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quinta-feira, 20 de março de 2025

Trump e o controle sobre a liberdade de imprensa

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Em todo o mundo extremas-direita, direitas radicais, autocracias ou outros modelos ditatoriais rejubilam com Trump no poder nos EUA. Há uma reciprocidade neste jubilo estes vêm-no como exemplo a seguir e Trump pretende pertencer a esse grupo.  Quanto aos plutocratas não precisam estar necessariamente dentro do governo para exercer o poder. Praticam-no por meio de grupos de pressão, garantindo leis favoráveis aos seus negócios e prejudiciais a outras pessoas tais como concentração de poder, leis que não protegem o trabalhador, violência ou leis coercivas para garantir o uso do território para determinadas empresas.


O que Trump tem vindo a fazer com as suas ordens executivas é colocar em causa a democracia dos EUA que era vista como um exemplo da democracia para o mundo e contra países com regimes ditatoriais, autocratas, sem esquecermos que, no passado, tiveram um contributo para o derrube de governos que não tivessem assentimento pelo regime americano.


As medidas executivas de Trump, para além de colocarem em causa o regime democrático americano, aproximam-se de pontos de vista ideológico e de atuação das ditaduras, autocracias, plutocracias e, algumas delas, próximo nazismo.


Um artigo publicado hoje no jornal Público relata que tem havido ameaças a juízes. Escreve que: “Confrontado com um número crescente de reveses e entraves à sua Administração nos tribunais, o Presidente norte-americano, Donald Trump, subiu esta semana o tom das suas críticas ao poder judicial, apelando ao Congresso para depor o juiz que decretou a suspensão da deportação de cidadãos estrangeiros à luz de uma lei do século XVIII, o Alien Enemies Act”. Não sei os que pensam disto os senhores apoiantes de Trump e também o partido CHEGA.


Se visitarmos a imprensa online dos EUA, alguns até próximos do Partido Republicano, verificamos que têm vindo a crescer críticas à atuação da presidência Trump conhecida como versão 2.0.


Donald Trump tem uma visão enraizada de que a comunicação social nos EUA é “verdadeiramente inimiga do povo” e que, por isso, deve ser substituída por fontes de informação alinhadas com as suas opiniões pessoais e sob o seu controle dos seus aliados. Disse-o em novembro de 2022, já depois de terminado o seu primeiro mandato.


A censura aos media tem sido um dos seus objetivos. No início de janeiro, por exemplo, a cartunista vencedora do Prémio Pulitzer Ann Telnaes renunciou ao seu cargo de longa data no Washington Post depois que o seu cartum de Bezos, (Jeff Bezos é o empresário fundador da Amazon e dono do The Washington Post), e de outros multimilionários da tecnologia subservientes a Trump foi retirado pelo jornal antes da publicação (ver imagem abaixo).


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Um colaborador freelance do jornal LA Times disse que um seu artigo foi alterado minutos antes da publicação para deturpar as suas opiniões sobre o perigo de Robert F. Kennedy Jr. para liderar o Departamento de Saúde.


É possível que nenhuma dessas decisões reflita a censura do governo, contudo, a censura direta não é a única maneira de minar a imprensa livre. Criar um ambiente no qual os órgãos de comunicação social comecem a fazer autocensura a opiniões sobre os que detêm o poder é uma maneira menos complicada de alcançar o mesmo resultado.


Têm sido significativas as críticas nos meios de comunicação social norte-americanos às ações da atual Presidência dos EUA sobre a liberdade de expressão e o excesso da atuação governamental. Uma preocupação recorrente é a suposta pressão do governo sobre as plataformas das redes sociais para suprimir conteúdo rotulado considerado como desinformação. Os críticos argumentam que esta abordagem infringe os direitos constitucionais visto que esbate a linha que separa o combate aos conteúdos nocivos e a restrição da liberdade de expressão.


Alguns meios de comunicação têm destacado os esforços do governo para regular o discurso online. Sugerem que essas medidas poderão estabelecer um precedente perigoso para o envolvimento do governo nas plataformas privadas. Isto tem gerado debates sobre a questão da garantia da segurança pública como justificação e a preservação das liberdades individuais.


Tudo isto reflete preocupações sobre o papel do governo na formação do discurso público e as potenciais implicações para os princípios democráticos. Além disso, críticos apontam para a intromissão em decisões privadas e apontam para haver um debate sobre o equilíbrio entre a justificação para o combate à desinformação como pretexto e a proteção da liberdade de expressão.


Críticas dos meios de comunicação norte-americanos às ações da atual presidência em matéria de palavras proibidas e remoção de documentos têm sido várias. Relatórios sugerem que agências federais estão a ser orientadas para eliminar dos documentos e sites oficiais certos termos considerados “woke”[i], como “diversidade”, “equidade” e até “mulheres”. O argumento parte do pressuposto de que este tipo de decisões mina a inclusão e a transparência, com alguns rotulando-o como uma tentativa de remodelar o discurso público para se alinhar com visões ideológicas específicas de Trump, e sugerem que são próximas das ditaduras. Estas medidas têm sido descritas como contraditórias entre o compromisso declarado sobre a liberdade de expressão e o equilíbrio que deve existir entre a aplicação de políticas e os princípios democráticos, o que tem originado discussão sobre o tema em vários artigos.


Os EUA que se afirmavam como os grandes defensores da liberdade, criticados pelos extremistas de esquerda, e se apresentavam como sendo o braço das democracias liberais do ocidente estão a caminhar e a aproximarem-se de ditaduras que parece estar a proliferar pelo mundo.


 


[i] «Sinónimo de políticas liberais ou de esquerda, que defendem temas como igualdade racial e social, feminismo, o movimento LGBTQIA+, o uso de pronomes de género neutro, o multiculturalismo, a vacinação, o ativismo ecológico e o direito ao aborto.

quarta-feira, 6 de março de 2024

Memórias do esquecimento

 


Jornais_memórias.png


A direita, de vez em quando, recua ao passado para atacar o PS, mas, ao mesmo tempo, Montenegro diz que Pedro Nuno está sempre a lembrar o passado do PSD e da PàF (a versão 1.0 da AD) com que Montenegro diz querer reconciliar os portugueses tentando varrer o passado da memória dos portugueses.

Em baixo seguem as Aventuras e as Desventuras do PSD/AD (versão 1.1) para que Montenegro bem se recorde:

 


Público — Jan 2023


Montenegro fez dez contratos por ajuste direto com as câmaras de Espinho e Vagos


Entre Fevereiro de 2014 e Janeiro de 2022, a sociedade de advogados de que o presidente do PSD era sócio faturou


679 mil euros em contratos com entidades públicas.


https://www.publico.pt/2023/01/11/politica/noticia/montenegro-fez-10-contratos-ajuste-directo-camaras-espinho-vagos-2034584

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Diário de Notícias


O Banco Português de Fomento (BPF) contratou a empresa de Luís Montenegro por ajuste direto. Segundo


a SIC, "a instituição pública adjudicou serviços no valor de 100 mil euros” à sociedade que é detida pelo atual


candidato à liderança do PSD.


https://www.dn.pt/dinheiro/banco-de-fomento-contratou-empresa-de-luis-montenegro-por-ajuste-direto-14875668.html/


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Observador Jan 2019


A revista Sábado escreve que Luís Montenegro ésuspeito de ter falsificado documentos que serviam de


prova à forma como pagou — e quando pagou — as viagens que fez a França para assistir a jogos do Europeu de Futebol de 2016.


https://observador.pt/2019/01/16/galpgate-luis-montenegro-suspeito-de-falsificacao/


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Expresso


Uma testemunha revelou hoje em tribunal que Oliveira e Costa vendeu, em 2001, a Cavaco Silva e à sua filha 250


mil ações da Sociedade Lusa de Negócios, a um euro cada, quando antes as adquiriu a 2,10 euros cada à offshore Merfield.


https://expresso.pt/economia/bpn-oliveira-costa-vendeu-a-cavaco-e-filha-250-mil-acoes-da-sln=f643506


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Expresso


A passagem de Cavaco Silva pela Sociedade Lusa de Negócios (SLN), como acionista, foi lucrativa. O Presidente da República (PR) vendeu em Novembro de 2003 as 105.378 ações que tinha da SLN - empresa que até Novembro controlou o Banco Português de Negócios (BPN) -, por 2,4 euros cada. Tendo em conta que as tinha comprado em 2001 por um euro, Cavaco obteve, com este negócio, ganhos de 147,5 mil euros.


https://expresso.pt/economia/cavaco-ganhou-147-mil-euros-com-acoes-da-sln=f517787


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Correio da Manhã


Justiça investiga venda do Pavilhão Atlântico a genro de Cavaco Silva. Suspeitas de favorecimento a Luis Montez com o conluio de Ricardo Salgado e Zeinal Bava.


16 de Fevereiro de 2019


O negócio da venda do Pavilhão Atlântico (PA), em Lisboa, a Luis Montez, dono da Música no Coração e genro de Cavaco Silva, está a ser investigado pela Justiça por suspeitas de favorecimento.


