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terça-feira, 12 de novembro de 2024

EUA empresa unipessoal com autocracia no poder

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Início este texto com uma notícia que todos os jornais do EUA e também na Europa divulgaram em maio de 2024. O jornal inglês The Guardian notava que “Donald Trump compartilhou um vídeo na sua conta Truth Social fazendo referência a um ‘reich unificado’ se Trump vencer a eleição presidenciais em novembro”. Depois de ser criticado por isso em alguns setores por mais de meio-dia foi removido. Várias justificações foram dadas para tal pelos elementos da campanha.


O vídeo colocado na segunda-feira 22 de maio permaneceu no ar por 15 horas na manhã de terça-feira, apesar da referência ter sido apontada pelos meios de comunicação. Foi removido da conta do ex-presidente por volta das 10h do Leste EU na terça-feira.


Há quem critique os que não veem na vitória de Trump bons prenúncios para os EUA e para parte do resto do Mundo. Um deles é Jaime Nogueira Pinto que numa entrevista ao jornal SOL em modo de crítica escreveu: “Tive de ter paciência para ouvir teorias espantosas sobre o mal que vem ao Mundo com Trump”. Hoje mesmo (8/11) o Diário de Notícias publicou um artigo de opinião (ainda bem que é apenas uma opinião) onde ele defende o que para a maioria dos comentadores é mau porque na sua perspetiva não vai ser assim tão mau.


A culpa é da esquerda, diz ele, porque a “Esquerda conseguiu que Hitler e do Holocausto ficassem eternamente colados à “Direita”. Logo, parece que o mau apenas o é porque a esquerda assim o disse. Claro que, também classificou como muito mau, e bem, que são maus “os horrores do comunismo, ou os absolvesse como parte dos danos colaterais do Bem e da Virtude – das Fomes da Ucrânia ao Arquipélago de Goulag, dos massacres de Budapeste ao Grande Salto em Frente da China”. E conclui: “todo o líder que começa a ensombrar o domínio da Esquerda passa automaticamente a “fascista” e a “novo Hitler”. A culpa é da esquerda que assim os denomina, porque se não fosse isso não eram maus seriam até bons! E, pondo de lado a esquerda ou a direita, face à objetividade dos factos para Nogueira Pinto a maldade dos fascistas e autocratas é tudo invenção dos media?


Para Nogueira Pinto as ideias e os pensamentos expressos que conduzem a ilações de fascista ou de “novo Hitler” ditas pelos interlocutores, neste caso Trump, é a Esquerda que fica perturbada pela sua perda de influência, logo os classifica daquele modo.


Para ele os media são facciosos porque os media de referência nos impõem “ad nauseam” como única referência, como única causa moralmente superior, verdadeira, democrática, virtuosa... um dos lados.”. Jaime Nogueira Pinto só tem um olho, porque o outro está obscurecido, se assim não fosse teria visto o que os media laçam cá para fora sobre as atrocidades discursivas “trumpianas”. Nogueira Pinto passa ao lado do que Trump disse durante a campanha o que parece não ter apreciado.


Vamos agora analisar possíveis consequências e receios da vitória de Donald Trump. Uma primeira vantagem para Trump segundo o Euronews foi a fortuna pessoal de Trump ter aumentado com a subida das ações da sua empresa de comunicação social após terem saído os resultados.


Por outro lado, Trump parece ter lido o compêndio resumido do “Mein Kampf” já que muitas das suas afirmações durante a campanha assim o mostram como se verá adiante.


O que de facto preocupa a maior parte do Mundo é a resposta à questão:  o que espera o Mundo de Donald Trump? Ao analisarmos as palavras que Trump disse nos comícios e se avaliarmos o que isso sugere e pode significar perceber-se-á sem esforço.


Recordemos e comparemos alguma palavras que ditadores do passado e do presente utilizaram e utilizam para atrair os sem escrúpulos, os plenos de egoísmo que vêm naquele tipo de linguagem a salvação dos problemas que os afligem e ao povo.


Se tivermos atenção as intervenções de Trump nos comícios perceberemos como palavras sensíveis e carregadas de “História” como “deportação”, “países de merda”, “vermes” ou “miseráveis” foram pronunciadas sem escrúpulo. Isto encontra-se em alinhamento com o pensamento de que “Se deseja a simpatia das grandes massas, deve dizer-lhes as coisas mais grosseiras e estúpidas.”(Adolfo Hitler)


Isto leva-nos a refletir sobre as semelhanças de pensamento de Trump com muitas das afirmações escritas no livro anteriormente referido,“Mein Kampf”. Repare-se numa das frases do discurso de vitória de Trump: “Muitos dizem que Deus me poupou a vida por um motivo”. Compare-se com o que Hitler terá escrito ou dito: “Quem disse que não estou sob a proteção especial de Deus?”.


