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quinta-feira, 7 de abril de 2022

Será este o assustador pensamento de Putin?

Ucrânia e Putin-5.png


Na segunda-feira 4 de abril as forças ucranianas continuaram, aparentemente, a derrotar os invasores russos, apesar de no domingo 3 de abril de 2022 um artigo de Sergeytsev publicado pelos media oficiais russos afetos ao regime de Putin alega que o “ukronazismo”, neologismo utilizado pelos fanáticos de Putin, é uma ameaça mais considerável para o mundo do que o Partido Nazista de Hitler e pedindo uma completa tomada russa do território e da cultura ucraniana. Refere-se ainda a Bandera um nacionalista ucraniano que liderou um movimento de guerrilha nas décadas de 1930 a 1950 pela independência da Ucrânia cujas ideias eram controversas. Faleceu em 1959.


A estratégia comunicacional do Presidente Vladimir Putin é a de recuperar ideologia nazi de Hitler, ainda presentes nas populações, de modo a promover um efeito de revolta acusando os ucranianos de nazis para que se revoltem contra o povo ucraniano e mostrando Putin como o grande opositor ao nazismo. Isto é, sendo ele mesmo uma espécie de nazi travestido de democrata.


O artigo que transcrevo na íntegra tem apenas pequenos ajustamentos ao português, revela o pensamento assustador de Putin e é manifestamente de incitamento à guerra e à violência contra o povo ucraniano e não só, o que foi explícito na prática pelas ações criminosas do exército ocupante que está patente em frases como estas:


“No entanto, além do topo, uma parte significativa da massa popular, que são nazis passivos, cúmplices do nazismo, também é culpada”.


“… mas incluindo e acima de tudo o totalitarismo ocidental, programas impostos de degradação civilizacional e desintegração, mecanismos de subordinação à superpotência do Ocidente e ESTADOS UNIDOS.”


“… A Rússia fez todo o possível para salvar o Ocidente no século XX. Implementou o principal projeto ocidental, uma alternativa ao capitalismo, que derrotou os estados-nação, o projeto socialista e vermelho.”


“O último ato de altruísmo russo foi a mão estendida da amizade russa, para a qual a Rússia recebeu um golpe monstruoso da década de 1990.” O autor refere-se aqui ao colapso da URSS.


O que a Rússia deve fazer com a Ucrânia


O artigo da autoria de Timofey Sergeytsev foi publicado num media da Rússia às 08:00 de 03.04.2022 (atualizado: 19:36 05.04.2022).


Ucrânia e Putin ideólogo.png.jpg


Timofey Sergeytsev


Em abril do ano passado, escrevi sobre a inevitabilidade da desnazificação da Ucrânia. Não precisamos de uma Ucrânia nazista, baseada em Bandera, inimiga da Rússia e um instrumento do Ocidente para destruir a Rússia. Hoje, a questão da desnazificação mudou-se para o plano prático.


A desnazificação é necessária quando uma parte significativa do povo - provavelmente a maioria - foi absorvida e atraída para a política pelo regime nazista. Ou seja, quando a hipótese de "o povo é bom – o governo é ruim" não funciona. O reconhecimento desse fato é a base da política de desnazificação, de todas as suas atividades, e o fato em si é o seu tema.


A Ucrânia está nessa situação. O facto de o eleitor ucraniano ter votado pela "paz de Poroshenko" e pelo "mundo de Zelensky" não deve ser enganoso – os ucranianos ficaram bastante satisfeitos com o caminho mais curto para a paz através da blitzkrieg, que os dois últimos presidentes ucranianos sugeriram de forma transparente quando foram eleitos. É esse método de "apaziguamento" dos antifascistas internos – através do terror total – que tem sido usado em Odessa, Kharkiv, Dnepropetrovsk, Mariupol, outras cidades russas. E isso serviu muito bem ao ucraniano na rua. A desnazificação é um conjunto de medidas contra a massa “nazizada” da população, que tecnicamente não pode ser punida diretamente como criminosos de guerra.


Os nazis, que pegaram em armas, devem ser destruídos o máximo possível no campo de batalha. Nenhuma distinção significativa deve ser feita entre ESTEIRA e os chamados Natsbats, bem como a defesa territorial que se juntou a esses dois tipos de formações militares. Todos eles estão igualmente envolvidos em extrema crueldade contra a população civil, são igualmente culpados do genocídio do povo russo, e não cumprem as leis e os costumes da guerra. Criminosos de guerra e nazis ativos devem ser punidos de forma aproximadamente e demonstrativa. A eliminação total deve ser realizada. Todas as organizações que se associaram à prática do nazismo foram liquidadas e banidas. No entanto, além do topo, uma parte significativa da massa popular, que são nazis passivos, cúmplices do nazismo, também é culpada. Eles apoiaram e satisfizeram o governo nazista. Uma punição justa dessa parcela da população só é possível como um porte dos inevitáveis fardos de uma guerra justa contra o sistema nazista, conduzida com o maior cuidado e cautela possível em relação aos civis. A desnazificação adicional dessa massa da população consiste na reeducação, que é alcançada pela repressão ideológica (supressão) das atitudes nazistas e da censura estrita: não apenas na esfera política, mas necessariamente também no âmbito da cultura e da educação. Foi através da cultura e da educação que uma profunda nazificação em massa da população foi preparada e implementada, reforçada pela promessa de dividendos da vitória do regime nazista sobre Rússia, propaganda nazista, violência interna e terror, bem como uma guerra de oito anos com as pessoas que se rebelaram contra o nazismo ucraniano Donbass.


A desnazificação só pode ser realizada pelo vencedor, o que implica (1) o seu controle incondicional sobre o processo de desnazificação e (2) o poder de garantir tal controle. A este respeito, um país desnazificado não pode ser soberano. O Estado desnazificante, a Rússia, não pode proceder a partir de uma abordagem liberal para a desnazificação. A ideologia do denazificador não pode ser contestada pelo culpado submetido à desnazificação. O reconhecimento da Rússia da necessidade de desnazificar a Ucrânia significa o reconhecimento da impossibilidade do cenário da Crimeia para a Ucrânia como um todo. No entanto, esse cenário era impossível em 2014 e no rebelde Donbass. Apenas oito anos de resistência à violência nazista e ao terror levaram à coesão interna e a uma recusa em massa consciente e inequívoca de manter qualquer unidade e conexão com a Ucrânia, que se definiu como uma sociedade nazista.


O tempo de desnazificação não pode de forma alguma ser inferior a uma geração, que deve nascer, crescer e atingir a maturidade nas condições de desnazificação. A Nazificação da Ucrânia durou mais de 30 anos, começando pelo menos em 1989, quando o nacionalismo ucraniano recebeu formas legais e legítimas de expressão política e liderou o movimento pela "independência", correndo em direção ao nazismo.


A peculiaridade da Ucrânia nazificada moderna é a amorfo e a ambivalência, que tornam possível disfarçar o nazismo como um desejo de "independência" e um caminho "europeu" (ocidental, pró-americano) de "desenvolvimento" (na realidade - à degradação), para afirmar que na Ucrânia "não há nazismo, apenas excessos isolados privados". Afinal, não há nenhum partido nazista principal, nem Führer, nenhuma lei racial de pleno direito (apenas uma versão truncada deles na forma de repressões contra a língua russa). Como resultado, não houve oposição e resistência ao regime.


No entanto, tudo isso não faz do nazismo ucraniano uma "versão leve" do nazismo dos tempos alemães da primeira metade do século XX. Pelo contrário, uma vez que o nazismo ucraniano está livre de tais estruturas e restrições de "gênero" (político e tecnológico em essência), ele desdobra-se livremente como a base fundamental de todo o nazismo – como europeu e, na forma mais desenvolvida, o racismo americano. Portanto, a desnazificação não pode ser realizada em um compromisso, com base em uma fórmula como "OTAN "Não, a UE sim." O próprio coletivo Ocidente é o designer, fonte e patrocinador do nazismo ucraniano, enquanto os quadros de Bandera Ocidental e a sua "memória histórica" são apenas uma das ferramentas para a Nazificação da Ucrânia. O ukronazismo carrega nada menos do que uma ameaça maior ao mundo e à Rússia do que o nazismo alemão de origem de Hitler.


O nome "Ucrânia" aparentemente não pode ser mantido como um título de qualquer entidade estatal totalmente desnazificada no território libertado do regime nazi. As repúblicas do povo recém-criadas no espaço livre do nazismo devem e crescerão a partir da prática de autogoverno económico e segurança social, restauração e modernização dos sistemas de suporte à vida da população.


Sua aspiração política não pode de facto ser neutra – a redenção da culpa perante a Rússia por tratá-la como inimiga só pode ser realizada em confiar na Rússia nos processos de restauração, reavivamento e desenvolvimento. Nenhum "Plano Marshall" para esses territórios deve ser permitido. Não pode haver "neutralidade" no sentido ideológico e prático compatível com a desnazificação. O pessoal e as organizações, que são um instrumento de desnazificação nas novas repúblicas desnazificadas, não podem deixar de contar com a força direta e o apoio organizacional da Rússia.


