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quinta-feira, 20 de março de 2025

Trump e o controle sobre a liberdade de imprensa

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Em todo o mundo extremas-direita, direitas radicais, autocracias ou outros modelos ditatoriais rejubilam com Trump no poder nos EUA. Há uma reciprocidade neste jubilo estes vêm-no como exemplo a seguir e Trump pretende pertencer a esse grupo.  Quanto aos plutocratas não precisam estar necessariamente dentro do governo para exercer o poder. Praticam-no por meio de grupos de pressão, garantindo leis favoráveis aos seus negócios e prejudiciais a outras pessoas tais como concentração de poder, leis que não protegem o trabalhador, violência ou leis coercivas para garantir o uso do território para determinadas empresas.


O que Trump tem vindo a fazer com as suas ordens executivas é colocar em causa a democracia dos EUA que era vista como um exemplo da democracia para o mundo e contra países com regimes ditatoriais, autocratas, sem esquecermos que, no passado, tiveram um contributo para o derrube de governos que não tivessem assentimento pelo regime americano.


As medidas executivas de Trump, para além de colocarem em causa o regime democrático americano, aproximam-se de pontos de vista ideológico e de atuação das ditaduras, autocracias, plutocracias e, algumas delas, próximo nazismo.


Um artigo publicado hoje no jornal Público relata que tem havido ameaças a juízes. Escreve que: “Confrontado com um número crescente de reveses e entraves à sua Administração nos tribunais, o Presidente norte-americano, Donald Trump, subiu esta semana o tom das suas críticas ao poder judicial, apelando ao Congresso para depor o juiz que decretou a suspensão da deportação de cidadãos estrangeiros à luz de uma lei do século XVIII, o Alien Enemies Act”. Não sei os que pensam disto os senhores apoiantes de Trump e também o partido CHEGA.


Se visitarmos a imprensa online dos EUA, alguns até próximos do Partido Republicano, verificamos que têm vindo a crescer críticas à atuação da presidência Trump conhecida como versão 2.0.


Donald Trump tem uma visão enraizada de que a comunicação social nos EUA é “verdadeiramente inimiga do povo” e que, por isso, deve ser substituída por fontes de informação alinhadas com as suas opiniões pessoais e sob o seu controle dos seus aliados. Disse-o em novembro de 2022, já depois de terminado o seu primeiro mandato.


A censura aos media tem sido um dos seus objetivos. No início de janeiro, por exemplo, a cartunista vencedora do Prémio Pulitzer Ann Telnaes renunciou ao seu cargo de longa data no Washington Post depois que o seu cartum de Bezos, (Jeff Bezos é o empresário fundador da Amazon e dono do The Washington Post), e de outros multimilionários da tecnologia subservientes a Trump foi retirado pelo jornal antes da publicação (ver imagem abaixo).


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Um colaborador freelance do jornal LA Times disse que um seu artigo foi alterado minutos antes da publicação para deturpar as suas opiniões sobre o perigo de Robert F. Kennedy Jr. para liderar o Departamento de Saúde.


É possível que nenhuma dessas decisões reflita a censura do governo, contudo, a censura direta não é a única maneira de minar a imprensa livre. Criar um ambiente no qual os órgãos de comunicação social comecem a fazer autocensura a opiniões sobre os que detêm o poder é uma maneira menos complicada de alcançar o mesmo resultado.


Têm sido significativas as críticas nos meios de comunicação social norte-americanos às ações da atual Presidência dos EUA sobre a liberdade de expressão e o excesso da atuação governamental. Uma preocupação recorrente é a suposta pressão do governo sobre as plataformas das redes sociais para suprimir conteúdo rotulado considerado como desinformação. Os críticos argumentam que esta abordagem infringe os direitos constitucionais visto que esbate a linha que separa o combate aos conteúdos nocivos e a restrição da liberdade de expressão.


Alguns meios de comunicação têm destacado os esforços do governo para regular o discurso online. Sugerem que essas medidas poderão estabelecer um precedente perigoso para o envolvimento do governo nas plataformas privadas. Isto tem gerado debates sobre a questão da garantia da segurança pública como justificação e a preservação das liberdades individuais.


Tudo isto reflete preocupações sobre o papel do governo na formação do discurso público e as potenciais implicações para os princípios democráticos. Além disso, críticos apontam para a intromissão em decisões privadas e apontam para haver um debate sobre o equilíbrio entre a justificação para o combate à desinformação como pretexto e a proteção da liberdade de expressão.


Críticas dos meios de comunicação norte-americanos às ações da atual presidência em matéria de palavras proibidas e remoção de documentos têm sido várias. Relatórios sugerem que agências federais estão a ser orientadas para eliminar dos documentos e sites oficiais certos termos considerados “woke”[i], como “diversidade”, “equidade” e até “mulheres”. O argumento parte do pressuposto de que este tipo de decisões mina a inclusão e a transparência, com alguns rotulando-o como uma tentativa de remodelar o discurso público para se alinhar com visões ideológicas específicas de Trump, e sugerem que são próximas das ditaduras. Estas medidas têm sido descritas como contraditórias entre o compromisso declarado sobre a liberdade de expressão e o equilíbrio que deve existir entre a aplicação de políticas e os princípios democráticos, o que tem originado discussão sobre o tema em vários artigos.


Os EUA que se afirmavam como os grandes defensores da liberdade, criticados pelos extremistas de esquerda, e se apresentavam como sendo o braço das democracias liberais do ocidente estão a caminhar e a aproximarem-se de ditaduras que parece estar a proliferar pelo mundo.


 


[i] «Sinónimo de políticas liberais ou de esquerda, que defendem temas como igualdade racial e social, feminismo, o movimento LGBTQIA+, o uso de pronomes de género neutro, o multiculturalismo, a vacinação, o ativismo ecológico e o direito ao aborto.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

EUA empresa unipessoal com autocracia no poder

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Início este texto com uma notícia que todos os jornais do EUA e também na Europa divulgaram em maio de 2024. O jornal inglês The Guardian notava que “Donald Trump compartilhou um vídeo na sua conta Truth Social fazendo referência a um ‘reich unificado’ se Trump vencer a eleição presidenciais em novembro”. Depois de ser criticado por isso em alguns setores por mais de meio-dia foi removido. Várias justificações foram dadas para tal pelos elementos da campanha.


O vídeo colocado na segunda-feira 22 de maio permaneceu no ar por 15 horas na manhã de terça-feira, apesar da referência ter sido apontada pelos meios de comunicação. Foi removido da conta do ex-presidente por volta das 10h do Leste EU na terça-feira.


Há quem critique os que não veem na vitória de Trump bons prenúncios para os EUA e para parte do resto do Mundo. Um deles é Jaime Nogueira Pinto que numa entrevista ao jornal SOL em modo de crítica escreveu: “Tive de ter paciência para ouvir teorias espantosas sobre o mal que vem ao Mundo com Trump”. Hoje mesmo (8/11) o Diário de Notícias publicou um artigo de opinião (ainda bem que é apenas uma opinião) onde ele defende o que para a maioria dos comentadores é mau porque na sua perspetiva não vai ser assim tão mau.


A culpa é da esquerda, diz ele, porque a “Esquerda conseguiu que Hitler e do Holocausto ficassem eternamente colados à “Direita”. Logo, parece que o mau apenas o é porque a esquerda assim o disse. Claro que, também classificou como muito mau, e bem, que são maus “os horrores do comunismo, ou os absolvesse como parte dos danos colaterais do Bem e da Virtude – das Fomes da Ucrânia ao Arquipélago de Goulag, dos massacres de Budapeste ao Grande Salto em Frente da China”. E conclui: “todo o líder que começa a ensombrar o domínio da Esquerda passa automaticamente a “fascista” e a “novo Hitler”. A culpa é da esquerda que assim os denomina, porque se não fosse isso não eram maus seriam até bons! E, pondo de lado a esquerda ou a direita, face à objetividade dos factos para Nogueira Pinto a maldade dos fascistas e autocratas é tudo invenção dos media?


Para Nogueira Pinto as ideias e os pensamentos expressos que conduzem a ilações de fascista ou de “novo Hitler” ditas pelos interlocutores, neste caso Trump, é a Esquerda que fica perturbada pela sua perda de influência, logo os classifica daquele modo.


Para ele os media são facciosos porque os media de referência nos impõem “ad nauseam” como única referência, como única causa moralmente superior, verdadeira, democrática, virtuosa... um dos lados.”. Jaime Nogueira Pinto só tem um olho, porque o outro está obscurecido, se assim não fosse teria visto o que os media laçam cá para fora sobre as atrocidades discursivas “trumpianas”. Nogueira Pinto passa ao lado do que Trump disse durante a campanha o que parece não ter apreciado.


Vamos agora analisar possíveis consequências e receios da vitória de Donald Trump. Uma primeira vantagem para Trump segundo o Euronews foi a fortuna pessoal de Trump ter aumentado com a subida das ações da sua empresa de comunicação social após terem saído os resultados.


Por outro lado, Trump parece ter lido o compêndio resumido do “Mein Kampf” já que muitas das suas afirmações durante a campanha assim o mostram como se verá adiante.


O que de facto preocupa a maior parte do Mundo é a resposta à questão:  o que espera o Mundo de Donald Trump? Ao analisarmos as palavras que Trump disse nos comícios e se avaliarmos o que isso sugere e pode significar perceber-se-á sem esforço.


Recordemos e comparemos alguma palavras que ditadores do passado e do presente utilizaram e utilizam para atrair os sem escrúpulos, os plenos de egoísmo que vêm naquele tipo de linguagem a salvação dos problemas que os afligem e ao povo.


Se tivermos atenção as intervenções de Trump nos comícios perceberemos como palavras sensíveis e carregadas de “História” como “deportação”, “países de merda”, “vermes” ou “miseráveis” foram pronunciadas sem escrúpulo. Isto encontra-se em alinhamento com o pensamento de que “Se deseja a simpatia das grandes massas, deve dizer-lhes as coisas mais grosseiras e estúpidas.”(Adolfo Hitler)


Isto leva-nos a refletir sobre as semelhanças de pensamento de Trump com muitas das afirmações escritas no livro anteriormente referido,“Mein Kampf”. Repare-se numa das frases do discurso de vitória de Trump: “Muitos dizem que Deus me poupou a vida por um motivo”. Compare-se com o que Hitler terá escrito ou dito: “Quem disse que não estou sob a proteção especial de Deus?”.


Sobre a imprensa Trump expressou também a sua opinião sem embaraço sobre os media que não o apoiavam. Afirmou que os media davam notícias falsas e ameaçou destruir a imprensa e ameaçou jornalistas. Durante aa campanha e em entrevistas, Trump sugeriu que, se recuperar a Casa Branca, se vingará dos meios de comunicação que o irritam. Mais especificamente, Trump prometeu colocar repórteres na cadeia e retirar as principais redes de televisão de suas licenças de transmissão como retribuição pela cobertura de que não gostou.


Veja-se o que Hitler escreveu sobre a imprensa à época quando cumpria pena de prisão (1924): “Comecei também a examinar debaixo do mesmo ponto de vista a grande imprensa de minha predileção. À proporção que o meu exame se aprofundava diminuía o motivo de minha antiga admiração por essa imprensa. O estilo desses jornais era insuportável, as ideias eu repelia-as por superficiais e banais e as afirmações pareciam aos meus olhos conter mais mentiras do que verdades honestas.” (Mein Kampf, p. 58, tradução).


Assim, a reeleição de Trump pressagia um novo período de hostilidade com os principais meios de comunicação que buscam a imparcialidade, bem como com os meios de comunicação partidários que se lhe opõem. Isso leva-nos ainda a outro tipo de questões. O governo Trump transformará as suas palavras contra a imprensa em ações? Irá revogar as licenças das emissoras de televisão, como sugeriu várias vezes?


Porque há a promessa de Trump de limitar o acesso da imprensa à Casa Branca, impedindo repórteres de que não gosta. De facto, em 2023, horas antes dos seus comentários terem sido divulgados, segundo a AP (Associated Press), um aliado de longa data que deve ocupar um cargo de alto escalão na segurança nacional se Trump voltar à Casa Branca prometeu atacar jornalistas num segundo mandato de Trump.


Assim, os eleitores americanos votaram em alguém como Donald Trump que sobreviveu a uma condenação criminal, a acusações, a um atentado (?), a acusações de autoritarismo e a uma mudança sem precedentes de seu oponente. E, mesmo assim, numa surpreendente reviravolta política, será o próximo presidente dos Estados Unidos.


Parece que os potenciais planos desafiadores de Trump para derrubar o sistema político do país atraíram dezenas de milhões de eleitores. Conseguiu conquistar apoio entre os eleitores latinos e afro-americanos da classe trabalhadora, que deu ao Partido Republicano esperança de uma nova maneira de vencer em uma nação polarizada.