Sobre a imprensa Trump expressou também a sua opinião sem embaraço sobre os media que não o apoiavam. Afirmou que os media davam notícias falsas e ameaçou destruir a imprensa e ameaçou jornalistas. Durante aa campanha e em entrevistas, Trump sugeriu que, se recuperar a Casa Branca, se vingará dos meios de comunicação que o irritam. Mais especificamente, Trump prometeu colocar repórteres na cadeia e retirar as principais redes de televisão de suas licenças de transmissão como retribuição pela cobertura de que não gostou.


Veja-se o que Hitler escreveu sobre a imprensa à época quando cumpria pena de prisão (1924): “Comecei também a examinar debaixo do mesmo ponto de vista a grande imprensa de minha predileção. À proporção que o meu exame se aprofundava diminuía o motivo de minha antiga admiração por essa imprensa. O estilo desses jornais era insuportável, as ideias eu repelia-as por superficiais e banais e as afirmações pareciam aos meus olhos conter mais mentiras do que verdades honestas.” (Mein Kampf, p. 58, tradução).


Assim, a reeleição de Trump pressagia um novo período de hostilidade com os principais meios de comunicação que buscam a imparcialidade, bem como com os meios de comunicação partidários que se lhe opõem. Isso leva-nos ainda a outro tipo de questões. O governo Trump transformará as suas palavras contra a imprensa em ações? Irá revogar as licenças das emissoras de televisão, como sugeriu várias vezes?


Porque há a promessa de Trump de limitar o acesso da imprensa à Casa Branca, impedindo repórteres de que não gosta. De facto, em 2023, horas antes dos seus comentários terem sido divulgados, segundo a AP (Associated Press), um aliado de longa data que deve ocupar um cargo de alto escalão na segurança nacional se Trump voltar à Casa Branca prometeu atacar jornalistas num segundo mandato de Trump.


Assim, os eleitores americanos votaram em alguém como Donald Trump que sobreviveu a uma condenação criminal, a acusações, a um atentado (?), a acusações de autoritarismo e a uma mudança sem precedentes de seu oponente. E, mesmo assim, numa surpreendente reviravolta política, será o próximo presidente dos Estados Unidos.


Parece que os potenciais planos desafiadores de Trump para derrubar o sistema político do país atraíram dezenas de milhões de eleitores. Conseguiu conquistar apoio entre os eleitores latinos e afro-americanos da classe trabalhadora, que deu ao Partido Republicano esperança de uma nova maneira de vencer em uma nação polarizada.


Os especialistas em política dos EUA apontam para que alguns eleitores viam Trump como a sua única opção para combater o que percecionavam como imigração descontrolada e para impulsionar a economia. Outros apontam para que alguns eleitores foram compelidos pelo poder de sua campanha. Mas muitos americanos acharam-no desagradável, e sua vitória pode dizer mais sobre a insatisfação do país os candidatos do Partido Democrata.


No New York Times num artigo de opinião do correspondente da Casa Branca escrevia que “Com sua vitória de regresso para recuperar a presidência, Trump estabeleceu-se agora como uma força transformacional remodelando os Estados Unidos à sua própria imagem.”.


Veremos como será, mas algo de bom não se espera para a América e para o Mundo.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Medo a arma do populismo

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Lembram-se da frase de Passos Coelho quando, em 2016, ao despedir-se dos deputados do PSD, dramatizava em tom catastrofista a situação política com “Vem aí o diabo”? Disse ele então “Gozem bem as férias que em setembro vem aí o diabo”.


Passos Coelho para ajudar (ou prejudicar) o PSD/AD veio agora usar a mesma estratégia do recurso ao medo, desta vez o mais básico que é o medo do outro ao fazer a associação dos imigrantes com insegurança. Esta estratégia já é conhecida e praticada há muito por partidos populistas da extrema-direita.


Recordam-se quando em 2013 Pedro Passos Coelho, que estava há pouco tempo no Governo e na Suíça se restringia a entrada de imigrantes a todos os países da União Europeia aplicando um teto máximo às quotas de autorizações de residência e o então presidente do PSD Passos foi um dos chefes de governo europeus que criticaram tal medida? 