A desnazificação inevitavelmente também será a desinrainização – uma rejeição da inflação artificial em larga escala do componente étnico da autoidentificação da população dos territórios históricos de Malorossiya e Novorossiya, que foi iniciada pelas autoridades soviéticas. Sendo um instrumento de superpotência comunista, após a sua queda, o etnocentrismo artificial não permaneceu abandonado. Ele passou nesta capacidade oficial sob o comando de outra superpotência (poder em pé sobre estados) - a superpotência do Ocidente. Deve ser devolvido aos limites naturais e privado de funcionalidade política.


Ao contrário, digamos, Geórgia e países Báltico. A Ucrânia, como a história mostrou, é impossível como um Estado-nação, e as tentativas de "construir" um naturalmente levam ao nazismo. O ukrainismo é uma construção artificial anti-russa que não tem seu próprio conteúdo civilizacional, um elemento subordinado de uma civilização alienígena e alienígena. A desbanderização por si só não será suficiente para a desnazificação – o elemento Bandera é apenas um intérprete e uma tela, um disfarce para o projeto europeu da Ucrânia nazi, de modo que a desnazificação da Ucrânia é também a sua inevitável deseuropeização.


A elite bandera deve ser liquidada, a sua reeducação é impossível. O "pântano" social, que o apoiou ativamente e passivamente pela ação e inação, deve sobreviver às dificuldades da guerra e assimilar a experiência como lição histórica e redenção de sua culpa. Aqueles que não apoiaram o regime nazi, sofreram com ele e a guerra em Donbass desencadeada por ele, deve ser consolidada e organizada, deve tornar-se o apoio do novo governo, no seu vertical e horizontal. A experiência histórica mostra que as tragédias e dramas de tempos de guerra beneficiam os povos que são seduzidos e levados pelo papel do inimigo da Rússia.


A desnazificação como objetivo de uma operação militar especial no âmbito desta operação é entendida como uma vitória militar sobre o regime de Kiev, a libertação de territórios de partidários armados da Nazificação, a eliminação de nazi irreconciliáveis, a captura de criminosos de guerra, bem como a criação de condições sistémicas para a subsequente desnazificação dos tempos de paz.


Este último, por sua vez, deve começar com a organização de órgãos locais de autogoverno, milícia e defesa, purificados de elementos nazistas, o lançamento com base nos processos constituintes da fundação de um novo estado republicano, a integração deste estado em estreita cooperação com o departamento russo para a desnazificação da Ucrânia (recém-criada ou refeita, digamos, de Rossru dotnichestvo), com a adoção sob controle russo do quadro regulatório republicano (legislação). sobre a desnazificação, definindo os limites e o quadro para a aplicação direta da lei russa e da jurisdição russa no território libertado no campo da desnazificação, a criação de um tribunal para crimes contra a humanidade na antiga Ucrânia. A este respeito, a Rússia deve agir como guardiã dos julgamentos de Nuremberg.


Tudo isso significa que, para alcançar os objetivos de desnazificação, é necessário apoiar a população, mudar para o lado da Rússia após a libertação do terror, violência e pressão ideológica do regime de Kiev, após a retirada do isolamento da informação. É claro que levará algum tempo para que as pessoas se recuperem do choque das operações militares, para se convencerem das intenções de longo prazo da Rússia – de que "elas não serão abandonadas".


É impossível prever com antecedência em que territórios, tal massa da população constituirá uma maioria extremamente necessária. É improvável que a "Província Católica" (Ucrânia Ocidental, composta por cinco regiões) se torne parte dos territórios pró-Russos. A linha de alienação, no entanto, será encontrada empiricamente. Manterá uma Ucrânia hostil à Rússia, mas à força neutra e desmilitarizada com o nazismo banido por motivos formais. Os que odeiam a Rússia irão para lá. A garantia da preservação deste Ucrânia residual em um Estado neutro deve ser a ameaça de continuação imediata da operação militar em caso de descumprimento dos requisitos listados. Isso pode exigir uma presença militar russa permanente em seu território. Da linha de alienação até a fronteira russa será o território de potencial integração à civilização russa, antifascista em sua natureza interna.


A operação para desnazificar a Ucrânia, que começou com a fase militar, seguirá em tempos de paz a mesma lógica de estágios da operação militar. Em cada um deles, será necessário alcançar mudanças irreversíveis, que serão os resultados da etapa correspondente. Neste caso, as etapas iniciais necessárias de desnazificação podem ser determinadas da seguinte forma:



  • liquidação de formações nazis armadas (que são entendidas como quaisquer formações armadas da Ucrânia, incluindo as Forças Armadas da Ucrânia), bem como as forças militares, informações, infraestrutura educacional que garante sua atividade;

  • a formação dos órgãos autogovernados e da milícia (defesa e lei e ordem) dos territórios libertados, protegendo a população do terror de grupos nazistas subterrâneos;

  • instalação do espaço de informação russo;

  • o confisco de materiais educativos e a proibição de programas educacionais em todos os níveis contendo ideologias nazistas;

  • ações investigativas em massa para estabelecer responsabilidade pessoal por crimes de guerra, crimes contra a humanidade, a disseminação da ideologia nazis e apoio ao regime nazista;

  • Ilustração e a publicação dos nomes dos cúmplices do regime nazi, o seu envolvimento no trabalho forçado para restaurar a infraestrutura destruída como punição para as atividades nazistas (dentre aqueles que não estarão sujeitos à pena de morte ou prisão);

  • a adoção a nível local, sob a supervisão da Rússia, dos atos normativos primários de desnazificação "a partir de baixo", a proibição de todos os tipos e formas de reavivamento da ideologia nazista;

  • estabelecimento de memoriais, placas memoriais, monumentos às vítimas do nazismo ucraniano, perpetuação da memória dos heróis da luta contra ele;

  • a inclusão de um conjunto de normas antifascistas e desnazificação nas constituições das novas repúblicas do povo;

  • estabelecimento de órgãos permanentes de desnazificação por um período de 25 anos.


A Rússia não terá aliados para a desnazificação da Ucrânia. Porque este é um assunto puramente russo. E também porque não apenas a versão de Bandera da Ucrânia nazi será erradicada, mas incluindo e acima de tudo o totalitarismo ocidental, programas impostos de degradação civilizacional e desintegração, mecanismos de subordinação à superpotência do Ocidente e ESTADOS UNIDOS.


A fim de realizar o plano de desnazificação da Ucrânia para a vida da própria Rússia, ele terá que finalmente de se separar com ilusões pró-européias e pró-ocidentais, para se realizar como a última instância de proteção e preservação desses valores históricos Europa (Velho Mundo), que o merece e que o Ocidente acabou por abandonar, perdendo a luta por si mesmo. Esta luta continuou ao longo do século XX e foi expressa na guerra mundial e na Revolução Russa, inextricavelmente ligadas umas às outras.


A Rússia fez todo o possível para salvar o Ocidente no século XX. Implementou o principal projeto ocidental, uma alternativa ao capitalismo, que derrotou os estados-nação, o projeto socialista e vermelho. Esmagou o nazismo alemão, um produto monstruoso da crise da civilização ocidental. O último ato de altruísmo russo foi a mão estendida da amizade russa, para a qual a Rússia recebeu um golpe monstruoso da década de 1990.


Tudo o que a Rússia fez pelo Ocidente, fez às suas próprias custas, fazendo os maiores sacrifícios. O Ocidente finalmente rejeitou todos esses sacrifícios, desvalorizou a contribuição da Rússia para a resolução da crise ocidental, e decidiu vingar-se da Rússia pela ajuda que forneceu sem egoísmo. Então a Rússia seguirá o seu próprio caminho, não se preocupando com o destino do Ocidente, contando com outra parte de seu legado – liderança no processo global de descolonização.


Como parte desse processo, a Rússia tem um alto potencial de parceria e relações aliadas com países que o Ocidente oprimiu há séculos e que não vão colocar em seu jugo novamente. Sem sacrifício e luta russas, esses países não teriam sido libertados. A desnazificação da Ucrânia é, ao mesmo tempo, a sua descolonização, que a população da Ucrânia terá que entender à medida que começa a se libertar da droga, tentação e dependência da chamada escolha europeia.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

A propósito de: Quem sou eu para comentar?

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Quem sou eu para comentar, bem ou mal, o que doutos professores catedráticos, comentadores, experimentados políticos, conceituados jornalistas, analistas políticos (que proliferam nos canais de televisão), sindicalistas, bastonários de ordens profissionais que fazem política pró- partidária, cientistas, e muitos outros. Uns sentados nos bancos do serviço público e outros que se movem no mundo das instituições privadas onde praticam elaborações de leis e defesas de alta corrupção, mas que escrevem e proferem opiniões sobre tudo, mesmo sobre o que não dominam, nos vários órgãos de comunicação social, da imprensa à televisão.  Lançam sabedoria que o público admira e consome. Sendo, conhecidos, sobretudo, pelos seus prognóstico e oráculos, obtidos por canais privilegiados e informais de amigos do governo ou de fora dele.  Conjetura-se que transacionem informações sobre processos de investigação criminal em segredo de justiça e, como troca, entra-se no jogo do dás-me isso e eu dou-te aquilo.