O equipamento, que custou ao Estado cerca de 50 milhões de euros, foi vendido ao consórcio Arena Atlântico por


21,2 milhoes em 2012. O governo PSD-CDS optou por negocliação particular em vez de concurso público, num


processo quase secreto.


https://www.cmjornal.pt/cultura/detalhe/justica-investiga-venda-do-pavilhao-atlantico-a-genro-de-cavaco-silva


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Expresso


De acordo com o relatório do gabinete antifraude da Comissão Europela, “o montante a recuperar" pelas Instituições — europeias, devido às irregularidades detetadas na Tecnoforma, ascende a 6.747.462 euros Uma investigação levada a cabo pelo gabinete antifraude da Comissão Europeia (OLAF) chegou a conclusões muitos diferentes das do Ministério Público no casoTecnoforma, empresa onde Pedro Passos Coelho foi consultor e administrador, avança o “Público” esta segunda-feira.


https://expresso.pt/revista-de-imprensa/2017-11-13-Tecnoforma.-Bruxelas-contraria-decisao-do-Ministerio-Publico-e-diz-que-houve-fraude


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Jornal de Notícias


De acordo com documentos publicados pelo jornal "Público", Pedro Passos Coelho pediu a atribuição do subsídio de reintegração a 27 de outubro de 1999, já depois de terminada a legislatura, ao contrário do que era habitual. Num outro documento, datado de 17 de Fevereiro de 2000, Pedro Passos Coelho informa que desempenhou "as funçoes de deputado da VI e VII Legislaturas, em função de exclusividade”.


Os serviços da Assembleia da República registaram, a 15 de março de 2000, "que Passos Coelho não tinha enviado


as declarações de IRS referentes ao período 1995-99, que se destinavam a comprovar que não tinha auferido rendimentos — incompatíveis com o regime de exclusividade - entre 1991 e 1995 o subsídio não dependia


desse regime", escreve o “Público”.


https://www.jn.pt/i/4144827.html/passos-assinou-documento-a-declarar-exclusividade-para-receber-subsidio-4144435.html/


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 Expresso


Maria Luís Albuquerque vai ganhar cerca de 5000 mil euros por mês no novo cargo como administradora não-executiva na Arrow Global. E a este valor vai somar osalário de deputada.


A Arrow Global foi uma das empresas que comprou dívida do Banif, banco cuja situação Maria Luís Albuquerque adiou a resolução, enquanto esteve no poder. Na semana passada, a notícia da contratação gerou de imediato uma forte polémica


https://expresso.pt/politica/2016-03-07-Maria-Luis-e-mais-38-deputados-tem-rendimentos-extra


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Expresso


Eduardo Catroga deverá receber cerca de 639 mil euros por ano, enquanto presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP.


O economista Eduardo Catroga vai ganhar um salário de 45 mil euros/mês, ou seja, mais de 639 mil euros anuais,


enquanto presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP, avança o Correio da Manha."


Catroga acumulará este salário com uma pensão de 9.600 euros.


O PS considerou que há um "conflito ético" na nomeação de Eduardo Catroga na EDP, uma vez que esteve


envolvido nas negociações com a trolka, que resultaram na privatização da empresa.


O ex-ministro social-democrata deverá ser eleito Presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP na


assembleia geral da EDP, agendada para 20 de fevereiro.


https://expresso.pt/economia/catroga-vai-ganhar-836445-mil-por-mes=f698789


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Observador


Junho de 2018


Fundo de Pires de Lima e Sérgio Monteiro entra na compra das torres da Altice em Portugal


Fundo criado por Pires de Lima e Sérgio Monteiro está associado ao consórcio da Morgan Stanley que chegou a


acordo para comprar torres de telecomunicações da Altice. Operação avaliada em 495 milhões.


https://observador.pt/2018/06/20/fundo-de-pires-de-lima-e-sergio-monteiro-entra-na-compra-das-torres-da-altice-em-portugal/


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ECO


outubro 2019


Álvaro Covões e o fundo Horizon de Pires de Lima e Sérgio Monteiro compram o Campo Pequeno


O negócio deverá ser anunciado nos próximos dias. O empresário Álvaro Covões e o fundo Horizon, de Pires de


Lima e Sérgio Monteiro, ganharam o concurso do Campo Pequeno e só falta a assinatura.


https://eco.sapo.pt/2019/10/25/alvaro-covoes-pires-de-lima-e-sergio-monteiro-compram-campo-pequeno/


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Diário de Notícias


Fevereiro 2017


Um grupo de funcionários das instituições europeias anunciou esta segunda-feira ter apresentado uma queixa


contra a Comissão Europeia devido à passividade com que foi encarada a ida para a Goldman Sachs do antigo


presidente, o português José Manuel Durão Barroso.


Segundo o Le FIgaro, que cita um comunicado enviado pelo coletivo, o grupo autointitulado "EU employees" -


funcionários da União Europeia em português - apresentou queixa Junto do mediador europeu, uma instância Independente encarregada de conduzir os Inquéritos nos casos de administração dolosa no seio das Instituições da União Europeia.


https://www.dn.pt/mundo/interior/funcionarios-da-ue-apresentam-queixa-contra-a-comissao-europeia-por-causa-de-durao-barroso-5664288.html/


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RTP


Durão Barroso deixou a Comissão Europeia em outubro de 2014, sendo substituído por Jean-Claude Juncker. Em


julho, foi tornado público que o ex-primeiro-ministro seria presidente não-executivo do Goldman Sachs Internacional, com o dossier da saída britânica da União Europeia.


https://www.rtp.pt/noticias/politica/barroso-goldman-sachs-e-portas-giratorias-no-parlamento-europeu_n963241


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Diário de Notícias


Fevereiro 2018


"Desde que está connosco [Durão Barroso] sempre se recusou a representar a empresa em quaisquer Interações com responsáveis da União Europela, garante o banco, acrescentando que 'qualsquer reuniões desse tipo estão relacionadas com a sua competência pessoal construída ao longo da sua carreira de serviço público”, avança ainda o Goldman Sachs.


https://www.dn.pt/mundo/goldman-sachs-garante-que-barroso-nao-estava-a-representar-o-banco-junto-da-ue-9132976.html/


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Revista Sábado


Saco azul do BES também financiou Cavaco Silva António José Vilela, Carlos Rodrigues Lima.


04 de julho de 2019


Nas Presidenciais de 2011, Ricardo Salgado e outros elementos do Espírito Santo fizeram donativos para Cavaco Silva, num total de 253 mil euros. Mas acabaram reembolsados pela ES Enterprises


https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/saco-azul-do-bes-tambem-financiou-cavaco-silva


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Expresso


Julho 2022


Antes da queda do BES, Cavaco disse que “portugueses” podiam “confiar no banco”: os acionistas fizeram queixa,


o MP arquivou-a.


https://expresso.pt/economia/2022-07-28-Antes-da-queda-do-BES-Cavaco-disse-que-portugueses-podiam-confiar-no-banco-os-acionistas-fizeram-queixa-o-MP-arquivou-a-20685737


 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Jornalismo sem jornalistas ou a extinção dos media

Media crise.png


É verdade que muitos, eu incluído, dizemos mal de jornalistas e dos media, mas sem eles não há democracia real. Que os media não devem estar dependentes de foças partidárias, empresas com interesses que não a informação e de ajudas estatais está muito enraizado entre muito, se não na maioria onde também me incluo.


A liberdade de imprensa é um pilar fundamental das sociedades democráticas que permite aos jornalistas informar o público sobre questões políticas, sociais e económicas, sem medo de represálias nem de censura.


O caso da Global Media detentora da TSF, Diário de Notícias e Jornal de Notícias e Jogo é o manifesto da crise em que se encontra a comunicação social em Portugal sobretudo a imprensa.


Numa democracia onde se pretende que prevaleça a liberdade de imprensa será difícil tomar decisões, mesmo que temporárias, para salvar os postos de trabalho e evitar a rarefação de órgãos de comunicação. Qualquer decisão de compra ou inclusão por outra empresa pode conduzir a uma maior concentração de media nas mãos dos que olham com ganância, e finalidades mais ou menos de cariz político e ideológico. Mas que decisões se podem tomar em casos desta natureza numa economia que pretendemos que seja democrática e liberal?


A concorrência entre empresas detentoras de órgãos de comunicação, imprensa, radio e televisão é feroz pela captação de audiências para atrair publicidade, especialmente nos casos dos canais de televisão e de rádio. Na imprensa é a competição por assinaturas, sejam elas em papel ou online.


Li dois artigos de opinião escritos por pessoas que respeito pelo seu perfil sobre o caso da Global Media. O primeiro foi o de Pedro Norton que fez parte do grupo Impresa em 1992, como assessor do presidente do conselho de administração da Controljornal e, a 1 de outubro de 2012, substituiu Francisco Pinto Balsemão como presidente executivo, cargo no qual se manteve até 2016. O segundo foi o de Ana Sá Lopes que em 2018 foi diretora-adjunta do PÚBLICO. Com a remodelação da direção editorial do mesmo jornal passou a redatora principal em setembro deste ano. Se do primeiro é da área do centro, talvez, PSD, da segunda desconheço a sua orientação ideológica ou partidária, mas para o caso o que interessa são as suas opiniões sobre os problemas gerados pela Global Média que está a causar danos ao jornalismo e aos jornalistas.


Com o que Pedro Norton escreve no seu artigo em parte coincide com o meu ponto de vista. Escreveu ele que “O jornalismo deixou de ser um negócio e isso é uma péssima notícia, o jornalismo deixou de ser um negócio sustentável. E sem modelo de negócio não é possível garantir a existência de uma multiplicidade de órgãos de comunicação social capazes de, no seu conjunto, na diversidade das suas saudáveis diferenças editoriais e ideológicas, prover o bem público que é uma Ágora plenamente funcional nas nossas democracias”.


Aqui reside um ponto importante que merecer alguma reflexão visto vivermos numa democracia liberal que alguns das esquerdas mais radicais preferem designar por capitalista.