Em 19 e 20 de dezembro daquele ano Passos Coelho discursava sobre as políticas de imigração europeias, que iriam ser tratadas pelos chefes do Governo no encontro de Bruxelas dizia então que “…é de lamentar que ciclicamente apareçam visões negativas de uma espécie de Europa fortaleza”. E mais, “A Europa precisa de imigrantes e força de trabalho”, embora possa “não ter condições para dar asilo a muita gente”, mas “precisa no seu espaço de acolher imigração porque precisa de contrariar os fenómenos de natalidade decrescente”. Mudou agora de opinião.  Passos Coelho quer que a AD aproveite a “mãozinha” do Chega de Ventura.


Se recuarmos aos anos 30 do século XX verificamos que parece haver uma aproximação destas afirmações com partidos populistas e fascistas que recorriam ao medo para mobilizar as populações para os seus desígnios.


Sabemos como os partidos populistas de direita constroem com sucesso o medo recorrendo a perigos reais ou imaginários designando bodes expiatórios acusando-os de ameaçarem ou realmente prejudicarem as suas sociedades.


Todos os partidos populistas de direita instrumentalizam as populações contra algum tipo de minoria étnica/religiosa/linguística/política para serem os bodes expiatórios de todos os problemas atuais para, logo de seguida, acusarem o respetivo grupo como perigoso e como uma ameaça para nós e para a nossa nação, é o fenómeno que se manifesta pela política do medo.


Veja-se o caso do partido nazi na Alemanha de 1939 em que os judeus foram o alvo de perseguições pela mobilização da população contra eles, mas há outros. O fascismo, ideologia política autoritária e nacionalista, muitas vezes capitaliza o medo e o preconceito para ganhar o poder. Os líderes fascistas exploram as ansiedades da sociedade prometendo segurança, estabilidade e o acesso a uma era de ouro e de crescimento. Para capitalizarem preconceitos existentes, exploram os medos enraizados da população através de narrativas simplistas contra certos grupos como fonte de problemas sociais e pessoais que populações pouco avisadas percecionam.


Exemplos históricos como o regime nazi da Alemanha e o governo fascista de Benito Mussolini na Itália fornecem ilustrações claras de como o medo pode ser aproveitado para alimentar ideologias fascistas. No primeiro caso explorou-se a instabilidade económica, o sentimento antissemita para chegar ao poder. Ao criar-se um inimigo comum na imigração joga-se com os medos existentes que são usados para consolidar o apoio e controlar as populações.


Passos Coelho parece ter recorrido a um medo latente e perigoso para intencionalmente se aproximar do Chega e talvez captar alguns eleitores para a AD.  


Os que promotores deste tipo de discursos populistas lançam para a população vários medos, como o de perder o emprego, medo de estranhos (ou seja, imigrantes), medo de perder a autonomia nacional, medo de perder as velhas tradições e valores, medo das mudanças climáticas, deceção e a repulsa de e para com a política tradicional e os políticos, da corrupção, a aversão para com o fosso crescente entre ricos e pobres, a pobreza devido a governos que pretendem derrubar, culpabilizam os que defendem o Estado Social,  fomentam o descontentamento devido à falta de transparência na tomada de decisões políticas e assim por diante.


A intervenção de Passos Coelho foi perigosa e tinha a capacidade para abrir uma Caixa de Pandora”. O PSD só foi radical quando seguiu a política neoliberal de Passos Coelho. Embora digam que era necessário, mas o “ir para além da troika” não foi esquecido e a forma como ele se tem referido ao partido de Ventura também não. Passos Coelho teve com a sua intervenção na campanha da Aliança Democrática o acordo de André Ventura.


Em dezembro de 2023 questionado sobre se o PSD precisava do Chega para ter força para governar, Passos Coelho respondeu que um acordo entre os sociais-democratas e o partido de André Ventura depende das “estratégias partidárias e dos votos dos portugueses”, mas nunca excluiu a possibilidade desse acordo.


Sobre o mesmo tema pode ler a opinião de Helena Pereira


 


 

sábado, 12 de novembro de 2022

Religião nas campanhas eleitorais: atitude e intenções dos candidatos

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Falemos de guerra, revoluções, levantamentos populares, manifestações, eleições e de religião. A longo de milénios a religião tem tido um papel importante na vida de milhões de seres humanos pois ela existe em todas as sociedades e é um elemento central da experiência humana que influencia o modo como se vê e reage ao meio que nos rodeia. Há evidências de que a religião interfere no mundo secular, nomeadamente na política.