Quem não têm amigos e conhecidos em postos chave há intermediações a fazerem-lhes chegar às mãos informações privilegiadas para em seguida emitirem opiniões escritas ou verbalizadas de algo que desconhecem sobre pessoas públicas que têm uma reputação a defender. É extraordinário que ninguém lhes pergunte pelas provas do que afirmam com tanta certeza, que ninguém pergunte onde estão os factos que justificam as suspeitas, enfim, que ninguém pergunte nada, apenas suspeições. É o velho aforismo da mentira tantas vezes repetida que passa a ser verdade.


Parece-me vir a propósito a forma como vejo de fora a imprensa e a televisão a formatarem e a lançarem para o público a informação editada. Por muito que se diga o contrário os media e os jornalistas são atores políticos que muitas vezes seguem subtilmente agendas partidárias ou ideológicas consequentes das especificidades editoriais.


A relação entre os órgãos de comunicação social e a política acentuou-se consideravelmente de tal forma que é impossível conceber a política sem a existência de um ambiente jornalístico, notando-se da parte dos políticos, sobretudo, quando num governo, envidarem esforços para controlar as margens de incerteza resultantes de um relacionamento dinâmico com a opinião pública. Um caso paradigmático é a falta de estratégia para controle de danos, para alguns deixado ao acaso dos acontecimentos, como aconteceu com o ministro António Cabrita.


Atualmente a ferramenta mais eficaz para comunicar com o público, ou melhor com os eleitores, é a televisão que, no entanto, é mediada/conduzida por jornalistas. Em última análise, empresas mediáticas que se orientam por valores e princípios distintos daqueles que são defendidos por poderes democraticamente eleitos, passa a haver uma tensão latente entre os media e esse tal poder político, sobretudo quando este não é da “simpatia” de algumas redações. Isto passa-se com um qualquer candidato seja ele a líder partidário, a ministro ou a primeiro-ministro de um governo quando não é o preferencial por um determinado órgão de comunicação.


O desagrado com alguns políticos e práticas políticas, com determinado governo ou com um primeiro-ministro pode manifestar-se num ataque cerrado por parte do media. É frequente a insistência diária e sistemática sobre o mesmo assunto, nomeadamente das televisões, a incidência em aspetos negativos sobre uma qualquer figura pública da política, atuação ministerial, mau funcionamento de instituições e falhas em determinada área como forma de colocar em desfavor a opinião pública considerando tal atitude como a de escrutinar o poder.


Em democracia o escrutínio do exercício político dos governos e do poder político, são uma das mais importantes e legítimas funções do jornalismo, mas a liberdade de imprensa não é um privilégio dos jornalistas, mas sim uma condição da liberdade de expressão dos cidadãos visto estes só poderem captar um conjunto muito limitado de acontecimentos.


Os jornalistas não foram eleitos nem representam oficialmente ninguém, mas têm um contrato informal com os cidadãos numa espécie de procuração que lhes confere o dever de zelar pelo cumprimento dos valores democráticos e denunciar as suas falhas, através de uma informação isenta e verdadeira. Sublinho isenta porque considero ser óbvia a verdade e a isenção no jornalismo sério.


Por vezes alguma comunicação social atua tendenciosamente através da procura e da insistência em factos marginais para desacreditar na opinião pública um cidadão ou um poder político porque pertencem a uma dada área partidária e ideológica que pretendem atacar.


Um caso evidente e atual e que tomo como exemplo do que refiro são as falhas nos serviços de saúde públicos, tema sensível na opinião pública, que têm sido são diariamente salientados durante o atual Governo mesmo durante a contingência das vagas da crise pandémicas. Os meios de comunicação não devem, nem podem, tentar omitir os problemas que se passam no SNS que acho devem ser noticiados nos limites do bom senso e do não alarmismo. Alguns dos problemas no interior dos serviços do SNS que nos chegam como telespectadores fica-se com a perceção de que são por vezes organizados para criar instabilidade sobre o sistema e as ordens dão uma ajuda, mas quando o poder pertence a uma área ideológica da sua “preferência” os mesmos media manifestam mais complacência para com os problemas detetados e dados como notícias marginais.


Vejamos o caso mais paradigmático quando, durante o Governo PSD-CDS com Passos Coelho primeiro-ministro, a esquerda o pelos cortes no SNS. Durante esse período órgãos de comunicação afetos à direita que, pressurosamente, publicam notícias, comentários e opiniões favoráveis omitindo, na altura, os reais problemas.


Situemo-nos então no caso do SNS ao tempo do Governo de Passos Coelho. Quando em janeiro de 2015 Passos justificava que a qualidade do SNS não podia ser aferida pelas falhas registadas que coincidiram com o período de crise no país e reconhecia que a pressão e o escrutínio mediático criavam muita pressão.  Sobre o agravamento nas urgências hospitalares, Passos dizia na altura que "não se confunda o que se está a passar, se passa em Portugal" com o que "se tem passado noutros países" de "uma forma anormal, desafiando a capacidade instalada e a qualidade dos profissionais".


O que se verifica hoje apesar da pressão causada no SNS pela pandemia covid-19 é que sindicatos e ordens de médicos e enfermeiros que se juntam para fazer coro nos órgãos de comunicação que diariamente e com presteza por via do SNS pretendem atacar o Governo.


Também em janeiro de 2015 durante o Governo de Passos Coelho num debate com o primeiro-ministro na Assembleia da República a dirigente Catarina Martins do BE criticava Passos por não ter apresentado "uma única medida que o Governo tenha tomado para contrariar o descalabro na saúde", recebendo apupos da bancada do PSD. Acrescentava então: "Poupou-se despesa no SNS, mas não se pouparam vidas e isso não se pode desculpar a um Governo e que "Poupou-se despesa no SNS, mas não se pouparam vidas e isso não se pode desculpar a um Governo". Foi esta a intervenção da dirigente da extrema-esquerda durante o debate quinzenal no parlamento: "Quero saber de que cortes na despesa é que se orgulha, três dias antes de ter morrido uma pessoa sem assistência no Hospital de Santa Maria, a diretora das urgências disse que não tinha meios, nós temos pessoas a morrer nas urgências sem assistência".


Com o presente Governo socialista já demissionário e na antecipação da campanha contra o PS o  sinal dado pelos órgãos de comunicação as para as criticas ao SNS, que já tinham sido iniciadas pelas ordens dos médicos e sindicatos independentes, que também fazem política partidária, foram reforçadas em junho do corrente por Passos Coelho que, segundo a TSF, numa intervenção de mais de 50 minutos, acompanhada na primeira fila pelo candidato à Câmara de Lisboa Carlos Moedas, Passos Coelho apontou "um paradoxo" à esquerda no domínio da saúde em particular.


"Seria imperdoável que a esquerda, que diz ser que é uma espécie de 'alma mater' do SNS o esteja a desqualificar desta maneira e que seja a o que se chama de direita sempre a tentar salvar a situação e ver se lhe consegue dar sustentabilidade". Criticava o que o que chamou de "estatização" do SNS, que considera ter resultado na falta de atração dos profissionais e na degradação de equipamentos e serviços prestados.


Durante a apresentação do livro de um militante do PSD este afirmou que Passos nunca cortou no SNS. E janeiro de 2021 no jornal Observador o dito militante apresentou uma série de generalidades e medidas avulso como medidas tomadas por Passos Coelho para melhorar o SNS que iam da “manipulação inteligente do sistema informático” que “que pôs todos os médicos a receitaram por princípio ativo genérico”, e na poupança em exames e medicamentos sem interesse clínico efetivo, “alargou os horários dos médicos para 40 horas, aumentando assim a oferta de mais horas médicas e poupando em horas extra, que pode ler aqui, coisa que os médicos posteriormente contestaram. Recordo-me daquela altura em que os médicos de família com receio reduziam os medicamentos e os exames aos utentes ficando sem meios de diagnóstico eficazes como aconteceu comigo.


Recorde-se que em 2008, durante o Jornal Nacional da TVI, em campanha para a liderança do PSD Manuela Ferreira Leite e Passos Coelho, candidatos à liderança do PSD, declaravam-se a favor do fim do Serviço Nacional de Saúde (SNS) tendencialmente gratuito para todos, defendendo que sirva quem tem menos recursos e Passos reforçava então que "concordo com este princípio de acabar com a universalidade na área da saúde e não só". Isto era a proposta para um SNS para pobres e outro para ricos, isto é, o fim de um SNS universal.


Tenho observado ao longo dos anos que os órgãos de comunicação social serem mais condescendentes, muitas vezes por omissão, com as falhas e os erros dos governos de direita e ávidos predadores sempre ao ataque quando os governos são do Partido Socialista moldando de forma mais ou menos direta, a perceção que cada um de nós tem da realidade em que se insere. Deste modo, os jornalistas deixam de ser mediadores e transforma-se em contrapoder e em produtores de opinião pública e a perceção com que ficamos pode ser uma armadilha lixada. Ainda que os factos seguramente nos digam uma coisa, temos a capacidade de construir sólidos argumentos excecionais para sustentar o contrário, se para isso formos levados.


 

quarta-feira, 25 de março de 2020

Pandemia coronavírus e o efeito terceira-pessoa

O que nos leva a pensar o que acontece de mau não nos acontece a nós, mas aos outros? Não é porque pensamos que somos invencíveis, é porque gostamos de pensar que somos imunes às influências das mensagens da comunicação social de massa e de fatores adversos. É isto que a teoria do “efeito de terceira pessoa” estuda.