Os especialistas em política dos EUA apontam para que alguns eleitores viam Trump como a sua única opção para combater o que percecionavam como imigração descontrolada e para impulsionar a economia. Outros apontam para que alguns eleitores foram compelidos pelo poder de sua campanha. Mas muitos americanos acharam-no desagradável, e sua vitória pode dizer mais sobre a insatisfação do país os candidatos do Partido Democrata.


No New York Times num artigo de opinião do correspondente da Casa Branca escrevia que “Com sua vitória de regresso para recuperar a presidência, Trump estabeleceu-se agora como uma força transformacional remodelando os Estados Unidos à sua própria imagem.”.


Veremos como será, mas algo de bom não se espera para a América e para o Mundo.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Trump segundo a imprensa internacional e comentários da BBC

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Quando Trump terminou o seu primeiro mandato enfrentou uma série de acusações criminais relacionadas com o seu papel nos distúrbios do Capitólio, como tratou com documentos relativos à segurança nacional e em relação aos pagamentos de dinheiro a uma estrela porno.


Como a Suprema Corte, (Supreme Court - Supremo Tribunal dos Estados Unidos) é o mais alto tribunal federal dos Estados Unidos decidiu que o presidente tem total imunidade de acusação por atos oficiais no cargo, será uma batalha difícil para qualquer promotor acusá-lo durante o próximo governo.


E como presidente, ele poderia instruir o seu departamento de justiça para retirar as acusações federais contra ele relacionadas aos distúrbios de 6 de janeiro, para que não tenha que se preocupar com uma sentença de prisão. Ao mesmo tempo, ele poderá perdoar centenas de pessoas condenadas à prisão pela participação nos motins do Capitólio.


Havia duas versões apresentadas aos eleitores foram apresentados referentes a duas versões da América.


Donald Trump disse que o seu país era uma nação fracassada e que só ele a poderia tornar novamente grande “Donald J. Trump mostrou um retrato terrível da América, muitas vezes contando com alegações falsas e desmascaradas ao descrever “uma nação fracassada.”


Kamal Harris alertou que, se Trump fosse eleito, a própria democracia americana enfrentaria uma ameaça existencial. Isso só no futuro poderá estar para ser confirmado. Mas o que Trump disse durante a campanha não suavizou os medos das pessoas.


Trump elogiou líderes autoritários como Vladimir Putin, da Rússia, e Kim Jong Un, da Coreia do Norte, afirmando que estarem “no topo de seu jogo, goste-se ou não”.


Afirmou ainda que tentaria silenciar os críticos na imprensa. Ainda poucos dias antes da eleição fez comentários em que disse não se importar se elementos da comunicação social fossem mortos.


Amplificou teorias da conspiração e alegações infundadas de fraude eleitoral – apesar da eleição ter levado à sua vitória.


O que falta agora saber é se os eleitores que votaram nele descobrirão que quanto do que ele disse durante a campanha foi apenas conversa fiada. Sendo Trump quem é devemos lembrar-nos que não são apenas os americanos que têm que enfrentar a realidade de um segundo mandato de Trump.


O mundo descobrirá o que significa realmente “América Primeiro”. Desde as consequências económicas globais das tarifas de 20% que ele propôs sobre as importações dos EUA até às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio que disse que prometia acabar. A questão que se coloca é a de saber se será independentemente de qual lado vença.


Donald Trump não conseguiu implementar todos os seus planos no seu primeiro mandato. Agora, com um segundo mandato e significativamente menos sobrecarregado, a América e o mundo verão o que ele realmente pode querer fazer. Tudo será uma incógnita! Ou não fosse ele uma espécie de “joker” como é o antagonista do Homem-Morcego.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

O primeiro-ministro e o estranho caso dos auriculares e dos telemóveis

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Na apresentação do plano de apoio aos media, o primeiro-ministro Luís Montenegro mostrou alguma ignorância relativamente aos métodos do jornalismo moderno e do apoio e auxílio que as tecnologias podem prestar à sua profissão.


Não sou jornalista, nem nunca prestei qualquer serviço nessa tão árdua e difícil profissão, da qual  apenas conheço o que aprendi e tive de praticar durante o mestrado em Comunicação Multimédia, e nada mais. Mas, não é por isso que me restrinjo a fazer análises críticas sobre o tema embora assuma que muitas delas possam ser subjetivas.


A ignorância do primeiro-ministro Luís Montenegro é lamentável, mesmo supondo que apenas pretendeu fazer humor também se saiu mal como artista de comédia stand-up.


Na sua intervenção disse ficar “impressionado” com perguntas supostamente “sopradas” aos jornalistas. E criticou ainda o recurso ao telemóvel para fazerem perguntas. Será que o sr. primeiro-ministro tem visto, na atualidade, jornalistas, mesmo os da sua preferência, utilizarem o velho bloco-notas para tomarem notas ou a ele recorrerem para escrever o que ouvem? O telemóvel é um recurso tecnológico que serve, também, para isso!


O auricular serve para comunicação entre as redações e ou as régies televisivas ou radiofónicas para informar os jornalistas do ponto da situação e do timing e ainda para o que for mais útil, razoável e necessário para conhecimento do público. É tão legítimo como qualquer outro meio que as redações proponham perguntas numa missão de entrevista a qualquer individualidade da política desde que num determinado contexto e com interesse para a opinião pública e para qualquer consumidor de informação através de media credíveis.


Compreende-se que muitos simpatizantes e militantes incansáveis e obstinados defendam até à exaustão a atitude do seu líder PSD por sentirem a incomodidade de algumas questões que lhe são colocadas. Temos pena! Mas, é essa a profissão dos jornalistas com ou sem auriculares, com ou sem telemóvel.

segunda-feira, 18 de março de 2024

A propósito do jornalismo dar a papa à direita-radical

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Montagem parcial a partir da imagem do Público do artigo "A grande família do Chega"


Os media contribuíram para a importância que hoje tem o partido Chega. Ao ajudarem os partidos direitistas a canalizar o descontentamento para o PS abriram caminho para o crescimento daquele partido. Mas não só, o PCP e o BE com a repetição contínua de palavras de ordem com ataques ao Partido Socialista ajudaram a passar a mensagem do Chega também contra o PS sem que eles próprios se auto questionassem sobre por que os votos de protesto foram para a extrema-direita, Chega. Se houve tantos votos de protesto para a extrema-direita por que apenas ela tirou proveito disso e não também à extrema-esquerda.


O partido Chega estrategicamente passou a simular o jogo democrático como uma obrigação, mas as declarações do seu líder continuarem a mostrar que era contra o sistema. Por entre a extrema-direita existem versões mais moderadas e outras mais extremistas, mas todas elas colocam em causa as conquistas civilizacionais e, em última instância, a democracia.


Já escrevi vários textos neste blogue em que me debrucei sobre os media e o jornalismo como por exemplo “Fugir das Armadilhas” e “Relação Político Mediática e Jornalismo”. No primeiro escrevi que “A dúvida instala-se sobre o que pudemos esperar do verdadeiro jornalismo quando estes, por motivos de interesses vários, se encontram enfeudados a ideologias e partidos” e mais adiante que “o problema verifica-se quando há tendenciosamente critérios de subtil favorecimento a candidatos pela utilização das mais variadas técnicas de abordagens…”. Pacheco Pereira em artigos de opinião tem abordado aquelas mesmas questões de forma clara e com um preciosismo muito próprio.


Quem vê televisão e os seus noticiários, debates e comentários opinativos durante a pré demissão do primeiro-ministro e depois de conhecidos os resultados das últimas eleições pode perceber as causas e possíveis consequências dos resultados que são lançadas para o ar. Refiro-me à televisão por ser o media através do qual a maioria das pessoas toma conhecimento do andamento da política.


Verifica-se uma ininterrupta relação entre a política e os media onde, para além dos políticos, o jornalismo tem uma carga de politização, talvez até uma partidarização subliminar, que servem de veículos de transmissão de políticas de direita através de comentadores que, ao mesmo tempo, são políticos. São os profissionais da contradição consoante os interesses e que, por vezes, agarram o que os seus adversários dizem e o tomam à letra. Tomar à letra o que se diz tem a suas dificuldades interpretativas e dificuldade em discernir pois depende do contexto em que as frases são enunciadas porque podem ser determinadas pela função da pergunta e dos contextos em que se dá a resposta.


Na política, as questões são frequentemente complexas e podem exigir mais do que um simples "sim" ou "não". Embora seja possível dar uma resposta direta, muitas vezes é necessário fornecer contexto ou explicação e depende da situação. Em todo o caso, na minha opinião, em política não pode haver apenas sim ou não!


Por outro lado, jornalistas, quais lobos famintos, procuram encontrar ininterruptamente supostas contradições que dizem ter sido proclamadas pelos políticos para os atacarem e fazerem disso aberturas de noticiários televisivos ou manchete para capa de jornal.


Verifica-se desde alguns anos um crescimento dum jornalismo politizado, maioritariamente de direita e muito, quer nas televisões, quer na imprensa, não sei se na rádio, mas nas rádios dos jornais e nos podcasts que agora estão na moda isso é certo.


Porém, do ponto de vista do líder do Chega, não há um jornalismo politizado maioritariamente de direita. Para ele, no que reporta às redações, o que se passa é o contrário. Leia-se parte da transcrição do discurso de André Ventura no dia das eleições ao festejar os ganhos eleitorais do seu partido: “…hoje houve em Portugal um ajuste de contas com a história, na nossa história do pós 25 de abril. Houve um ajuste de contas com um país que, durante décadas, foi asfixiado, dominado, manipulado, atrofiado, pela extrema-esquerda e pela esquerda que dominou redações, dominou instituições e que dominou a nossa economia…” (itálico da minha autoria). Neste mesmo dia duas militante do Chega já com alguma idade disseram a um jornalista da CNN que “fala a nossa linguagem” e, ainda por cima, “é um borracho”.


Nas agendas dos noticiários e nos seus alinhamentos os indicadores económicos, financeiros e sociais que foram bons em Portugal e foram aplaudidos internacionalmente foram apresentados de maneira fugaz e não entravam como fator importantes nas notícias.


A isto acresce o ambiente mediático negativo, a agressividade de várias ordens e sindicatos profissionais com criação acintosa de modo a criar um contexto social de caos e insegurança. Servem como exemplos as reivindicações dos sindicatos dos professores, dos médicos, dos enfermeiros, dos polícias entre outros. Acrescentemos o Serviço Nacional de Saúde com que diariamente os telespectadores eram bombardeados aquando das situações extraordinárias devidas às doenças de inverno que anualmente acontecem. Recordemos o anterior bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, que fez tudo quanto era possível para subtilmente desacreditar o ministro da saúde e para fazer campanha denegrindo o SNS. Posteriormente, durante a campanha eleitoral da AD várias vezes estava ao lado de Luís Montenegro e foi, e agora é, cabeça de lista da AD pelo Porto.


Num artigo de opinião Pacheco Pereira escreve que após o resultado das eleições “Subitamente, órgãos políticos e de interesses, como a Rádio Observador, cujos orgasmos matinais contra o Governo davam o tom para as notícias de muitos outros órgãos de informação, passaram agora, como era de prever, a ensinar como é que a AD deve governar, quais as prioridades, o estilo e as alianças. Com ironia se pode perceber que o que antes era negro na acção política agora é branco, já não há falta de transparência nos silêncios, e a obrigação de responsabilidade tornou-se a dos “outros”, como mostra a chantagem comunicacional sobre a votação do PS no Orçamento.”


É fácil perceber que vai cair sobre o PS a responsabilidade por tudo o que aconteça de mal à direita. A pergunta que se coloca é a de saber se deve ser o PS a sustentar um Governo cujo partido ganhou as eleições?


De alguns pensamentos provindos de grupos de comentaristas entendedores de política salientam-se opiniões que propõem que o Chega não deve ficar na oposição porque pode crescer ainda mais. Estas razões são simplistas porque há outras razões mais complexas.   Há outras variáveis mais marcantes nos eleitores que que os levaram a presentear o Chega e que têm a ver com aspetos sócio económicos vários que nem sempre são da responsabilidade do PS, mas do jornalismo de influência direitista que preparou a população contra o PS num alinhamento com o Chega e com os partidos da extrema-esquerda.


Parece estar a haver críticas a Montenegro por causa da frase do “não é não” ao Chega, que agora lamentam, porque pôs em causa um possível entendimento com aquele partido. Contudo, do meu ponto de vista, o “não é não” ficou em suspenso para salvaguardar que, numa circunstância como a atual poderia ser adaptado a novas circunstâncias que, entretanto, surgissem. Mas, tal poderá não acontecer pois colocaria face a alguma opinião pública como falta à palavra dada.