Durante a Idade Média houve uma luta constante entre a Europa Cristã e os estados Muçulmanos que culminou com o crescimento do Ocidente nos séculos XVIII e XIX. A incapacidade do mundo muçulmano para resistir à expansão do Ocidente deu lugar a reformas para procurar restaurar a pureza do Islamismo para afirmação da sua identidade, o que originou as denominadas revoluções islâmicas pelas mais diversas formas embora em alguns casos até a repressão por governos teocráticos islâmicos para fazerem cumprir os preceitos religiosas como se tem verificado no Irão.


Há, e sempre houve, uma tensão entre o pensamento racionalista e a atitude religiosa. O desconhecimento e a falta de respostas científicas definitivas sobre a origem da vida, juntamente com a incapacidade das sociedades, na maior parte do Mundo, para resolverem problemas sociais prementes, e alguns até angustiantes, têm tido consequências que podem a vir a ficar num futuro próximo, se é que já não estão, fora de controle.  


A tristeza e a angústia da morte alimentam a ideia de fé que empurra emocionalmente as pessoas para a crença de uma vida após a morte onde a virtude é premiada e o mal castigado, mundos opostos que foram alimentados com a crença no divino.


A variedade de crenças e de organizações religiosas é enorme pelo que se torna difícil uma definição sociológica de religião que seja universalmente aceite. No contexto deste artigo o senso comum poderá ajudar à sua compreensão. No Ocidente as generalidades das pessoas identificam a religião com o Cristianismo que nos promete uma vida para além da morte. Contudo, estas crenças e muitos outros aspetos do Cristianismo estão ausentes na grande maioria das religiões do mundo. Por outro lado, nas principais religiões do mundo, existiram e existem agrupamentos e seitas com zelo dos seus crentes idêntico ao encontrado no Cristianismo. Grupos religiosos podem seguir o seu caminho sem se oporem necessariamente a outras organizações mais estabelecidas, como é o caso das inúmeras igrejas evangélicas.


Novas seitas e novos cultos estão constantemente a surgir como uma qualquer atividade negocial. As suas atividades, rituais e crenças tornam-se semelhantes e as cerimónias litúrgicas ajudam à criação do sentimento da qualidade da experiência religiosa.


Deve ainda salientar-se a importância do fundamentalismo religioso com o regresso literal aos textos das escrituras que emerge como resposta à modernização e à racionalização. Negando respostas sociais, refugia-se em respostas sociais assentes na fé defendendo a tradição, fugindo à secularização, isto é, à sujeição às leis civis, como acontece, por exemplo, com o fundamentalismo islâmico no Irão e Afeganistão e a opressão sobre o sexo feminino, porque a lei da “sharia”, lei islâmica, em parte é contrária aos direitos humanos e especialmente severa com as mulheres e meninas.


Os movimentos fundamentalistas surgem como resposta a uma crise económica generalizada, cultural, de identidade e de autoridade. Defendem a aplicação da «sharia» como único fundamento de organização da sociedade. Há duas correntes  fundamentalistas, os moderados e os radicais. Os primeiros mantêm pressão sobre os dirigentes para que estes provoquem a transformação da sociedade. Para os radicais não há compromissos com a atual sociedade e defendem por isso a rutura política e introduzem o conceito de revolução.


Manipular a religiosidade do povo e das suas crenças leva políticos a invocar o nome de Deus independentemente dos cultos e das liturgias que venerem. Vladimir Putin e os que o apoiam na injusta guerra invasiva da Ucrânia também tem a religião ao seu serviço.


O apoio por parte da Igreja Ortodoxa foi evidente quando as tropas de Vladimir Putin invadiram a Ucrânia e Kirill, o patriarca de Moscou da Igreja Ortodoxa Russa, não condenou as ações militares. Pelo contrário, abençoou as tropas russas e, até agora, não apelou a um cessar-fogo. Kirill o máximo representante da Igreja Ortodoxa Russa é um antigo aliado de Putin que, em 2012, chamou ao governo de Putin "milagre de Deus". O conceito de paz não tem qualquer valor para ele. O feriado por ele criado no dia 4 de novembro que diz ser o Dia da Unidade Nacional que também é o dia da glória militar da Rússia. É um feriado oficial no país. O feriado está associado à libertação de Moscou dos invasores poloneses em 1612 e simboliza a unidade nacional.


Manifesta-se uma espécie de simbiose entre alguns políticos e religiões tendo em vista a manipulação do povo ao serviço dos mais diversos interesses. Entra-se no domínio da relação e de participação da religião na política e reciprocamente. Uma evidência relativamente recente foi o caso que ocorreu nos EUA durante o mandato de Donald Trump que prometeu na campanha a revogação da “Emenda Johnson”, legislação que limita a capacidade de organizações religiosas isentas de impostos de apoiar ou opor-se a um candidato político que usou para apelar ao voto, com algum sucesso, dos eleitores evangélicos.


