Mostrar mensagens com a etiqueta censura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta censura. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 20 de março de 2025

Trump e o controle sobre a liberdade de imprensa

Trump-liberdade de imprensa.png


Em todo o mundo extremas-direita, direitas radicais, autocracias ou outros modelos ditatoriais rejubilam com Trump no poder nos EUA. Há uma reciprocidade neste jubilo estes vêm-no como exemplo a seguir e Trump pretende pertencer a esse grupo.  Quanto aos plutocratas não precisam estar necessariamente dentro do governo para exercer o poder. Praticam-no por meio de grupos de pressão, garantindo leis favoráveis aos seus negócios e prejudiciais a outras pessoas tais como concentração de poder, leis que não protegem o trabalhador, violência ou leis coercivas para garantir o uso do território para determinadas empresas.


O que Trump tem vindo a fazer com as suas ordens executivas é colocar em causa a democracia dos EUA que era vista como um exemplo da democracia para o mundo e contra países com regimes ditatoriais, autocratas, sem esquecermos que, no passado, tiveram um contributo para o derrube de governos que não tivessem assentimento pelo regime americano.


As medidas executivas de Trump, para além de colocarem em causa o regime democrático americano, aproximam-se de pontos de vista ideológico e de atuação das ditaduras, autocracias, plutocracias e, algumas delas, próximo nazismo.


Um artigo publicado hoje no jornal Público relata que tem havido ameaças a juízes. Escreve que: “Confrontado com um número crescente de reveses e entraves à sua Administração nos tribunais, o Presidente norte-americano, Donald Trump, subiu esta semana o tom das suas críticas ao poder judicial, apelando ao Congresso para depor o juiz que decretou a suspensão da deportação de cidadãos estrangeiros à luz de uma lei do século XVIII, o Alien Enemies Act”. Não sei os que pensam disto os senhores apoiantes de Trump e também o partido CHEGA.


Se visitarmos a imprensa online dos EUA, alguns até próximos do Partido Republicano, verificamos que têm vindo a crescer críticas à atuação da presidência Trump conhecida como versão 2.0.


Donald Trump tem uma visão enraizada de que a comunicação social nos EUA é “verdadeiramente inimiga do povo” e que, por isso, deve ser substituída por fontes de informação alinhadas com as suas opiniões pessoais e sob o seu controle dos seus aliados. Disse-o em novembro de 2022, já depois de terminado o seu primeiro mandato.


A censura aos media tem sido um dos seus objetivos. No início de janeiro, por exemplo, a cartunista vencedora do Prémio Pulitzer Ann Telnaes renunciou ao seu cargo de longa data no Washington Post depois que o seu cartum de Bezos, (Jeff Bezos é o empresário fundador da Amazon e dono do The Washington Post), e de outros multimilionários da tecnologia subservientes a Trump foi retirado pelo jornal antes da publicação (ver imagem abaixo).


Trump-liberdade de imprensa2.png


Um colaborador freelance do jornal LA Times disse que um seu artigo foi alterado minutos antes da publicação para deturpar as suas opiniões sobre o perigo de Robert F. Kennedy Jr. para liderar o Departamento de Saúde.


É possível que nenhuma dessas decisões reflita a censura do governo, contudo, a censura direta não é a única maneira de minar a imprensa livre. Criar um ambiente no qual os órgãos de comunicação social comecem a fazer autocensura a opiniões sobre os que detêm o poder é uma maneira menos complicada de alcançar o mesmo resultado.


Têm sido significativas as críticas nos meios de comunicação social norte-americanos às ações da atual Presidência dos EUA sobre a liberdade de expressão e o excesso da atuação governamental. Uma preocupação recorrente é a suposta pressão do governo sobre as plataformas das redes sociais para suprimir conteúdo rotulado considerado como desinformação. Os críticos argumentam que esta abordagem infringe os direitos constitucionais visto que esbate a linha que separa o combate aos conteúdos nocivos e a restrição da liberdade de expressão.


Alguns meios de comunicação têm destacado os esforços do governo para regular o discurso online. Sugerem que essas medidas poderão estabelecer um precedente perigoso para o envolvimento do governo nas plataformas privadas. Isto tem gerado debates sobre a questão da garantia da segurança pública como justificação e a preservação das liberdades individuais.


Tudo isto reflete preocupações sobre o papel do governo na formação do discurso público e as potenciais implicações para os princípios democráticos. Além disso, críticos apontam para a intromissão em decisões privadas e apontam para haver um debate sobre o equilíbrio entre a justificação para o combate à desinformação como pretexto e a proteção da liberdade de expressão.


Críticas dos meios de comunicação norte-americanos às ações da atual presidência em matéria de palavras proibidas e remoção de documentos têm sido várias. Relatórios sugerem que agências federais estão a ser orientadas para eliminar dos documentos e sites oficiais certos termos considerados “woke”[i], como “diversidade”, “equidade” e até “mulheres”. O argumento parte do pressuposto de que este tipo de decisões mina a inclusão e a transparência, com alguns rotulando-o como uma tentativa de remodelar o discurso público para se alinhar com visões ideológicas específicas de Trump, e sugerem que são próximas das ditaduras. Estas medidas têm sido descritas como contraditórias entre o compromisso declarado sobre a liberdade de expressão e o equilíbrio que deve existir entre a aplicação de políticas e os princípios democráticos, o que tem originado discussão sobre o tema em vários artigos.


Os EUA que se afirmavam como os grandes defensores da liberdade, criticados pelos extremistas de esquerda, e se apresentavam como sendo o braço das democracias liberais do ocidente estão a caminhar e a aproximarem-se de ditaduras que parece estar a proliferar pelo mundo.


 


[i] «Sinónimo de políticas liberais ou de esquerda, que defendem temas como igualdade racial e social, feminismo, o movimento LGBTQIA+, o uso de pronomes de género neutro, o multiculturalismo, a vacinação, o ativismo ecológico e o direito ao aborto.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

O perigo não vem só da Rússia vem também de Trump

Trump e Putin-1.png


António Costa alertava no Financial Times que a “a Rússia deve ser encarada como ameaça global”, para acrescentar que a Europa deve negociar uma nova arquitetura de segurança que encare Moscovo como “uma ameaça não apenas para a Ucrânia”, escreve o Público no dia 18 do corrente. Talvez omitisse os EUA de Trump por motivos diplomáticos. Mas, o perigo não vem só da Russia como diz Costa.


O presidente dos EUA gostou da declaração de Vladimir Putin quando disse que, após o seu regresso à Casa Branca, a Europa “ficará aos pés de seu mestre”. A publicação da CNBC, que incluía a citação correspondente, foi republicada por Trump na sua página da rede social, como se enfatizasse que tudo será exatamente como o presidente russo disse.


Notícias, artigos e comentários sobre negociações de paz para a terminar com guerra na Ucrânia na linha definida por Donald Trump são vários e contraditórios. Afirmações, declarações e contradições de Trump aparecem diariamente nos media de vários países que já lhe perdemos a conta.


Afinal o que devemos entender por negociações para a paz segundo a ciência política? É um tipo específico de negociação tendo em vista acabar com conflitos, guerras e estabelecer a paz a longo prazo, abordar as causas subjacentes do conflito e criar acordos que previnam violência futura. Normalmente envolve países, governos ou até fações envolvidas em conflitos armados que visam a paz, a estabilidade e a reconstrução. Assim, têm como objetivo cessar as hostilidades. Em síntese, as negociações de paz visam especificamente a resolução de conflitos e o estabelecimento de uma paz duradoura.


No conflito da Ucrânia as partes diretamente envolvida foram este país e, até ao momento, a Rússia que invadiu aquele país soberano, embora Putin o negue e agora também Trump usando argumentos falaciosos. A União Europeia, o Reino Unido e os Estados Unidos da América auxiliaram a Ucrânia, desde o início da invasão, com apoio em armamento e recursos financeiros. Com a invasão da Ucrânia o que o autocrata/ditador da Rússia pretendia era instalar na Ucrânia um governo fiel a Moscovo.


Trump, na sua rede social Truth Social de desinformação que, para ele, passou a ser palavra proibida, chamou a Zelensky um “comediante modestamente bem-sucedido”. Trump como os da sua equipa têm memória curta. Ele deve recordar-se que começou a tornar-se conhecido como proprietário dos concursos de beleza Miss Universo, Miss EUA e Miss Teen EUA e alcançou maior projeção como criador e apresentador do reality show “O Aprendiz”, do qual fez parte entre 2004 e 2015. O programa mostrava executivos competindo por uma posição numa das empresas do apresentador e produtor do programa que era Donald Trump. Assim ele foi também uma espécie de comediante num show televisivo que lhe rendeu muito dinheiro.