Epidemia_efeito terceira-pessoas1.png


Apresentação.


Estamos em fase de pandemia derivada ao COVID-19 e as medidas a tomar têm duas vertentes a primeira obviamente ligada à saúde e a outra são políticas adotadas para lidar com o problema. Esta última é a que tem mais impacto na solução para mitigação das dificuldades mais graves que hoje vão começar, não podem estar sujeitas a pressões seja de que lóbis forem por estar em causa as pessoas e o travão à propagação da epidemia. Se a coisa agrava por falta de coragem política quem deverá ser responsabilizado? Em caso de falha, e numa circunstância como esta, assumir a culpa e fazer pedidos formais de desculpa à posteriori não serve de nada nem a ninguém. Para situações drásticas impõem-se medidas drásticas.


Vemos exemplos por esse mundo fora a serem tomadas medidas que por cá se recusam ou recusava-se que fossem tomadas apontando as mais diversas justificações e cautelas, algumas até com risco de agravamento da situação.


Artigos de opinião rebelam-se contra medidas mais severas que possam vir a ser tomadas, parecendo preferir que a doença alastre sem controle em nome de ideologias que defendem, como que a dizer que isso só acontece aos outros, a nós não!


Vem isto em relação à decisão que tardou de fechar as escolas



o que plenamente se justificava devido à proximidade entre os vários intervenientes em espaços restritos e fechados como, por exemplo, uma sala de aula e corredores das escolas onde a interação pessoal acontece a curtas distâncias. Outros destilavam e destilam veneno, dito em defesa da democracia, contra uma possível declaração do Estado de Emergência por necessidade imperativa o que, afinal, acabou por ser declarado, talvez tardiamente.


Não sei se por incompetência, ignorância ou ambas, são exemplo as justificações dadas por fonte do Conselho Nacional de Saúde Pública ao jornal Público que afirmou, na altura em que iniciei a escrita deste texto: “Que sentido fazia encerrar as escolas quando as pessoas vão para outros ambientes como as praias ou centros de convívio em vez de ficarem em casa? As imagens que passaram foram claras, mostrando pessoas em idade escolar na praia. Ora, não se pode confundir uma questão de saúde pública com férias.” Justificações como esta serviram apenas para adiar tomadas de decisão que impõem uma reflexão racionalizada e uma execução excecional pela gravidade da situação de facto. O efeito da terceira-pessoa parece ter atacado a população e os órgãos de decisão. É nesta circunstância que resolvi desenvolver um artigo sobre o denominado efeito da terceira-pessoa.


O texto que apresento tem como objetivo tentar explicar o fenómeno e é em alguns pontos redundante, dizendo o mesmo por outras palavras para que a sua compreensão seja mais conseguida por quem tenha menos contacto com este tipo de conhecimentos.


Introdução.


Em 2007 publiquei na Revista Cadernos de Investigação Aplicada, Edições Universidade Lusófona um artigo sobre os efeitos da terceira-pessoa resultantes da exposição a mensagens televisivas tem em conta objetivos educacionais. Mas não é apenas no campo educativo que o efeito de terceira-pessoa se pode verificar, o mesmo se passa noutros domínios.


Com a entrada na nossa sociedade do coronavírus, já considerado ao nível de pandemia pela WHO – World Health Organization (Organização Mundial de Saúde), julguei que poderia ser útil rever o conceito e a tese do efeito da terceira-pessoas e aplicá-los ao atual contexto desta epidemia dado as atitudes de irresponsabilidade com que muitos ainda encaram a situação, nomeadamente os mais jovens, e não apenas estes, os mais velhos por vezes são ainda piores, talvez devido à ignorância, como escreveu Bárbara Wong, jornalista do Jornal Público num artigo que intitulou “Coronavírus: Meninos, isto não são umas férias” em relação aos alunos que ficaram por necessidade forçosa sem aulas


Revendo conceitos.


Se analisarmos com atenção o que se tem escrito e dito em artigos de revistas científicas internacionais sobre na comunicação noticiosa televisiva e a imprensa o que ganha notoriedade é a perspetiva dos efeitos dominadores, por vezes até nocivos, que lhe são atribuídos.


Com a divulgação massiva de informação desde o surto do COVID-19 podemos analisar os efeitos benéficos do poder da televisão como comunicação de massa e serviço público ao dirigir-se aos vários públicos-alvo com uma função pedagógica. Esta função colide por vezes com a capacidade crítica do recetor, com o tipo de relação que este tem com o que lhe apresentam nos noticiários que se relaciona também com o meio socioeconómico que envolve o recetor.


Ao retomar-se a conceção das consequências da televisão a hipótese do efeito de terceira-pessoa é um marco com os efeitos do emissor sobre os recetores.  Para melhor compreensão do que adiante se irá desenvolver irei explicitar alguns conceitos importantes.


Comportamento social face aos meios comunicação.


O comportamento humano está ligado à nossa vida social que assenta na apreciação racional de como o outro reagirá às suas próprias ações num raciocínio do tipo “Se eu fizer isto… ele ou ela irá pensar nisto…, terei então de fazer isto…”


A forma como as pessoas se comportam perante os estímulos em relação ao meio envolvente também pode ser realizada de acordo com as diversas convenções sociais existentes. A sociedade espera que as pessoas devem agir de acordo com os padrões previstos ou estabelecidos em determinadas situações. Ao pensarmos assim, vemos que o comportamento humano encerra então uma forte componente racional. Existem certas exceções óbvias em que parecemos agir com escasso pensamento racional, especialmente quando nos encontramos envolvidos em grandes grupos. O pânico é um exemplo, se alguém gritar fogo num auditório completamente cheio o pânico gerado pode vir a ser pior do que o próprio incêndio.


Atitude


O conceito de atitude a que nos referimos nada tem a ver com a palavra exageradamente utilizada nos concursos televisivos em que concorrentes atuam perante um júri e este elogia o concorrente quando termina a atuação dizendo que teve muita atitude.


Atitude no nosso contexto é uma disposição relativamente estável, avaliativa, que faz uma pessoa pensar, sentir e comportar-se positiva ou negativamente ou indiferentemente em relação a determinada pessoa, grupo ou problema social. Pode ser então definida como sendo “um mediador entre a forma de agir e a forma de pensar dos indivíduos”.


Atitude é também uma reação avaliativa, favorável ou desfavorável, face a determinados objetos significativos, pessoas, grupos, acontecimentos ou símbolos, representada através das nossas crenças, sentimentos ou comportamentos. No nosso caso concreto atitudes não são crenças relativas à informação que temos disponível sobre o objeto de estudo manifestadas através de opiniões, são factos sustentados pela experiência dos sujeitos e pela sua interação com os outros.


Perceção do efeito de terceira-pessoa.


O modelo teórico do efeito da terceira-pessoa, tem como alicerce a perceção têm as pessoas têm de que certos acontecimentos negativos em programas televisivos, especialmente publicidade e notícias, exercem um maior efeito nos outros do que neles próprios.


O efeito de terceira-pessoa pressupõe a hipótese de que as pessoas tendem a atribuir mais importância à influência do que é prejudicial e dos meios de comunicação social, no seu sentido mais amplo, nas atitudes e comportamentos dos outros. Isto é, por princípio, assumem que a negatividade de algo e a comunicação exercem nos outros um forte impacto, mais do que neles próprios. Noutros termos e segundo um dos investigadores nesta áreacomo Perlof afirma que:


“O efeito de terceira-pessoa é a perceção individual de que a mensagem irá exercer um forte impacto nos outros e não em si próprio. O termo terceira pessoa deriva da expectativa de que a mensagem não terá grandes influências sobre o “eu” mas no “outro” ou “outros” que são a terceira ou terceiras pessoas.”


A hipótese do efeito na terceira-pessoa foi, e ainda é, uma nova abordagem para o estudo da opinião pública e tem como base que os indivíduos normalmente assumem que os órgãos de comunicações social exercem um impacto mais forte nos outros do que no próprio, ou no eu enquanto recetor das mensagens. Assim, os media podem, de certa forma, conduzir à implementação de ações para minimizar potenciais danos aos sujeitos recetores das mensagens e que tem tais atitudes.


Os indivíduos assumem que as comunicações exercem uma influência mais forte sobre os outros do que sobre eles próprios, no entanto, o efeito de terceira-pessoa não surge em todas as circunstâncias e em todas as pessoas, parece ser particularmente provável quando a mensagem contém recomendações que não são consideradas pessoalmente boas, e os indivíduos percebem que o problema é, para si próprio, pessoalmente importante e quando a fonte possui um pendor negativo.


É o que acontece, por exemplo, quando alguém comenta com outro um determinado acidente e que, no meio da conversa, diz que, o aconteceu não aconteceria com ele, o outro, ou os outros é que são inábeis ou descuidados. Atualmente é o que acontece com muitas pessoas em relação à epidemia do COVID-19 que poderão pensar só está a acontecer aos outros e que não há razões para recear e, como tal, desvaloriza a perigosidade apesar das informações e comunicados de prevenção através dos vários media.