Nas democracias liberais quando há investimento estes ficam enquadrado no princípio da livre iniciativa e como em qualquer outro negócio o objetivo e o de gerar lucro. Quanto a isso nada há de mal desde que enquadradas nas regras da concorrência, mesmo no que se refere a empresas de comunicação social ditas da área do jornalismo. No caso deste tipo de empresas jornalismo, rádio, televisão, imprensa, há sempre o risco de que a informação produzida, tal como a difusão dela decorrente, poderão tender para um controle da substância ideológica e editorial por parte dos seus investidores e administrações. Contudo, estas estruturas são encaradas como pluralidade dos media, mas face à falta de literacia por parte de grande número do público sobre os media e às agendas políticas das redações podem gerar distorções na informação produzida.


Parece-me que Pedro Norton também é deste ponto de vista pois defende que (sublinhados da minha autoria) “Quem trabalha no mundo dos media sabe bem que não existem fontes de financiamento (públicas ou privadas) que não criem relações de dependência perversa. Sabe também que essas relações são tanto mais perigosas quanto mais dominantes são. E sabe também, por fim, que a mais perversa de todas as dependências, para o efeito do tema que aqui nos ocupa, é o próprio Estado. Não porque seja, ele próprio, inerentemente perverso ou mais maléfico do que os atores privados, mas porque, como é evidente, é muito mais difícil pedir ao ecossistema jornalístico que cumpra a função de escrutinar o poder político se o próprio poder político se transformar no decisor único ou maior sobre o seu financiamento e sobrevivência.”


Para Pedro Norton os media “só conseguem cumprir a sua missão se conseguirem ser independentes e, em particular, se conseguirem ser independentes do Estado”. Este ponto é delicado porque a tutela excessiva do Estado pode levar à censura e à falta de liberdade de imprensa como está a acontecer na Federação Russa com Putin a controlar e a interferir com os media. Mas, a questão que podemos colocar é a de saber se serão também verdadeiramente independentes se forem privados.


O ponto de vista oposto é o de Ana Sá Lopes no seu artigo de opinião que escreveu no Público. Achei estranho o seu ponto de vista sobre a situação da Global Media que, de facto, apesar de estar a prejudicar centenas de jornalistas defende um ponto de vista muito corporativista. Exige ela no seu artigo, se exigir será o verbo adequando, a nacionalização pura e simples de órgãos de comunicação social, tal como o PCP defende a nacionalização dos jornais Diário de Notícias e Jornal de Notícias. Será que o ponto de vista de Ana Sá é apenas sugestão temporária para resolução do problema?


Há quem critica impetuosamente contra “meter dinheiro dos contribuintes (porque não há ouvintes e leitores suficientes) para assim simplesmente se salvarem empregos de jornalistas que, durante anos, contribuíram para a degradação do seu ‘produto jornalístico’ a ponto de hoje ser já um ‘produto comercial’ sem interesse nem préstimo”.


A 3 de maio de 2022 na página do sítio oficial de informação da Presidência da República Portuguesa o presidente recordou que as “grandes dificuldades que os órgãos de comunicação social, sejam eles locais ou nacionais vivem, como seja, na sua capacidade económico-financeira, na precaridade muitas vezes associada à profissão. Acrescentou ainda que as dificuldades pelas quais passam os órgãos de comunicação ao nível financeiro e também no literário é "um dos problemas a que temos vindo a assistir é a substituição da leitura de notícias pelo consumo de conteúdos nas redes sociais". E termina dizendo que "Estes são conteúdos, rápidos, simplistas e condicionados, muitas vezes com informação desvirtuada, sem contraditório ou mesmo falsa".


Propostas com soluções que se esperam dos especialistas nesta área para o problema são escassas ou incompletas e qualquer delas não estarão afastadas de possíveis distorções, mesmo as que Pedro Norton sugere ao escrever que “A alternativa, que precisará sempre de ser amplamente consensualizada, terá assim de passar por formas muito indiretas de apoios, seja removendo obstáculos e custos de contexto, seja criando mecanismos (fiscais ou outros) que incentivem empresas, fundações e cidadãos particulares a consumir, a apoiar e a financiar projetos de media, seja ainda, e crucialmente, separando a função de financiador do Estado da função de decisor da alocação concreta dos fundos que pode e deve ser assegurada pela sociedade civil através de associações, fundações ou até empresas, desde que diversificadas e com estruturas de governação adequadas.”


Em qualquer das soluções apresentadas corre-se o risco de uma corrida de empresas para obterem algumas vantagens, mesmo as que não necessitassem, que se reorganizariam para a obtenção desses fundos e apoios recorrendo a qualquer uma daquelas soluções.  


No atual estado em  que se encontram os meios de comunicação verificam-se casos como o noticiado em maio de uma investigação que deu lugar a  um despacho do Departamento de Investigação e Ação Penal Regional do Porto (DIAPRP),, em que o Ministério Público (MP) diz que o autarca Eduardo Vítor Rodrigues “determinou a outorga pelo Conselho de Administração da GAIURB [empresa municipal], de modo arbitrário, sem qualquer requisição de despesa, manifestação de necessidades ou proposta de contratação de serviços e/ou fornecimentos de bens emanada pelos respetivos serviços, contratos públicos com o Grupo Global Media”. Segundo o jornal ECO, o presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, que por acaso é do Partido Socialista, era assim suspeito de contratar de forma ilegal e arbitrária meios de comunicação do Grupo Global Media para promoção da autarquia e dele próprio.


Segundo o Observador na altura foi emitido um comunicado em que “Os membros eleitos do Conselho de Redação da TSF manifestam, assim, o vivo repúdio pelas acusações de alegado envolvimento da direção editorial e da redação em alegadas operações de promoção de imagem, sublinhando que o trabalho desenvolvido pelos profissionais da TSF é regido sempre pela ética e deontologia do jornalismo”. E mais adiante “Sobre as notícias que têm sido divulgadas sobre o tema, o CR do JN classifica de “noticiário assente numa visão, errónea, de que, de algum modo, um acordo comercial com uma autarquia, legítimo e devidamente registado no Portal BASE, seria uma porta aberta ou uma banca self-service de notícias para algum autarca”.


A democracia não pode viver sem uma comunicação livre e independente e também fora do controle do Estado. No entanto, o aproveitamento de empresas jornalísticas, grosso modo, por possíveis interesses políticos, por vezes até por simpatias partidárias, incluem na sua agenda setting factos que possam induzir na opinião pública proveito ou desagrado em relação a partidos ou governos por vezes apresentados como factos por vezes conjeturados.


Basta estarmos atentos e fazermos leituras dos alinhamentos e dos conteúdos dos jornais dos canais televisivos, sobretudo em épocas pré-eleitorais, para nos apercebermos do marketing por parte das empresas dos media. É uma espécie de jornalismo empenhado na defesa de determinada causa ou ideologia e, por vezes, percebido como declaradamente partidário, fugindo aos princípios éticos da profissão que devem presar objetividade, isenção, clareza, verdade, interesse público. Se assim não for oferecem riscos à própria democracia, isto à parte dos artigos de opinião cujos interesses possam manifestar pontos de vista diversamente ideológicos e por vezes tendencialmente partidários.


Quando o corporativismo jornalístico e os donos de empresas de comunicação se pretendem esquivar a responsabilidades, o culpado, o bode expiatório, é sempre o Estado, ou porque não fez o que devia ter feito, ou porque fez o que não devia ter feito, e quando é assim, normalmente, a oposição de direita coloca-se sempre em ambos os lados ou do que mais lhe interessa.


O que não se pretende de todo é que casos como este ou outros aconteçam.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Intocáveis



Intocaveis.png


Uma comunicação social livre e independente são bases fundamentais para a democracia sem a qual deixaríamos de ter um escrutínio do poder.





De censura nos chegou cinquenta anos de ditadura. Mas a liberdade de expressão que todos queremos manter parece ter-se transformado numa ditadura de outra espécie de polo contrário, isto é, a ditadura da pressão dos órgãos de comunicação social, sobre o poder mesmo sem causa fundamental.



A forma como a comunicação social reage em bloco quando alguém fala mais duro com os senhores jornalistas que se sentem virgens ofendidas conduziu a ser ponto assente para eles reservarem-se o direito de passar a ser ponto assente a procura de pretextos, ou factos, que sirvam para atacar quem lhes causou tal agravo.



Mal-habituados que estão a críticas e porque têm o poder na mão, desencadeiam ações a propósito de pretextos casuísticos para desenvolverem junto das suas redações movimentos que “punam” com severidade na praça pública quem tais pretensas ofensas lhes faça. Quando tal se proporciona entram em ação os “justiceiros” da comunicação social do século XXI apedrejando publicamente os hereges que não se portem na linha.



São os alarmistas da nossa praça. Não há ninguém que lhes toque. Se tal acontecer seja por críticas ou comentários que se lhes façam soltam-se grito de alarme no mercado dos ecrãs televisivos e nas primeiras páginas dos jornais: “Ai que estamos outra vez na censura!”. Chovem então críticas sobre os atrevidos dos políticos tentando por todos os meios ao seu alcance destruí-los na praça pública.



Intocáveis e incorruptíveis, para além do mercado da informação entram também pelo campo da política partidária, sendo brandos com uns e inflexíveis com outros.



 



E com isto vou para Londres que me espera hoje mesmo.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

A eleição de Bolsonaro nas primeiras páginas da imprensa portuguesa

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Quatro dos jornais diários em Portugal salientaram ontem nas suas primeiras páginas a notícia da eleição de Bolsonaro, cada um dando-lhe mais ou menos relevo o que pode mostrar maior ou menor simpatia pelo resultado de acordo com a sua tendência.