Mais grave ainda são as mentiras que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse na sua rede social ao afirmar que o presidente ucraniano é “um ditador sem eleições”, o mesmo que já tinha sido afirmado por Putin e voltou a acusar aparentemente a Ucrânia de ser responsável pela guerra com a Rússia numa onda de alegações sem fundamento e desconhecedor do tema, talvez para agradar ao seu amigo Putin. Putin também já tinha acusado a Ucrânia de ter dado início à guerra. O facto é que a Rússia lançou uma invasão em grande escala na Ucrânia em fevereiro de 2022, e já tinha anexado a Crimeia em 2014. “Foram eles que começaram a guerra em 2014”, disse o presidente russo, Vladimir Putin, numa entrevista ao apresentador de talk show americnao Tucker Carlson em fevereiro de 2024.


O que não há dúvidas é que, em 22 de fevereiro de 2022, a Rússia começou a guerra invadindo a Ucrânia. As tropas russas invadiram a fronteira com o objetivo explícito de derrubar o governo de Zelensky em Kiev que é pró-ocidente com o objetivo de poder de lá colocar um presidente fiel a Moscovo.


Neste segundo mandato Donald Trump tem adotado uma abordagem diferente em relação à ajuda à Ucrânia. Condicionou a ajuda dos EUA à Ucrânia em troca de direitos sobre recursos minerais, de terras raras, que são essenciais para a indústria eletrónica. Trump pretende bloquear verbas e o auxílio militar à Ucrânia. Apesar de ter tomado


Donald Trump tomou uma postura no sentido de iniciar conversações para a paz na Ucrânia, mas as negociações são de facto complexas e deveria envolver várias partes interessadas. Desde o início da invasão russa em 2022 houve várias tentativas de negociação que falharam. Recentemente houve vários anúncios sobre um telefonema de Trump com o presidente russo, Vladimir Putin, anunciando que as negociações de paz começariam imediatamente. Mais recentemente, houve um novo impulso diplomático com a participação de altos responsáveis dos EUA e da Rússia em reuniões na Arábia Saudita sem, no entanto, a Ucrânia não ter sido convidada para essas reuniões, o que gerou críticas de Zelensky que expressou a sua insatisfação com a exclusão da Ucrânia dessas negociações e afirmou que Kiev não reconhecerá qualquer acordo alcançado sem sua participação.


Trump e Putin-2.png


As ações de Donald Trump de tentar negociar a paz na Ucrânia, sem a presença das outras partes interessadas e propondo negociações diretas com Vladimir Putin, tem gerado controvérsias. Este tipo de atitude de Trump pode levantar desconfiança já que se desconhece o conteúdo da conversa telefónica com Putin e porque a sua relação com ele parece ser comprometedora tendo em conta relações políticas e de amizade com ele próprio já tinha expressado anteriormente. Após a tomada de posse para o segundo mandato de Trump, Putin anunciou com entusiasmo que “os líderes europeus ficarão do lado do mestre e acabarão por abanar a cauda carinhosamente”.


Mas há mais, o presidente russo, Vladimir Putin, elogiou o seu homólogo Donald Trump numa entrevista publicada no domingo 2/2/2025, dizendo que Trump em breve “restaurará a ordem” na Europa.


A comparação de Trump com Putin aproxima-se porque ele proíbe uma agência noticias de entrar na Casa Branca. Recentemente a administração Trump proibiu a entrada de jornalistas da agência de notícias Associated Press (AP) na Casa Branca e no Air Force One. Esta decisão foi tomada porque a AP continuou a usar o termo “Golfo do México” em vez de “Golfo da América”, conforme exigido por uma ordem executiva de Trump. A Casa Branca defendeu a sua decisão, afirmando que a recusa da AP em cumprir a mudança de nome era um compromisso com a desinformação. A medida foi amplamente criticada por várias organizações de media e é vista como uma violação da Primeira Emenda. Ridículos, decisão de Trump, a proibição e os motivos.


Os EUA estão a caminho duma autocracia, nome bonito para ditadura, e ainda não sabem.


 

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Sobre liberdade de expressão opiniões há muitas

Ventura liberdade de expressão.png


As preocupações políticas do país estão viradas para os debates entre os candidatos às eleições europeias do dia 9 de junho e para a propaganda do Governo que está a querer mostrar que já fez e que faz, mas que ainda não fez. A questão do disparate de André Ventura sobre o povo turco e os comentários dele derivada já lá vão. O texto que escrevi sobre este tema já devia ter sido publicado, mas acho que ainda vai bem a tempo.  


Às vezes parece-me que estamos no início da Revolução do 25 de Abril de 1974, no tempo do em que a embriaguez da liberdade encontrava por todos os lados a arma da proibição de toda e qualquer coisa que pretendia desmantelar. Era o desplanto derivado do banho da liberdade.


Em 1968 Caetano Veloso lançou o seu primeiro LP individual, intitulado Caetano Veloso. Um dos factos mais marcantes da sua carreira também aconteceu neste período quando apresentou que “É proibido proibir” e discursou sobre o conservadorismo do público que, entretanto, o vaiava.


A letra é um manifesto contra a censura e a limitação da liberdade de expressão, elementos fortemente presentes no contexto político brasileiro da época em que foi lançado no final dos anos 60.


Quando leio as várias opiniões para todos os gostos e opções ideológicas que foram debitadas na comunicação social sobre a frase de André Ventura fiquei perplexo. André Ventura afirmou numa das suas intervenções na Assembleia da república que “O aeroporto de Istambul foi construído e operacionalizado em cinco anos, os turcos não são propriamente conhecidos por ser o povo mais trabalhador do mundo”. Foi a frase sublinhada a que incendiou o Parlamento, logo seguida de protestos.


Em primeiro lugar a frase que apenas mostra a ignorância de quem a proferiu porque as estatísticas da OCDE mostram a inveracidade da informação que preparou ou inventou. Contudo, pode trabalhar-se muitas horas e ser-se pouco trabalhador em termos de eficiência, mas isso é outra questão.


O líder parlamentar do BE, Fabian Figueiredo veio de imediato defender que “atribuir características e estereótipos a um povo não deve ter espaço no debate democrático da Assembleia da República”. A esta afirmação seguiram-se apreciações do Presidente da Assembleia da República, Aguiar-Branco, “Não concordo, porque o debate democrático é cada um poder exprimir-se exatamente como quer fazê-lo. Na opinião do presidente da Assembleia, os trabalhos estão a ser conduzidos assegurando a livre expressão de todos os deputados, não tem a ver com o que penso pessoalmente, não serei eu o censor de nenhum dos deputados”. Os protestos das bancadas, opiniões e pontos de vista gerados sobre as intervenções houve-as para todos os gostos.  


Repare-se que a frase pronunciada por André Ventura, base da polémica, foi retirada dum contexto e não parece ser ofensiva. É a opinião dele que, como qualquer outra, pode estar certa ou errada dependendo dos pontos de vista como qualquer conversa política de mesa de café, como é quase sempre a de Ventura. Assim, pareceu-me que a polémica gerada está demasiado exagerada se tivermos em conta os conceitos de racismo e xenofobia geralmente aceites.


Questões, levantadas em contexto parlamentar e fora dele, acerca de discursos de ódio, racial, xenófobo, entre outros, sobretudo nas redes sociais têm gerado várias polémicas e apresentam carga muito mais forte de racismo e de xenofobia e com efeitos mais nefastos, mas, neste caso, há apenas preocupações casuais.   


Os conceitos de racismo e de xenofobia estão a ser demasiado chamados para a disputa ideológica sem que se tenha em consideração os seus verdadeiros significados.


Antes de continuar convém esclarecer os conceitos de que parto sobre racismo e xenofobia para assentar os meus pontos de vista. Racismo tem por base ideias ou teorias de superioridade de uma raça ou grupo de pessoas de uma cor ou origem étnica, ou, doutro modo, que há etnias superiores a outras. Também pode ser o preconceito que leva a ver como inferiores os indivíduos de etnia diferente. A xenofobia é o medo, desprezo ou ódio em relação a pessoas de outras nações ou culturas. Isso inclui manifestações culturais, língua ou qualquer coisa associada ao que é estrangeiro. Uma das variantes comuns da xenofobia é baseada em distinções raciais, ou seja, no racismo. Uma e outra atitude pode variar desde violência extrema (como assassinatos e espancamentos) até formas mais brandas de rejeição.


A frase proferida por André Ventura, embora possa ter por base algo ténue daqueles dois conceitos não tem a carga sociopsicológica que lhe foi atribuída. Não houve incitamento ao ódio, pelo menos neste caso, também não me parece que houvesse grave injúria. Foi um raciocínio infeliz de analogia mal escolhida.


Uma deputada do PS questionou o Presidente da Assembleia da República da seguinte forma: se “disser que uma determinada raça ou etnia é mais burra ou preguiçosa também pode?” Aguiar-Branco disse que “pode”.


