid-19 e às quais muitos se irão lançar como gato a bofe. Não apenas os que andam por aí, mas também novos que se estão já a perfilar e a elevar-se nos céus para vislumbrarem com olhos capciosos, quais abutres famintos, os dinheiros que hão de vir.  


O ministro da economia, Siza Vieira, numa entrevista à “Visão” refere-se ao apelo que anda a fazer às empresas: “Preparem-se, porque vão ter uma oportunidade provavelmente única na nossa História para aplicar recursos naquilo que faz falta e criar condições de crescimento, de competitividade e de produtividade para as vossas empresas.”


Se fizermos uma retrospetiva encontraremos na nossa história política governos onde houve promessas de utilização de dinheiro vindo da U.E. que viriam a incentivar a nossa economia e o nosso desenvolvimento. Entretanto no correr dos acontecimentos surgiram empresas efémeras que nasceram às centenas e que propunham para serem financiados projetos que era sabido serviam apenas para “sacar” dinheiro dos fundos europeus.


Muitos privilegiados de “famílias muito bem” criaram na altura empresas financiadas pela U.E. para darem cursos de formação nas mais variadas áreas com os dinheiros vindos de Bruxelas, muitas delas fictícias e autênticas burlas.


Muitas outras situações se verificaram. O caso da agricultura por exemplo em que dos cerca de 400 mil agricultores 220 mil receberam subsídios para não produzir. Eram agricultores que se encontravam num regime em que eram apenas obrigados a manterem-se em condições para voltarem a ter produção nos mesmo terrenos de onde arrancaram o que lá tinham, havendo outros dois mil que receberam mais 250 milhões de euros do que todos os outros juntos, tendo o país perdido entre 1999 e 2009 25% das explorações agrícolas segundo dados do Instituto Nacional de Estatística.


No passado  também houve uma universidade privada situada lá para os lados do Príncipe Real, em Lisboa, o ISCEM que foi financiada por Bruxelas e licenciado pelo Governo em 1990 que acabou por ser extinta em setembro de 2019 tendo sido um dos seus alunos o chef José Avillez.


Agora são mais milhares de milhões de que alguns oportunistas estarão à espera. Cerca de 15,5 mil milhões de euros em subvenções (distribuídas a fundo perdido) e 10,8 mil milhões de euros sob a forma de empréstimos concedidos em condições de juros muito favoráveis que pode confirmar aqui,  ao que se acrescem os milhões do Quadro Plurianual 21-27 e os que ainda restam do de 20-23. Vamos a ver senão se isto não irá ser uma espécie de “bodo aos pobres” direcionado aos mais ricos.


Em teoria à espreita também estrão o PCP e o Bloco de Esquerda cujo dinheiro quererão que seja distribuído para aumentos salariais da função pública e na admissão de pessoal para o Estado. Para eles quanto mais melhor até que em Portugal tudo seja, até a mercearia do bairro, estatizado sem qualquer critério. Padecem da síndrome da estatização de tudo quanto sejam empresas.  


Esperemos que a alcunha de despesista com que a direita denominava o Partido Socialista e que se foi esbatendo com António Costa e Mário Centeno não venha de novo à tona embriagados pelos milhões que, se espera, cheguem.


A distribuição e o seu destino sem critério e rigor de verbas que não sejam minuciosamente analisados é um perigo. Os lóbis que por aí devem andar irão pressionar no sentido de exigirem uma grossa fatia. Muitos irão sugerir, para distribuição das fatias do bolo, uma espécie de “simplex”, ou seja, o mesmo que alívio ou a eliminação da burocracia na distribuição das fatias por um Estado de clientelas e protetor dos amigos em vez do rigor e disciplina.


Que estes milhares de milhões não nos façam cair na desgraça idêntica à do passado em que alguns se aproveitaram da grande fatia do bolo em proveito próprio deixando desenvolvimento e recuperação económica de Portugal mais uma vez à míngua e a navegar à vela como no passado.