A tendência mais ou menos egoísta está em acreditar que outras pessoas são mais vulneráveis ​​do que o próprio, ou o “eu”. O leitor pode ser, por exemplo, particularmente resistente em relação aos órgãos de comunicação social e às mensagens de alerta de perigosidade mais importantes sobre o novo coronavírus prejudiciais à sociedade.


Se o efeito de terceira-pessoa é devido à motivação para preservar a autoestima, por outro lado, as pessoas parecem estar dispostas a reconhecer que elas próprias são influenciadas por mensagens pró-sociais (situações positivas) como anúncios de serviço público, campanhas de orientação e regras básicas de saúde em caso de surtos epidémicos o que é então chamado efeito de terceira-pessoa revertido ou efeito de primeira-pessoa.


Como já sustentei anteriormente o efeito da terceira-pessoa é assim uma “perceção individual de uma determinada mensagem que irá exercer um forte impacto nos outros e não em “si” mesmo, o que significa que tal mensagem não terá grande influência em mim (o “eu”) ou no outro (“tu”) que é uma segunda pessoa, mas nos outros (“ele” ou “eles”), que são as terceiras pessoas. Assim, o sujeito (o “eu”) subestima os efeitos negativos e dos media, no caso os jornais televisivos, por exemplo, mas sobrestima o impacto que podem exercer sobre os outros. Existe um efeito de distância espacial e cultural ao presumir que os efeitos incidem mais sobre os sujeitos distantes do observador.


O efeito da terceira-pessoa ou da primeira-pessoa geram determinados efeitos nas atitudes e comportamentos. Para melhor se perceber o sentido do que se está a falar há que desenvolver estes conceitos.


O efeito terceira-pessoa


A questão que se coloca no desenvolvimento deste texto exploratório é a de reconhecer a atitude das pessoas em alguns contextos, e enquanto telespectadores, face aos efeitos da persuasão e influência que as mensagens televisivas em relação ao COVID-19 provocam nos outros comparativamente a si próprio. Nos “outros” incluem-se não apenas adultos, mas também crianças e jovens que diariamente consomem horas de televisão.


Os media televisivos têm a particularidade de fazer corresponder a cada palavra um rosto ou um objeto, a cada conceito e ideia uma imagem, levando o telespectador a ter acesso a emoções, experiências e comportamentos com uma aproximação semelhante ao impacto que tem uma experiência direta tornando a televisão num espaço de vivência de experiências por observação (vicariante) que pode gerar no espectador o efeito da terceira-pessoa. Note-se que, em muitas das imagens a que assistimos durante os noticiários televisivos não corresponde à notícias do dia, à falta delas utilizam imagens repescadas de dias anteriores, semanas ou meses.


Como reflexo da participação decisiva da televisão na vida das pessoas continua a questionar-se o seu papel na sociedade contemporânea, como elemento de educação, cultura e inserção social e o seu impacto na formação de mentalidades, comportamentos e atitudes. Numa sociedade que convive com inimigo oculto coronavírus, ainda não totalmente conhecido, há quem considere que as suas cadeias de transmissão não os atingem.


Tem-se a noção de que há uma tendência em que o próprio individuo acredita que as outras pessoas são mais vulneráveis ​​do que ele. Confrontando-se com o seu próprio “eu” pensa poder ser, relativamente mais resistente em relação a todas as outras pessoas mesmo no caso particular de uma epidemia que ameasse a saúde pública.


O efeito de terceira-pessoa funciona para pessoas diferentes de maneira diferente tendo a ver com três fatores a considerar no contexto que são a distância social, grupos de referência, posse de conhecimento e exposição aos media.


Pesquisas sobre o efeito de terceira-pessoa concentraram-se, sobretudo, no impacto dos media sobre as pessoas quando as mensagens são potencialmente negativas como nos casos relacionados com epidemias.


 Impacto das mensagens no efeito de terceira-pessoa.


Que impacto têm de facto sobre nós as mensagens que tenham a ver com saúde pública? O que nos leva a pensar que o que acontece de mau não se vai passar connosco, mas apenas com os outros?


Não é porque pensamos que somos invencíveis, é porque gostamos de pensar que somos imunes às influências das mensagens da comunicação social.


A pergunta que então se coloca é a de saber se cada pessoa considerada individualmente  ("identificado como ‘eu’ ") ou outras pessoas que não ‘eu’ estarão a ser vistas como sendo mais afetadas por mensagens informativas e persuasivas sobre a evolução do CODVID-19 ou se essa informação para o mim “o ‘eu’” não é fator relevante porque não serei atingido?


Cada sujeito raciocina assim: "Não serei influenciado pelo que dizem nem pelo que está a acontecer, mas ele ou eles (a terceira-pessoa), podem muito bem ser persuadidos". 


Claro que a resposta a estas questões só é possível ser dada pelo método de questionários posteriormente trabalhados por modelos matemáticos adequados.


O efeito de terceira-pessoa pode ajudar a explicar vários aspetos do comportamento social e atitudes face ao medo da propagação da epidemia COVID-19.  Na psicologia social o efeito da terceira-pessoa está relacionado com a Teoria da Comparação Social que pressupõe que as atitudes, capacidades e opiniões de um indivíduo são avaliadas através da comparação de nós próprios com os outros.


Existe um compromisso entre o reconhecimento das normas de um grupo e cada posição ideal e individual de cada um que é a denominada “ignorância pluralística” que ocorre quando a maioria dos indivíduos de um grupo supõe que a forma de pensar da maioria dos outros elementos do grupo é de alguma forma diferente, mas a verdade é que são mais similares do que se pensa. Em síntese: é o processo que envolve vários membros de um grupo que pensam possuir perceções, crenças, ou atitudes diferentes do restante do grupo. Apesar de não apoiarem a norma do grupo, os dissidentes comportam-se como os outros membros, por pensarem que o comportamento dos outros elementos demonstra que a opinião do grupo é unanime.


Para melhor compreensão deste conceito há um exemplo muito corrente que acontecia quando eu dava aulas na universidade e que, com certeza, já aconteceu várias vezes com muitos outros professores que dão aulas em qualquer nível de ensino.


Imagine que um aluno está na turma a assistir a uma aula que o professore está a dar em que a matéria é muito complicada. Após vários minutos de exposição da matéria o professor faz uma pausa e pergunta se há alguma dúvida. Ninguém põe o braço no ar. Se o professor olhar à sua volta pensa se todos os alunos poderão realmente ter entendido o que acabou de explicar. O referido aluno tem a noção de que não entendeu nada. O receio de ele parecer ser o único que não percebeu nada evita que levante a mão, mas, ao olhar para os outros colegas da turma que se mostram impassíveis, interpreta o comportamento semelhante dos colegas de maneira diferente: considera que eles não levantaram a mão como sinal de que eles entenderam tudo o que foi dito e que eles na verdade não têm dúvidas nem dúvidas a colocar. Situações como esta ocorrem geralmente quando as normas são mais antigas do que todos os membros do grupo ou quando um elemento ou um pequeno grupo é dominante e pode forçar as suas atitudes sobre o resto do grupo.


Coronavírus, atitudes e comportamentos perante notícias na comunicação social.


Em condições habituais as notícias na comunicação social sobre saúde pública nem sempre fazem parte dos cabeçalhos das primeiras páginas dos jornais nem das aberturas dos jornais televisivos, a não ser que seja para denunciar, por vezes com exagero, problemas nos serviços de saúde, mais com finalidades políticas do que por qualquer outra.


Para atrair a atenção das pessoas é preciso que algo de muito importante ou grave aconteça como está a acontecer com a pandemia COVID-19. Só nestas circunstâncias é que as notícias e a informação de prevenção sobre a saúde pública dominam as páginas da imprensa e as horas nobres das televisões.


Investigações têm mostrado um padrão geral entre mensagem desejável e o efeito de terceira-pessoa. Mensagens indesejáveis tendem a levar a terceiros uma perceção enviesada enquanto mensagens desejáveis tendem a gerar um efeito contrário ao de terceira-pessoa.


As pessoas não expressam a intenção de seguir as recomendações procedentes das instituições que controlam a saúde pública mesmo depois de assistirem às notícias e às mensagens preventivas. Tendem a pensar que a cobertura noticiosa sobre as epidemias influencia muito mais o público em geral do que a elas próprias.


Outra das questões que se pode colocar é a de saber se durante as epidemias com a gravidade do COVID-19 a observância das mensagens provenientes da comunicação social e das instituições de saúde que dão a conhecer a gravidade  da epidemia e o testemunho de médicos, poderiam ajudar a superar o efeito e motivar as pessoas a agir.


Independentemente da pandemia ter sido descrita como "muito grave" por várias organizações internacionais como a OMS – Organização Mundial de Saúde e pelas instituições de saúde nacionais, a divulgação permanente das notícias, informações e conselhos parecem não convencer o público a seguir com rigor as medidas preventivas.


Epidemia_efeito terceira-pessoas2.png


Quando a linguagem dos programas sugere que a epidemia é particularmente "grave" e quando entrevistados na rua pelos canais de televisão percebem que a situação é grave isso não os torna mais propensos a cumprir as regras, mas acham bem que outras pessoas o façam. Isto sugere que 'o eu' percebe, mas que 'os outros' usam critérios diferentes, menos inteligentes, tais como confiar na experiência e na credibilidade da fonte.  