Ora bem, será o povo turco de que raça? O deputado André Ventura tanto quanto verifiquei nem utilizou o termo de raça, falou genericamente em turcos, como poderia ter falado noutro qualquer povo. Apesar do racismo poder ser definido de muitas maneiras, no entanto, o conceito "racismo" pressupõe a existência de raças diferentes. O considerando da Diretiva 2000/43/CE (Diretiva relativa à igualdade racial) refere que “a União Europeia rejeita teorias que tentem determinar a existência de raças humanas distintas”.


Mas voltemos ao caso da frase de Ventura que me pareceu despropositada para dar lugar a tanta polémica. O disparate, propositado ou não, ou até mesmo um insulto resultam, neste caso em concreto em créditos de protagonismo a quem o proferiu, e Ventura aproveitou essa vantagem mais uma vez.


Quando passamos numa rua e vemos gritaria e gestos provenientes de rufias estes produzem um efeito; ao pararmos, olharmos, vermos e ouvirmos é porque produziram efeito. Vemos também que há um segmento da população que aclama e outro que se insurge. O mesmo se passa no Parlamento com o Chega ou com qualquer outro deputado de qualquer outro partido.


A sensatez parece ter deixado de ser o atributo da atualidade, graças às tecnologias da comunicação das redes sociais onde se privilegia a agressividade e a estupidez dos arruaceiros. A liberdade de expressão não quer dizer que podemos inventar mentiras e espalhá-las. Este direito traz também responsabilidades e devemos ter sempre em conta a verdade daquilo que dizemos e o respeito pelos outros o que pressupões escalonamentos tipificados para tal.


Liberdade de expressão2.png


Onde acaba a liberdade de expressão e quais são os seus limites foi a discussão a que se assistiu, no Parlamento e nas opiniões várias na comunicação social o que nós vimos foi a esquerda a atacar a interpretação do conceito de liberdade de expressão do presidente da Assembleia da República e a direita a defendê-lo.


Segundo alguns estudos a liberdade de expressão não pode ser reconhecida como sendo absoluta deverá ter limitações e devem estar relacionados com difamação, calúnia, obscenidade, pornografia, incitamento à rebelião, palavras que induzam ao combate, discurso de ódio, incitamento ao crime, informações classificadas.


No entanto, governos em todo o mundo rotineiramente prendem pessoas – ou pior – por falarem, mesmo que a Constituição de quase todos os países se refira ao valor da "liberdade de expressão".


Os governos têm o dever de proibir discursos de ódio e incitamento, mas muitos abusam de sua autoridade para silenciar a dissidência pacífica, aprovando leis que criminalizam a liberdade de expressão. Isso é feito. Exemplos podem ser visto na Rússia, Irão muitas vezes em nome do contraterrorismo, da segurança nacional ou da religião. Mais, recentemente, a liberdade de expressão tem sido ameaçada pelas autoridades que reprimem ativistas o que aconteceu na Federação Russa com um novo projeto lei adotado pela câmara baixa do Parlamento da Rússia proibindo a colaboração com organizações não-governamentais estrangeiras, ONGs.


 


Com esta polémica André Ventura ganhou mais este jogo que lhe proporcionou, mais uma vez, palco. A desmontagem através de argumentos crítico que desmascarassem a mentira bastava a prova de que os turcos trabalham mais horas por semana do que os portugueses.


Em junho de 2023 escrevi neste mesmo blogue um texto a que atribuí o título “Em defesa do discurso de ódio?!” em que criticava quem abria as portas em absoluto à liberdade de expressão. Escrevi então que “Os que têm as mesmas opiniões defendem-nas e defendem-se uns aos outros, embora por caminhos argumentativos diferentes. A direita, e sobretudo a extrema-direita, é useira e vezeira nisso, defende com toda a gana toda a liberdade que a democracia lhes possibilita, mas quando um dia chegam ao poder é a chuva de críticas sobre a tal dita liberdade.  Quando estes mesmos são os visados e o discurso de ódio lhes toca e ficam a braços com acusações torpes e ofensas ao seu bom nome e dignidade, a liberdade de expressão ilimitada que defendem é logo posta em causa. Elaboram discursos com propostas para se limitarem esses abusos e, perante tal libertinagem da expressão de pensamento, que defendiam/defendem colocam-se em bicos dos pés em prol da criminalização de tais discursos ofensivos.” E acrescentava que “A questão de fundo é a de sabermos se a liberdade de expressão de pensamento e os discursos de ódio não devem ser limitados, mas se devem ser absolutos como defendem os seus apologistas.  Afinal, deve haver limites à liberdade de expressão? Quando é para interesse próprio, não, quando é para interesse de outros, sim.” Será esta a conclusão.


Há países que ainda permitem uma variedade muito grande de discursos e ações com diversos espectros ideológicos. As democracias devem restringir discursos precursores de intolerância e de ódio que incitem à ação. A questão é descobrir como restringir, banir ou punir apenas e a de arranjar a solução certa.


É difícil para as democracias liberais centrarem-se nos discursos de grupos e de partidos realmente perigosos deixando o campo de ação o mais amplo possível do que é permitido. Numa primeira fase, algo terá de ser feito.

sábado, 30 de julho de 2022

A invasão da Ucrânia de Trump a Putin: contributos para uma teoria da conspiração

Curioso é analisarmos que Joe Biden tomou posse como Presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2021. Cerca de um ano e um mês depois de Trump ter saído da cena da presidência Putin invade a Ucrânia. Isto diz-nos alguma coisa.


 


Putin e Trump-capa.png


As circunstâncias criadas pelos atores da política internacional levam-nos por vezes a aventurar-nos em terrenos imprevisíveis da paisagem política em permanente mudança de velocidade e de factos. Ao tentarmos fazer uma interpretação política de factos políticos sem sermos especialistas, vemos que há acontecimentos comprovados que nos levam a estabelecer interpretações e paralelismos por vezes arrojados.


Em política, interpretações e paralelismos não são isentos de ideologias que determinam o contexto do exercício do poder e as abordagens socioeconómicas que fazem parte de ideias e de interesses que ajudam a compreender a criatividade estratégica das ações e, muitas vezes, as obsessões dos atores políticos.


Pode continuar a ler AQUI o artigo: A invasão da Ucrânia de Trump a Putin-contributos para uma teoria da conspiração


 


 

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Não haverá paz enquanto houver propaganda antiocidente

Ucrânia e Putin-3.png


A “pax romana” foi um período que se situou entre 27 a.C. e 180 d.C. que garantiu naquela época histórica estabilidade e tranquilidade. Também nós, na Europa, atravessámos uma pax europeia até à invasão da Ucrânia confrontando-nos agora com uma guerra perto de nós. Paz que do meu ponto de vista está longe de ser conseguida por teimosia de um invasor que parece pretender substituir a liberdade que tem sido o atributo da democracia europeia por outro tipo de ordem iliberal não democrática.


Parece que Lavrov, ministro dos negócios estrangeiros da Rússia, foi à China e fez declarações em que anunciou uma "nova ordem mundial, multipolar, justa e democrática" acrescentando que “a situação internacional ficará muito mais clara, e que nós, juntamente com vocês e com os nossos apoiantes, caminharemos para uma ordem mundial multipolar, justa e democrática”, o sublinhado é meu. A que justiça e democracia se refere? A hipocrisia do Governo russo não tem limites quando menciona a palavra democracia, palavra que para ele não tem qualquer valor.


Os apoiantes desta tese também os há por cá que aproveitam a invasão da Ucrânia como pretexto para criticar fortemente o ocidente, nomeadamente a NATO, os EUA e a U.E., pelas mais diversas razões. Estes centram-se apenas no princípio da responsabilidade da guerra justa que exige que se examine de quem é a responsabilidade na guerra, olhando apenas para o lado do agressor desvalorizando o ato ilícito da invasão contribuindo para satisfação do invasor Putin que, sendo contrário ao sociocentrismo, está a olhar o mundo duma perspetiva estreita e egocêntrica não se terá apercebido que a Rússia pode sobreviver sem Putin, mas duvida-se que Putin possa sobreviver sem a Rússia.


O presidente autocrata Vladimir Putin não está a colocar as necessidades e as preocupações do povo russo à frente dos seus próprios interesses. O anti sociocentrismo de Putin parece estar a ser agravado por uma esquizofrenia política com uma patologia que se manifesta por uma rutura de contacto com o mundo exterior, por isso a informação sobre a invasão da Ucrânia estar a ser condicionada e censurada, tal como a proibição do direito à manifestação, impensável num regime democrático.


Numa conferência de imprensa, em 2017, Vladimir Putin terá respondendo a uma pergunta sobre um artigo publicado no Washington Post no qual se escrevia que, numa reunião do Salão Oval com diplomatas russos, Donald Trump lhes passou certas informações confidenciais sobre o ISIS, (Islamic State of Iraq and Syria),  deu como resposta que o ocidente estava a desenvolver uma "esquizofrenia política".