É por isso que o “não é não” de Montenegro ao Chega poderá, ou não, ter outras nuances, digamos, mais “flexíveis”. É o mesmo que dizer “Bem, na Assembleia da República falamos o que seria a condensação e ou remoção da frase e de alguns de seus sentidos, com o objetivo de restringir o propósito do pensamento seria uma espécie de “novilíngua” orwelliana) entre todos os deputados”, o que, como é óbvio, todos não significa para a AD falar com o Bloco ou com o PCP, mas com o Chega.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Jornalismo sem jornalistas ou a extinção dos media

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É verdade que muitos, eu incluído, dizemos mal de jornalistas e dos media, mas sem eles não há democracia real. Que os media não devem estar dependentes de foças partidárias, empresas com interesses que não a informação e de ajudas estatais está muito enraizado entre muito, se não na maioria onde também me incluo.


A liberdade de imprensa é um pilar fundamental das sociedades democráticas que permite aos jornalistas informar o público sobre questões políticas, sociais e económicas, sem medo de represálias nem de censura.


O caso da Global Media detentora da TSF, Diário de Notícias e Jornal de Notícias e Jogo é o manifesto da crise em que se encontra a comunicação social em Portugal sobretudo a imprensa.


Numa democracia onde se pretende que prevaleça a liberdade de imprensa será difícil tomar decisões, mesmo que temporárias, para salvar os postos de trabalho e evitar a rarefação de órgãos de comunicação. Qualquer decisão de compra ou inclusão por outra empresa pode conduzir a uma maior concentração de media nas mãos dos que olham com ganância, e finalidades mais ou menos de cariz político e ideológico. Mas que decisões se podem tomar em casos desta natureza numa economia que pretendemos que seja democrática e liberal?


A concorrência entre empresas detentoras de órgãos de comunicação, imprensa, radio e televisão é feroz pela captação de audiências para atrair publicidade, especialmente nos casos dos canais de televisão e de rádio. Na imprensa é a competição por assinaturas, sejam elas em papel ou online.


Li dois artigos de opinião escritos por pessoas que respeito pelo seu perfil sobre o caso da Global Media. O primeiro foi o de Pedro Norton que fez parte do grupo Impresa em 1992, como assessor do presidente do conselho de administração da Controljornal e, a 1 de outubro de 2012, substituiu Francisco Pinto Balsemão como presidente executivo, cargo no qual se manteve até 2016. O segundo foi o de Ana Sá Lopes que em 2018 foi diretora-adjunta do PÚBLICO. Com a remodelação da direção editorial do mesmo jornal passou a redatora principal em setembro deste ano. Se do primeiro é da área do centro, talvez, PSD, da segunda desconheço a sua orientação ideológica ou partidária, mas para o caso o que interessa são as suas opiniões sobre os problemas gerados pela Global Média que está a causar danos ao jornalismo e aos jornalistas.


Com o que Pedro Norton escreve no seu artigo em parte coincide com o meu ponto de vista. Escreveu ele que “O jornalismo deixou de ser um negócio e isso é uma péssima notícia, o jornalismo deixou de ser um negócio sustentável. E sem modelo de negócio não é possível garantir a existência de uma multiplicidade de órgãos de comunicação social capazes de, no seu conjunto, na diversidade das suas saudáveis diferenças editoriais e ideológicas, prover o bem público que é uma Ágora plenamente funcional nas nossas democracias”.


Aqui reside um ponto importante que merecer alguma reflexão visto vivermos numa democracia liberal que alguns das esquerdas mais radicais preferem designar por capitalista.


Nas democracias liberais quando há investimento estes ficam enquadrado no princípio da livre iniciativa e como em qualquer outro negócio o objetivo e o de gerar lucro. Quanto a isso nada há de mal desde que enquadradas nas regras da concorrência, mesmo no que se refere a empresas de comunicação social ditas da área do jornalismo. No caso deste tipo de empresas jornalismo, rádio, televisão, imprensa, há sempre o risco de que a informação produzida, tal como a difusão dela decorrente, poderão tender para um controle da substância ideológica e editorial por parte dos seus investidores e administrações. Contudo, estas estruturas são encaradas como pluralidade dos media, mas face à falta de literacia por parte de grande número do público sobre os media e às agendas políticas das redações podem gerar distorções na informação produzida.


Parece-me que Pedro Norton também é deste ponto de vista pois defende que (sublinhados da minha autoria) “Quem trabalha no mundo dos media sabe bem que não existem fontes de financiamento (públicas ou privadas) que não criem relações de dependência perversa. Sabe também que essas relações são tanto mais perigosas quanto mais dominantes são. E sabe também, por fim, que a mais perversa de todas as dependências, para o efeito do tema que aqui nos ocupa, é o próprio Estado. Não porque seja, ele próprio, inerentemente perverso ou mais maléfico do que os atores privados, mas porque, como é evidente, é muito mais difícil pedir ao ecossistema jornalístico que cumpra a função de escrutinar o poder político se o próprio poder político se transformar no decisor único ou maior sobre o seu financiamento e sobrevivência.”


Para Pedro Norton os media “só conseguem cumprir a sua missão se conseguirem ser independentes e, em particular, se conseguirem ser independentes do Estado”. Este ponto é delicado porque a tutela excessiva do Estado pode levar à censura e à falta de liberdade de imprensa como está a acontecer na Federação Russa com Putin a controlar e a interferir com os media. Mas, a questão que podemos colocar é a de saber se serão também verdadeiramente independentes se forem privados.


O ponto de vista oposto é o de Ana Sá Lopes no seu artigo de opinião que escreveu no Público. Achei estranho o seu ponto de vista sobre a situação da Global Media que, de facto, apesar de estar a prejudicar centenas de jornalistas defende um ponto de vista muito corporativista. Exige ela no seu artigo, se exigir será o verbo adequando, a nacionalização pura e simples de órgãos de comunicação social, tal como o PCP defende a nacionalização dos jornais Diário de Notícias e Jornal de Notícias. Será que o ponto de vista de Ana Sá é apenas sugestão temporária para resolução do problema?


Há quem critica impetuosamente contra “meter dinheiro dos contribuintes (porque não há ouvintes e leitores suficientes) para assim simplesmente se salvarem empregos de jornalistas que, durante anos, contribuíram para a degradação do seu ‘produto jornalístico’ a ponto de hoje ser já um ‘produto comercial’ sem interesse nem préstimo”.


A 3 de maio de 2022 na página do sítio oficial de informação da Presidência da República Portuguesa o presidente recordou que as “grandes dificuldades que os órgãos de comunicação social, sejam eles locais ou nacionais vivem, como seja, na sua capacidade económico-financeira, na precaridade muitas vezes associada à profissão. Acrescentou ainda que as dificuldades pelas quais passam os órgãos de comunicação ao nível financeiro e também no literário é "um dos problemas a que temos vindo a assistir é a substituição da leitura de notícias pelo consumo de conteúdos nas redes sociais". E termina dizendo que "Estes são conteúdos, rápidos, simplistas e condicionados, muitas vezes com informação desvirtuada, sem contraditório ou mesmo falsa".


Propostas com soluções que se esperam dos especialistas nesta área para o problema são escassas ou incompletas e qualquer delas não estarão afastadas de possíveis distorções, mesmo as que Pedro Norton sugere ao escrever que “A alternativa, que precisará sempre de ser amplamente consensualizada, terá assim de passar por formas muito indiretas de apoios, seja removendo obstáculos e custos de contexto, seja criando mecanismos (fiscais ou outros) que incentivem empresas, fundações e cidadãos particulares a consumir, a apoiar e a financiar projetos de media, seja ainda, e crucialmente, separando a função de financiador do Estado da função de decisor da alocação concreta dos fundos que pode e deve ser assegurada pela sociedade civil através de associações, fundações ou até empresas, desde que diversificadas e com estruturas de governação adequadas.”


Em qualquer das soluções apresentadas corre-se o risco de uma corrida de empresas para obterem algumas vantagens, mesmo as que não necessitassem, que se reorganizariam para a obtenção desses fundos e apoios recorrendo a qualquer uma daquelas soluções.  


No atual estado em  que se encontram os meios de comunicação verificam-se casos como o noticiado em maio de uma investigação que deu lugar a  um despacho do Departamento de Investigação e Ação Penal Regional do Porto (DIAPRP),, em que o Ministério Público (MP) diz que o autarca Eduardo Vítor Rodrigues “determinou a outorga pelo Conselho de Administração da GAIURB [empresa municipal], de modo arbitrário, sem qualquer requisição de despesa, manifestação de necessidades ou proposta de contratação de serviços e/ou fornecimentos de bens emanada pelos respetivos serviços, contratos públicos com o Grupo Global Media”. Segundo o jornal ECO, o presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, que por acaso é do Partido Socialista, era assim suspeito de contratar de forma ilegal e arbitrária meios de comunicação do Grupo Global Media para promoção da autarquia e dele próprio.


Segundo o Observador na altura foi emitido um comunicado em que “Os membros eleitos do Conselho de Redação da TSF manifestam, assim, o vivo repúdio pelas acusações de alegado envolvimento da direção editorial e da redação em alegadas operações de promoção de imagem, sublinhando que o trabalho desenvolvido pelos profissionais da TSF é regido sempre pela ética e deontologia do jornalismo”. E mais adiante “Sobre as notícias que têm sido divulgadas sobre o tema, o CR do JN classifica de “noticiário assente numa visão, errónea, de que, de algum modo, um acordo comercial com uma autarquia, legítimo e devidamente registado no Portal BASE, seria uma porta aberta ou uma banca self-service de notícias para algum autarca”.


A democracia não pode viver sem uma comunicação livre e independente e também fora do controle do Estado. No entanto, o aproveitamento de empresas jornalísticas, grosso modo, por possíveis interesses políticos, por vezes até por simpatias partidárias, incluem na sua agenda setting factos que possam induzir na opinião pública proveito ou desagrado em relação a partidos ou governos por vezes apresentados como factos por vezes conjeturados.


Basta estarmos atentos e fazermos leituras dos alinhamentos e dos conteúdos dos jornais dos canais televisivos, sobretudo em épocas pré-eleitorais, para nos apercebermos do marketing por parte das empresas dos media. É uma espécie de jornalismo empenhado na defesa de determinada causa ou ideologia e, por vezes, percebido como declaradamente partidário, fugindo aos princípios éticos da profissão que devem presar objetividade, isenção, clareza, verdade, interesse público. Se assim não for oferecem riscos à própria democracia, isto à parte dos artigos de opinião cujos interesses possam manifestar pontos de vista diversamente ideológicos e por vezes tendencialmente partidários.


Quando o corporativismo jornalístico e os donos de empresas de comunicação se pretendem esquivar a responsabilidades, o culpado, o bode expiatório, é sempre o Estado, ou porque não fez o que devia ter feito, ou porque fez o que não devia ter feito, e quando é assim, normalmente, a oposição de direita coloca-se sempre em ambos os lados ou do que mais lhe interessa.


O que não se pretende de todo é que casos como este ou outros aconteçam.

sábado, 6 de janeiro de 2024

Um verdadeiro Ano Novo precisa-se

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Já passaram as festas de Natal e do Ano Novo e o seu início desde já promete ficar cada vez mais corrompido pelo debate confronto político que se degrada à medida que se aproximam as datas das eleições previstas para este ano, penso eu.


Pelo início deste novo ano nada faz prever que mude, diz o meu oráculo. Comentadores políticos com a redundância assumida aceleram nas suas teses. São horóscopos que defendem com argumentos bem delineados, mas enganadores e intencionalmente dirigidos para defesa dos seus pontos de vista. Imaginam estes oráculos cenários, os piores possíveis, críticas a todas as políticas, sem exceção, de quem cessa funções e preconizam o nascer de sóis resplandecentes e alinham com a execução das promessas dos que se perfilam para a obtenção do poder, mesmo sabendo que elas são inexequíveis por um governo que pertença às suas filiações ou simpatias partidárias.


Os vaticínios que me são transmitidos são cantos enaltecidos e apologéticos. São promessas transitórias das direitas e das extremas-direita a elevarem-se na imprensa e nos espaços televisivos das notícias selecionadas e rigorosamente alinhadas com o que foi “dito”, mais do que o não “dito” e omitido, pelas intervenções dos responsáveis partidários das oposições de direita, tendencialmente contra o ainda Governo que cessa as suas funções exatamente a 7 de janeiro do presente ano.


O meu oráculo diz-me que os media recorrerão ao passado martelando e martirizando os ouvidos e os olhos dos telespectadores com as “maldades” várias do governo anterior e as mesmas “tags” (etiquetas) de sempre: corrupção, compadrio, favores, peculato, acompanhadas com fragmentos de peças do passado com casos e figuras mostrados insistentemente e escolhidos a dedo consoante os interesses partidários e orientações das vozes dos donos para garantia de influência mediática, em favor dos seus interesses partidários.