O Jornal de Notícias salienta que Bolsonaro promete resgatar o país e, em subtítulo menos evidente diz que Bolsonaro promete defender a democracia e a liberdade. Por sua vez o jornal i salienta com mais evidência a mesma frase do eleito Presidente. O Diário de Notícias em letras gordas


O jornal Público salientou que a extrema-direita chega à presidência num Brasil dividido.


O Diário de Notícias em letras gordas salienta apenas Brasil: Bolsonaro Presidente. O Correio da Manhã moderou na sua primeira página a importância da eleição de Bolsonaro colocando em lugar pouco destacado, no canto superior esquerdo da página, uma fotografia do eleito e a frase “Bolsonaro é o novo Presidente do Brasil”.


Através dos destaques podemos verificar o grau de apoio dado por estes órgãos de comunicação à fação que levou Bolsonaro a Presidente do Brasil.  As hipóteses a considerar é que:


Jornais diferentes encontram-se veiculados a ideias diferentes;


Consequente da anterior hipótese é de considerar que se façam juízos diferentes consoante os blocos;


Verifica-se a validade da existência dos juízos de valor diferentes sobre cada um desses blocos.


Assim, os critérios dos jornais analisados para os agrupamentos de blocos podem existir afinidades político-económicas e ideológicas e poder de intervenção e de potenciar influencia ideológica ao nível nacional.


Verifica-se então que, no que se refere à notícia em questão, o espaço ocupado pela respetiva notícia há disparidade no tratamento da notícia salientando-se o jornal Público como tratamento desfavorável e o Correio da Manhã apresentado neste caso uma certa neutralidade.


Por outro lado, há que referir ainda que são atribuídos juízos de valor diferente ao mesmo bloco dos jornais analisados em função da imagem ideológica que se possa ter de cada um dos jornais.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Dois jornais duas notícias

Correio da Manhã2 (1).pngJornal i (1).pngHoje, trago para aqui duas formas de dar a mesma notícia, sobre o mesmo acontecimento, em dois jornais. Ambos noticiam a reunião de ministros das Finanças dos países do euro conhecido por Eurogrupo.


Um dos jornais é o Correio da Manhã o outro é o jornal i este do mesmo grupo do jornal Sol. Não vou tecer quaisquer comentários, limito-me a transcrever as notícias de ambos os jornais para que cada um tire as suas próprias conclusões.


Note-se apenas a moderação de um, o primeiro, e o alarmismo tendencioso do segundo com seleção de algumas citações menos favoráveis para provocar preocupação. Não digo que as notícias tenham sido trabalhadas, falsas, nem tão pouco pretendo sugerir que as mesmas não fossem divulgadas. O que pretendo evidenciar são as citações escolhidas pelos jornalistas de cada um dos jornais retiradas de partes do contexto demonstrativas da tendência do jornalista que podem levar a interpretações erradas.


 


Notícia do CORREIO DA MANHÃ


 


Portugal está a tomar as medidas certas para tranquilizar mercados


O presidente do Eurogrupo considerou esta quinta-feira, em Bruxelas, que a volatilidade dos mercados sublinha a necessidade de Portugal prosseguir uma agenda de reformas e reforçar o setor bancário, mas manifestou-se convicto de que o Governo está a tomar "as medidas adequadas". Questionado durante a conferência de imprensa final da reunião de hoje do Eurogrupo sobre o aumento das taxas de juro da dívida pública portuguesa, Jeroen Dijsselbloem apontou que o assunto não foi discutido de forma detalhada mas foi registado "o facto de haver alguma volatilidade" dos mercados. "Penso que (essa volatilidade) sublinha uma vez mais a necessidade de Portugal fazer avançar a agenda de reformas, com a qual disseram estar comprometidos, e de dar mais passos para reforçar o setor bancário, o que está a ser feito neste momento. Penso, portanto, que estão a tomar as medidas adequadas", disse. O comissário europeu dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, disse partilhar a opinião do presidente do Eurogrupo, no final de uma reunião que tinha como um dos pontos em agenda as conclusões da quinta missão de monitorização pós-programa realizada em Portugal no final de 2016. " Analisámos a situação com um olhar construtivo e tomámos nota dos compromissos claros assumidos por Mário Centeno, com quem me encontrarei amanhã (sexta-feira) à tarde, num encontro bilateral", afirmou o comissário francês.


 


 


Notícia do Jornal I


 


Eurogrupo sem “espaço para complacência com Portugal”


 


O Eurogrupo deixou alertas sobre a situação financeira de Portugal e o governo garante que vai adotar as políticas que permitam cumprir todos os compromissos do país. Os juros da dívida pública são uma preocupação.


Ontem, à saída da reunião dos ministros das Finanças dos países do euro, o presidente do Eurogrupo disse que “não há espaço para complacência com Portugal” e que há “riscos relevantes no médio prazo”. “A volatilidade nos mercados sublinha a necessidade de Portugal acelerar as reformas e fortalecer os bancos”, afirmou Jeroen Dijsselbloem, citado pela agência Bloomberg.


Por seu lado, e também à saída do mesmo encontro, o seu homólogo português afirmou que a análise feita pelo Eurogrupo tem uma perspetiva um “pouco mais longa”e salientou que “estamos num período de volatilidade no mercado e de incerteza que se instalou”.


Em relação ao sistema financeiro, Mário Centeno lembrou que “o governo delineou um plano que está a ser implementado” e, sobre a banca portuguesa, garantiu que o executivo está a “atuar” e que essa “foi essa a mensagem que aqui ficou”. “Nós mantemos sempre os compromissos. E mostrámos de forma muito evidente a determinação do país em cumprir os seus compromissos”, salientou o governante, citado pela agência Lusa.


Por seu lado, o comissário europeu dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, afirmou ter analisado “a situação com um olhar construtivo e tomámos nota dos compromissos claros assumidos por Mário Centeno, com quem me encontrarei amanhã (sexta-feira) à tarde, num encontro bilateral”. Já Klaus Regling, presidente do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), também salientou que os mercados estão “nervosos com o nível de dívida, o setor financeiro e a competitividade” do país, ao mesmo tempo que disse estar “confiante que, se derem resposta a estas questões, os mercados irão reagir positivamente”.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Vasculheiros e patrulhadores

Vasculhar.pngNo vasto campo da imprensa internacional dos países ocidentais onde a democracia existe é um facto que há jornais, diários e semanários, que podemos considerar tendencialmente de direita e de esquerda. Excluo aqui os jornais partidários que saem fora do âmbito.


Se afirmar que em Portugal não há jornais tendencialmente de esquerda e que todos são tendencialmente de direita, dir-me-ão que não é verdade, que há jornais independentes, isentos e equidistantes das duas correntes políticas. Independentes do poder político serão. Quanto à divulgação das diferentes correntes de opinião e ao espaço que lhes é destinado e à frequência diária ou semanal de cada corrente é discutível


É claro que todos os jornais nacionais têm representatividade das várias correntes, só que há correntes mais representadas e com periodicidade mais frequente do que outras. É por isso que, quando consulto jornais portugueses, saltam-me à vista as opiniões de direita e, raramente, opiniões de esquerda. Esclareço que leio ambas sem qualquer preconceito, o que me preocupa é parecer existir, por parte da direita, uma aproximação exagerada aos órgãos de comunicação para que estes lhes sejam favoráveis. A direita, como já disse noutro texto, quer controlar a agenda mediática.


Percorrendo os jornais os desejos da direita e dos seus jornalistas e jovens articulistas de serviço são transformados em prognósticos de que no próximo ano o Governo falhe e que se agrave a conjuntura política que garante o apoio parlamentar. Esperam com inquietude que tudo corra mal. A bem de Portugal, claro! E, como o Ano Novo nos vai trazer eleições autárquicas o desespero aumenta.  Anseiam pelas quedas nos indicadores económicos, pelo aumento dos juros da dívida, pelo aumento do desemprego e que, finalmente, nada corra bem ao Governo. Tudo a bem de Portugal, do país e dos portugueses, claro! Para isso procuram por todos os cantos da casa pó para levantar, mesmo que esse pó não exista, inventa-se para passar a existir.


São os palradores, os patrulheiros que vigiam, procurando, aqui e ali, algo indigente que possam transformar em parangonas, enriquecidas pelo empolar do oportunismo noticioso televisivo.


Para reforçar o que acabo de dizer li hoje algo que me causou alguma perplexidade sobre a opinião dum jornalística que mostra no seu artigo de opinião, publicado hoje no Diário de Notícias, indignação corrosiva com o Presidente da República, mas já lá vamos.


Sou do tempo em que vi a Princesa Leia da Guerra das Estrela, Carrie Fisher, que, infelizmente, faleceu há pouco tempo praticamente de seguida ao falecimento de George Michael. Carrie apesar ser uma argumentista conceituada o seu percurso enquanto artista não foi do mais proeminentes.


Um dos tais jornalistas patrulheiros que parece ser um fã incondicional da artista, insurge-se por o Presidente da República não ter comentado a morte de Carrie, como o fez com Michael, e mais ainda, mostra-se também incomodado por Marcelo Rebelo de Sousa ter tentado negociações, através do ministro da cultura, para ver a possibilidade da continuidade do histórico grupo de teatro Cornucópia que vai fechar portas. O dito jornalista até invoca o artigo 191º da Constituição para criticar Marcelo e par o mandar limitar-se às suas estritas funções. Tão legalista e institucionalista é este jornalista! Não lhe agrada a presidência de Marcelo Rebelo de Sousa e, por algum motivo (qual será?) descontente com a sua popularidade acha que devia colocar-se muito quietinho no seu lugar em Belém. Mas não contente com isso João Henriques, é o nome do distinto jornalista, termina chamando indiretamente potencial ditador a Marcelo Rebelo de Sousa:


“Alguém então que diga a Marcelo Rebelo de Sousa uma evidência: o que molda os poderes do Presidente da República é a Lei Fundamental. Não é, nem nunca poderá ser, a popularidade e a consequente tolerância dos eleitores. Isso, em Portugal, não é ser Presidente da República - é ser caudilho. Portugal já passou por isso - e deu-se mal.”