Recorde-se que poucos dias antes da data trágica da invasão, quando Biden dizia que Putin iria invadir a Ucrânia, este dizia que o ocidente estava a entrar em histeria. Afinal não era histeria, eram certezas.


Após meses de ter negado que tinha intenção de atacar a Ucrânia, Vladimir Putin invadiu o território duma democracia europeia por ar, terra e mar a que chama uma operação militar especial, palavras também utilizadas em artigos por quem se coloca contra o ocidente para justificar a invasão como um senhor coronel Matos Gomes que escreve textos sobre agressões passadas do chamado ocidente noutros contextos geográficos o que nos leva a deduzir que se estará a colocar do lado oposto.


Afirmou Matos Gomes em 24 de fevereiro que "Não se trata de uma invasão. Penso que a Rússia e Putin falou e apresentou os objetivos claramente no discurso. O que a Rússia pretende é que a Ucrânia seja desmilitarizada e não seja uma base de ataque à Rússia. E isto ele disse-o muito claramente". Se isto não é defender a invasão perpetrada por Putin então o que é? Pelas imagens que nos chegam diariamente podemos ver que, afinal, se trata de uma invasão, de uma guerra.  


Perguntava-se no início qual era o objetivo do presidente russo ao invadir a Ucrânia. A justificação dada era o avanço da NATO para o Leste Europeu para cercar a Rússia.


Face à intransigência de um adversário que se tornou hostil e traiçoeiro que se ergue a agredir outro povo a resposta do ocidente foi tentar encurralar Putin, o que significa encurralar também o povo russo, embora se considere pouco sensata a estratégia que poderá brigar Putin, que não quer perder a face perante os russos, a ficar sem margem de manobra. 


Decorridas duas semanas de guerra, o presidente ucraniano propunha negociações e que deixava cair a adesão da Ucrânia à NATO. Afinal, não era apenas aquela a exigência que Putin pretendia. Ainda há dias Zelensky cedeu na proposta de neutralização para chegar a um acordo de paz. Quem não quer a paz?


O que fazer então quando Putin ultrapassou todas as linhas vermelhas que o colocam em direção à meta dos criminosos de guerra. Terá sido a aproximação da NATO que terá levado, segundo ele, à “operação militar”. Mas há outra, que Putin não revela, essa de ordem interna.


Desde 2017 que Putin se confronta com problemas internos na Rússia que terão começado a surgir apesar de ter ganho(?) as eleições presidenciais de 2018. Enfrentou, e estará ainda a enfrentar, situações difíceis devido às consequências das suas políticas quer externas, quer internas. O vazio da política interna está a ser substituído pela ilusão de sucesso internacional, criado e mantido com a ajuda da propaganda mais descarada da história da Rússia moderna, nem sei se Estaline e os anos seguintes da URSS o terão conseguido tão eficazmente, quer pela repressão quer pela censura. Também é certo que tecnologias como as de hoje para essa propaganda não existiam.


Na Rússia de Putin a Internet no seu todo ainda não foi proibida, mas canais de informações mesmo os alternativos como as redes sociais já foram condicionados à população através de todos os filtros disponíveis pelo governo para evitar a corrosão lenta dos chavões propagandísticos.


Contrariamente ao resto do mundo, a população russa não tem, na sua grande maioria, conhecimento do que se passa no país vizinho. Vladimir Putin proibiu a comunicação social da Rússia de usar as expressões "guerra" ou "invasão" e enganou os russos ao dizer que estavam a ser realizadas "operações militares especiais" na Ucrânia. As redes sociais também começam a ficar cada vez mais limitadas e as publicações censuradas, mas na quinta-feira, 11 de março à noite, a televisão estatal russa, o canal “Rússia 1” que é uma das emissoras estatais mais vistas no país e uma das que tem seguido as diretivas autoritárias do Kremlin, leia-se de Putin, quanto à situação da Ucrânia, consentiu numa provocação ao transmitir em direto em horário nobre a opinião de um comentador que criticou a ofensiva russa recusando-se a apoiar a narrativa das televisões encomendada pelo Governo russo.


Semyond Bagdasarov, um famoso académico e deputado russo, aproveitou a sua presença no programa 'An Evening with Vladimir Soloviev', “Uma noite com Vladimir Soloviev (um homem referido como forte defensor de Putin e um crítico franco da independência da Ucrânia e propagandista-chefe) para pedir ao presidente russo que ponha fim ao ataque, deixando ainda o alerta de que os aliados da Rússia, como a China e a Índia, podiam acabar por virar as costas a Moscovo.


Por seu lado Karen Georgievich Shakhnazarov, realizadora russa Karen Bagdasarov pediu ao líder russo para acabar com o ataque, enquanto tentou quebrar a narrativa do Kremlin de que está conduzindo uma "operação especial" limitada na região de Donbass, fazendo referência aos ataques à capital de Kiev.


No dia 4 de março a decisão do governo russo de bloquear oficialmente o acesso ao Facebook relativamente à invasão por Moscovo/Putin da vizinha Ucrânia provocou uma reação do Presidente para os assuntos Globais da Meta que escreveu no Twitte: "Em breve, milhões de russos encontrar-se-ão isolados de informações confiáveis, privados das de se ligar com a família e amigos e silenciados de falar". Continuaremos a fazer tudo o que pudermos para restaurar os nossos serviços para que permaneçam disponíveis e para que as pessoas se expressem com segurança e se organizem para a ação."


Ucrânia e Putin-4.png


Os males causados pela diminuição do rendimento das famílias, agravados pelas medidas severas das sanções económico e financeiras, aumentam a crescente desconfiança pública nas autoridades, no descontentamento público gerado por um governo ineficiente, com a corrupção e cleptocracia que o sistema permite ou aprova e com o aventureirismo geopolítico com enormes custos como o demonstram especialista em política russa.  


O Presidente Putin encontra-se num beco político sem saída, enquanto o povo se encontra numa crise existencial que lhe está a ser induzida pela propaganda que afirma que o ocidente quer destruir a Rússia.


Biden e Putin parecem ter entrado numa esquizofrenia que se manifesta pelas emoções que os levam a utilizar, sobretudo o primeiro, com uma verbosidade de palavras de baixa política com as adjetivações que faz a Putin com que lhe poderão ser aplicadas, mas que envergonham qualquer diplomacia. A esquizofrenia de Putin é mais sofisticada, aproxima-se da metafísica ao pretender transcender a própria realidade sem o conseguir levando o povo russo a pensar se a Rússia não estará, de facto, a atravessar uma crise existencial que o ocidente lhe estará a causar.


Vladimir Putin ficou subitamente nervoso com o facto de poder vir a ser o arquiteto que, devido à invasão da Ucrânia, conduziu a Rússia para uma crise económica e financeira sem precedentes pelas sanções do ocidente, porque sabe que isso tem como ricochete poder voltar o povo contra ele.


Com a informação disponível, credível, fiável e isenta de facciosismos sobre o que na realidade se passa na Rússia é ao pouco ou nada. Isto devido a que os jornalistas não podem trabalhar no país a não ser clandestinamente, enquanto no ocidente, onde há liberdade jornalística e onde se exerce livremente essa liberdade de expressão.


Apesar do senhor que manda no Kremlin lutar para esconder a realidade da guerra no ocidente textos e mais textos são publicados e republicados em blogs e redes sociais e explanações históricas de ditos especialistas em política internacional e geoestratégica de esforçam por atacar/condenar os EUA, a NATO, e a EU, como se fossem estes os agressores, defendendo a paz, tornando claro que são contra a guerra, mas, ao mesmo tempo, justificam os pontos de vista de Putin.


Alguns pretendem desacreditar a informação chamando pensamento único aos que não alinham em argumentos de crítica aos países do ocidente que pretendem que sejam os causadores da invasão da Ucrânia por Putin designando, como ele, “intervenção militar pacífica” ou “intervenção militar especial”. Pretendem assim justificar o mal que é a guerra na Ucrânia com o mal causado e apoiado por outros (os EUA) noutros contextos diferentes.


Para os das esquerdas radicais, anti ocidente, anti NATO e para os discretos apoiantes de Putin que se dizem defensores da paz é difícil reconhecer que os interesses de cada uns dos lados, Ucrânia e Rússia, devem ser tidos em conta. Mas, pelo que se depreende das opiniões que escrevem e das publicações de textos oriundas de fontes alinhadas pelo mesmo tom parece que, pelo contrário, são a favor do estabelecimento de linhas vermelhas inamovíveis que sejam contra os valores morais, princípios da democracia e regras internacionais que devem ser respeitadas e inegociáveis.