Já na presidência, Trump afirmou que "se livrou" da emenda e que as organizações religiosas eram livres para defender opiniões políticas na discussão pública. Mas, a “Emenda Johnson” ainda se encontra em vigor, apesar das repetidas afirmações contrárias de Trump e da promessa da sua revogação.  


O recurso às religiões maioritárias não se verificou apenas no Brasil na campanha para as eleições de novembro deste ano. Em 2016 durante a campanha eleitoral de Donald Trump verificou-se o mesmo quando o nome de Deus foi frequentemente proferido.Como se viu durante o mandato de Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil a palavra “Deus” em vários contextos era frequentemente utilizada nos seus comícios políticos. Na Europa estamos a testemunhar uma instrumentalização semelhante do cristianismo por políticas populistas de extrema-direita que utilizam o nome dado ao “Ser Supremo e Criador” para atrair os crentes para as suas “hostes” político-ideológicas.


 
   


Em Portugal André Ventura, do partido CHEGA, é o exemplo demonstrativo com as suas afirmações salvíficas no Tweet e com as suas intervenções públicas assumindo-se como o escolhido de Deus, o que caracteriza o discurso dos ditadores.


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Quando a religião é posta na bancada da disputa eleitoral e da contenda política são implícitos os riscos do messianismo político.


Éric Zemmour, político de extrema-direita francesa derrotado na eleição presidencial em 2022 que apresentou ao eleitorado um discurso xenófobo, misógino e revisionista exalta "o anjo que lidera o exército de anjos contra o dos demónios" usa símbolos histórico-políticos e religiosos. Não faz nada de novo, limita-se a assumir explicitamente os "valores cristãos" que diz defender.


Em Medjugorje, uma vila situada no Sul da Bósnia e Herzegovina, onde alegadamente ocorrem aparições da Virgem Maria, Salvini em março de 2020 expressou a sua devoção a Nossa Senhora de Medjugorje como o fez em várias ocasiões. Orban procura a Bíblia para afirmações com conotação e insistência religiosa: “Os ensinamentos de Deus levaram-nos a não ver uma mera coincidência ou capricho do destino no facto de que, aqui e agora, há um governo cristão de fé a liderar a Hungria”.


Os populistas de extrema-direita na Europa e em outros lugares procuram os símbolos, a linguagem e os rituais do cristianismo, para torná-lo uma defesa contra o estrangeiro e fortalecer o senso de identidade nacional do ocidente.


Seja Putin, Orban, Bolsonaro, Zemmour, Salvini ou Trump, são a evidência do mesmo apelo aos valores cristãos, a mesma exaltação duma herança que a Europa está a perder. Contudo, paradoxalmente, esses populistas que se proclamam defensores da tradição cristã encontraram em Roma o seu inimigo mais firme no coração deste cristianismo com o Papa Francisco. Os apelos do Vaticano e os valores cristãos pela voz do Papa não lhes chegam aos ouvidos.


O lema “Deus, Pátria, Família” ao qual alguns acrescentam abusivamente liberdade, são a evidência do salto, não muito longo, para a as tentativas de ligação da religião às políticas populistas autoritárias. Este slogan criado nos anos 30 ainda se mantém e é mencionado na atualidade tendo como finalidade o apelo à religiosidade do povo e às suas crenças.


O lema da trilogia "Deus, Pátria e Família" não foi, como se poderá supor, invenção da educação do Estado Novo como base do ensino escolar do tempo da ditadura. No Brasil já era usado pelo movimento Integralista Brasileiro em 1932 inspirado no fascismo italiano que tinha sido criado por Mussolini entre as décadas de 1920-1940. Estes movimentos de natureza fascista baseavam-se nos ideais do cristianismo (católico), unidade nacional (entenda-se não existência de vários partidos), corporativismo, combate ao liberalismo e ao socialismo. A religião ficava assim simbolizada pela palavra Deus todo-poderoso e soberano.


Ideologicamente a esquerda critica o slogan “Deus, Pátria, Família” que associa à ditadura. Salazar, para destruir o espírito partidário, planeou e organizou a instituição que é a União Nacional que, embora com intuídos políticos, era considerado, por alguns um partido político e por outros um partido único.  O seu fim político consistia em criar no País a atmosfera dita, indispensável, para uma alegada reforma necessária na política e nos costumes.  Para Salazar os partidos fizeram-se para servir clientelas, mas a União Nacional nunca seria um partido político por que teria a aspiração mais alta de “organizar a Nação” sobe o lema Deus, Pátria, Família.