Este é um dos garimpeiros e patrulheiros que andam por aí e que, à falta de melhor, vão procurar o acessório para dar uma mãozinha à inconsolável oposição de direita.


 


 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Garimpeiros

Garimpeiro.png


O Natal já lá vai e a política da oposição de direita é a de continuar à procura de prendinhas preciosas para oferecer a si própria. Mas não é só a oposição, são também alguns que, não sendo da oposição de direita e considerando-se do PS, fazem oposição ajudando a meter golos na baliza do “clube” a que dizem pertencer.


A pesquiza de preciosidades e a procura de brechas insipientes na política do Governo são a oportunidade que resta à direita para fazer oposição fácil porque oposição afirmativa séria e alternativa, não sabem como fazê-la.


A oposição a Passos Coelho dentro do PSD começa a borbulhara e a fazer sair da penumbra a que se votaram, depois da perda do poder, alguns senhores que então o apoiavam.  Saltitam alguns reagindo a uma possível aliança do partido com o CDS para a Câmara de Lisboa. Autarcas e ex-autarcas sugerem um congresso extraordinário do PSD.  


Seguem-se outros de direita, nomeadamente colunistas de jornais diários que aproveitam para pegar em tudo quanto o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, diz ou possa ter dito para fazer manchetes e para o criticar oraculizando esboços de divergência institucionais com o Governo.


Há ainda outros, os que escrevem em editoriais que  o “Presidente não é o menino Jesus e que  por muita fé que tenha, o boletim meteorológico continua a apontar para mau tempo.” Fazem parte do grupo que, entrando na carruagem de Passos Coelho, esperam ansiosos pela paragem onde entra o diabo. Estes eram os defensores das políticas de Passos Coelho no passado.


Vão escavando, garimpam aqui e ali, em tentativas de procurar algo fazendo uma oposição sem consistência. Primeiro foi a CGD, agora são os lesados do GES para os quais Passos, enquanto esteve no Governo, não conseguiu, não quis ou não soube arranjar uma solução. Surgem como senhores das trevas que dizem defender o interesse de Portugal.


Timidamente vão saindo da nebulosidade outros comentadores e opositores vindos duma direita  enfezada, porventura devido a estarem próximo do diabo que dizem estar para vir. Tecem estes críticas veladas ao Presidente da República, ainda de forma comedida, mas que, entre linhas, vão insinuando que o Presidente está em consonância com o Governo por estar a fazer discursos pacificadores. Estes são os mesmos que, durante a campanha eleitoral, faziam campanha e elogiavam Marcelo. Anseiam agora por conflitos institucionais, querem instabilidade porque é isso que os torna vivos.


Estou à vontade para escrever porque sempre critiquei Marcelo Rebelo de Sousa para Presidente. Reconheço o meu erro, apenas, e só, porque, ao contrário do que pensava na altura, ele veio trazer um contributo para a paz social com uma atitude contrária ao passadista Passos Coelho que, durante o seu mandato, criou feridas, crispações e instabilidade sociais dividindo o que deveria unir, até porque Portugal estava confrontado com dificuldades a ultrapassar que necessitavam de união e não de divisão. Sobre esse tempo e essa atitude, neste mesmo sitio, várias vezes manifestei-me contra.


É mais do que certo que, nem tudo o que o Governo fez, ou se proponha fazer, está isento de críticas, nem tudo tem sido perfeito, mas qual foi a perfeição do Governo da passada legislatura. Aqui entram, mais uma vez, os que exaltam o que bom fez o Governo de Passos que preparou o terreno do que, dizem, estar o atual a aproveita-se.


Não falemos agora da saída limpa e do que, para isso, esconderam sobre o estado da banca!…


Garimpam desesperadamente em terrenos onde nada existe para garimpar.


Apenas como uma nora final tomem nota senhores autarcas do PS, atuais, futuros ou recandidatos, os garimpeiros da política andam por aí e a caça ao nepotismo e a outras atividades menos éticas já começou com a aproximação das eleições autárquicas.  Essas vão ser duras, mais do que se estivéssemos num Governo do PSD onde muita coisa seria ocultada, desculpada e dada sombria visibilidade.


 

domingo, 13 de novembro de 2016

Notícias e redes sociais

Notícias e redes sociais.pngQuando são apresentadas notícias na comunicação social sobre algo que acontece hoje é dado como de facto fosse consequência do hoje. Explicando-me melhor. Muito do que acontece hoje em alguns setores, nomeadamente a saúde, é dado como de facto fosse consequência da governação atual, independentemente das correções que sustentadamente se tenham vindo a fazer.


Essas notícias que são lançadas agora, não apenas no setor da saúde, são dadas como sendo consequência do presente, e não a consequência do passado recente que foi o da Ex governação neoliberal de Passos Coelho. O que se desmantelou durante quatro anos e meio de Governo neoliberal não de reconstrói num ano, nem em dois, nem sabemos se em quatro, devido às restrições orçamentais.


A comunicação social quer fazer-nos acreditar que, o que se passa agora, é consequência do hoje, da governação atual. Não nos podemos admirar visto que a agenda mediática é ditada pela trupe neoliberal que cerrou fileiras em torno de Passos Coelho e que o mantem no poder do partido, senão, o que seria deles!


No tempo de Passos Coelho qualquer mínimo favorável nas estatísticas ou acontecimento positivo que foram muito poucos, diga-se, eram empolados e repetidos exaustivamente nos noticiários. Agora o que vinga é a procura do mau, sendo o bom divulgado com displicência.  Depois há as redes sociais que replicam até à exaustão factos, notícias e acontecimentos falsos.


Veja-se sobre as redes sociais nos EUA o que escreve o New York Magazine:  


“All throughout the election, these fake stories, sometimes papered over with flimsy “parody site” disclosures somewhere in small type, circulated throughout Facebook: The Pope endorses Trump. Hillary Clinton bought $137 million in illegal arms.”


Que, traduzindo, diz que durante toda a eleição, essas histórias falsas, às vezes dadas como inofensivas "paródias site", divulgadas em vários lugares, em letra de pequeno tipo, iam circulando pelo Facebook: O Papa apoia Trump. E, Hillary Clinton comprou US $ 137 milhões em armas ilegais.


E nós, aqui em Portugal, que as frequentamos, se não tivermos o devido cuidado de as confirmar pelos meios ao nosso dispor, corremos o risco de divulgar e replicar o que é falso, às vezes até ingenuamente.


Eu próprio já algumas vezes caí nessas armadilhas, mas creio que foram as primeiras e as últimas. As redes sociais são o media ideal para a informação e contra informação e também para uns, poucos, influenciarem pela desonestidade política e partidária, muitos outros. Opinião a que todos devemos ter direito é uma coisa, outra, é a mentira e a desonestidade utilizadas como arma política para influenciar, comportamentos e atitudes. Não foi por isso que Trump obteve a Casa Branca, mas ficou um aviso para a opinião pública americana.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Seriedade ou falta dela

CGD e Partidos.pngÀ falta de assunto até que chegue a discussão do orçamento o tema CGD-Caixa Geral de Depósitos é a divisa para a direita mostrar que está presente através do populismo barato. E provas não faltam no coro das opiniões publicadas pelos fãs duma direita gasta por uma oposição obsoleta e desprestigiada que se cola à esquerda para um coro de populismo nada saudável para uma instituição que se pretende credível. À esquerda o PCP e o BE prestam declarações que em nada ajudam, antes pelo contrário. É uma campanha pela conquista dumas décimas a mais nas sondagens. Por isto a estabilidade deixa de ser um valor a considerar.


Para se mostrar trabalho a oposição da direita vale-se de tudo. O PSD de Passos Coelho tem a capacidade de destruir tudo aquilo em que toca, assim foi no passado, agora aasim é no presente. Uma das estratégias da direita, nomeadamente do PSD, poderá ser a de fazer cair os gestores das CGD pela sua fragilização e, a partir daí, acusar o Governo de falhar no que diz respeito àquela instituição. Até a falta de ética de alguma imprensa serve como ajuda.


Os títulos de primeira página de alguns jornais, neste caso o Público, dão uma ajuda para a descredibilização através de conotações tendenciosamente armadas. À dimensão ética e à precisão da informação sobrepõe-se o economicismo a ser traduzido no número de vendas dos jornais. É uma doença geral que envolve o modo como os jornalistas tratam a informação que, muitas vezes, é associada a uma função até ideológica com os efeitos das mensagens sobre os consumidores.


Atualmente, o jornalismo está entre porta-voz da opinião pública e a de empresa comercial sem escrúpulos que recorre a qualquer meio para chamar a atenção e multiplicar as vendas, sobretudo com a intromissão em vidas privadas e a dimensão exagerada concedida a algumas notícias.


Veja-se o título de hoje na primeira página do jornal Público. Quem não compre o jornal para ler a notícia completa qual a ideia com que ficará?


Primeiro o título em letras gordas e no canto inferior direito a fotografia de António Domingues gestor nomeado para a CGD. Quem esteja menos atento ao que se passa na instituição e ficar apenas pela leitura imediata do título que poderá associar as perdas de 900 milhões ao homem da fotografia.


CGD_Público.png


Outro leitor um pouco mais curioso, se ler os subtítulos em letra menor poderá dar conta da seguinte frase: “Nova administração regista perdas”.