A saúde, sobretudo as urgências hospitalares, cuja principal causa está da epidemia gripal, terão diariamente palco, até à exaustão, nas aberturas dos jornais televisivos, como se isso fosse resolver os problemas que a direita não se atreve a dizer como resolver, porque sabe que não o conseguirá.  


Segundo o meu oráculo, as oposições, sobretudo as de direita, com a cooperação de denominados jornalistas de investigação, irão à busca de casos triviais mesmo que criticáveis são lançados para a opinião pública como sendo casos extraordinários mostrados ao modo de investidas dramáticas.


 O PCP fará dessas trivialidades ouvidos moucos porque, para eles, os desse partido, não são esses os principais problemas de que o país e o povo enfermam. Para eles o povo, os trabalhadores, os salários e as pensões são uma espécie de cassete em contínuo.


Dizem-me os meus oráculos que neste novo ano, até às eleições, continuarão comentadores e “opinadores” de serviço, sobretudo os simpatizantes da direita a direcionar as suas críticas pessoalizadas aos atores do adversário que mais os faz tremer. No entanto passam a achar que os jornalistas devem escavar, para escavacar a vida pessoal dos políticos, mas apenas quando calha a outros que não os da sua simpatia político-partidária. Se assim não for passarão logo a defender o escrutínio justiceiro pelos media e a considerar que esse deve ser também o seu papel. Assim falam porque Montenegro ultimamente está sob suspeita. João Miguel Tavares assim escreveu primeiro num ato de justificação, e depois Paulo Rangel do PSD a entrar no ato da defesa do líder.


O primeiro coloca em comparação Pedro Nunes Santos com Luís Montenegro porque, escreveu ele, que “Como eleitor, essas informações interessam-me, porque me ajudam a construir o perfil de um candidato”. Para tal desenvolve sobre os bens pessoais de cada um como sendo indicadores indispensáveis do perfil dos candidatos, Para Miguel Tavares parece que o perfil dos políticos em evidência de avaliasse pelos bens pessoais que possuem ou já possuíam ou como se o miserabilismo fosse o perfil adequado para o exercício da atividade política. Compara o que um tem e gosta com o que o outro tem e gosta, tornando-se óbvio e claro qual a intenção e o objetivo.


Ao analisarmos o artigo de João Miguel Tavares verificamos que, para atestar algo contra o Governo PS, defende o escrutínio rigoroso pelos media sobre a vida pessoal e posses dos políticos.


Paulo Rangel, numa entrevista que deu à Rádio Renascença e divulgada pelo jornal Público veio em defesa do líder do seu partido e afirmou sobre o caso Montenegro que “estranha “coincidências” e que “há” mão invisível contra Montenegro”.


Torna-se evidente a desculpabilização de Montenegro por Rangel já que atribui a culpa ao Governo. Vejam-se as perguntas e as respostas:


“O inquérito teve origem em denúncias anónimas. Há aqui uma mão invisível para atrapalhar a vida do líder do PSD?”


“Acho que há. Isto começou a surgir quando houve grandes problemas com o Governo.”


“Faz essa associação?”


“Estou a fazer uma associação puramente objetiva. A verdade é que aconteceu. Ao mesmo tempo é uma coincidência temporal, mas depois cada um interpreta como quiser. Mas o que mais admirei na posição de Luís Montenegro foi a não-vitimização, aguardar o inquérito e não fazer pressões para que decorra depressa ou devagar ou à tarde ou à noite.”


À pergunta sobre se “O líder do Chega dizia que Luís Montenegro tem de dar uma explicação cabal sobre o que está em causa no inquérito, inclusivamente mostrar os documentos. Como é que responde a isso? Luís Montenegro disse que não ia mostrar nada e entregar ao Ministério Público”.


“Uma comunicação social responsável não devia dar palco a esse tipo de populismo. É evidente que as vidas das pessoas, especialmente os seus detalhes, não têm que estar na comunicação social.”


Afirma o meu oráculo que o fator da crise das democracias, e também no caso português, é a política democrática estar sujeita a uma transformação pela sucessão contínua entre os media e a política. A autonomia das decisões políticas fica em risco e é condicionada pelos mecanismos dos media.


 


 


o domínio da política democrática pela sua transformação num contínuo político-mediático, que diminui a autonomia da decisão política e a torna cada vez mais dependente dos mecanismos da comunicação social e da sua evolução.


A atual necessidade de rapidez competitiva entre os media leva necessariamente à falta de rigor, à agressividade, à culpabilização antes da prova, à falta de racionalidade no que é escrito, dito e mostrado leva ao superficial, ao vulgar que arrasta neste círculo vicioso a própria política.


Verifica-se um fenómeno que é o de não se ter a política, os partidos e os políticos temos uma espécie de mescla o que é política, partidos e políticos com os media, neste caso considerando a imprensa, a rádio e a televisão que se influenciam mutuamente pela opinião pública.


Não foi o meu oráculo que me murmurou ao ouvido que “os factos, as opiniões, as interpretações são moldados por mecanismos mediáticos em que participam políticos e jornalistas, cada vez mais com uma cultura de acção semelhante e dependente de efeitos comunicacionais tais como a novidade, o timing, o tipo de resposta, a rapidez, a frase assassina, a falta de estudo e de rigor. As redes sociais e novas formas de acesso àquilo que passa por ser informação…”, foi Pacheco Pereira que escreveu no Público.


O meu oráculo diz-me que os que escrevinham artigos de opinião nos principais órgãos de comunicação, assim como os comentadores de serviço que são inspirados por “divindades intermediárias” irão traçar destinos maléficos, ou benéficos, consoante os interesses, tendentes a influenciar os votantes nas próximas eleições. Uns irão assinalar os recados enviados indiretamente nas intervenções da mais alta individualidade da nação que irão tomar como críticas ao Governo já em processo de demissão, mesmo que não o sejam e irão continuar a responsabilizá-lo por nada fazer. Utilizarão estribilhos muito queridos às esquerdas radicais e farão críticas, sem apresentarem soluções, centrando-se nos discursos do acesso à saúde, habitação e educação à qual acrescentam a justiça cuja reforma não lhes interessa, mas que nas bancadas gritam por não ter sido feita. Ouço eu. E, quando chegados ao poder, nada fazem. Interessa-lhes que tudo se mantenha na mesma, penso eu.


Quando as direitas usam nas suas intervenções aqueles slogans fazem-me recordar as palavras da canção de Sérgio Godinho (1974), palavras de ordem da extrema-esquerda após o 25 de Abril, estimulantes à rebelião popular,


Só há liberdade a sério


Quando houver


A paz, o pão, habitação


Saúde, educação


Só há liberdade a sério quando houver


Liberdade de mudar e decidir


Só lhes falta acrescentar:


Quando pertencer ao povo o que o povo produzir


E quando pertencer ao povo o que o povo produzir


 


Recuperar e revigorar o passado passará a ser o foco das direitas que, vendo reduzir ou desaparecer o seu espaço eleitoral, vão juntar-se na mesa para decidirem e tecerem estratégias para o banquete eleitoralista no sentido de obterem uma maioria parlamentar, ou senão, ocuparem o poder e dividir pelouros num futuro governo.


Uma Aliança Democrática versão 2024, PSD+CDS+PPM, parece destinada ao fracasso e poderá não ter efeito significante nos resultados eleitorais, digo eu. A dinâmica dos saudosos Francisco Sá Carneiro, Diogo Freitas do Amaral e Gonçalo Ribeiro Telles, quando a política era mesmo política e não era induzida pelos media, falha nesta AD forçada com líderes, especialmente como o do CDS, não vai resultar.


Poderemos vir a ficar surpreendidos ao percebermos o efeito marginal que esta aliança terá no eleitorado se mantiver o até agora discurso partidário pela negativa e pelo ataque sem nada para oferecer, sem programa claro e objetivo, com as promessas do costume se forem um potencial governo utilizando as mesmas capacidades retóricas populistas próximas do CHEGA.


O meu prenúncio para a justiça, e mais concretamente, para o desempenho do Ministério Público e da PGR não é animador devido à série de coincidências que se tem verificado entre o tempo da política e o tempo da justiça. A PGR não faz política, mas há muitas formas de manifestar os seus pareceres sobre política e as circunstâncias e as ocasiões e a forma como lança para a comunicação social o que está a investigar, e a escolha do tempo para o fazer pode vir a dar lugar a dúvidas sobre os métodos de que se serve.


Precisamente na véspera do dia da demissão do Governo que se limitará à prática dos atos estritamente necessários para assegurar a gestão dos negócios públicos os media tornam público dados que consideram serem novos e, estranhamente, sobre António Costa, exatamente no dia do início do 24.º Congresso Nacional do Partido Socialista. Estranhas coincidências na justiça, disse-me o oráculo.


Na política internacional continuarão muitos continuarão a perorar nas redes sociais (mas também alguns generais comentadores de política de guerra), talvez dissimuladamente defensores da invasão da Ucrânia pelo ditador Putin, a que tecem elogios.


À pergunta porquê responde-me a pítia do oráculo que é tudo por causa   da expansão da NATO ao Leste Europeu, à possibilidade de adesão da Ucrânia àquela aliança militar, à contestação ao direito da Ucrânia à soberania independente da Rússia e ao desejo de Vladimir Putin de restabelecer a zona de influência da antiga União Soviética, mas esquecem-se aqueles que  e é importante lembrar que a invasão violou o direito internacional e a soberania da Ucrânia, além de ter causado muitas mortes e deslocamentos . Tudo com a ajuda da influência da opinião pública por fatores como os media, a propaganda e a desinformação que Putin consegue por no terreno.


E acrescenta o oráculo porque aquelas pessoas são contra o imperialismo ocidental, mas que, ao mesmo tempo, apoiam o imperialismo estalinista de Putin na Rússia, digo eu. Estes mesmos também dizem ser defensores do povo palestiniano, sem que saibamos se, afinal, estão do lado da ala militar para a libertação da Palestina, o Hamas, organização, pró-terrorista que dizem estar do lado do povo e que, por isso, praticam atos terroristas e porque são contra os EUA. Esta organização é entendida por muitas nações como terrorista, e controla a Faixa de Gaza de maneira autoritária, dizem alguns analistas.


A pitonisa que profetisa o oráculo que consultei disse-me que o povo judeu, após o fim do holocausto e depois do Estado de Israel ter sido criado, graças à proposta da ONU de dividir o território da Palestina em duas nações, passou de vítima a agressor. São agora apontados por genocídio dos palestinianos, dizem uns, é o direito à defesa que a isso os obriga, dizem outros.


Israel ocupa indevidamente o território que devia ser de ambos os povos, no conceito de dois povos dois estados. Através duma violência que dizem ser pacífica, como se qualquer violência é pacífica, e a que chamam colunatos, expressão invasiva de território potencial e possivelmente palestiniano. Diz-me o meu oráculo que em novembro deste ano os EUA e o Mundo poderão estar em perigo se um certo senhor de perfil ditador nazi venha a ocupar o cargo mais importante daquele país.  Contudo, e pelo seu passado no anterior mandato o senhor Trump diz uma coisa e o seu contrário num curto espaço de tempo, digo eu.


Em 2022 elogiou as ações de Putin em relação à Ucrânia e reconheceu a independência de duas províncias separatistas da


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Ucrânia, além do envio de tropas russas para entrar no país e para supostamente proteger os enclaves, disse ele,  a ação de Putin era “genial” e Putin entraria na Ucrânia como um pacificador, dizia ele,  condenou a invasão da Ucrânia pela Rússia, que estava orando pelos ucranianos, passou ele a dizer, talvez por estratégia eleitoral, sobre isto o meu oráculo nada diz.


Para a Paz entre Israel e Palestina teve um plano em 2020 rejeitado pelos palestinos, propunha ele e uma solução de dois estados para o conflito, como ele resolveria o conflito face aos atuais cenários, ele não diz.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Jornalismo e indução da opinião pública

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…num caso há a notícia que passa e, no outro, a notícia que fica e permanece até ao seu esgotamento numa espécie de ladainha diária, numa espécie de indução da opinião pública.


Uma das profissões que admiro é a de jornalista. Admirei na minha juventude e continuo a admirar. Tenho um pequeno sentimento de inveja da profissão, talvez porque gostaria de ser profissionalmente como eles, escrever como eles, falar como eles, investigar como eles, por vezes até ser “perseguido”, pressionado (algo que, para mim, seria difícil de suportar).


Há jornalistas que são pressionados pelas redações para fazerem “cachas” jornalísticas, seja a que custo for, mesmo omitindo partes da verdade dos factos, condicionamento dos mesmos e a publicação de artigos e notícias com objetivos pré-concebidos para denegrir, acusar, enxovalhar, denunciar sem provas, etc., aí já não dou para esse peditório.