Porém, há também grandes organizações como o banco HSBC que alinham, talvez por interesses financeiros estar nas boas graças de Putin e da sua propaganda. Segundo o Financial Times, o HSBC também suaviza o tom com o qual se refere à guerra na Ucrânia, retirando dos seus relatórios referências à palavra "guerra", noticia o "Financial Times", alterando a palavra "guerra" para expressões mais suaves, como por exemplo "conflito". Alinha assim com o Kremlin que desde o primeiro dia chama à invasão da Ucrânia uma "operação militar especial".


Nesta altura atacar o ocidente e ao mesmo tempo fazer pedidos de paz é, quer se queira ou não, estar do lado do presidente Vladimir Putin o que se evidencia, como anteriormente referi, em textos publicados a quem a eles recorre para reforço dos seus argumentos. Um dos casos foi o recurso a um artigo de opinião escrito por  Mário Soares em maio de 2015 na Revista Visão quando criticou a aproximação da NATO para Leste com a adesão de países como a Polónia entre outros. Interpretação abusiva do que ele escreveu que era mais um alerta para o ocidente. Mário Soares tinha razão. A aproximação da NATO para leste foi uma consequência do desmantelamento da URSS e a libertação dos países de leste do jugo comunista. Foi nesta sequência que alguns desses países pediram a adesão à E.U. e a pretensão de entrarem para a NATO. Esta pretensão talvez fosse devido à insegurança que teriam em relação a possíveis agressões do Kremlin para recuperarem a sua antiga jurisdição sobre esses países. Mas, Mário Soares também escreveu que “Vladimir Putin é um homem perigoso. Ou, como dizem os brasileiros, um homem astuto, perigoso e imprevisível”. Apesar deste evidente ponto de vista o autor, enquanto Primeiro-Ministro e enquanto Presidente da República, nunca colocou em questão a retirada de Portugal daquela aliança militar intergovernamental.


Aqueles que falam da desmilitarização do ocidente, de paz e do aumento das verbas e de gastos com a defesa no orçamento da U.E. esquecem-se, ou omitem, nos seus relatos que a Rússia é considerada pela maioria dos analistas como a segunda maior potência militar do mundo e com grandes investimentos nas forças de guerra e que agora se encontra em grande vantagem e, por isso, lançou-se numa operação invasiva de um país soberano.


O semanário Expresso de 9 de março de 2022, recordava o que Pulido Valente escreveu a criticar a forma como a Europa se foi desarmando, e alertava para os riscos de “a Inglaterra gastar em defesa menos de 2% do PIB, num momento em que Putin embarcou numa política claramente agressiva e revanchista”.


Face a tudo isto deveria então o ocidente, nomeadamente a E.U., desproteger-se? Não. Mas foi o que aconteceu e parece que para alguns radicais de esquerda que assim deveria continuar.


A invasão da Ucrânia não terá sido uma surpresa visto que a presidência dos EUA, em 22 de novembro de 2021, segundo o “site” francês “Meta-Defense”, previu uma ofensiva na Ucrânia pela Rússia no inverno, a ocorrer em janeiro e ou fevereiro. Publicava na altura que “O objetivo previsto seria a criação de um corredor que permitisse ligar a Crimeia à Rússia por via terrestre, provavelmente até a foz do Dnieper e a cidade de Zaporizhia, também um importante centro industrial em termos de aeronáutica civil e militar, mas também a cidade portuária de Mariopol, crítica em termos de infraestrutura. Além de ligar a Crimeia, isso permitiria a Moscovo transformar o Mar de Azov num mar “interior”, inteiramente limitado pela costa russa”.


Apesar do senhor que manda no Kremlin lutar para esconder a realidade da guerra no ocidente textos e mais textos são publicados e republicados em blogs e redes sociais e explanações históricas de ditos especialistas em política internacional e geoestratégica de esforçam por atacar/condenar os EUA, a NATO, e a EU, como se fossem estes os agressores, defendendo a paz, tornando claro que são contra a guerra, mas, ao mesmo tempo, justificam os pontos de vista de Putin.


Estranhamente são também os que debatem e se empenham na busca do que se fez de mau no passado para justificarem que se faz de mau no presente. São os mesmo que pedem a desmilitarização do ocidente (porta escancarada para a entrada de Putin até ao ponto da possibilidade da sua ambição) e que exigem negociações diplomáticas para se chegar à paz. O ponto que não esclarecem é como isso será possível com o cinismo de quem diz que quer negociar e ao mesmo tempo diz não estar disponível para quaisquer negociações que não seja a capitulação do invadido com condições impostas pelo invasor, como tem vindo a ficar demonstrado.


Penso que esta retórica dos que se mostram contra os aliados ocidentais e que tão insistentemente invocam negociações para a paz não são mais do que fait divers para dissimularem o seu alinhamento com os senhores do Kremlin, a quem chamam capitalistas, ao mesmo tempo que se distanciam dos outros que são o rebanho aos que se afastam dos pontos de vista deles.

terça-feira, 8 de março de 2022

O que se diz e o que não se diz, o que se escreve e o que não se escreve, o que se ouve e aquilo em que se acredita

Ver ouvir escrever.png


Centremo-nos primeiro no mais recente percurso político da Ucrânia e nas suas tensões com a Rússia que começaram em 2019 com a onda conservadora nas urnas para a presidência em que Zelensky ganhou com 73% dos votos a Poroshenko que concorria à reeleição. Poroshenko, admitiu na altura a derrota após a publicação das primeiras contagens dizendo que não deixaria a política. Zelensky aproveitou a sua popularidade em alta, prometeu reformas no sistema político, dissolveu o parlamento e anunciou a convocação de eleições legislativas.


Ao apresentar um plano de governo levou para a discussão pública as críticas feitas na televisão aos "oligarcas" da política ucraniana e defendeu a entrada da Ucrânia para a União Europeia e para a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN) que era a questão central e levou ao atual conflito com a Rússia.


Nos dias que se seguiram à invasão muitos que apoiam a agressão bélica utilizaram uma linguagem com uma gíria cujo objetivo é o de confundir as opiniões públicas seguindo o Presidente Vladimir Putin que também tem recorrido a esse processo de utilizar as palavras nacionalistas, neonazistas, libertação do país da extrema direita, limpeza étnica, etc., quando se refere à Ucrânia.


Acusam Zelensky de fomentar o crescimento do neonazismo e da conivência com o grupo neonazi Batalhão de Azov. Este grupo de milícias foi criado em 2014 para conter separatistas russos nas regiões de Donetsk e Lugansk, tendo sido esta milícia de extrema-direita incorporada em 2015 no exército ucraniano que os pró-russos dizem ainda hoje perdura. É por isso que Putin fala em "desnazificação" para justificar as suas metas no avanço militar de ocupação da Ucrânia. Mas essa situação é interna e compete ao povo desse país soberano pressionar o governo se, para tal, quiser resolver o problema.


Mas nesta equação entrou uma nova variável já conhecida que é Donald Trump. No primeiro ano de presidência, Zelensky esteve na base de uma "trapalhada" de Donald Trump que quase levou o então presidente norte-americano a um processo para impeachment. Em 2019, ano de eleições na UJcrânia, Donald Trump ligou para Zelensky a pedir para que o filho de Joe Biden, seu adversário na corrida à eleição, fosse investigado e que na altura fazia parte do conselho de administração numa empresa ucraniana de gás natural. Trump foi então apanhado num telefonema a reter a ajuda militar à Ucrânia, já em curso, dizendo que ("Gostaria que você nos fizesse um favor, no entanto") dizia, em troca de Zelensky comprometer Biden, rival de Trump às eleições. Trump "poluiu a Ucrânia com sua  negociação política" como se pode ler num artigo na revista The Atlantic. Foi acusado de tentar recrutar poder estrangeiro para interferir a seu favor na disputa eleitoral. Trump chegou a ter a interrupção do mandato aprovada pela Câmara, mas foi barrada pelo Senado americano.


Centremo-nos agora em segundo lugar sobre o que se observa nas redes sociais, em artigos de opinião, comentadores, comentários na comunicação social, comunicados de partidos.


Começo com a perturbante reação do PCP que teima em defender um regime que é criminoso à luz do direito internacional. O PCP agarra-se ao passado soviético mantendo uma linha de defesa de Moscovo disfarçada de rejeição do capitalismo de Putin ao mesmo tempo que culpabiliza o capitalismo dos EUA e a NATO pela invasão da Ucrânia. Não se aperceber que a Rússia já não é aquilo que formou o seu ideário, mas que é um projeto de poder de um homem que alimenta e subsidia muitos partidos da extrema-direita europeia ao mesmo tempo que se queixa da extrema-direita na Ucrânia.