No desenvolvimento da notícia é que os equívocos são desfeitos, e só para quem compre e leia o jornal, ou, então, o peça emprestado. Nos expositores das bancas de jornais a maioria da população passante apenas lê os títulos e, quando muito, os subtítulos.   Está conseguido o objetivo, lançar o equívoco e a confusão na população, que comenta, critica, acrescenta, exalta, denigre e, no limite, alinha pelas teses dos que apostam na destruição da imagem da instituição, e de quem a gere.


O que diz afinal de essencial a notícia colocada no interior do jornal? Apenas isto: “A Caixa Geral de Depósitos (CGD) arrisca perder mais de 900 milhões de euros em operações empresariais montadas à volta do grupo do sector petroquímico La Seda Barcelona e articuladas politicamente entre Portugal e Espanha, um traço marcante da década passada… É um dos negócios ruinosos que António Domingues tem em cima da sua secretária…”, e continua a notícia, “Este é um dos principais problemas que o presidente da CGD tem para resolver e que resulta de decisões tomada quando José Sócrates era primeiro-ministro…”.


Eu poderei acrescentar que Passos Coelho quando era primeiro-ministro deixou por resolver o problema, querendo até ver-se livre dele, com prejuízo dos contribuintes, que assumiriam os prejuízos, e dos utentes, através da tentativa de privatização.


Ó Passos, por que não te calas?


Por sua vez Francisco Louça alinha pelo populismo de Catarina Martins e dá uma ajuda ao PSD, pois então! Se isto mostra distanciamento vou ali já venho!


E o PCP lá vai empurrando também o seu pesado carro.


 


 


 


 


 


 


 


 

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

À direita, ao centro, e à esquerda

Tendências de opinião.pngHá uma incessante preocupação da comunicação social pela procura de polémicas e mexericos jornalísticos que lhes cheguam por vias travessas posteriormente divulgados como sendo notícias importantes e essenciais para a informação do público


Talvez eu esteja a fazer uma leitura enviesada dos jornais, mas a sensação que tenho é de que há uma tendência para a procura do que é mau (as más notícias é que vendem é certo) secundada pelo superavit de comentadores que se esmeram no ataque a tudo quanto descubram que possa servir para atacar tudo do que a direita denomina de “geringonça”.


Tendencialmente, a direita começou a ganhar cada vez mais espaço em alguns jornais diários onde, não raras vezes, se intercalam opiniões do jornalista vindas, a maior parte delas, através da correia de transmissão dos quadrantes da direita. O jornal Público com a nova direção de David Diniz melhorou substancialmente. Se, por um lado passou a ser um pouco mais pluralista e independente, por outro, em termos de opinião, tornou-se tendenciosamente propagandista das opiniões de direita.


É raro o dia da semana que não pegue naquele jornal diário e, na última página, não me depare com os títulos de João Miguel Tavares, cujos artigos ocupam metade e que me obrigo a ler. Apenas escapa a segunda feira onde, na mesma página, um escaço espaço está reservado à opinião de Rui Tavares.


Longe vão os tempos da malfadados da censura prévia. Hoje em dia não há censura, mas há interesses, favoritismo, pressões das mais variadas origens que conduzem a oportunos reajustamentos. Num regime democrático tem que haver pluralidade de opiniões desde que, sejam válidas, credíveis, construtivas, formativas, justas e não panfletárias, sejam de direita ou de esquerda. A comunicação social não se pode transformar numa espécie de blogue analógico da direita, ou da esquerda se fosse esse o caso. Não pode ser como um blogue virtual que sirva uma qualquer tendência de aplicação de práticas política e onde se pode escrever tudo e se exprimem as mais diversas emoções com calor expositivo liberto de qualquer censura, o que é diferente de dar notícias, fazer comentários, dar opiniões, colocar ideias, pontos de vista, traçar orientações que sirvam todas as tendências. No caso atual não é quem ganhou a eleições que deve ter a primazia de ter mais tempo e espaço na comunicação social, mas quem tem maioria efetiva de representatividade. Mas com isso a direita não consegue conviver.


O que se passou na imprensa que hoje li foi isto:


- João Miguel Tavares escreve em título “É difícil ser de direita em Portugal”. De que se queixa se pode escrever quase diariamente o que lhe apetece na sua meia página do jornal Público. Fala de desigualdade de oportunidades na governação. Voltou outra vez a dezembro de 2015? Diz que há cortes com outro nome. Insinua que antigamente se chamava cortes nas pensões e nos salários de agora se chamam cativações. Cortes? Agora? Será mentira ou verdade? O que diz são falsidades para que conste, e baralhar a opinião pública. O que o irrita é que os sindicatos estejam agora calados quando tudo está tão mal (como a direita pretende fazer crer).  E, espante-se quem for de esquerda moderada ou radical. O senhor Tavares reclama para a direita a igualdade de oportunidades que não existe na política portuguesa. Qual? Simplesmente esta: a esquerda e os sindicatos agora não protestam como protestavam quando a direita de João Miguel estava no poder. Por outro lado, acha que por a direita por estar em baixo a igualdade de oportunidades deve ser reivindicada. É caso para lhe perguntar se a direita deu alguma oportunidade ao governo que derrubou em 2011, com o qual tinha assinado um compromisso tácito para aprovação do Plano de Estabilidade e Crescimento.


- Lançar intrigazinhas entre os partidos da maioria parlamentar passou a ser o prato principal da comunicação social e dos partidos da oposição. O Diário de Notícias, onde o seu diretor Paulo Baldaia, chama a tudo trapalhadas, esquecendo-se também ele, das que houve no tempo de Passos Coelho. As intrigazitas estão lançadas na marcação das suas diferenças entre eles sobre pensões e reformas em vez de marcarem as diferenças com o Governo anterior. Como?  Com o Governo anterior???


Vejam esta achazinha: “numa geringonça em que o instinto de sobrevivência obriga cada um a puxar para o seu lado, mas revela apenas um grau de cansaço que é sempre superior a quem tem de negociar, de forma permanente, agendas que buscam a popularidade.”


E mais esta: “É por isso que os tiros nos pés virão sempre com mais frequência dos membros do governo, sujeitos a uma agenda parlamentar que é preciso driblar. Na CGD, por exemplo, alguém consegue perceber qual foi a participação do Bloco e do PCP nesta história? Zero ou pouco mais do que isso! Não vejas, não ouças, não fales e nada de mal que aconteça é tua responsabilidade. Há coisas que se governam em segredo, para bem da coligação e para mal de quem decide.”


- Já cá nos faltava novamente o abutre e azedo, como diz Ferreira Fernandes, Wolfgang Shcäuble a elogiar o que se tinha feito com o anterior Governo e criticar o atual. Preconceito pura e simplesmente ideológico de uma visão de direita radical que ele quer impor e que ofende os portugueses, cujos seus líderes são eleitos democraticamente por sufrágio universal. Ficou a falar sozinho, é o que merece.


- Tenho azar, também com o Diário de Notícias que, às quintas feiras, apresenta as desvairadas e radicais opiniões de César das Neves que monopolizam mais de meia página. Expectante de potencias instabilidades políticas faz espécie de intrigazinha dizendo que “…comprar a paz social é fácil. Afinal, comprar a paz social é fácil. Veremos por quanto tempo.”


Trabalha e interpreta os números do orçamento para 2017 de forma conveniente e de acordo com os seus interesses ideológicos. Sempre fiel à Opus Dei e á U. Católica.


- A tónica da direita para a oposição enquanto vem e não vem o debate final sobre o Orçamento de Estado é fabricar inventividades sobre austeridades, milhões e mais milhões escondidos sobre os cortes na despesa dos ministérios (escreve uma tal Paula Sá), dramatização sobre missivas de Bruxelas que, afinal, sobre as quais Moscovici disse em Bruxelas que era procedimento normal e que, em princípio, tudo estava bem com o orçamento. Se bem me lembro, como dizia Vitorino Nemésio nas suas palestras, também se ouvia falar no tempo do Governo de Passos que era necessário cortar na despesa dos ministérios. Mas também se ouvia falar no corte de salários, reformas e pensões, etc., etc... No mesmo alinhamento está Maria Luís Albuquerque que pergunta em nome do PSD de Passos Coelho, em que serviços públicos o Governo vai cortar. É descaramento demais fazer esta pergunta que merece uma outra. Onde estava Maria Luís quando era Ministra das Finanças?  Desfaçatez não lhe falta.


A intrigazinha do PSD lá vai falando do silêncio cúmplice da CGTP e da Fenprof. A já conhecida estratégia da direita, lançar achas e intrigas para desestabilizar a maioria parlamentar. Será que poderão esperar sentados? Penso que sim.


- A Ordem dos Advogados daqui a algumas semanas vai eleger o seu bastonário que agora é Elina Fraga. Escavaram, escavaram e alguns lá descobriram um certo plágio numa das suas intervenções. Recordemos que Elina Fraga contestou muitas das medidas de Paula Teixeira da Cruz quando era ministra da justiça, nomeadamente a dita chamada reforma da justiça que na altura foi catastrófica.