Tem-se muita das vezes a ideia de que os jornalistas não têm vertente ideológica, que são politicamente, independentes, isentos e encontrarmos por parte deles alguma resistência em aceitar o contrário. Podem ser independentes face ao poder político, mas não o serão face ao poder patronal. Habitualmente afastam a possibilidade da não isenção. Ao dizerem-se isentos e independentes do poder propõem-se afastar qualquer simpatia ideológica embora se verifique pelos comentários que produzem que ela, de facto, está presente.


Neste contexto os meios de comunicação, diria que todos, não estão isentos de valor político-ideológico. Assim, ser jornalista significa ter de se submeter e contribuir através de seus trabalhos para a manutenção da ideologia dos meios de comunicação onde exerçam a sua profissão.


Se definirmos ideologia como uma aceitação rígida, até mesmo fanática, de um conjunto de ideias e valores, não importa quais, então é coerente que os jornalistas neguem tê-los ou evitem manifestá-los por questões de ética que regem a sua conduta pessoal e profissional.


Mas, se, pelo contrário, ideologia for entendida como o conjunto de atitudes sociais, crenças políticas e valores morais que moldam a interpretação do mundo, então todos ou quase todos trabalhamos com base numa estrutura ideológica, incluindo os jornalistas. Contudo, neste tipo de ideologia a que me refiro quando estamos no âmbito da política, então, tenho dúvidas se, no exercício do seu direito de cidadania, ao votarem num partido que nos venha a governar, se não terão também, com certeza, como a maior parte de nós, uma opção político-partidária.


Para mal do jornalismo muitas pessoas dizem que podem confiar mais nas redes sociais on-line como fontes de notícias e informações não se apercebendo que por elas são influenciados ao que acresce a sua participação em discussões on-line, a maior parte da vezes insensatas e irresponsáveis provenientes de vários quadrantes ideológicos e políticos, das mais democráticas às mais extremistas, por vezes até de índole criminosa.


A informação exclusiva pelas redes sociais pode ter como consequência serem elas a decidir aquilo que iremos saber e, por isso, correndo o risco de seremos manipulados, o que também não estará fora de causa para outros órgão de comunicação.


Numa democracia liberal o escrutínio do poder é essencial e a comunicação social deve também exercer esse importante papel de escrutínio do poder para o qual o jornalismo e os jornalistas são peças fundamentais. Mas os jornalistas, como quaisquer pessoas são humanos e, como tal, possuem defeitos, virtudes, gostos, ideais, anseios, opções ideológicas e dimensões políticas várias, com diferenças de identidade. Todavia é nos relatos, nos modos de relatar uma notícia ou fazer um comentário político que as opções e diferenças político-ideológicas se manifestam, ainda que sob a pretensão de uma capa de isenção.


A seleção de notícias pelas redações dos órgãos de comunicação social, especialmente as televisões, com a urgência de dar primeiramente uma notícia pode fazer com que, sem estar completamente confirmada ou verificada, pela pressão que vai no sentido de ser dada a notícia em primeiro lugar, por motivo da concorrência entre canais e de marcar uma agenda de informação política.


Ao longo dos anos que tenho visto e ouvido noticiários televisivos percecionei que há algo que não vai bem no mundo da comunicação social. A veracidade dos factos e o tratamento das notícias são focados segundo interesses quer das redações, por vezes com alguma parcialidade, quer pelas empresas que subvencionam os media, quer pelos canais de televisão, quer pela imprensa.


Vejamos de maneira muito geral o que se tem observado ao longo dos anos nas noticiosas televisivas cuja perceção para quem esteja atento é a de que há uma predominância de escrutínio aparentemente rigoroso para com alguns partidos que estejam no Governo comparativamente com outros que estejam ou estiveram em circunstâncias idênticas.


Sem querer entrar no domínio de suspeições e de teorias da conspiração analisamos  que, quando está no poder um partido de esquerda ou centro esquerda o escrutínio pelos órgãos de comunicação aprofunda a procura de casos e são mais exigentes, rigorosos e propensos para a insistência em investigações jornalísticas com a sua repetição exaustiva de modo a comprometer o partido que está no governo sobretudo quando o mesmo é o Partido Socialista propiciando o lançamento para a opinião pública de determinadas situações, factos ou notícias que lhe sejam desfavoráveis de modo a contruir uma narrativa oposicionista aproveitada pelos partidos que encontrem no momento na oposição.


Uma das missões da investigação jornalística televisiva sob a forma de reportagem ou procura de notícia, deve ser a de informar o público sobre irregularidades públicas ou privadas, políticas, económicas e sociais. Se prolongada e repetitiva, mas, se pouco desenvolvida em relação aos factos são redutoras podem intoxicar e minar a opinião pública sendo até, por vezes, redutoras.


Não se defende que casos de corrupção, compadrio, transgressão de normas ou princípios, questões de ética, interesses pessoais ou outros verificados como factos não sejam divulgados, noticiados, escrutinados e investigados. O que se critica é a diferença na procura, nos critérios seguidos e na exigência em função do partido que esteja no Governo, seja ele o PS ou o PSD ou qualquer outro. O que passa para a opinião pública e a sensação com que se fica é a de que os atos investigados são insistentemente mais salientados quando o primeiro está no poder e que a imagem que se pretende passar é a de que a corrupção e a incompetência se encontram apenas num partido.


Se vasculharmos notícias sobre os vários governos em que tenham surgido casos de corrupção que tenham sido utilizados como arma de ataque a ministros, secretários de estado e autarcas ou outros casos que os comprometam publicamente, como prevaricações ou negociatas, ligações familiares com empresas privadas que tenham tido ou com que tenham colaborado, ligações a escritórios de advogados raramente encontramos ligações e referências a militantes ou ex-militantes da direita ao longos do anos de governação do PSD e ou CDS. Serão estes impolutos, imaculados. Se os houve, ou há, passam na comunicação social sem aprofundamento, insistências, repetições como qualquer notícia outra que passa e logo após desaparece.


Ficamos com a impressão de que casos como os antes referidos, quando se trata da direita, há uma tendência para deixarem de ser de interesse público e de investigação ou pesquisa jornalísticas e que as fontes ficam no seus esconderijos, como se tivessem o dom da invisibilidade, parecendo  carecer de informação para denúncia e, se encontram  algo inconveniente passa a ser de tratamento jornalístico superficial e pouco aprofundado, sem repetições exaustivas nos noticiários e rápida e facilmente caem no poço do esquecimento.


Explicando-me melhor, num caso há a notícia que passa e, no outro, a notícia que fica e permanece até ao seu esgotamento numa espécie de ladainha diária, numa espécie de indução da opinião pública.


É como se houvesse uma espécie de lei do efeito de Edward Thorndike tratado na psicologia. De acordo com este princípio, as ações que são seguidas por resultados desejáveis são mais suscetíveis de serem repetidas, enquanto aquelas seguidas por resultados indesejáveis são menos suscetíveis de serem repetidas. Explicando: se aplicado aos media e às notícias e, de acordo com aquele princípio, as ações (notícias) que sejam seguidas por resultados desejáveis (p. ex. algo que venha contribuir para perda ou desfavor do envolvido(s) são mais suscetíveis de serem repetidas, enquanto aquelas seguidas por resultados que não sejam desejáveis para o envolvido(s) são menos suscetíveis de serem repetidas.


Coloca-se-me então uma dúvida na perspetiva do meu fator de análise: será que nos partidos de direita os seus elementos, sejam eles, parlamentares, tenham pertencido, ou não, em governos, autarcas são ou foram sempre imaculados, virtuosos, incorruptos? Para a opinião pública talvez sejam porque não há aprofundamento nem interesse em investigações jornalísticas e, quando o há sai rapidamente das parangonas da comunicação social impressa ou televisionada. Outra dúvida que se pode colocar é a de saber se as nomeações para cargos de Governo quando a direita PSD e na altura também o CDS estão no poder são tão escrutinados quanto os do Partido Socialista.


Lembremos o caso que envolveu a ministra das finanças Maria Luís Albuquerque que em março de 2016 que segundo o DN, e conforme noticiava o Expresso, «as empresas Gesphone e Whitestar Asset Solutions S.A, adquiridas pela Arrow Global em 2015, tiveram benefícios fiscais num total de 381,7 mil euros entre 2012 e 2014, segundo informação disponibilizada pela Autoridade Tributária». «O jornal avançava que a maioria do benefício foi para a Whitestar, num total de 362,5 mil euros, dos quais 198 mil foram para a criação de emprego e os restantes 163,7 para o crédito fiscal ao investimento. Para a Gesphone - Serviços de Tratamento e Aquisição de Dívidas SA o benefício foi de apenas 19,2 mil euros em 2013, a maioria resultante do crédito fiscal ao investimento».


Em abril de 2018 o semanário Jornal Económico lança uma notícia com o título «Montenegro faturou 400 mil euros em ajustes diretos de autarquias do PSD» e noticia que «Entre 2014 e 2018, a sociedade de advogados Sousa Pinheiro & Montenegro (detida em 50% pelo deputado do PSD) obteve 10 contratos por ajuste direto das câmaras municipais de Espinho e Vagos, ambas lideradas pelo PSD». Foram fogachos que os bombeiros de serviço apagaram passado pouco tempo.


Em 11 de janeiro do corrente o Porto Canal recorda: «Luís Montenegro fez contratos por ajuste direto com autarquias de Espinho e Vagos» e a RTP afirma que «Escritório de advogados de Montenegro fez dez contratos por ajuste direto com Espinho e Vagos». Já em maio de 2022 já a SIC Notícias titulava que «Banco de Fomento contratou a empresa de Luís Montenegro por ajuste direto».


Em maio de 2022 o Diário de Notícias escrevia que «Da parte da sociedade de Montenegro, Nuno Castro Marques diz que este é um assunto sem sentido e que só surge agora devido ao momento político do PSD».


Ora, na altura, a notícia terá passado despercebida e não foi exaustivamente repetida pelos media, agora, com a Operação Vórtex, que investiga diversos crimes económicos no seio da Câmara Municipal de Espinho, traz à tona este caso em que Luís Montenegro é mencionado. Poderemos interpretar isto como uma justificativa para mostrar que não há uma “perseguição” jornalística ao PS e que também são dadas notícias de outros partidos sem o que a isenção jornalística estaria cumprida? Possivelmente não, serão apenas coincidências. Isto não invalida a perceção negativa que provoca na opinião pública devido à repetidas e insistentes notícias dos casos que envolvem o PS e o Governo.


A forma insidiosa como alguns órgãos de comunicação tratam algumas notícias é por vezes demasiado evidente a mostra da benevolência ou o desinteresse face casos ou facto noticiosos. Para melhor se perceber ao que me refiro incluo abaixo uma imagem da capa do Correio da Manhã onde é evidente a importância dada por este jornal ao facto que foram os graves acontecimentos no Brasil.


A importância/relevância dada à subjetividade de notícias de detrimento dum facto que é minimizado em noticia não é evidente em relação a outros dois cuja subjetividade é evidente. Das três notícias desta capa em 9 de janeiro de 2023 qual foi, para o leitor, o acontecimento mais importante que marcou a imprensa internacional? Claro que depende de cada um, é o resultado da subjetividade, mas parece não terem sido os acontecimentos no Brasil os mais noticiados e com relevância neste órgão de comunicação.


Página Correio da Manhã.png


O posicionamento político e ideológico dos órgãos de comunicação é evidenciado pela “Agenda Setting” (fixação de agenda) e pela hierarquização da relevância dada às notícias. Isto é, “a hipótese segundo a qual a agenda temática dos meios de comunicação impõe os temas de discussão social. Por outras palavras: as pessoas, nas suas comunicações interpessoais, discutem prioritariamente sobre os temas abordados pelos meios de comunicação”. Assim, na imprensa e nos jornais noticiosos televisivos são selecionados para a primeira página ou para a abertura sobretudo notícias que impliquem o interesse para a opinião pública. Para o Correio da manhã parece que a invasão do Congresso no Brasil não terá relevância.


Outra situação também muito recente foi a notícia do Público Montenegro fez dez contratos por ajuste direto com as câmaras de Espinho e Vagos. Entre fevereiro de 2014 e Janeiro de 2022, a sociedade de advogados de que o presidente do PSD era sócio faturou 679 mil euros em contratos com entidades públicas.


Assim, cabe aos media dizer ao público que devem pensar e é através da seleção de determinadas notícias que os editores constroem a realidade política, social, entre outras o que na maior parte é apenas absorvido pelo referido público sem quaisquer críticas a não ser pelos comentadores da política. Ver exemplo na nota final.