Por seu lado o Bloco de Esquerda anda numa roda-viva para ver se consegue distanciar-se das posições do PCP numa dança intermitente que ora critica, ora desvaloriza, ou, a dizer, como ontem aconteceu, que “O Bloco de Esquerda defende que é dever das autoridades portuguesas identificar e investigar os oligarcas russos” e a deputada Mariana Mortágua sublinha que os interesses económicos não podem sobrepor-se às sanções contra Vladimir Putin. Mas, sobre a votação do empréstimo financeiro à Ucrânia, a deputada do Bloco de Esquerda diz que acusar o partido de votar contra é querer confundir o debate”.


Nas redes sociais parece-me que ser-se contracorrente às evidências começa a dar jeito para os que desejam feedbacks a todos o custo aos seus posts e opiniões publicadas na imprensa.


Ser polémico está na moda, “vende”. Falem mal de mim ou sobre mim, mas é preciso que falem. Alguns colocam-se em pontos de vista que tentam contrariar factos e evidências recorrendo aos mais artificiosos argumentos, virando do avesso a realidade dos factos, buscando no passado longínquo as causas para justificar hoje a agressão de Putin contribuindo, assim, para a lavagem da sua imagem. Justificar a agressão à Ucrânia comparando-a com outros casos que se verificaram no passado e noutros contextos parece-me caricato. Também neste domínio há negacionistas da realidade de facto, como os há nas mais absurdas situações e circunstâncias.


Pensamentos apressados que sugerem tomadas de decisões, em momentos de emoção e nervosismo, como apelar à provocação ao adversário, à confrontação e à guerra têm o risco de agravar conflitos em vez de os acalmarem. Recorro a uma frase da radical Ana Gomes, senhora que se candidatou a Presidente da República, que afirmou na SIC Notícias “Para que serve a NATO se não consegue travar massacres contra populações na Europa?” e acrescenta que a zona de exclusão aérea no país invadido pela Rússia “tem de estar em cima da mesa”, mesmo que Vladimir Putin considere isso um ato de guerra. Entrámos na zona da paranoia.


Pensarmos que conhecemos bem e confiamos no adversário que se tem pela frente é no mínimo ingenuidade. Putin não é de confiança recorde-se quando disse que o ocidente estava em histeria quando Biden apontava uma data para a invasão da Ucrânia. Muitos gozaram com a data marcada para início da guerra. Passados dias deu-se a invasão.


Putin deve estar com problemas internos e, por isso, a censura que instituiu na Rússia passou a ser obrigatória e foi agravada.  A censura é necessária como fator para a formação e consolidação do "putinismo”. Putin tem plena consciência da importante função destinada à censura. É a guerra da informação e da contra informação, da opinião e da contraopinião que se agudizam em tempos de guerra.  O controlo da informação e a censura desde sempre desempenharam um papel fundamental na formação e para a consolidação dos estados totalitários.


Putin pretende mostrar que só existe politicamente o que o público sabe que existe. Daí as mentiras, os cortes e as inversões dos factos à boa maneira estalinista. Serve-se da guerra para controlar ainda mais o espaço da informação e bloquear os principais meios de comunicação independentes que possam gerar movimentos que, normalmente, levam a grandes protestos.‎


Seis dias depois das tropas russas atacarem a Ucrânia, a Rússia (leia-se Putin) bloqueou a Dozhd TV e a Ekho Moskvy por supostamente espalharem, segundo ele, "informações deliberadamente falsas" sobre a invasão da Ucrânia por Moscovo tendo ficado indisponíveis na Rússia logo após o anúncio.


‎‎A Echo of Moscow, uma estação de notícias russa independente que transmite desde 1991, anunciou que encerraria na quinta-feira depois de se recusar a cumprir as regras de censura exigida em reportagens sobre a guerra na Ucrânia sendo obrigada a utilizar apenas fontes militares oficiais do Kremlin.‎ Outra estação foi a TV Rain, a principal emissora de televisão independente do país que encerrou temporariamente também na quinta-feira as suas transmissões em desacordo com regras semelhantes.‎


Nos jornais russos, talvez a maior parte, os artigos publicados são um vómito de inverdades de propaganda. E só acredita neles quem quiser acreditar. Como não vivenciamos os momentos "in loco" podemos ser tentados a acreditar que a comunicação do ocidente é que está errada e que a verdade, a dele (a de Putin), é que está certa. Foi assim no passado com Hitler, com Estaline e também o foi com Salazar aqui, no nosso canto junto ao mar.


Não se compreende porque um grupo de pessoas, felizmente pequeno, se tenha colocado do lado de Putin contra a Ucrânia apenas com o argumento de serem contra a NATO, os U.E. e os EUA. Dizem que são pela paz, mas não dizem em que termos. Falam em negociação, mas que negociação? O que pretendem será a capitulação incondicional da Ucrânia, país soberano, para que fique na órbitra da Rússia de Putin? Será a dissolução da NATO deixando Putin livrfe para o controle total da Europa? Se assim não é então que manifestem sobre qual será para eles a alternativa para a paz.


 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Quem nos está a tramar literariamente falando?

Artigo estátua de sal.jpg


Partilho este artigo  publicado no blogue Estátua de Sal, da autoria de José Gabriel, que achei interessante e cuja atualidade é inegável.


Estamos literariamente tramados!


(José Gabriel, 26/11/2021)


Estamos tramados! Olhai senhoras e senhores; vós, que gostais de ver a língua portuguesa – ou qualquer outra de qualquer literatura a que conseguis chegar – brilhar, que admirais como ela vive e voa nas mais diversas figuras de estilo. Vós, que apreciais a ironia, qua sabeis saborear uma boa metáfora, que ousais uma hipérbole, uma elipse, um paradoxo e todos aqueles recursos com os quais nos animamos e ilustramos uns aos outros e, sobretudo, com os quais habitamos os textos dos nossos escritores favoritos, estamos ameaçados, se não de extinção, pelo menos de um cerco cada vez mais apertado. Esquecei a vossa sensibilidade, pendurai a vossa inteligência, que os polícias da escrita e sanguessugas do espírito estão aí em força. Purificai, pois, a língua e a literatura, ou sereis purificados por outrem.


Já não falo em Bolsonaro que quer exterminar os livros que se lêem nas escolas, não só porque os considera “lixo” por padecerem “dessa historiazinha da ideologia”, mas porque “são um montão de amontoado de muita coisa escrita”.


Mas que dizer do civilizado Canadá, onde comissões escolares proíbem que nos livros figurem palavras como “índio” e “esquimó” e fazem queimas de livros tão perigosos e subversivos como os que ostentam personagens como Asterix, Tintin, Pocahontas, e Lucky Luke? Claro que como os purificadores são pessoas de bem, as cinzas dessas queimas são usadas para adubar árvores (não estou a inventar).


Hong Kong e a China em geral procedem a uma limpeza de manuais e livros estrangeiros – alguns de autores tão perigosos como Homero e Sharespeare – que podem ameaçar a segurança nacional ou corromper “com literacias de outras nações” o espírito delicado dos seus jovens. O Reino Unido, não se ficando para trás, baniu das suas escolas todos os livros que promovam o fim do capitalismo.


Pelo Brasil, os censores literários vêm de todos os lados. E é ver académicas questionar livros de Eça de Queirós – o Eça leva sempre. Serão “Os Maias” racistas? – perguntam. E mais: nesse romance, Eça “desumaniza “as suas personagens femininas, comparando-as com animais e plantas, numa torpe prática literária animista. De modo que já sabeis: nem personificar nem animalizar. Não mais direis que aquela ginasta tem a flexibilidade de um junco, que aqueloutra é rápida como uma gazela nas pistas, voa como uma águia no triplo salto ou é uma leoa no judo. Logo alguém vos repreenderá por diminuir as personagens animalizando-as, e outro alguém vos acusará de ofensa aos animais personificando-os. Com os inquisidores, não há saída.


E pelas Américas do Norte? Aí, é um fartote. Pobre Mark Twain, que vê o seu “As Aventuras de Huckleberry Finn” reescrito e expurgado das palavras consideradas inconvenientes, como, por exemplo, “negro” (nigger) e índio (injun) agora substituídas por “slave” e “indian”, consideradas mais convenientes. E, como sabemos, nem Harper Lee o excelente “Mataram a Cotovia” se salvaram, sendo considerada uma obra muito problemática, onde ocorre 40 vezes a palavra “nigger” e, além disso, dá demasiada importância à personagem do “salvador branco”. Branco, vejam bem!


E as personagens? Que fazer delas? Como poremos a falar o patife escravocrata, o latifundiário dos campos de algodão, quando se referir aos seus…bem…escravos (com vossa licença). Já estou a imaginá-lo a falar ao povo:


“Os meus afro-americanos e afro-americanas colaboradores e colaboradoras, de minha propriedade à face da lei e de Deus, que trato com paternal desvelo, tanto são recompensados nas raríssimas ocasiões em que o merecem, como pedagogicamente punidos – com muita pena minha, doí-me mais a mim que a eles – num encontro dialéctico entre o chicote e as suas costas, sendo o castigo mediado pelo meu caucasiano capataz…” – e por aí fora.