Por último, a televisão que alinha com a direita, e segue uma trajetória de consumir tempo dos noticiários à volta da CGD, com cartas de Bruxelas sobre o orçamento, declarações de Shcäuble sobre o antes e o depois de Passos que nada mais serve senão para distrair dos problemas da banca da Alemanha. Estes alinhamentos apenas têm o objetivo de influenciar a opinião pública sobre com aspetos negativos artificialmente criados, à falta doutros argumentos para fazer oposição, que a direita não tem.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Lamparina da opinião

JMT_Lamparina.png


A imprensa diária de hoje dá relevo de primeira-página e saúda a eleição de António Guterres para Secretário Geral da ONU. A exceção é do Correio da Manhã que faz apenas uma pequena referência em cabeçalho. Para este tabloide os títulos em letras gordas onde se anunciam meias verdades ou verdades tendenciosamente adulteradas são sinónimos de venda. Neste caso não interessa a importância do facto, não é escândalo, não é acidente, não é pânico, não é catástrofe, não é notícia má para Portugal, não provoca instabilidade, não descredibiliza, não é Sócrates. Se não é nada disto, logo, não merece destaque em cacha (notícias mais importantes com direito a um grande título, na primeira página).


Não contesto a importância para Portugal do facto de Guterres ter conseguido por mérito próprio o lugar de Secretário Geral da ONU, nem o prestígio de estar um português naquele lugar e posso até não lhe atribuir a importância que, de facto, tem.  No entanto, há por aí luminárias de comentadores que são conhecidos como adoradores do neoliberalismo a qualquer preço, como João Miguel Tavares, ex-colunista do Correio da Manhã e atualmente do jornal Público, que pretendem ser originais nos artigos de opinião que escrevem por aí e que, por tortuosas prosas, procuram desacreditar pessoas apenas e só porque não são da mesma fação.


Não interessa para o caso se a coluna de opinião que hoje publicou, onde descreve com frieza, indiferença e disfarçado regozijo o facto de Guterres ter obtido o lugar relevante da ONU com alguns senãos pelo caminho.  Mas não é por aí que o estala o verniz. Tavares pode ter a opinião que quiser, o que é extraordinário é o título “Tão bons lá fora, tão maus cá dentro” que dá ao artigo tendencioso e despropositado, pretendendo abranger não apenas Guterres, mas também outros da mesma área política e ideológica.


Mais comentários sobre esta lamparina da opinião são escusados a não ser que seria interessante saber o que escreveu sobre o sombrio caso de Durão Barroso.   

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Obsessão da comunicação social ilumina Sócrates

Sócrates iluminado.png


 


Raramente abordo o tema Sócrates, juízes como Carlos Alexandre e outros, as justiças ou injustiças a que ele possa estar sujeito e as acusações falsas que, segundo ele, lhe estão a ser imputadas. O que raras vezes aqui escrevi sobre Sócrates teve mais a ver com a comunicação social, não a nova, as das redes sociais, mas a clássica da imprensa,da rádio e da televisão.


Noutro blog escrevi vários textos a criticar Sócrates e a sua ação governativa estou, por isso, à vontade para dizer o que acho do desvairo que para aí anda sobre José Sócrates sem que isso me coloque a favor ou contra ele. Não ando por aí a procurar argumentos para lhe poder apontar o dedo ou para o desculpabilizar. Se não tenho a certeza não digo, não escrevo, nem me vou fiar no que dizem tabloides, jornalistas, comentadores e escribas de opinião, talvez ressabiados pelo que lhes aconteceu no tempo em que Sócrates foi desastrosamente governante. O que comento é a forma e a qualidade da substância que é passada pela comunicação social sobre o processo e o modo como é transformado de acordo com interesses. Nada me obriga a tomar o que dizem como sendo legítimo, válido, verdadeiro e indiscutível. O esclarecimento e a verdade virão apenas e aquando da acusação, do julgamento ou julgamentos e da condenação, ou não, do presumível réu.


Durante estes últimos três ou mais anos o assédio pelos órgãos de comunicação social que vivem do sensacionalismo e da baixeza jornalística tem sido mais do que evidente. Sócrates é uma fonte de notícia e rendimento para os jornais e estou em crer que vai sê-lo cada vez mais. Ao mesmo tempo é utilizado por uma oposição vazia, sem argumentos válidos e credíveis e de baixo caráter que se serve disso como arma de arremesso político. Para isso já basta Donald Trump.


É curioso como periodicamente se retira da gaveta da investigação da Operação Marquês e das gavetas da comunicação social o tema Sócrates, coincidindo com certos momento da política, ou de outros, com eles relacionados.


Também é verdade que ele anda a pôr-se a jeito. As deambulações que José Sócrates faz por aí para ganhar o espaço mediático que a comunicação social depois lhe dedica, as suas intervenções, os apoios de "amigos" e admiradores, sejam eles do partido ou não e, agora, um livro que vai ser apresentado em outubro põem muito boa gente da comunicação social e outros fora de si fazendo-os entrar em devaneios obsessivo-compulsivo de escrita por tudo quanto é jornal.


Criticar Sócrates e dizer que não se gosta dele pelos motivos que cada um entenda é legítimo. Deixa de o ser quando se fazem insinuações desonestas e sórdidas para se criticar seja quem for. Ou se conhecem dados exatos e informações sólidas do processo ou, então, as afirmações produzidas baseiam-se apenas e só no que alguns jornais por aí dizem a quem acusam de serem fugas ao segredo de justiça. Até existe quem ache que essa história do segredo de justiça foi uma má ideia talvez porque lhes limite condenações públicas sem julgamento. Ao mesmo tempo Sócrates serve também àqueles que o atacam como ajudazinha atacar o Governo e António Costa e aplaudem quando socialistas censuram Sócrates por prejudicar o partido.


Uma das estratégias da oposição de direita e dos seus adeptos comentadores e jornalistas ressabiados é a de tentarem estabelecer uma colagem de António Costa a Sócrates. É esta a oposição duma direita desorientada que diz ser social-democrata. Por outro lado, há jornalistas ineptos, lamentavelmente à frente de jornais que deviam ser exemplo de seriedade que chegam tendenciosamente ao desplanto de associar os grupos que por aí andam em reuniões e almoços a apoiar Sócrates aos saudosistas de Estaline na Rússia. Afirmarem coisas como estas só pode ser considerado como ódio pessoal e político que lhes tolda a razão.


Muitos não suportam Sócrates não apenas pelos traumas que lhes causaram no passado mas também pela sua capacidade de defesa e recuperação perante fatores e condições adversos.


Os que apanharam a síndrome do socratismo afirmam categoricamente, como se isso fosse determinante para um caso do âmbito da justiça, que é um dado adquirido a culpa baseada "no que se vai sabendo sobre os esquemas que Sócrates utilizaria para fazer circular o dinheiro" e continuam dizendo que a outros "apenas lhes interessa que parte do que foi divulgado pelos jornais devia estar em segredo de Justiça.". Isto não é nada mais, nada menos, senão um manifesto apologético dos julgamentos na praça pública através da comunicação social. Grandes jornalistas estes não há dúvida.


Temem Sócrates e não estão interessados em que ele recupera a imagem e volte à cena política. Eu, cá por mim, estou-me nas tintas, mas as probabilidades podem ser significativas, tudo depende do julgamento, quando for.  

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Confuso ou talvez não

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Duma maneira geral a comunicação social é vista como um dos fatores mais responsáveis pela criação de instabilidade social e de desconfianças sobre as práticas políticas dos diversos atores em presença. Não inventa as notícias, elas existem, mas molda-as, adequa-as para terem mais impacto, alterando ou acrescentando sentidos. Os objetivos para tal podem ser vários e dependem das linhas editoriais, da necessidade de amplificação do impacto que o acontecimento ou a notícia possam ter para atrair o interesse do público para a compra e, no caso da televisão, para o aumentar as audiências.


Sem que seja caso único é um bom exemplo o que tem alimentado nos últimos dias, debates, notícias, informações e contrainformações sobre o caso dum potencial imposto sobre o património acumulado desnecessariamente causado por Marina Mortágua do BE.


A liberdade de imprensa que temos (impressa e televisiva) é um bem que deve ser preservado, contudo, corre sempre o risco de estar a ser limitada, condicionada, mesmo não existindo trâmites censórios próprios dos regimes ditatoriais, como era no tempo de Salazar e Caetano.


A pergunta que podemos colocar é a de saber se em democracia existe ou não uma tendência para o controle da comunicação social por grupos económicos através de "correias de transmissão" ligadas a ideologias e partidos políticos, mais ou menos dissimuladas.


A análise dos jornais, noticiários e comentários televisivos mostra-nos algumas tendências que se manifestam mais a favor, ou mais contra, consoante o ponto de vista ideológico de quem está no poder.  


Não deve ser noticiado apenas o que é bom e agradável mas estamos exaustos de ver e ouvir todos os dias notícias negativistas, o fatalismo como sendo as únicas notícias. Noticia-se o que é superficial e fútil e não o relevante. Sabe-se, eles sabem, os da comunicação, que isso é que "vende" e, por isso, insistem. A competição comercial entre canais a isso obriga, deixando a ética como se fosse um objeto sem valor. Espetacularização e sensacionalismo são a chave do negócio.


O alinhamento noticioso dos canais de televisão começou a adotar o modelo de outros canais como o CMTV onde, diariamente, se gasta tempo demais com são oferecidos crimes, marginalidade, corrupção, dinheiro sujo, estúpidos concursos, factos privados enfatizados ad nauseam, gira-se à volta de quem tem dinheiro e declarações de má política, mas compacta-se ao máximo no espaço e no tempo uma qualquer ideia, reflexão construtiva ou qualquer contributo positivo.


O que vemos nos canais noticiosos será de facto o retrato do país onde tudo o que acontece é mau? Desde que não esteja em linha com o que ideologicamente eles, os senhores dos comentários, pensam e que acham deveria ser e porque se quer estar do lado dos opositores que perfilham é tudo mau. Foi assim no passado recente, mas ao contrário.