Conforme já afirmei antes, ao comparar os casos noticiosos relevantes que afetem os dois principais partidos da política portuguesa que alternam no poder, é manifesta a forma como as notícias, sobretudo nos canais televisivos, são mantidas ou retiradas da sua agenda pública. Estas ações determinam e influenciam o modo como nós o público entendemos e nos relacionamos com a realidade informativa, assim como também a influencia o modo como essa realidade é por nós mais ou menos valorizada.


Face ao exposto devemos estar atentos ao que órgãos de comunicação nos pretendem “vender” e o porquê desse produto dito informativo, e, sobretudo, quando a informação está sobre a égide do jornalismo de investigação.


Na minha perspetiva pelas circunstâncias e pela forma como os media atuam e produzem a informação política para a opinião pública é impossível resistir anos à erosão de poder e à estabilidade durante vários seguidos, seja qual for o líder, ou o Governo.


Nota: Exemplo do funcionamento da Agenda Setting dos media. Imaginemos que num determinado dia dum determinado ano um político de um determinado partido que iria concorrer a para umas eleições foi apanhado alcoolizado numa rua e foi e visto por uma certa pessoa que o fotografou e enviou para reações de órgãos de comunicação social. O caso foi noticiado nas primeiras páginas de alguns jornais e nas aberturas dos jornais televisivos e tornou-se um assunto muito comentado nas redes sociais.


Dias depois, uma sondagem colocou a seguinte questão numa pesquisa “Acha que se fossem hoje a eleições votaria contra ou a favor desse político nas listas e se deveria ser expulso do partido?” No dia seguinte de forma alarmante nos noticiários era noticiado: 91% dos entrevistados disse que não mais votaria naquela político e que 89% queria que fosse expulso do seu partido.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

No fio da navalha António Costa e o Governo

António Costa e o Governo podem encontrar-se no fio da navalha o que é o mesmo que dizer que podem estar perante uma situação dificílima, sem controle, num fio onde o inesperado pode acontecer.


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A minha última publicação data de 13 de dezembro, entretanto muita chuva caiu, o Natal aproximou-se e, como acontece inexoravelmente, mais um Novo Ano desde então no domínio da política muito aconteceu no que ao PS e ao Governo diz respeito. No embalar de alguns casos e casinhos, alguns repetidos até à exaustão pela comunicação social para conseguirem audiências eis, senão quando, à falta de melhor, vem para a ribalta, mais um caso, e, desta vez, com mais substância e um peso pesado a envolver o Governo PS.


O Partido Socialista no seu todo e o seu líder e chefe do Governo António Costa parecem ter esquecido as fragilidades geradas pelo mau exemplo de José Sócrates, (embora não comparável), mas cuja lembrança deveria estar presente para se rodearem de precauções ao faze diligências para convites de elementos para o Governo. Como tal não terá sido acautelado foram confrontados na comunicação social com um caso oportunamente conveniente, sobretudo para a direita, que agarra tudo para denegrir o Governo, o PS e o seu alvo preferido e temido António Costa.


António Costa e os seus conselheiros parecem despreocupados com as escolhas e não acautelaram, não acautelam nem tentam certificar-se dos antecedentes e incompatibilidades dos escolhidos. Os casos surgidos são, como o povo costuma dizer, de “caixão à cova”.


Parecem esquecer que a comunicação social, os media em geral, têm fontes de direita ávidos de criar uma crise política e que se forem alinhados com corrupção tanto melhor, pois permite-lhes fazer associações com o passado.


A direita que alterna no poder, no caso o PSD, já que o CDS parece ter sido varrido dos ecrãs das televisões, vá-se lá saber porquê, não será a que poderá estar mais interessada em lançar uma crise política. Quem poderá estar mais interessado numa crise que venha potencialmente conduzir à dissolução do Parlamento serão os partidos mais à direita do PSD como a Iniciativa Liberal e a extrema-direita CHEGA e, à esquerda do PS o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, todos na expectativa de poderem com isso em caso de eleições antecipadas ganhar alguns votinhos que lhes faça aumentar o número de deputados no Parlamento, mesmo que diminuto.


A última bomba, a que levou à demissão de Pedro Nunes Santos foi um dos tais que bem poderia ter sido evitado. O Governo e os seus elementos parecem andar distraídos porque pensarão, mal, que uma maioria absoluta, serve para tudo. Não olham para os exemplos no exterior, no que aconteceu e está a acontecer no Reino Unido


O PS e o Governo já vão com aproximadamente um ano e meio de governação e as eleições para o Parlamento Europeu estão aí o que será um teste para mostrarem o que valem e poderem aguçar a perspicácia para evitarem que voltem a ocorrer casos que deitem tudo a perder, ainda que saibam que até ao momento a liderança do PSD poderá estar sem grande impacto oposicionista por andar ao sabor da corrente da comunicação social sem apresentar com convicção propostas alternativas.


Das novas escolhas para os ministério desfalcado com a saída de Pedro Nunes Santos António Costa foi rebuscar António Galamba com uma biografia profissional a quem, segundo alguns observadores, falta estatuto para o empreendimento do ministério deixado por Nunes Santos. Será que Galamba terá capacidade para resistir e gerir tal pasta que se prevê será escrutinado até à exaustão?


Por outro lado, é uma pessoa pouco cordata com a comunicação social da qual não goza muito da simpatia, não só pela sua arrogância, irascibilidade e falta de cuidado comunicacional. Galamba peca por que a sua forma de comunicação tenta mimetizar José Sócrates que o fez entrar para a política. Pior ainda é que estão na memória as polémicas em que se arrastou ou se deixou arrastar. Tem um estilo de caceteiro e arrogante no discurso político que frequentemente afasta mais do que seduz. Talvez por isto a comunicação social e alguns comentadores parecem não lhe estar a conceder o benefício da dúvida.


São bem conhecidas as polémicas em que se envolveu, sobretudo com utilizadores do Twitter onde foi evidente a falta de decoro comunicacional que qualquer elemento de um governo não deveria ter. Foi, por exemplo, o caso do antigo programa de jornalismo “Sexta às 9”, da RTP, quando na sequência de uma destas emissões João Galamba escreveu na sua página de Twitter que o programa era “estrume” e uma “coisa asquerosa”. Pessoalmente até posso discordar da tipologia daquele programa e da forma como a jornalista o geria e tratava os conteúdos e até poderia utilizar uma linguagem mais vernácula para criticar o programa, mas isso sou eu que não tenho qualquer pelouro no poder nem a responsabilidade de tal.


Não se trata de depreciar o valor de Galamba, mas antes a sua biografia profissional que parece não se ajustar e constatar pela comunicação social que lhe falta saber técnico e estatuto para a pasta das Infraestruturas que lhe foi entregue, tanto mais com o problema da TAP em mãos. A questão que se coloca é a de saber se Galamba terá o tento e a sensibilidade política suficiente para lidar com aquela pasta. Ser de esquerda e deter um poder não significam arrogância não podem ser sinónimos de arrogância, nem de má-educação nem seguir o modelo de peixeirada de André Ventura. Não é isso que se espera qualquer elemento dum Governo seja ou não socialista.


Com os casinhos, casos, ou outros aumentativos do mesmo tipo trazidos pela comunicação social parece-me que António Costa, estará, propositadamente, a dar tiros nos pés. Se assim for qual o objetivo?


Pedem-nos em esperança, mas a esperança que nos pedem só pode existir se vier dum Governo de maioria absoluta cujo executivo seja ainda mais estável do que aquele que em anos anteriores tiveram António Costa e o Partido Socialista quando governaram com a chamada “geringonça”.


Com uma maioria absoluta no Parlamento, com um Presidente da República que não está a ser uma força de bloqueio e que tem contribuído para a estabilidade política, apesar de alguns dos regateiros da política não apreciem o estilo não apreciarem, não se percebe o conservadorismo de António Costa  que entrou numa política de circulo vicioso, o mesmo que dizer que entrou numa fase ininterrupta de acontecimentos que se repetem e voltam sempre ao ponto de origem, colidindo sempre com os mesmos obstáculos. Maria João Marques escreveu no jornal Público que António Costa “Tem na sua mão como primeiro-ministro fundos abundantes vindos da União Europeia, na forma do PRR” e acrescenta, “E no entanto, incompreensivelmente, António Costa tudo tem feito para sabotar esta sorte grande que lhe calhou”.


António Costa deveria prever que após obter uma maioria absoluta viriam violentos ataques e mineração de casos e casinhos aplaudidos pela direita e contestações vindas da esquerda estrategicamente provocadas para fragilizar o Governo. Para contornar isto não basta afirmar “habituem-se” o que demonstra alguma arrogância e má comunicação em política o que pode ser fatal. O verbo utilizado não está adequando à frase que se lê no site do Partido Socialista “A ação deste Governo será marcada pela lealdade institucional e pela humildade democrática”.


Numa má comunicação política a mensagem que se pretende transmitir não tem qualquer relevância e não atinge a audiência desejada, e, por vezes, até tem um efeito negativo e mesmo que atinja a audiência pretendida a mensagem pode não ser adequada.


Isto é básico e António Costa e o Governo podem encontrar-se no fio da navalha o que é o mesmo que dizer que podem estar perante uma situação dificílima, sem controle, num fio onde o inesperado pode acontecer.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Televisões generalistas nacionais e informação

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Porque já várias vezes me questionei sobre os pontos incluídos nesta carta aberta resolvi divulgá-la aqui, neste blogue ,apesar de, provavelmente, muitos já tomaram dela conhecimento.


Sabemos também que comentários dos críticos a esta carta aberta tentam descredibilizá-la porque os signatários, ou porque não pertencem ao mesmo ”clube” dos críticos, ou porque pretendem, como tantas vezes é habitual, defender com mentira ou desdenho da verdade dos factos que eles próprios verificam mas negam.


A carta aberta foi publicada como artigo de opinião no jornal Público em 23 de fevereiro de 2020.


 OPINIÃO


Carta aberta às televisões generalistas nacionais


Como cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.


23 de Fevereiro de 2021, 0:30


Sabemos que há uma pandemia – e que o SARS-CoV-2, em vez de se deixar ficar a dizimar pessoas no chamado Terceiro Mundo, resolveu ser mais igualitário e fazer pesadas baixas em países menos habituados a essas crises sanitárias.


Sabemos que não há poções mágicas – as vacinas não se fazem à velocidade desejada e as farmacêuticas são poderosas entidades mercantis.


Sabemos que, mesmo cumprindo os cuidados tantas vezes repetidos – distância física, máscara a tapar boca e nariz, lavagem insistente das mãos, confinamento máximo –, qualquer um de nós, ou um dos nossos familiares e amigos, pode ser vítima da doença e que isso causa medo a todos, incluindo a jornalistas, fazedores de opinião e responsáveis de órgãos de informação.


Sabemos também que os média estão em crise, que sofrem a ameaça das redes sociais, a competição por audiências, as redações desfalcadas, os ritmos de trabalho acelerados impostos aos que nelas restam, a precariedade laboral de muitos jornalistas.


Mas mesmo sabendo tudo isto, assinalamos a excessiva duração dos telejornais, contraproducente em termos informativos. Não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e a respostas dos entrevistados. Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção da notícia, em detrimento de uma saudável preocupação pedagógica de informar. E não podemos admitir o estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes, cientistas e até o infatigável pessoal de saúde por, alegadamente, não terem sabido prever o imprevisível – doenças desconhecidas, mutações virais – nem antever medidas definitivas, soluções que nos permitissem, a nós, felizes desconhecedores das agruras do método científico, sair à rua sem máscara e sem medo, perspetivar o futuro.


Sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo


Mesmo sabendo a importância da informação sobre a pandemia, não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS, as pseudonotícias (que só contribuem para lançar o pânico) sobre o “caos” nos hospitais, a “catástrofe”, a “rutura” sempre anunciada, com a hipotética “escolha entre quem vive e quem morre”, a sistemática invasão dos espaços hospitalares, incluindo enfermarias, a falta de respeito pela privacidade dos doentes, a ladainha dos números de infetados e mortos que acaba por os banalizar, o tempo de antena dado a falsos especialistas, as entrevistas feitas a pessoas que nada sabem do assunto, as imagens, repetidas até à náusea, de agulhas a serem espetadas em braços, ventiladores, filas de ambulâncias, médicos, enfermeiros e auxiliares em corredores e salas de hospitais. Para não falar das mesmas imagens repetidas constantemente ao longo dos telejornais do mesmo dia ou até de vários dias, ou da omnipresença de representantes das mesmas corporações profissionais, mais interessados em promoção pessoal do que em pedagogia da pandemia.


Enfim, sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo.


Consideramos inaceitável a agenda política dos diversos canais televisivos generalistas, sobretudo no Serviço Público de Televisão.


Como cidadãs e cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.