É isto. Já tínhamos os terraplanistas, agora temos os linguaplanistas. Escondam os vossos livros nas versões originais, meus irmãos, que após o extermínio das palavras, dos sentidos, da criação, pode vir o dos próprios livros (e, ensina a História, o dos autores e, até, dos leitores). Bradbury já nos ensinou a temperatura: Fahrenheit 451.


Em verdade vos digo: estamos tramados.


(Texto motivado por um artigo publicado na revista Somos Livros (Bertrand) da autoria de Marisa Sousa.)

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Redes sociais e linguagem no discurso político

Liberdade de expressão.png


Há quem escreva artigos de opinião, mais ou menos polémicos, conceptuais e filosóficos que pretendem mostrar e evidenciar conhecimento pleno e absoluto das problemáticas que as redes sociais levantam. Divagam e divulgam numa escrita erudita dirigida aos da mesma tribo de intelectuais depois, outros, inserem no espaço online comentários mais ou menos elevados à categoria do incompreensível.


Fora do domínio da escrita que o rigor científico exige nos comentários prefiro utilizar uma linguagem acessível a maiorias de leitores de modo a ser compreendido mesmo por iletrados, e sem palavras de jornalista emproado e sabedor de tudo.


Quado se escreve um artigo de opinião há sempre quem concorde e quem discorde. Note-se, todavia, que, nem quem escreve nem quem comenta são donos da verdade, nem se pense que conseguem alguma vez converter-se mutuamente aos seus pontos de vista. Em janeiro de 2018 coloquei neste mesmo blog algo relacionado com este ponto de vista.


Sobre as redes sociais, tecnologia com que Pacheco Pereira, como muitos outros, parece não conviver bem, escreveu um artigo de opinião no jornal Público que merece ser lido e que, por isso, dada a liberdade de expressão também está sujeito a comentários. Foram vários os comentários ao artigo de opinião escritos com grandes tiradas, algumas até despropositadas para o tema, onde se brandem espadeiradas afastadas do objetivo do artigo. Alguns desses comentários, embora válidos, manifestam várias e possíveis interpretações, carecem de fundamentação e revelam mais emoção do que razão.


O dr. Pacheco Pereira, pessoa que admiro e considero enquanto intelectual e comentador, acha que as redes sociais são perversas e que são “formas de activismo simplista e grosseiro que o radicalismo “social” e político provoca nos nossos dias”.


A linguagem utilizada por quem frequenta as redes sociais é, a maior parte das vezes, exacerbada, não intelectualizada, não refletida; é sentida, irresponsável, espontânea. As redes sociais são frequentadas por um conjunto heterogéneo gente que vai desde a populaça ululante, tal qual uma manifestação de rua anti qualquer coisa onde os participantes apresentam cartazes insultuosos contra alguém ou alguma coisa, estes, felizmente uma minoria, até intelectuais bem-falantes, políticos, jornalistas, professores, comentadores, escritores, cientistas, pessoas não eruditas mas bem-intencionadas e muitos outros.


A linguagem dos que frequentam as redes sociais é, como diz Pacheco Pereira, primitiva onde surge uma “mão-cheia de “seguidores” que propagam e “amplificam todo o estilo de ataques, insultos e afirmações de má-fé que acabam por ter uma circulação em que o testemunho directo é substituído pelos comentários dos comentários dos comentários”.


Insurge-se Pacheco Pereira com o que se escreve nas redes sociais, e com alguma razão, mas a tecnologia das redes sociais e dos blogs apareceram muito depois do aparecimento da rede, vulgo internet, que possibilitou a qualquer cidadão ser também um potencial produtor de informação, (falsa ou não), para além de mero consumidor que lhe chegava unilateralmente apenas pelos clássicos órgãos de comunicação social imprensa, rádio, televisão. Pagando o aluguer de um espaço num qualquer servidor podia, desde logo, formatar uma página e colocar o lá que bem entendesse. Aceder à “fala” pública deixou de ser possível apenas a alguns “eleitos” para passar a ser aberta a todos.


O problema agravou-se com o surgir das redes sociais, com a sua miríade de interações, onde se angariam amigos, sejam eles quem forem, a maior parte das vezes aleatoriamente, e com o acesso a blogs, onde se publicam emoções e sentimentos sinceros ou inventados, opiniões e nuvens de perceções, manipulação de notícias e de factos forjados, e outros escritos não fundamentados. O livre acesso e direito a publicar na rede foi uma mágoa que se entranhou em muitos que consideram que tudo quanto se escreve nas redes sociais são heresias.


Quem frequenta as redes sociais deve estar informado sobre os seus conteúdos daí que tem de ser capaz de distinguir o trigo do joio, o que só se consegue com treino aturado ao longo do tempo. A leitura de comentários nas redes sociais e nos artigos de opinião exige treino para quem costuma ferver em pouca água.


Nesta amálgama de comentários que aparecem nas redes sociais, blogs e afins, alguns com uma linguagem de falsa neutralidade, acusa-se, condena-se, julga-se, injuria-se, ofende-se, destroem-se imagens, fazem-se autos de fé, e se manipula informação e deturpam factos, surgem também os inquisidores e os falsos moralistas que não aconselham, não sugerem, mas criticam, repreendem, ameaçam… Outros utilizam palavras acaloradas, menosprezo e desrespeito pela posição do outro, feito de forma muito fria e educada mas não menos ofensiva, com defesas e ataques de parte a parte conduzindo ao confronto de pontos de vista que, longe de permitir o enriquecimento de cada um ou de possibilitar uma posição de consenso, apenas redunda em desconforto, ou a ideias mais extremadas e repisadas pelo confronto.


Para mim o problema não está na linguagem utilizada por esses ululantes da escrita de comentários porque esse tipo de linguagem ouvimo-la ao virar da esquina duma qualquer rua ou café frequentados por jovens e adultos. O problema é, e Pacheco Pereira salienta-o, a repetição por ditos seguidores que propagam e repete até à exaustão “afirmações e opiniões grosseiras, falsidades, deturpações, que, não sendo verdadeiras, acabam por ganhar um estatuto competitivo com a verdade”. É neste ponto que reside o problema e o perigo que não se resolve nem evita com mediações ou verificações por uma espécie de “validadores” de comentários que podem vir a ser alcunhados de censores, ou como lhes queiramos chamar, que não validariam a veracidade ou a falsidade do que é escrito nem tão pouco as fontes, mas apenas e só a linguagem. Seria bom que estes inquisidores se limitassem apenas a questões de linguagem, mas vão mais fundo, pretendem silenciar o pensamento de outros. É aqui que para mim se deve centrar a discussão.


A linguagem não é neutra, ela está relacionada com fenómenos comunicativos e tem a capacidade que possuímos para expressar pensamentos, ideias, opiniões e sentimentos, estimula comportamentos e atitudes e pode moldar convicções. Um dos problemas da linguagem é as palavras terem tantos significados - e tão diferentes.


A maior parte das vezes são as emoções e os sentimentos, contra ou a favor de algo, que geram uma linguagem utilizada por quem não tem argumentos e, por isso, os que escrevem e insistem em utilizar uma linguagem insidiosa, frases caracterizadas pelo exagero e tentam distorcer a realidade acabam sempre por ficar expostos à rejeição e ao voto ao desprezo pelos seus pares, e por outros. O reforço desta rejeição pode ser promovido pelo debate livre e aberto das ideias por argumentos e contra-argumentos refutando e pondo a descoberto o que for torpe. É nisto que se baseia a liberdade de imprensa que deve ser de liberdade absoluta para a linguagem. Todavia, como a liberdade de expressão de pensamento absoluta é uma utopia, para tal deveria ser universal, restrinjo a linguagem do calão grosseiro, sem conteúdo sustentável, utilizado apenas e para o ataque pessoal, político e religioso nem tão pouco manifestações racistas e xenófobas de extremistas de cabeças rapadas e ocas.


A manipulação de informação não existe apenas nas redes sociais ela também existe, embora de forma subtil, nos clássicos órgãos de comunicação social. Veja-se os títulos dos jornais que por vezes levam a falsas interpretações para quem não lê própria notícia.


Como anteriormente referi, há quem, mergulhado em preconceitos e conservadorismo do passado, advogue uma espécie de verificação prévia, nova fórmula light para censura, para o que se escreve nos comentários das redes sociais e noutros sítios, mas, neste caso, estou parcialmente de acordo com Pedro Norton quando escreveu na revista Visão que “se eu tivesse de escolher um mundo de censores sem insultos ou um mundo de insultos sem censores, eu não vacilaria um instante em preferir o último. Prefiro, sem sombra para qualquer dúvida, ser exposto a ideias e a palavras ofensivas e pre-conceituosas permanecendo livre para rebatê-las do que ser obrigado a prescindir da minha liberdade para ser defendido pelo poder sem freios de censores iluminados”.