Mas será que, por a ditadura de Salazar não aceitar o sistema pluripartidário, desvalorizar a democracia e assentar a política na chamada União Nacional, de partido único, haverá razoabilidade para em democracia se odiar aquele slogan para sempre. Cada qual poderá tirar as ilações que entender sobre os significado e carga política que são atribuídos ao slogan, contudo slogans podem ser aplicado de cordo com propósitos pretendidos.


O populismo da extrema-direita portuguesa, dando como exemplo o caso português do partido CHEGA, que se apropriou do mesmo lema do regime ditatorial salazarista parece também valorizar os valores e princípios salazarista e antidemocráticos com arrazoados tais como estar contra o sistema, manifestações xenófobas e racistas, nacionalismo extremado, anti europa, etc. Para André Ventura a ideia de que o seu partido é de extrema-direita é falsa com alegação estranha de que, se o fosse, “não teria a implantação que tem no Alentejo”.


Mas, o que é, para ele, ser antissistema e pretender ser "uma nova Direita antissistema"? Será opor-se ao sistema económico, político, democrático, etc., vigente? Será ser contra a ordem estabelecida? Então que sistema propõe? Será ser antissistema por oposição à democracia? (Ver várias intervenções de André Ventura do partido Chega). Será que ser antissistema é estar contra a democracia e contra tudo o que ela conseguiu e representa? Não temos respostas satisfatórias da sua parte e clamar “Deus, Pátria, Família” não ajuda.


Durante a última campanha eleitoral no Brasil, na disputa pela presidência entre Lula e Bolsonaro, algumas vezes se dirigiam às igrejas e seitas religiosas para a captação de votos. Bolsonaro apoiado pelas igrejas evangélicas e Lula também à igreja católica que fizeram entrar no confronto eleitoral.


Os apoiantes de Bolsonaro após o apuramento dos votos reagiram mal à derrota e fizeram a saudação nazi em frente a um quartel, onde pediam a intervenção militar e de mãos levantadas em posição de prece invocavam Deus numa que exorcização dos resultados.


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Se estivermos atentos ao que se passa no mundo de hoje e sobretudo em em alguns países podemos facilmente constatar através das notícias e informações que nos chegam que as religiões ao intrometerem-se na política ficam cúmplices da potencial instabilidade social criada e da perturbação do exercício democrático que deveria ser pacífico.


A ligação das igrejas evangélicas a Bolsonaro foi várias vezes referida na imprensa brasileira durante a campanha eleitoral, mas a igreja católica, mais discreta, por meias palavras terá dado o seu apoio ao lado oposto. Assim, é possível que a campanha dentro das igrejas ou nas redes sociais direcionada aos fiéis evangélicos tenha tido um papel relevante nos resultados.   


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De acordo com pesquisas de opinião a massa dos apoiantes de Bolsonaro terá sido composta por membros das igrejas e fiéis simpatizantes do mundo evangélico, como fonte de “apoio inabalável”. Note-se que segundo o último censo demográfico brasileiro de 2010, (último conhecido porque o prazo para a recolha de informações para o Censo 2022 foi prorrogado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística até ao início de dezembro), 64,63% diziam ser Católicos Apostólicos Romanos, Evangélicas 22,16% e Evangélicos de Origem Pentecostal 13,30% estas duas últimas obtinham um total de 35,46%.  


 Os cristãos das igrejas evangélica estão do lado oposto ao que seria previsto oporem-se que era o da violência, da morte e das armas. Com os olhos postos na política abandonaram o lema de “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, deixando-o para o passado.


Pastores e “influencers” nas redes sociais escreveram barbaridades como a de que Jesus andaria armado se precisasse, o que contraria o Evangelho segundo São João, (18:10,11): “Simão Pedro, que trazia uma espada, tirou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. Jesus, porém, ordenou a Pedro: Guarde a espada! Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu? ".


Parece começar a emergir a tentativa de associação entre religião, armas e política. Não é por acaso que ocorrem fenómenos político-religiosos de nacionalismo cristão que nasce como ideologia duma extrema-direita global, que se descola como movimento organizado do fascismo tradicional.


Um século depois, pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, o partido de extrema-direita, Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni, o mais votado em Itália que tem as suas raízes fincadas no fascismo também recuperou o lema que popularizou Mussolini "Deus, Pátria, Família". Parece que tudo se está a encaminhar para uma tempestade complexa que poderá ser difícil de parar.