Quando as consequências são terríveis os sujeitos em vez de autoavaliarem, as mensagens preventivas que lhes são dirigidas provenientes de instituições e pessoas especializadas como um médico, produz no sujeito, ‘no eu’ de cada um, uma elevada apreciação da pouca eficácia da mensagem sobre a saúde que apenas serve para os ‘outros’.


A natureza da cobertura obre a saúde pública pela DGS – Direção Geral de Saúde é informativa, educacional que, em princípio, trazem benefícios para os recetores. Mas, quando as notícias correspondem a uma ameaça grave podem incomodar as populações. Contudo, a cobertura real das epidemias ou pandemias nos casos mais graves pela sua perigosidade e extensão contribui para a ansiedade das pessoas, tornando-as mais ávidas de informação. Quando uma mensagem não é percebida como benéfica e envolve grandes riscos, o efeito de terceira-pessoa torna-se mais evidente.


Se há três semana atrás fizéssemos em Portugal uma pesquisa sobre o receio do surto epidémico do coronavírus como se verificou em entrevistas feitas pelas televisões a elementos da população, ficaria claro que haveria quem tecia afirmações sobre o exagero de alarme em demasia e que o surto não passava de uma gripe como qualquer outra, mesmo  depois da OMS ter reconhecido a gravidade mundial da situação. Poucos acreditavam então que a potencial gravidade da situação chegasse a Portugal, como chegou. Aliás, Trump, nos EUA fez passar a mensagem de que se tratava de algo sem importância o que posteriormente teve de contradizer ao decidir tomar medidas mais rigorosas.


O surto que inicialmente se julgou ser apenas uma pequena epidemia de gripe e que foi amplamente abordada pelos noticiários dos canais televisivos e pela imprensa, transformou-se numa pandemia.  Portanto, as notícias sobre o coronavírus são um caso marcante para a perceção das notícias de risco para a saúde e o efeito que tem em cada um (o eu) e sobre os outros e para explorar as consequências dos efeitos presumidos de tais notícias no efeito de terceira-pessoa para uma ação preventiva eficaz.


Um outro fator chave é a perceção por cada um do conteúdo divulgado pela comunicação social.  Se alguém pensa que pode estar a ser influenciado pelos meios de comunicação à cerca de um evento indesejável, é provável que essa pessoa se aperceba de como não quer ser influenciado por essas mensagens, mas pense também que outras pessoas talvez não consigam fazer essa distinção, por serem mais ingénuas e, portanto, mais influenciadas por tais mensagens. Pode resistir-se a ser influenciado pela publicidade, principalmente se a percebermos como pura manipulação ou propaganda, mas não poemos fazer tal julgamento sobre o conteúdo das notícias de acontecimentos graves como epidemias graves que são factos.


Nem todas as pessoas afirmam que “os outros” são mais influenciados pela comunicação social do que eles próprios. O inverso do efeito da terceira-pessoa verifica-se quando os próprios acham que são mais influenciados pelas notícias do que “as outras pessoas”.


Assim, poderíamos colocar as seguintes hipóteses sobre alguns comportamentos perturbadores no combate à epidemia:


H1. Há sujeitos que consideram pouco provável serem contagiados do que os outros.


H2.Há sujeitos que se apercebem de que possam ser menos infetados pelo coronavírus do que as outras pessoas.


Estas duas hipóteses embora semelhantes são ambas de otimismo enviesado.  


Em termos de comportamentos correspondentes, as preocupações das pessoas com a sua própria segurança e não com a das outras preveem a intenção de tomar medidas de proteção. Quanto maior a perceção da terceira-pessoa, menor a probabilidade de as pessoas tomarem para si ações protetoras. Esta perceção relaciona-se com uma espécie de julgamento social sobre os efeitos das mensagens da comunicação social. É um mecanismo psicológico para sustentar a imagem positiva que a pessoas tem de si próprias na avaliação dos riscos de ocorrência de situações negativas em casos como a atual epidemia pelo COVID-19.


Finalmente, no domínio comportamental o efeito terceira-pessoa, segundo suposição teórica de investigações já efetuadas baseia-se no medo das mensagens indesejáveis ​​veiculadas pelos media. Isto é, o efeito de terceira- pessoa aumenta com mensagens socialmente indesejáveis ​​e diminui com mensagens socialmente desejáveis. Pensa-se que esse fenómeno seja um exemplo de proteção à autoimagem que cada um tem de si próprio (o eu). As teorias sobre a proteção da autoimagem afirmam, entre outras coisas, que os indivíduos filtram os efeitos da comunicação de acordo com o que cada um pensa.


As pessoas que acham que não são "influenciadas pelos órgãos de comunicação" têm uma maior probabilidade de desconsiderar as medidas de precaução e de prevenção divulgadas pelas mensagens veiculadas por informações e notícias que afinal têm como ajudar a impedir a propagação da doença. Em tempo, nas redes sociais, houve campanhas irresponsáveis contra a vacinação. Parece que o mesmo poderá a estar a acontecer com a depreciação da epidemia causada pelo novo coronavírus e inversamente com informações falsas.


Finalmente, os efeitos percebidos pelos sujeitos podem levar a comportamentos retificativos devido a um reconhecimento da situação problemática e atuam de forma a restringir, para si próprios, mensagens com influência negativa, corrigir mensagens com influência ambígua e ampliar mensagens com influência positiva, com o objetivo de provocar o sentido inverso o que os coloca em risco quem assimila mensagens falsas e enganadoras face a situações que representem perigosidade.


Nota: Para conhecer mais sobre este tema coloque o seu interesse nos com



entários ao blogue.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Em democracia lemos e ouvimos o que gostamos e também o que não gostamos

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Quem anda pelas redes sociais e escreve em blogs e escuta comentários nos canais de televisão lê e ouve o que gosta e o que não gosta, até mesmo o que vem de alguns energúmenos da asneirada ofensiva e da mentira que proliferam nas redes sociais. Daí é necessário ter a dose respetiva de capacidade psicológica para o encaixe, e a disposição necessária para o desprezo de certo tipo de comentários.


Veja-se o exemplo do que se passou durante a campanha eleitoral no EUA e continua ainda a passar-se e, mais recentemente, no Brasil com Bolsonaro. Fazer comentários nas redes sociais contra ou a favor do que quer que seja ou denunciar notícias falsas não vale a pena porque, quando se trata de campanhas que se apoiam principalmente nas redes socias, a maior parte das vezes as respostas que contestem tais notícias mesmo que falsas e respetivos comentários caem no saco roto nos eleitores porque o povo irá votar irracionalmente, tanto mais, quanto a irracionalidade das atitudes perigosas e grosseiras investidas por quem faz campanha e apoia certas ideias contra a democracia, os políticos,  os candidatos ou os partidos de forma radical, violenta, primitiva, brutal, deseducada.


Tenho-me referido várias vezes aos comentários e artigos de opinião escritos na imprensa alguns deles escritos para elites digerirem. José Miguel Tavares, uns dos liberais com o qual raramente estou de acordo que escreve artigos de opinião para o jornal Público, referiu naquele jornal, a propósito das eleições no Brasil, que: “as elites artísticas, intelectuais e jornalísticas têm de meter na cabeça de uma vez por todas que a sua influência sobre o povo, na hora do voto, é nula. Que os seus poderes de mediação e de persuasão, na era das redes, evaporaram-se de vez. Que ter escritores, comentadores, historiadores, músicos ou jornais a criar vídeos, e manifestos, e hashtags, e editoriais, e o diabo a quatro, onde do alto da sua imensa sabedoria tentam explicar ao povo brasileiro (como já haviam tentado explicar ao povo americano) em quem ele deve votar, é uma ridícula figura, por uma razão muito simples – aquele voto, o voto de dezenas de milhões de brasileiros e de norte-americanos, também é contra nós”.


Face a isto o confronto democrático e o debate político deve passar a seguir outro caminho porque a exigência do povo pela qualidade intelectual e cultural tem vindo a deteriorar-se progressivamente devido às redes sociais onde alguns exprimem o que lhes vai na alma através de grunhidos grosseiros rebuscados nas profundezas das cavernas mais obscuras de certa política partidária e ideológica que por vezes são mais eficazes do que dissuasores.


Nesta era das tecnologias da informação e comunicação todos passámos a ser, para além de consumidores, produtores de informação, falsa ou não, boa ou má, sem censura, enfim  sem quaisquer riscos que não sejam os comentários dirigidos. A informação que antigamente era validada, e conferida segundo critérios pelos órgãos de comunicação social – felizmente alguns ainda continuam a seguir – deu lugar à desinformação desenfreada nas redes sociais e à contra informação, numa competição sem tréguas do quanto mais falso e ofensivo melhor que contribui para confundir opiniões, até as dos bem intencionados, numa espécie de rodopio de notícias confusas, e não factos, difundidas pelas redes.