Subscritores


Abílio Hernandez, Professor universitário; Alberto Melo, Dirigente associativo; Alfredo Caldeira, Jurista; Alice Vieira, Escritora; Ana Benavente, Professora universitária; Ana Maria Pereirinha, Tradutora; António Rodrigues, Médico; António Teodoro, Professor universitário; Avelino Rodrigues, Jornalista; Bárbara Bulhosa, Editora; Diana Andringa, Jornalista; Eduardo Paz Ferreira, Professor universitário; Elísio Estanque, Professor universitário; Fernando Mora Ramos, Encenador; Graça Aníbal, Professora; Graça Castanheira, Realizadora; Helder Mateus da Costa, Encenador; Helena Cabeçadas, Antropóloga; Helena Pato, Professora; Isabel do Carmo, Médica; J.-M. Nobre-Correia, Professor universitário; Jorge Silva Melo, Encenador; José Rebelo, Professor universitário; José Reis, Professor universitário; José Vítor Malheiros, Consultor de Comunicação de Ciência; Luís Farinha, Investigador; Luís Januário, Médico; Manuel Carvalho da Silva, Sociólogo; Manuela Vieira da Silva, Médica; Maria do Rosário Gama, Professora; Maria Emília Brederode Santos, Pedagoga; Maria Manuel Viana, Escritora; Maria Teresa Horta, Escritora; Mário de Carvalho, Escritor; Paula Coutinho, Médica intensivista; Pedro Campiche, Artista multidisciplinar; Rita Rato, Directora do Museu do Aljube; Rui Bebiano, Professor universitário; Rui Pato, Médico; São José Lapa, Actriz; Tiago Rodrigues, Encenador; Vasco Lourenço, Capitão de Abril


Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

quarta-feira, 25 de março de 2020

Pandemia coronavírus e o efeito terceira-pessoa

O que nos leva a pensar o que acontece de mau não nos acontece a nós, mas aos outros? Não é porque pensamos que somos invencíveis, é porque gostamos de pensar que somos imunes às influências das mensagens da comunicação social de massa e de fatores adversos. É isto que a teoria do “efeito de terceira pessoa” estuda.


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Apresentação.


Estamos em fase de pandemia derivada ao COVID-19 e as medidas a tomar têm duas vertentes a primeira obviamente ligada à saúde e a outra são políticas adotadas para lidar com o problema. Esta última é a que tem mais impacto na solução para mitigação das dificuldades mais graves que hoje vão começar, não podem estar sujeitas a pressões seja de que lóbis forem por estar em causa as pessoas e o travão à propagação da epidemia. Se a coisa agrava por falta de coragem política quem deverá ser responsabilizado? Em caso de falha, e numa circunstância como esta, assumir a culpa e fazer pedidos formais de desculpa à posteriori não serve de nada nem a ninguém. Para situações drásticas impõem-se medidas drásticas.


Vemos exemplos por esse mundo fora a serem tomadas medidas que por cá se recusam ou recusava-se que fossem tomadas apontando as mais diversas justificações e cautelas, algumas até com risco de agravamento da situação.


Artigos de opinião rebelam-se contra medidas mais severas que possam vir a ser tomadas, parecendo preferir que a doença alastre sem controle em nome de ideologias que defendem, como que a dizer que isso só acontece aos outros, a nós não!


Vem isto em relação à decisão que tardou de fechar as escolas



o que plenamente se justificava devido à proximidade entre os vários intervenientes em espaços restritos e fechados como, por exemplo, uma sala de aula e corredores das escolas onde a interação pessoal acontece a curtas distâncias. Outros destilavam e destilam veneno, dito em defesa da democracia, contra uma possível declaração do Estado de Emergência por necessidade imperativa o que, afinal, acabou por ser declarado, talvez tardiamente.


Não sei se por incompetência, ignorância ou ambas, são exemplo as justificações dadas por fonte do Conselho Nacional de Saúde Pública ao jornal Público que afirmou, na altura em que iniciei a escrita deste texto: “Que sentido fazia encerrar as escolas quando as pessoas vão para outros ambientes como as praias ou centros de convívio em vez de ficarem em casa? As imagens que passaram foram claras, mostrando pessoas em idade escolar na praia. Ora, não se pode confundir uma questão de saúde pública com férias.” Justificações como esta serviram apenas para adiar tomadas de decisão que impõem uma reflexão racionalizada e uma execução excecional pela gravidade da situação de facto. O efeito da terceira-pessoa parece ter atacado a população e os órgãos de decisão. É nesta circunstância que resolvi desenvolver um artigo sobre o denominado efeito da terceira-pessoa.


O texto que apresento tem como objetivo tentar explicar o fenómeno e é em alguns pontos redundante, dizendo o mesmo por outras palavras para que a sua compreensão seja mais conseguida por quem tenha menos contacto com este tipo de conhecimentos.


Introdução.


Em 2007 publiquei na Revista Cadernos de Investigação Aplicada, Edições Universidade Lusófona um artigo sobre os efeitos da terceira-pessoa resultantes da exposição a mensagens televisivas tem em conta objetivos educacionais. Mas não é apenas no campo educativo que o efeito de terceira-pessoa se pode verificar, o mesmo se passa noutros domínios.


Com a entrada na nossa sociedade do coronavírus, já considerado ao nível de pandemia pela WHO – World Health Organization (Organização Mundial de Saúde), julguei que poderia ser útil rever o conceito e a tese do efeito da terceira-pessoas e aplicá-los ao atual contexto desta epidemia dado as atitudes de irresponsabilidade com que muitos ainda encaram a situação, nomeadamente os mais jovens, e não apenas estes, os mais velhos por vezes são ainda piores, talvez devido à ignorância, como escreveu Bárbara Wong, jornalista do Jornal Público num artigo que intitulou “Coronavírus: Meninos, isto não são umas férias” em relação aos alunos que ficaram por necessidade forçosa sem aulas


Revendo conceitos.


Se analisarmos com atenção o que se tem escrito e dito em artigos de revistas científicas internacionais sobre na comunicação noticiosa televisiva e a imprensa o que ganha notoriedade é a perspetiva dos efeitos dominadores, por vezes até nocivos, que lhe são atribuídos.


Com a divulgação massiva de informação desde o surto do COVID-19 podemos analisar os efeitos benéficos do poder da televisão como comunicação de massa e serviço público ao dirigir-se aos vários públicos-alvo com uma função pedagógica. Esta função colide por vezes com a capacidade crítica do recetor, com o tipo de relação que este tem com o que lhe apresentam nos noticiários que se relaciona também com o meio socioeconómico que envolve o recetor.


Ao retomar-se a conceção das consequências da televisão a hipótese do efeito de terceira-pessoa é um marco com os efeitos do emissor sobre os recetores.  Para melhor compreensão do que adiante se irá desenvolver irei explicitar alguns conceitos importantes.


Comportamento social face aos meios comunicação.


O comportamento humano está ligado à nossa vida social que assenta na apreciação racional de como o outro reagirá às suas próprias ações num raciocínio do tipo “Se eu fizer isto… ele ou ela irá pensar nisto…, terei então de fazer isto…”


A forma como as pessoas se comportam perante os estímulos em relação ao meio envolvente também pode ser realizada de acordo com as diversas convenções sociais existentes. A sociedade espera que as pessoas devem agir de acordo com os padrões previstos ou estabelecidos em determinadas situações. Ao pensarmos assim, vemos que o comportamento humano encerra então uma forte componente racional. Existem certas exceções óbvias em que parecemos agir com escasso pensamento racional, especialmente quando nos encontramos envolvidos em grandes grupos. O pânico é um exemplo, se alguém gritar fogo num auditório completamente cheio o pânico gerado pode vir a ser pior do que o próprio incêndio.


Atitude


O conceito de atitude a que nos referimos nada tem a ver com a palavra exageradamente utilizada nos concursos televisivos em que concorrentes atuam perante um júri e este elogia o concorrente quando termina a atuação dizendo que teve muita atitude.


Atitude no nosso contexto é uma disposição relativamente estável, avaliativa, que faz uma pessoa pensar, sentir e comportar-se positiva ou negativamente ou indiferentemente em relação a determinada pessoa, grupo ou problema social. Pode ser então definida como sendo “um mediador entre a forma de agir e a forma de pensar dos indivíduos”.


Atitude é também uma reação avaliativa, favorável ou desfavorável, face a determinados objetos significativos, pessoas, grupos, acontecimentos ou símbolos, representada através das nossas crenças, sentimentos ou comportamentos. No nosso caso concreto atitudes não são crenças relativas à informação que temos disponível sobre o objeto de estudo manifestadas através de opiniões, são factos sustentados pela experiência dos sujeitos e pela sua interação com os outros.


Perceção do efeito de terceira-pessoa.


O modelo teórico do efeito da terceira-pessoa, tem como alicerce a perceção têm as pessoas têm de que certos acontecimentos negativos em programas televisivos, especialmente publicidade e notícias, exercem um maior efeito nos outros do que neles próprios.


O efeito de terceira-pessoa pressupõe a hipótese de que as pessoas tendem a atribuir mais importância à influência do que é prejudicial e dos meios de comunicação social, no seu sentido mais amplo, nas atitudes e comportamentos dos outros. Isto é, por princípio, assumem que a negatividade de algo e a comunicação exercem nos outros um forte impacto, mais do que neles próprios. Noutros termos e segundo um dos investigadores nesta áreacomo Perlof afirma que:


“O efeito de terceira-pessoa é a perceção individual de que a mensagem irá exercer um forte impacto nos outros e não em si próprio. O termo terceira pessoa deriva da expectativa de que a mensagem não terá grandes influências sobre o “eu” mas no “outro” ou “outros” que são a terceira ou terceiras pessoas.”


A hipótese do efeito na terceira-pessoa foi, e ainda é, uma nova abordagem para o estudo da opinião pública e tem como base que os indivíduos normalmente assumem que os órgãos de comunicações social exercem um impacto mais forte nos outros do que no próprio, ou no eu enquanto recetor das mensagens. Assim, os media podem, de certa forma, conduzir à implementação de ações para minimizar potenciais danos aos sujeitos recetores das mensagens e que tem tais atitudes.


Os indivíduos assumem que as comunicações exercem uma influência mais forte sobre os outros do que sobre eles próprios, no entanto, o efeito de terceira-pessoa não surge em todas as circunstâncias e em todas as pessoas, parece ser particularmente provável quando a mensagem contém recomendações que não são consideradas pessoalmente boas, e os indivíduos percebem que o problema é, para si próprio, pessoalmente importante e quando a fonte possui um pendor negativo.


É o que acontece, por exemplo, quando alguém comenta com outro um determinado acidente e que, no meio da conversa, diz que, o aconteceu não aconteceria com ele, o outro, ou os outros é que são inábeis ou descuidados. Atualmente é o que acontece com muitas pessoas em relação à epidemia do COVID-19 que poderão pensar só está a acontecer aos outros e que não há razões para recear e, como tal, desvaloriza a perigosidade apesar das informações e comunicados de prevenção através dos vários media.


A tendência mais ou menos egoísta está em acreditar que outras pessoas são mais vulneráveis ​​do que o próprio, ou o “eu”. O leitor pode ser, por exemplo, particularmente resistente em relação aos órgãos de comunicação social e às mensagens de alerta de perigosidade mais importantes sobre o novo coronavírus prejudiciais à sociedade.


Se o efeito de terceira-pessoa é devido à motivação para preservar a autoestima, por outro lado, as pessoas parecem estar dispostas a reconhecer que elas próprias são influenciadas por mensagens pró-sociais (situações positivas) como anúncios de serviço público, campanhas de orientação e regras básicas de saúde em caso de surtos epidémicos o que é então chamado efeito de terceira-pessoa revertido ou efeito de primeira-pessoa.


Como já sustentei anteriormente o efeito da terceira-pessoa é assim uma “perceção individual de uma determinada mensagem que irá exercer um forte impacto nos outros e não em “si” mesmo, o que significa que tal mensagem não terá grande influência em mim (o “eu”) ou no outro (“tu”) que é uma segunda pessoa, mas nos outros (“ele” ou “eles”), que são as terceiras pessoas. Assim, o sujeito (o “eu”) subestima os efeitos negativos e dos media, no caso os jornais televisivos, por exemplo, mas sobrestima o impacto que podem exercer sobre os outros. Existe um efeito de distância espacial e cultural ao presumir que os efeitos incidem mais sobre os sujeitos distantes do observador.


O efeito da terceira-pessoa ou da primeira-pessoa geram determinados efeitos nas atitudes e comportamentos. Para melhor se perceber o sentido do que se está a falar há que desenvolver estes conceitos.


O efeito terceira-pessoa


A questão que se coloca no desenvolvimento deste texto exploratório é a de reconhecer a atitude das pessoas em alguns contextos, e enquanto telespectadores, face aos efeitos da persuasão e influência que as mensagens televisivas em relação ao COVID-19 provocam nos outros comparativamente a si próprio. Nos “outros” incluem-se não apenas adultos, mas também crianças e jovens que diariamente consomem horas de televisão.