 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Quo vadis, democracia?





(Texto de Carlos Esperança, 22/02/2020)


Temos de perguntar como foi possível legalizar um partido racista e xenófobo, quando a CRP expressamente proíbe a difusão da ideologia de quem se está nas tintas [sic] para a Constituição, normaliza a violência racista e subverte a democracia na AR.


A memória dos povos perde-se, ao contrário da ambição das pessoas a quem qualquer desculpa serve para ascenderem ao poder, como o vereador que Passos Coelho escolheu liderar a lista do PSD às eleições autárquicas de Loures. Ele é o íman que atrai nazis, marginais, cadastrados e intelectuais extremistas, que canalizam medos e ressentimentos contra a democracia e a moldura jurídica que a define.


É o deputado que diariamente ocupa a comunicação social que segue a velha máxima: notícia não é o cão que morde um homem, mas o homem que morde um cão. Mitómano, narcisista e incoerente, alimenta as notícias com o medo que infunde, a violência verbal que verte e o carácter amoral de quem não tem moral nem carácter.


É inútil acusar o invertebrado que defendeu uma tese humanista para efeitos académicos e a contraria para fins eleitorais. Ele viu o filão fascista que, à semelhança da década de 30 do século passado, vulgarizou os ideólogos do nazi/fascismo. Basta-lhe a falta de escrúpulos.


Engana-se quem pensa que 48 anos de ditadura, 5 de ditadura militar e 43 de fascismo, podem constituir uma vacina contra novas aventuras, quando a própria Alemanha, onde a pedagogia e repressão antinazi foram exercidas, não conseguiu impedir a ressurreição dos demónios que atormentaram o mundo e levaram a tragédia ao seu próprio povo.


Não conheço uma receita para evitar a deriva fascista que, tudo leva a crer, já entrou no aparelho de Estado, nas polícias, nos órgãos de soberania e na mentalidade de quem não sabe o que foi a tragédia da guerra de 1939/45.


O que hoje é visto com leviandade por quem julga o país imune ao regresso ao passado, passará a ser uma preocupação antes de acabar em tragédia.


Não é preciso ser bruxo.


terça-feira, 8 de janeiro de 2019

A única coisa pior do que ser falado é não ser falado

Mário Machado2.png


Imagens TVI24 e jornal i


A frase do título deste post que penso ter sido atribuída a Óscar Wilde fez-me recordar Donald Trump que, para uns, sofre de autoritarismo, é fascizante e tem falta de senso político, e, para outros, é o melhor político como, por exemplo, para Bolsonaro no Brasil que gosta de o imitar o que me levou a refletir sobre os avanços na U.E. da extrema-direita e dos seus tentáculos. O crescimento destas ideologias é um dos assuntos mais sérios que tem vindo a público e não pode ser desvalorizado pela U.E. apesar de que alguns em Portugal digam estarmos livres. Não, não estamos livres. Não há dúvidas do começo do seu despontar embora que, ainda, timidamente.


São as tendências autoritárias e extremistas que vivem sob a capa de democratas no seio da própria democracia que a estão a minar. São os nacionalismos exacerbados, as xenofobias, os racismos, o ódio, o apelo à segurança por causa da insegurança, o ser contra tudo quanto é diferente que se vai amplificando no seio das democracias.


Por cá, invocam-se recordações saudosistas dos tempos de Salazar que alguns, os mais velhos, na sua instabilidade e insegurança que a idade avançada lhes vai trazendo, recordam e acham que um regresso a esse espírito lhes faz falta. Outros, os mais novos, eventualmente angariados por estes extremismos, os que não viveram aqueles tempos e que dizem não haver agora liberdade de expressão por não poderem clamar hinos rácicos e xenófobos, reclamam por novos tempos que acabam por trazer, novamente, a falta dela como se pode confirmar por afirmações de André Ventura (ainda no PSD?) ao semanário Sol.


É muito fácil fugir a perguntas, ao diálogo e à controvérsia com mensagens curtas e inteligíveis, com frases e discursos redondos e bacocos, feitos à medida, sem coerência argumentativa, convencer um povo e desencadear as suas emoções mais primárias. Um povo menos culto, com algum défice de literacia política, impreparado e desavisado, recebe e assimila rápida e facilmente essas mensagens e dá-lhes crédito. É o endeusamento dos que falam direto e fácil, por serem compreendidos com um mínimo esforço.