Quem mantém blogs de opinião política seja qual for o quadrante, mesmo de visão sectária, está no seu direito de liberdade de expressão que a democracia lhe confere. Já no que diz respeito á comunicação social, nomeadamente a imprensa, a coisa é diferente. Detesto jornais de orientação tendencialmente unilateral. Em jornais online com opiniões provenientes de vários quadrantes ideológicos e partidários aparece de tudo na zona dos comentários, desde os que se insurgem contra a opinião do autor fazendo comentários insultuosos até aos que defendem as suas opiniões e criticam outros como se fossem eles os proprietários de verdades absolutas. Nestas tarefas de crítica e opinião no domínio da política temos de ter a capacidade de encaixe suficiente para podermos ler e ouvir quer o que gostamos ou com que concordamos, quer o que não gostamos ou com que não concordamos e se assim não for o melhor é: não comentar.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Televisão da política espetáculo


Entr


Montagem de MR


 


As televisões que não sobrevivem com dinheiros públicos, necessitam de "shares" para captar publicidade. Desta forma, arquitetam e produzem programações e conteúdos destinados a conquistar audiências. Estes programas vão desde os telejornais aos de entretenimento, passando por debates por vezes com cariz de pertença atualidade política.


A televisão tornou-se, desde há alguns anos, o espaço privilegiado da luta política, quer em momentos excecionais, como por exemplo em tempo de eleições, quer no dia-a-dia da política, tendo contribuindo para  o fenómeno da política espetáculo.


A política adequou-se necessariamente à linguagem de comunicação televisiva. Para que os seus objetivos se realizem absorveu a lógica da produção do espetáculo em detrimento da lógica exclusivamente política. Isto é, numa perspetiva de produção de espetáculo, a política torna-se ela mesmo espetáculo, passando a obedecer a padrões daquele tipo de produção televisiva.


A adequação a esta nova forma de existência da política implicou uma mudança de dinâmicas que conduziram à chegada de técnicos especialistas em comunicação, publicidade, analistas de sondagens e de outro tipo de especialistas e, os não raramente  pseudo-especialistas em economia, finanças, contabilistas, fiscalistas, politólogos, outros ainda integradores de todas estas áreas que de tudo falam e sobre tudo comentam do alto das cátedras construídas para público comprar. Entre estes últimos salientam-se os facciosos da política, os propagandistas e doutrinadores situacionistas, militantes partidários disfarçados de comentadores isentos, alguns aterradores que apenas falam de números como se as pessoas e as suas vidas, a sociedade, fossem exclusivamente elementos numéricos sujeitos apenas às leis da aritmética e dos modelos macroeconómicos.


Há dois exemplos da política espetáculo feita em estúdio: o programa da TVI24 "Olhos nos olhos", não a novela que a TVI iniciou em julho de 2013, mas outro tipo de novela. Outro é o programa de comentário político de Marcelo Rebelo de Sousa aos domingos na TVI.


No primeiro, para além da jornalista moderadora cujo brilho se esbate no meio do estrelato dos outros atores em cena, encontra-se o fiscalista Medina Carreira, ator feito à pressa a fazer carreira televisiva não sabemos se pro bono.


Refiro apenas o primeiro caso como exemplo. O programa "Olhos nos olhos", para atrair audiências, fabricou um personagem controverso, dizem. É um ator com uma frontalidade mistificada, politicamente escandalosa que debita o texto do guião e defende, com modos teatrais, as suas tomadas de posição, tecendo argumentos sobre os quais não tem contraditório. Este ator da política espetáculo, cujo carisma se tem vindo a perder devido às doses repetitivas, e já cansativas, dos seus argumentos e gráficos  sempre baseados na mesma informação que transforma a seu bel prazer mudando apenas a cor e a estrutura.


Este tipo de política espetáculo quando não é bem moderado tem um poder enganador para o público, qual novela de ficção ao confundir-se com a realidade. Nas atuais condições de desigualdade, por falta de um contraditório, beneficiam os situacionistas mais privilegiados que passam à margem da austeridade devastadora que se abate sobre parte da sociedade.


O referido programa potencializa a aparição semanal dum espetáculo de política mediatizada cuja marca provoca indignação pela apresentação de aritmética pura e de argumentos sem contraditório o que pode ter um maior impacto popular e indutor de interpretações erróneas.


Aqui, a moderadora também se evidencia como atriz marcando contracena neste palco televisivo. Isto é, finge que dialoga ou questiona enquanto os outros atores em presença debitam as suas deixas sem interrupção. Como não se documenta previamente com informação fidedigna, tem corrido o risco, e várias vezes aconteceu, de se deixar manipular pelas deixas dos restantes.


Estes atores da política espetáculo são matreiros pelo que, quem contracena com eles, como é o caso da jornalista do programa, a maior parte das vezes não tem na sua posse as deixas que desarmem o protagonista confrontando-o com eventuais falhas ou contradições, como foi o caso do programa do dia 4 de novembro. É isto que tornaria o espetáculo com interesse, e não um monólogo ou diálogo entre pares, quando os há, cujo discurso é o mesmo, variando apenas a entoação e as palavras. Esta encenação torna a ação monocórdica, repetitiva, semana após semana, em que o  ator principal apresenta ad nauseiam os mesmos e falsos argumentos mascarados com dados em bruto e sem contexto. Este tipo de atores valoriza a ação em desfavor do conteúdo.


No último programa sobre a apresentação de números e gráficos produzidos a partir de estatísticas do Banco de Portugal ou de quaisquer outras fontes, como habitualmente sem qualquer enquadramento e aprofundamento, não foi dada uma explicação cabal sobre o funcionamento financeiro do sistema da instituição que rege e paga as pensões, ( Instituto de Gestão dos Fundos de Capitalização da Segurança Social do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social), que  até este governo entrar em funções, 2011, era sustentável. Apenas como esclarecimento, em 2011, após fecho de resultados auditados pelo Tribunal de Contas, o sistema de previdência teve de quotizações 13757 milhões de euros, pagou de pensões 10829 milhões de euros e 1566 milhões de euros de outros subsídios. O saldo? É só fazer a conta!


Os argumentos apresentados por aqueles comediantes da política fazem-me lembrar trabalhos de  maus alunos do primeiro ano da faculdade, como me apreciam alguns, que se limitam a fazer uma apresentação a partir de dados recolhidos sem dar a conhecer o seu fundamento e a forma de apuramento. Primavam pelo impacto visual da apresentação em detrimento da análise do rigor. O objetivo da representação destes atores é criar o pânico entre os espectadores da peça televisiva para captar audiências, qual filme de terror que esteja na moda.


Este é apenas um dos vários exemplos do espetáculo televisivo da política que utiliza uma das estratégias de manipulação do público desprevenido que obedece ao seguinte preceito: dirija-se ao espectador como se fosse uma criança menor de 12 anos ou um débil mental.


 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Briefings ou uma nova forma de enganar os crédulos dos Portugueses

  

 


Em resumo, tudo não será mais do que, através da comunicação social, enganar o povo sobre o que realmente se está e irá passar, à boa maneira da antiga União Soviética, para já não dizer à moda da Coreia do Norte, com um cariz democrático, tendo em vista minimizar a imagem desfavorável sobre o Governo na opinião pública, preparando as próximas eleições.




 


Esta segunda-feira abriu a época da caça ao voto, e da propaganda ao Governo. O grande comunicador e coordenador Poiares Maduro vai iniciar os “briefings” com os órgãos de comunicação social conduzidos por Pedro Lomba. Tendo sido colunista do Jornal Público desde 2009, é bem conhecida a sua opinião ligada à direita. Um dos artigos que escreveu tinha o título , vejam só, “O Sucesso de Tatcher”.Por aqui podemos ver onde ele se arruma.


 


Não é difícil prever o que vai acontecer nesses “briefings”: sairá para a rua a propaganda no seu melhor às ações e medidas do Governo. De forma apriorística o objetivo que se evidencia é o de propiciar e fortalecer a unicidade, (sublinha-se unicidade para a distinguir de pluralidade), do discurso e da coerência da linguagem de um Governo sem rumo, evitando comunicações contraditórias.


 


Tudo não vai ser mais do que um planeamento estratégico de marketing com o qual pretendem, sob a capa de informar, persuadir quem os ouvir ou ler, sobre as boas práticas do Governo, e só dele.


 


Tudo isto fará sentido se pensarmos na articulação das mensagens a divulgar aos jornalistas, tendo em vista a criação de sinergias e potencialização dos efeitos no público-alvo (as populações) através dos órgãos de comunicação social, em especial impacto nas televisões.


 


O objetivo é, assim, moderar e modelar a atitude das pessoas levando-as a desenvolver atitudes favoráveis ao Governo, através da unicidade da informação comunicada aos jornalistas que, bem espero, não passem a ser apenas uma correia de transmissão da informação que lhes oferecerem.


 


Conhecendo nós as trapalhadas, os erros, as falsas promessas, o acalentar de esperanças de melhores dias jamais conseguidos em tempo útil da vida ativa da maior parte dos cidadãos, leva-nos elencar, para além dos já indicados, outros objetivos, previamente pensados e refletidos, que poderão esta por detrás dos tais “briefings”:    


 



  • Estabelecer normas que disciplinem o relacionamento do Governo com as populações tendo em vista eleições, próximas e futuras.

  • Disseminar e “adoçar” os valores e as políticas que têm pautado a ação deste Governo.