Os media televisivos têm a particularidade de fazer corresponder a cada palavra um rosto ou um objeto, a cada conceito e ideia uma imagem, levando o telespectador a ter acesso a emoções, experiências e comportamentos com uma aproximação semelhante ao impacto que tem uma experiência direta tornando a televisão num espaço de vivência de experiências por observação (vicariante) que pode gerar no espectador o efeito da terceira-pessoa. Note-se que, em muitas das imagens a que assistimos durante os noticiários televisivos não corresponde à notícias do dia, à falta delas utilizam imagens repescadas de dias anteriores, semanas ou meses.


Como reflexo da participação decisiva da televisão na vida das pessoas continua a questionar-se o seu papel na sociedade contemporânea, como elemento de educação, cultura e inserção social e o seu impacto na formação de mentalidades, comportamentos e atitudes. Numa sociedade que convive com inimigo oculto coronavírus, ainda não totalmente conhecido, há quem considere que as suas cadeias de transmissão não os atingem.


Tem-se a noção de que há uma tendência em que o próprio individuo acredita que as outras pessoas são mais vulneráveis ​​do que ele. Confrontando-se com o seu próprio “eu” pensa poder ser, relativamente mais resistente em relação a todas as outras pessoas mesmo no caso particular de uma epidemia que ameasse a saúde pública.


O efeito de terceira-pessoa funciona para pessoas diferentes de maneira diferente tendo a ver com três fatores a considerar no contexto que são a distância social, grupos de referência, posse de conhecimento e exposição aos media.


Pesquisas sobre o efeito de terceira-pessoa concentraram-se, sobretudo, no impacto dos media sobre as pessoas quando as mensagens são potencialmente negativas como nos casos relacionados com epidemias.


 Impacto das mensagens no efeito de terceira-pessoa.


Que impacto têm de facto sobre nós as mensagens que tenham a ver com saúde pública? O que nos leva a pensar que o que acontece de mau não se vai passar connosco, mas apenas com os outros?


Não é porque pensamos que somos invencíveis, é porque gostamos de pensar que somos imunes às influências das mensagens da comunicação social.


A pergunta que então se coloca é a de saber se cada pessoa considerada individualmente  ("identificado como ‘eu’ ") ou outras pessoas que não ‘eu’ estarão a ser vistas como sendo mais afetadas por mensagens informativas e persuasivas sobre a evolução do CODVID-19 ou se essa informação para o mim “o ‘eu’” não é fator relevante porque não serei atingido?


Cada sujeito raciocina assim: "Não serei influenciado pelo que dizem nem pelo que está a acontecer, mas ele ou eles (a terceira-pessoa), podem muito bem ser persuadidos". 


Claro que a resposta a estas questões só é possível ser dada pelo método de questionários posteriormente trabalhados por modelos matemáticos adequados.


O efeito de terceira-pessoa pode ajudar a explicar vários aspetos do comportamento social e atitudes face ao medo da propagação da epidemia COVID-19.  Na psicologia social o efeito da terceira-pessoa está relacionado com a Teoria da Comparação Social que pressupõe que as atitudes, capacidades e opiniões de um indivíduo são avaliadas através da comparação de nós próprios com os outros.


Existe um compromisso entre o reconhecimento das normas de um grupo e cada posição ideal e individual de cada um que é a denominada “ignorância pluralística” que ocorre quando a maioria dos indivíduos de um grupo supõe que a forma de pensar da maioria dos outros elementos do grupo é de alguma forma diferente, mas a verdade é que são mais similares do que se pensa. Em síntese: é o processo que envolve vários membros de um grupo que pensam possuir perceções, crenças, ou atitudes diferentes do restante do grupo. Apesar de não apoiarem a norma do grupo, os dissidentes comportam-se como os outros membros, por pensarem que o comportamento dos outros elementos demonstra que a opinião do grupo é unanime.


Para melhor compreensão deste conceito há um exemplo muito corrente que acontecia quando eu dava aulas na universidade e que, com certeza, já aconteceu várias vezes com muitos outros professores que dão aulas em qualquer nível de ensino.


Imagine que um aluno está na turma a assistir a uma aula que o professore está a dar em que a matéria é muito complicada. Após vários minutos de exposição da matéria o professor faz uma pausa e pergunta se há alguma dúvida. Ninguém põe o braço no ar. Se o professor olhar à sua volta pensa se todos os alunos poderão realmente ter entendido o que acabou de explicar. O referido aluno tem a noção de que não entendeu nada. O receio de ele parecer ser o único que não percebeu nada evita que levante a mão, mas, ao olhar para os outros colegas da turma que se mostram impassíveis, interpreta o comportamento semelhante dos colegas de maneira diferente: considera que eles não levantaram a mão como sinal de que eles entenderam tudo o que foi dito e que eles na verdade não têm dúvidas nem dúvidas a colocar. Situações como esta ocorrem geralmente quando as normas são mais antigas do que todos os membros do grupo ou quando um elemento ou um pequeno grupo é dominante e pode forçar as suas atitudes sobre o resto do grupo.


Coronavírus, atitudes e comportamentos perante notícias na comunicação social.


Em condições habituais as notícias na comunicação social sobre saúde pública nem sempre fazem parte dos cabeçalhos das primeiras páginas dos jornais nem das aberturas dos jornais televisivos, a não ser que seja para denunciar, por vezes com exagero, problemas nos serviços de saúde, mais com finalidades políticas do que por qualquer outra.


Para atrair a atenção das pessoas é preciso que algo de muito importante ou grave aconteça como está a acontecer com a pandemia COVID-19. Só nestas circunstâncias é que as notícias e a informação de prevenção sobre a saúde pública dominam as páginas da imprensa e as horas nobres das televisões.


Investigações têm mostrado um padrão geral entre mensagem desejável e o efeito de terceira-pessoa. Mensagens indesejáveis tendem a levar a terceiros uma perceção enviesada enquanto mensagens desejáveis tendem a gerar um efeito contrário ao de terceira-pessoa.


As pessoas não expressam a intenção de seguir as recomendações procedentes das instituições que controlam a saúde pública mesmo depois de assistirem às notícias e às mensagens preventivas. Tendem a pensar que a cobertura noticiosa sobre as epidemias influencia muito mais o público em geral do que a elas próprias.


Outra das questões que se pode colocar é a de saber se durante as epidemias com a gravidade do COVID-19 a observância das mensagens provenientes da comunicação social e das instituições de saúde que dão a conhecer a gravidade  da epidemia e o testemunho de médicos, poderiam ajudar a superar o efeito e motivar as pessoas a agir.


Independentemente da pandemia ter sido descrita como "muito grave" por várias organizações internacionais como a OMS – Organização Mundial de Saúde e pelas instituições de saúde nacionais, a divulgação permanente das notícias, informações e conselhos parecem não convencer o público a seguir com rigor as medidas preventivas.


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Quando a linguagem dos programas sugere que a epidemia é particularmente "grave" e quando entrevistados na rua pelos canais de televisão percebem que a situação é grave isso não os torna mais propensos a cumprir as regras, mas acham bem que outras pessoas o façam. Isto sugere que 'o eu' percebe, mas que 'os outros' usam critérios diferentes, menos inteligentes, tais como confiar na experiência e na credibilidade da fonte.  


Quando as consequências são terríveis os sujeitos em vez de autoavaliarem, as mensagens preventivas que lhes são dirigidas provenientes de instituições e pessoas especializadas como um médico, produz no sujeito, ‘no eu’ de cada um, uma elevada apreciação da pouca eficácia da mensagem sobre a saúde que apenas serve para os ‘outros’.


A natureza da cobertura obre a saúde pública pela DGS – Direção Geral de Saúde é informativa, educacional que, em princípio, trazem benefícios para os recetores. Mas, quando as notícias correspondem a uma ameaça grave podem incomodar as populações. Contudo, a cobertura real das epidemias ou pandemias nos casos mais graves pela sua perigosidade e extensão contribui para a ansiedade das pessoas, tornando-as mais ávidas de informação. Quando uma mensagem não é percebida como benéfica e envolve grandes riscos, o efeito de terceira-pessoa torna-se mais evidente.


Se há três semana atrás fizéssemos em Portugal uma pesquisa sobre o receio do surto epidémico do coronavírus como se verificou em entrevistas feitas pelas televisões a elementos da população, ficaria claro que haveria quem tecia afirmações sobre o exagero de alarme em demasia e que o surto não passava de uma gripe como qualquer outra, mesmo  depois da OMS ter reconhecido a gravidade mundial da situação. Poucos acreditavam então que a potencial gravidade da situação chegasse a Portugal, como chegou. Aliás, Trump, nos EUA fez passar a mensagem de que se tratava de algo sem importância o que posteriormente teve de contradizer ao decidir tomar medidas mais rigorosas.


O surto que inicialmente se julgou ser apenas uma pequena epidemia de gripe e que foi amplamente abordada pelos noticiários dos canais televisivos e pela imprensa, transformou-se numa pandemia.  Portanto, as notícias sobre o coronavírus são um caso marcante para a perceção das notícias de risco para a saúde e o efeito que tem em cada um (o eu) e sobre os outros e para explorar as consequências dos efeitos presumidos de tais notícias no efeito de terceira-pessoa para uma ação preventiva eficaz.


Um outro fator chave é a perceção por cada um do conteúdo divulgado pela comunicação social.  Se alguém pensa que pode estar a ser influenciado pelos meios de comunicação à cerca de um evento indesejável, é provável que essa pessoa se aperceba de como não quer ser influenciado por essas mensagens, mas pense também que outras pessoas talvez não consigam fazer essa distinção, por serem mais ingénuas e, portanto, mais influenciadas por tais mensagens. Pode resistir-se a ser influenciado pela publicidade, principalmente se a percebermos como pura manipulação ou propaganda, mas não poemos fazer tal julgamento sobre o conteúdo das notícias de acontecimentos graves como epidemias graves que são factos.


Nem todas as pessoas afirmam que “os outros” são mais influenciados pela comunicação social do que eles próprios. O inverso do efeito da terceira-pessoa verifica-se quando os próprios acham que são mais influenciados pelas notícias do que “as outras pessoas”.


Assim, poderíamos colocar as seguintes hipóteses sobre alguns comportamentos perturbadores no combate à epidemia:


H1. Há sujeitos que consideram pouco provável serem contagiados do que os outros.


H2.Há sujeitos que se apercebem de que possam ser menos infetados pelo coronavírus do que as outras pessoas.


Estas duas hipóteses embora semelhantes são ambas de otimismo enviesado.  


Em termos de comportamentos correspondentes, as preocupações das pessoas com a sua própria segurança e não com a das outras preveem a intenção de tomar medidas de proteção. Quanto maior a perceção da terceira-pessoa, menor a probabilidade de as pessoas tomarem para si ações protetoras. Esta perceção relaciona-se com uma espécie de julgamento social sobre os efeitos das mensagens da comunicação social. É um mecanismo psicológico para sustentar a imagem positiva que a pessoas tem de si próprias na avaliação dos riscos de ocorrência de situações negativas em casos como a atual epidemia pelo COVID-19.


Finalmente, no domínio comportamental o efeito terceira-pessoa, segundo suposição teórica de investigações já efetuadas baseia-se no medo das mensagens indesejáveis ​​veiculadas pelos media. Isto é, o efeito de terceira- pessoa aumenta com mensagens socialmente indesejáveis ​​e diminui com mensagens socialmente desejáveis. Pensa-se que esse fenómeno seja um exemplo de proteção à autoimagem que cada um tem de si próprio (o eu). As teorias sobre a proteção da autoimagem afirmam, entre outras coisas, que os indivíduos filtram os efeitos da comunicação de acordo com o que cada um pensa.


As pessoas que acham que não são "influenciadas pelos órgãos de comunicação" têm uma maior probabilidade de desconsiderar as medidas de precaução e de prevenção divulgadas pelas mensagens veiculadas por informações e notícias que afinal têm como ajudar a impedir a propagação da doença. Em tempo, nas redes sociais, houve campanhas irresponsáveis contra a vacinação. Parece que o mesmo poderá a estar a acontecer com a depreciação da epidemia causada pelo novo coronavírus e inversamente com informações falsas.


Finalmente, os efeitos percebidos pelos sujeitos podem levar a comportamentos retificativos devido a um reconhecimento da situação problemática e atuam de forma a restringir, para si próprios, mensagens com influência negativa, corrigir mensagens com influência ambígua e ampliar mensagens com influência positiva, com o objetivo de provocar o sentido inverso o que os coloca em risco quem assimila mensagens falsas e enganadoras face a situações que representem perigosidade.


Nota: Para conhecer mais sobre este tema coloque o seu interesse nos com



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