Aqueles que anseiam por um novo homem ele aí esteve, na televisão, identificando-se como sendo uma nova pessoa, um novo homem após libertação, terminada a prisão por violência racista. Se a prisão recupera aí está a prova manifestada pelo arrependido. O passado de violência e assassinatos por motivos raciais, as cruzes gamadas tatuadas nos braços, as saudações nazis, nada disso interessa, foram coisas do passado, coisas de juventude. Mas esse novo homem diz precisarmos de um Salazar que nada teve a ver com fascismo e que no seu tempo havia liberdade de expressão coisa que atualmente não existe. Salazar salvou Portugal da guerra e recebeu judeus fugidos dos nazis, não era fascista e nessa altura havia segurança.


Hoje, que já não há um Salazar precisarmos de um, ou mais do que um. Quem o diz é o novo homem que saiu da prisão e é contra a imigração e os negros porque a violência vem dos africanos, provado que está nas prisões, onde se encontram em maioria, devido a crimes violentos. Compreende-se, é uma nova pessoa, um novo homem como afirma categoricamente, talvez escondendo tatuagens reveladoras dessa nova pessoa debaixo da manga comprida do casaco que traz vestido.


Claro que já adivinharam de quem estou a falar. É desse novo homem, Mário Machado, líder do movimento Nova Ordem Social, várias vezes condenado por crimes de ódio racial, mas que não tem nada contra os homossexuais. Quando no programa "Você na TV", Manuel Luís Goucha lhe perguntou no final da entrevista:


- Vivo há vinte anos com um homem, tem alguma coisa contra mim?  - perguntou Luís Goucha a Mário Machado.


A resposta veio de imediato:


- Claro que não, senão não estaria aqui - responde o entrevistado.


Esta foi mais uma novidade que nos trouxe este novo homem!! 


Goucha levanta-se muito rápido e, com uma expressão de regozijo por esta afirmação, sentindo-se talvez “aliviado” dos ataques que lhe terão feito nas redes sociais pelo convite dirigido àquele novo homem, encaminha-se, porventura envaidecido, para o ecrã gigante onde passa uma mini reportagem, espécie de vox populi. Foi, porventura, a sua forma de vingança.


Gostava que me explicassem por desenhos este fenómeno de recuperação que levou Mário Machado a transformar-se num novo homem uma vez que, em 2016, apenas há dois anos, foi noticiado que “Comunistas, negros, muçulmanos e homossexuais foram violentamente espancados por skinheads entre 2013 e 2015, no centro de Lisboa. A motivação político-ideológica das cabeças rapadas, que pertencem à fação mais perigosa do movimento internacional de extrema-direita Hammer Skin Nation, levou à intervenção da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da PJ, que deteve ontem 20 suspeitos.”. “Os cabecilhas do grupo agora detido fizeram parte do núcleo duro do ex-líder dos Portuguese Hammer Skins (PHS), Mário Machado, detido desde 2007, data da última megaoperação da UNCT contra os crimes deste movimento neonazi.”, que pode ler aqui.


Esses, como Mário Machado, que falam em censura e em falta liberdade de expressão que dizem atualmente não existir, cortariam, sem hesitação, este texto se fosse escrito, sob um regime como o que ele defende.


A polémica e os protestos instalados sobre o dito programa da TVI, na rubrica "Diga de Sua (In)Justiça" da autoria de Bruno Caetano, deu lugar a uma quantidade de artigos de opinião que talvez tenham sido exagerados, porque "a única coisa pior do que ser falado é não ser falado". E Mário Machado foi falado, e até de mais! Neste preciso momento ele está a ser falado e você está a ler. Terá sido esse o objetivo que a TVI teve em mente?!. . . 


Para além da tentativa de branqueamento do seu passado, a TVI ofereceu ao nazi que agora diz ser nacionalista e um outro homem, a publicidade gratuita que intentou elevar os telespectadores ao nível de consumidores do produto enganoso que é Mário Machado.


E termino com uma citação de Vasco M. Barreto no jornal Público:


“Independentemente do que possamos pensar sobre a liberdade de expressão, qualquer texto que mencione o mais famoso neonazi da pátria deve incluir uma referência a Alcindo Monteiro, Manuel Domingos Silva, Contreiras Ferreira, Alberto Adriano, Fausto Soares, João Soares e Matias de Almeida, entre outros, que a 10 de Junho de 1995 foram agredidos à paulada e aos pontapés no corpo e na cabeça por skinheads.”.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

25 de Abril a minha homenagem

A minha pequena homenagem através de imagens


Um breve resumo do 25 de Abril de 1974 


 



 


 



 


 



 



25 de Abril antecedentes


Documentário RTP 1 e 2