Não se pode ser otimista irrefletido mas, o que se vê na "fotografia" dos media é um pessimismo paralisante e um fatalismo permanente. Comentar é também criticar com imparcialidade, com isenção, não apenas atacar por mera fação e questão ideológica de que, afinal, acusam outros. Ou, então, criticam porque sim.


Penso que já referi várias vezes neste blog a impressão negativa que tenho sobre alguns comentadores da televisão e sobre artigos de opinião escritos, independentemente de estar ou não de acordo com eles, venham da direita ou da esquerda. Nem tudo o que uns gostam de ouvir ou ler agradará a outros. Uma coisa é o debate de ideias e de pontos de vista em democracia, outra é o "arranjo" argumentativo falacioso propositadamente construído com deturbação e interpretação abusiva de opiniões, acontecimentos ou factos ainda não comprovados. Outro caso ainda é dizer-se que uma coisa é preta quando é evidente a perceção comprovada de que é branca. Isto é, nega-se uma realidade, lança-se-lhe umas pinceladas de frases mais ou menos demagógicas e populistas para se poder a continuar a dizer que aquela coisa é preta.


Neste segundo semestre aconteceu haver uma agitada dança de cadeiras a nível das direções em jornais e rádio, o que para o cidadão comum não é novidade. As justificações são sempre as mesmas, reorganizações, ajustamentos, rentabilizações, etc. e, por vezes, estas mudanças estão também ligadas a mudanças de orientação editorial. Desta vez estas mudanças verificam-se ocasionalmente num ano em que um Governo é apoiado por uma maioria parlamentar de esquerda.


Na direção do Diário de Notícias encontra-se desde setembro Pedro Baldaia que era diretor da TSF; David Dinis que saiu do jornal Sol, fundou com outros o jornal online Observador e foi para diretor da TSF donde sairá para passar a dirigir, a partir de 3 de outubro, o jornal Público. Também, José Miguel Tavares, passou a ter direito naquele jornal a mais um diazinho por semana para divulgar as suas facciosas opiniões. A direção do jornal i que mudou várias vezes (em pouco mais de seis anos de vida, o jornal já teve quatro proprietários e sete direções), cabe desde 15 de dezembro de 2015 a Mário Ramires que também é presidente do conselho de administração da proprietária do jornal, a NEWSPLEX, SA., e também do semanário Sol. O jornal i e o Sol anteriormente pertenciam à Newshold, empresa angolana liderada por Álvaro Sobrinho que tinha investido na entrada do capital da Cofina, (dona do "CM" - Correio da Manhã) e da Impresa (dona do Expresso).


A crise que há na imprensa escrita vai alastrando e por ela a liberdade de expressão dos jornalistas pode ser condicionada face a uma potencial perda de emprego à vista. As razões apresentadas são várias, normalmente de natureza financeira e económica que levam ao despedimento e a rescisões por mútuo acordo de jornalistas. A razão para que este ano exista tal azáfama leva-me a pensar. Mas isto de momento não nos interessa.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A notícia para a imprensa escrita portuguesa

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Há uma interpretação possível para a vitória do Syriza, é que os gregos preferem, apesar de tudo, que um resgate e a austeridade sejam aplicados por uma esquerda do que a sua execução por uma direita. Isto pode se relevante.


O que se passa de relevante em países que fazem parte duma União Europeia a que pertencemos pode vir a ter a prazo maior ou menor influência no nosso. Hoje foi uma prova de como funcionam as redações de alguns jornais em Portugal. Em jornais europeus o mesmo. As eleições na Grécia foram varridas das primeiras páginas dos jornais diários impressos e, quando não o foram, apenas tiveram direito a uma pequena referência na capa. Em Portugal apenas o Jornal Público e o jornal i deram destaque à notícia em primeira página.


As eleições gregas não interessam porque quem ganhou foi um partido que não interessa que seja notícia e muito menos agora. Há que fazer esquecer a vitória. E se fosse o contrário? Se fosse a direita da Nova Democracia que ganhasse? Pois sabemos bem o que aconteceria, páginas e páginas com a notícia de letras gordas e bem nutridas.


Pois assim vai alguma da nossa imprensa.   

sábado, 20 de junho de 2015

O direito à desconfiança

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Ao longo do tempo transformei-me num cidadão muito desconfiado no que se refere à política e à justiça portuguesa, muito menos quando a linha que as separa é estreita. A comunicação social dá frequentemente cobertura a notícias ou opiniões onde se acusa ou ilibe através de provas presumivelmente factuais, mas que o não são, pelo que, sou levado a desconfiar de tudo quanto me pretendam "vender".


Raramente me tenho referido à prisão de José Sócrates porque nada tenho a comentar que seja merecedor de tal. Não me podem negar o direito de desconfiar o que certa imprensa e outros órgãos de comunicação têm noticiado e que são apresentados como sendo factos e provas, mas que mais não são do que insinuações que se fazem chegar aos jornais e aos canais de televisão por terceiros de acordo com uma agenda prévia.


Não sei se os crimes de que José Sócrates é indiciado e que têm saído para a opinião pública foram ou não praticados, os tribunais decidirão. Há indícios dizem, mas podem ser também uma narrativa que pretenda fornecer informação de natureza psicológica ou ideológica. Desconheço se tudo quanto veio a público, em ocasiões politicamente oportunas, estão ou não fundamentadas, e por aí fora.


Não importa se eu gosto ou não de Sócrates, se acho que possa ou não ser culpado, se defendo ou ataco o seu comportamento e atitudes, trata-se apenas e só de uma desconfiança quanto ao momento e a oportunidade política e judiciária durante o qual tem vindo a decorrer todo este processo.


A justiça faz-se través dos tribunais que são órgãos de soberania independentes e não podem guiar-se pelo tempo político. A justiça tem o seu próprio "timing" e, por isso, numa democracia exerce-se através dos tribunais. A principal função do poder judiciário é defender os direitos de cada cidadão, promovendo a justiça e resolvendo os prováveis conflitos que possam surgir na sociedade, através da investigação, apuramento, julgamento e punição.


Há demasiadas coincidências. Sócrates foi preso num momento em que decorria ao Congresso do Partido Socialista. Quando decorria a convenção do Partido Socialista para apresentação do seu programa eleitoral foram divulgadas "novidades" sobre o processo de Sócrates, dito em segredo de justiça.


Quando há algo que se deseja ser desviado da atenção da opinião pública lá se fazem chegar a alguns órgãos de comunicação social a tais "novidades" sobre o processo de José Sócrates.  


Só quatro anos após a ida de José Sócrates para Paris e depois de notícias sobre a relação da vida que levava com os seus rendimentos, num momento especial da vida da política nacional, quase no fim do mandato do Governo e quando já se falava nas eleições legislativas e o PSD e o CDS estavam em baixo nas sondagens, veio atabalhoadamente a público, com informação prévia a uma certa televisão e a um certo jornal, a prisão de José Sócrates e, posteriormente, conjunto de atos ligados a ela ligados que têm vindo a dar continuidade jornalística ao caso.  


Passei a ser desconfiado sobre tudo quanto se refira à política e à justiça, porque para mim deixou de haver coincidências.


Quem foi o cidadão comum que não acreditou no que dizia Passos Coelho antes de estar no Governo, e mesmo durante o mandato?


O caso Sócrates não é exceção para a minha desconfiança. É como um produto que me estão a vender e cuja embalagem ainda não abri para ver o que tem dentro, se apenas contem papel e espuma de polistireno ou se, em vez disso, algo valioso factual e consistente.


Por mais que o jornal X diga sobre determinada notícia "segundo documentos a que o jornal X teve acesso" ou coloque entre aspas o que alguém tenha dito, ou, ainda, o canal Y diga "segundo fontes a que teve acesso", não me tranquiliza sobre a veracidade nem me levam obrigatoriamente a acreditar acriticamente no que leio e ouço. A razão é simples, quem reproduz a informação em forma de notícia não me consegue garantir que não tenha havido premeditação na passagem intencional de certa informação e que a mesma tenha sido validada segundo critérios da veracidade, comunicabilidade, socio-referencialidade e inteligibilidade o que não é o mesmo que ser confirmada por outras vias, mas isso não é validar a informação, é confirmar por outrem o que já se sabia.


É costume ouvir dizer-se que "a televisão disse", ou que "eu vi na televisão". As notícias que se referem a assuntos que são do foro da justiça a televisão não mostra nada, nem pode, apenas diz, salvo casos que acompanhem o exercício das funções da justiça e, mesmo assim, apenas quando a informação do que irá acontecer seja passada para alguns órgãos de comunicação antes do próprio acontecimento. É o caso de buscas ou de prisões por exemplo quando têm esses órgãos têm informação privilegiada.


Já alguém viu passar nas televisões, ou ser relatado pela imprensa, um crime no exato momento em que está a acontecer, a menos que o seja numa reportagem casual. Seria possível apenas e se, quem fosse praticar o crime, avisasse previamente o dia e a hora em que o iria praticar.


A prisão de Sócrates foi um caso foi factual que se insere na obtenção de informação privilegiada dada antes do acontecimento. Mas apenas e só esse facto, porque o resto são rumores, provocados intencionalmente ou não, informação a que o jornal X ou o canal de televisão Y dizem ter tido acesso, etc.. As televisões neste caso dizem mas não mostram a não ser imagens de arquivo já antigas. O que os jornais dizem não provam e as fontes podem não me dar garantias para acreditar na veracidade do que afirmam.


É assim, sou livre de poder desconfiar de que foi criada uma cultura labiríntica sobre este processo que, intencionalmente ou não, pretende baralhar a opinião pública com objetivos e contornos que não posso deixar de duvidar sejam de cariz jurídico-político.