  • Responsabilizar os órgãos de comunicação social cuja informação não esteja em uníssono com a que foi difundida nos “briefings”.

  • Tentar unificar o discurso institucional.

  • Zelar pelos interesses do Governo e dos partidos, seus apoiantes.  

  • Utilizar os “briefings” como ferramenta estratégica no sentido de fortalecer a imagem do Governo, para uma mudança de atitude dos cidadãos.

  • Promover, consolidar e valorizar a imagem institucional do Governo mesmo junto dos seus apoiantes.

  • Definir e disciplinar as práticas da comunicação social através dos “briefings” para a criação de um padrão de relacionamento em diversas áreas de atuação.

  • Favorecer o fluxo de informações, ditas corretas, entre o Governo e os cidadãos, maximizando o que se prevê ser uma falsa transparência nas ações comunicativas e de relacionamento com as populações.


Em resumo, tudo não será mais do que, através da comunicação social, enganar o povo sobre o que realmente se está e irá passar, à boa maneira da antiga União Soviética, para já não dizer à moda da Coreia do Norte, mas com um cariz democrático, tendo em vista minimizar a imagem desfavorável sobre o Governo na opinião pública, preparando as próximas eleições.



Briefings ou uma nova forma de enganar os crédulos dos Portugueses

  

 


Em resumo, tudo não será mais do que, através da comunicação social, enganar o povo sobre o que realmente se está e irá passar, à boa maneira da antiga União Soviética, para já não dizer à moda da Coreia do Norte, com um cariz democrático, tendo em vista minimizar a imagem desfavorável sobre o Governo na opinião pública, preparando as próximas eleições.




 


Esta segunda-feira abriu a época da caça ao voto, e da propaganda ao Governo. O grande comunicador e coordenador Poiares Maduro vai iniciar os “briefings” com os órgãos de comunicação social conduzidos por Pedro Lomba. Tendo sido colunista do Jornal Público desde 2009, é bem conhecida a sua opinião ligada à direita. Um dos artigos que escreveu tinha o título , vejam só, “O Sucesso de Tatcher”.Por aqui podemos ver onde ele se arruma.


 


Não é difícil prever o que vai acontecer nesses “briefings”: sairá para a rua a propaganda no seu melhor às ações e medidas do Governo. De forma apriorística o objetivo que se evidencia é o de propiciar e fortalecer a unicidade, (sublinha-se unicidade para a distinguir de pluralidade), do discurso e da coerência da linguagem de um Governo sem rumo, evitando comunicações contraditórias.


 


Tudo não vai ser mais do que um planeamento estratégico de marketing com o qual pretendem, sob a capa de informar, persuadir quem os ouvir ou ler, sobre as boas práticas do Governo, e só dele.


 


Tudo isto fará sentido se pensarmos na articulação das mensagens a divulgar aos jornalistas, tendo em vista a criação de sinergias e potencialização dos efeitos no público-alvo (as populações) através dos órgãos de comunicação social, em especial impacto nas televisões.


 


O objetivo é, assim, moderar e modelar a atitude das pessoas levando-as a desenvolver atitudes favoráveis ao Governo, através da unicidade da informação comunicada aos jornalistas que, bem espero, não passem a ser apenas uma correia de transmissão da informação que lhes oferecerem.


 


Conhecendo nós as trapalhadas, os erros, as falsas promessas, o acalentar de esperanças de melhores dias jamais conseguidos em tempo útil da vida ativa da maior parte dos cidadãos, leva-nos elencar, para além dos já indicados, outros objetivos, previamente pensados e refletidos, que poderão esta por detrás dos tais “briefings”:    


 



  • Estabelecer normas que disciplinem o relacionamento do Governo com as populações tendo em vista eleições, próximas e futuras.

  • Disseminar e “adoçar” os valores e as políticas que têm pautado a ação deste Governo.

  • Responsabilizar os órgãos de comunicação social cuja informação não esteja em uníssono com a que foi difundida nos “briefings”.

  • Tentar unificar o discurso institucional.

  • Zelar pelos interesses do Governo e dos partidos, seus apoiantes.  

  • Utilizar os “briefings” como ferramenta estratégica no sentido de fortalecer a imagem do Governo, para uma mudança de atitude dos cidadãos.

  • Promover, consolidar e valorizar a imagem institucional do Governo mesmo junto dos seus apoiantes.

  • Definir e disciplinar as práticas da comunicação social através dos “briefings” para a criação de um padrão de relacionamento em diversas áreas de atuação.

  • Favorecer o fluxo de informações, ditas corretas, entre o Governo e os cidadãos, maximizando o que se prevê ser uma falsa transparência nas ações comunicativas e de relacionamento com as populações.


Em resumo, tudo não será mais do que, através da comunicação social, enganar o povo sobre o que realmente se está e irá passar, à boa maneira da antiga União Soviética, para já não dizer à moda da Coreia do Norte, mas com um cariz democrático, tendo em vista minimizar a imagem desfavorável sobre o Governo na opinião pública, preparando as próximas eleições.



Servirão os briefings do Governo para o controle da informação?

Imagem TVI24


 


Não há paciência para isto. Começaram hoje os briefings do Governo, mas tiverem antecedentes. O ministro Poiares Maduro foi empossado para a coordenação dos diversos ministérios do Governo e para ultrapassar os problemas de comunicação com o público, isto é, a forma como o Estado deve comunicar com os portugueses. Para tal encomendou ou vai encomendar mais um estudo desta vez para conhecer a forma de como fazer chegar a mensagem. A ideia é fazer aproximar, em tempo de crise, os cidadãos ao Governo. Como se o problema dos disparates que o Governo tem feito conduzissem ao descontentamento popular devido aos problemas de comunicação.


O problema da comunicação não é novidade porque, comentadores da área dos partidos que sustentam o Governo, face a notícias que vêm a lume que indignam até o cidadão mais apoiante vêm dizer que o que se diz não é bem verdade, o que houve foi um problema de comunicação. Outras vezes quando o primeiro-ministro faz uma declaração, mesmo que tenha sido bem clara, como mais do que uma vez aconteceu, e, posteriormente, entra em contradição, lá começam os “sacristãos” a desdizer o que se disse transformando o erro e a mentira em problema de comunicação. O que se pretende no final é a utilização de técnicas comunicacionais mais eficazes para ludibriar os portugueses.


Não se sabe hoje, momento em que se iniciaram os briefings, se o estudo já foi ou não entregue, se é que alguma vez chegou a ser feito e se aqueles foram uma consequência destes. Mas interessava saber por que eles foram pagos com os nossos impostos e com os “cortes” nos salários e pensões que também contribuíram.


Há uma solução para os problemas de comunicação que se usava muito na ex-União Soviética, e, para quem se recorda também no tempo do Estado Novo, embora de outra forma mas com o mesmo objetivo, é torná-la monolítica através do controle da informação antes de ser divulgada.


Marcelo Caetano, nas suas conversas em família, não tinha problemas de comunicação porque, o que ele dizia era assim e pronto, mesmo que estivesse enganado ou o que anunciasse fosse contra o que o ”público” pensasse ou viesse a dizer…

Servirão os briefings do Governo para o controle da informação?

Imagem TVI24


 


Não há paciência para isto. Começaram hoje os briefings do Governo, mas tiverem antecedentes. O ministro Poiares Maduro foi empossado para a coordenação dos diversos ministérios do Governo e para ultrapassar os problemas de comunicação com o público, isto é, a forma como o Estado deve comunicar com os portugueses. Para tal encomendou ou vai encomendar mais um estudo desta vez para conhecer a forma de como fazer chegar a mensagem. A ideia é fazer aproximar, em tempo de crise, os cidadãos ao Governo. Como se o problema dos disparates que o Governo tem feito conduzissem ao descontentamento popular devido aos problemas de comunicação.


O problema da comunicação não é novidade porque, comentadores da área dos partidos que sustentam o Governo, face a notícias que vêm a lume que indignam até o cidadão mais apoiante vêm dizer que o que se diz não é bem verdade, o que houve foi um problema de comunicação. Outras vezes quando o primeiro-ministro faz uma declaração, mesmo que tenha sido bem clara, como mais do que uma vez aconteceu, e, posteriormente, entra em contradição, lá começam os “sacristãos” a desdizer o que se disse transformando o erro e a mentira em problema de comunicação. O que se pretende no final é a utilização de técnicas comunicacionais mais eficazes para ludibriar os portugueses.


Não se sabe hoje, momento em que se iniciaram os briefings, se o estudo já foi ou não entregue, se é que alguma vez chegou a ser feito e se aqueles foram uma consequência destes. Mas interessava saber por que eles foram pagos com os nossos impostos e com os “cortes” nos salários e pensões que também contribuíram.


Há uma solução para os problemas de comunicação que se usava muito na ex-União Soviética, e, para quem se recorda também no tempo do Estado Novo, embora de outra forma mas com o mesmo objetivo, é torná-la monolítica através do controle da informação antes de ser divulgada.


Marcelo Caetano, nas suas conversas em família, não tinha problemas de comunicação porque, o que ele dizia era assim e pronto, mesmo que estivesse enganado ou o que anunciasse fosse contra o que o ”público” pensasse ou viesse a dizer…