A este ponto de vista que me parece ser mais ideológico do que realista acrescento que, apesar de tudo, não nos podemos esquecer de que a liberdade de expressão de pensamento não pode ser absoluta, sem regra nem lei, onde os insultos e puro calão asneirento são correntes, sobretudo quando em conflito com os invioláveis princípios e direitos relativos à imagem e ao bom nome. A publicação de matéria dita jornalística de opinião ou outra tem de respeitar a veracidade dos factos que relata não podendo extrair conclusões acerca da conduta das pessoas nela mencionadas ou incitações à violência e dignidade da pessoa humana tais como racismo, nazismo e outras formas de segregação e violência religiosa, política ou étnica.


Quando se fala em manipulação de informação e de difusão de notícias falsas (fake news) há vários exemplos que mostram que se generalizou e, até personalidades em altos cargos nos estados utilizam as redes sociais para fazer política através de mensagens frequentemente falsas, sendo o presidente dos EUA, Donald Trump, o exemplo mais paradigmático. Trump já fez nos seus tweets várias declarações falsas, mentiras por omissão, falsificações de verdades que funcionam para desvalorizar e ignorar a realidade de facto. Mas os que o apoiam não se importam e a outros parece não lhes interessar fazer desmentidos utilizando a própria verdade. À tribo que elegeu acriticamente Trump não lhe interessa a verdade e assimila sem intermediação o que ele lhes diz. Quando Trump afirma que o facto A não é verdade, sendo-o de facto, os seus apoiantes entram em coro a dizer que estão a conspirar contra ele e forjam e divulgam notícias falsas que possam comprovar o que ele disse. Trump percebe isso e usa o Twitter para comunicar “directamente” com a sua “base” sem intermediação. Como ninguém vai verificar a veracidade ou falsidade do que foi dito ou escrito, e é gratificante para os seus apoiantes, está lançada a replicação através da rede chegando até aos seus opositores que as aceitam sem se questionarem sobre a sua veracidade.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

25 de Abril a minha homenagem

A minha pequena homenagem através de imagens


Um breve resumo do 25 de Abril de 1974 


 



 


 



 


 



 



25 de Abril antecedentes


Documentário RTP 1 e 2



 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Prática política insana

Marco António_2.jpg


Depois da apresentação pelo Partido Socialista do documento para a década elaborado por um conjunto de economistas das mais variadas áreas e tendências políticas a coligação PSD/CDS no Governo, em especial o PSD, em aberta campanha eleitoral parece ter entrado num círculo (ou será circo?) de insanidade política.


Primeiro foi o caso do projeto da validação prévia do acompanhamento e programação da campanha eleitoral pelos órgãos de comunicação social, apresentado pelo PSD, CDS e pela deputada socialista Inês de Medeiros que mais pareceu ir a reboque dos outros dois acabando todos por cavar a sepultura do projeto.


Agora é essa voz da demagogia do PSD, Marco António Costa, com mostras de fã de partido único, quer transformar órgãos independentes do Parlamento numa espécie de órgãos de exame prévio aos programas e propostas apresentadas pelos partidos políticos (será só de alguns?).


Quer o PSD goste ou não, as coisas têm que ser chamadas pelos seus nomes. Ao que chamam escrutínio de documentos não é mais do que um exame prévio mas sem lápis azul. Quem tem que escrutinar os programas e os projetos dos partidos são os eleitores e mais ninguém. O que Marco António quer é música para desviar o debate sério e disfarçar a fraqueza e a indigência das propostas do seu partido e do Governo.


A proposta de marco António é como a dum mau aluno e mal comportado que pretende boicotar e desautorizar o professor que tinha marcado um teste para determinado dia e diz que tem dúvidas porque a matéria não foi toda dada. Pede então ao professor para haver uma aula prévia para dúvidas e assim adiar o teste e confundir os outros alunos. Alinhavou à pressa uma série de perguntas para levar para a aula esperando que lhe caiam de mão beijada algumas das respostas para depois as escarrapachar no teste.


A iniciativa duma proposta como esta é a evidência da insanidade política que prolifera nas hostes do PSD e do Governo cuja patologia está relacionada com o stress, o mau estar e a desorientação que lhe causou o relatório apresentado pelo Partido Socialista.


A abertura duma porta como a que Marco António e o PSD pretendem abrir passaria a instrumentalizar partidariamente um órgão independente como a UTAO - Unidade Técnica de Apoio ao Orçamento que se pretende seja autónomo face aos partidos.


Isto é, um partido que apresentasse ao país um programa económico na sua campanha eleitoral teria que o submeter a uma avaliação prévia. Marco António pretende abrir caminho para uma censura prévia encapotada aos programas e propostas partidárias.


No limite, a ideia estereotipada dum órgão independente passar levaria a impossibilitar ou não, que um programa de um qualquer partido que não agradasse ao poder pudesse ser invalidado. A partir daí poderia ficar fora da corrida eleitoral e tudo seria possível.


Deixem-se de tretas, visões distorcidas e artimanhas de baixo nível e debatam o documento mas com pés e cabeça.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Liberdade de imprensa

A comunicação social é muito importante para uma democracia. Alguns jornais e jornalistas estão a ser alvo de uma manobra para calar vozes que informam aquilo que deve ser conhecido pela opinião pública. Se não fosse a imprensa e todos os jornalistas que nela trabalham nunca teríamos conhecimento de muitas coisas que se passam em Portugal.


Várias tentativas têm sido feitas para calar consciência pelos governos dos últimos anos, mas nunca como agora. A liberdade de informação pode estar em risco.


O objetivo é calar as vozes que têm feito com que determinadas situações sejam divulgadas e que apenas sabemos pela comunicação social. Todos sabem com certeza quais são essas situações.


A última é a venda de vários jornais a um grupo angolano, país que, como sabem, não prima pela liberdade de imprensa e o despedimento de alguns jornalistas do Jornal Público, de entre os quais alguns denunciaram situações, que alguns políticos que têm telhados de vidro não gostaram.    


Os mais jovens nunca souberam o que é viver num regime de imprensa controlada e censurada. A censura que, na ditadura do Estado Novo se denominada revisão prévia acabou, mas há atualmente outras formas de censura mais subtis como, por exemplo, pressões diretas ou indiretas sobre jornalistas, diretores de jornais e direções de informação.  


Se alguns jornais, como dizem, estão a dar prejuízo, porque é que há grupos que os querem comprar? Não há coincidências em política!


Devemos, por qualquer forma ou meio, estar solidários com os jornalistas que têm ao longo dos anos contribuído para que todos nós saibamos o que se passa em Portugal. O monolitismo jornalístico e informativo e o controle da comunicação pelos governos, não é opção. Passaríamos a conhecer apenas a versão que lhes interessasse quando estivessem no poder. Para onde estamos a caminhar? Sem informação plural não pode haver democracia.

Liberdade de imprensa

A comunicação social é muito importante para uma democracia. Alguns jornais e jornalistas estão a ser alvo de uma manobra para calar vozes que informam aquilo que deve ser conhecido pela opinião pública. Se não fosse a imprensa e todos os jornalistas que nela trabalham nunca teríamos conhecimento de muitas coisas que se passam em Portugal.


Várias tentativas têm sido feitas para calar consciência pelos governos dos últimos anos, mas nunca como agora. A liberdade de informação pode estar em risco.


O objetivo é calar as vozes que têm feito com que determinadas situações sejam divulgadas e que apenas sabemos pela comunicação social. Todos sabem com certeza quais são essas situações.


A última é a venda de vários jornais a um grupo angolano, país que, como sabem, não prima pela liberdade de imprensa e o despedimento de alguns jornalistas do Jornal Público, de entre os quais alguns denunciaram situações, que alguns políticos que têm telhados de vidro não gostaram.    


Os mais jovens nunca souberam o que é viver num regime de imprensa controlada e censurada. A censura que, na ditadura do Estado Novo se denominada revisão prévia acabou, mas há atualmente outras formas de censura mais subtis como, por exemplo, pressões diretas ou indiretas sobre jornalistas, diretores de jornais e direções de informação.  


Se alguns jornais, como dizem, estão a dar prejuízo, porque é que há grupos que os querem comprar? Não há coincidências em política!


Devemos, por qualquer forma ou meio, estar solidários com os jornalistas que têm ao longo dos anos contribuído para que todos nós saibamos o que se passa em Portugal. O monolitismo jornalístico e informativo e o controle da comunicação pelos governos, não é opção. Passaríamos a conhecer apenas a versão que lhes interessasse quando estivessem no poder. Para onde estamos a caminhar? Sem informação plural não pode haver democracia.