Mostrar mensagens com a etiqueta comentadores. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta comentadores. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O princípio da harmonia partidária

Eleições Presidenciais-Mendes-comentador2.png

O princípio da harmonia partidária procura evitar contradições e criar uma relação coesa e benéfica entre os componentes envolvidos num determinado sistema político ou numa interação social. Este princípio irá tornar Marques Mendes, o comentador, se chegar a ser Presidente da República a ser subordinado, que já é, e enquanto o Governo for do seu partido. É o dilema dos comentadores que chegam a altos cargos políticos, distanciarem-se da sua ideologia partidária. Isto é humano, não há isenção nem independências absolutas. Veja-se então o caso concreto de quando foi aprovada a Lei da Nacionalidade na Assembleia da República.

Em 29 de outubro, um dia após o PS ter pedido a fiscalização preventiva ds lei da nacionalidade Marques Mendes disse em Leiria que viu como positiva a provação da Lei da Nacionalidade só lamentou que o consenso não tivesse incluído o PS.

Afirmou então “Eu vejo que não há razões para enviar esta lei ao Tribunal Constitucional. Não me parece que haja aqui suspeitas de inconstitucionalidade.

Chegados a dezembro o que diz o Tribunal Constitucional: chumba a nova Lei da Nacionalidade. Os juízes entendem que o princípio da igualdade não está garantido porque a legislação diferencia entre portugueses naturalizados e os que obtiveram a nacionalidade há menos ou mais de dez anos, A lei que terá de regressar ao Parlamento recebeu para aprovação luz verde de PSD, Chega, IL, CDS e JPP, mas os deputados do PS enviaram um pedido de fiscalização preventiva.

Marques Mendes “Não me parece que haja razões aqui desde logo constitucional por ser uma lei mais equilibrada e menos polémica do ponto de vista, desde logo, constitucional… acho que não há razões par enviar esta lei ao Tribunal Constitucional”.

Este é o candidato a comentador Presidentes de alguns portugueses, os do Governo AD.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Candidatos à presidência e o comentador

Eleições Presidenciais-candidato comentador.png

Livrem-nos de mais um comentador político de televisão na Presidência. Marques Mendes, o comentador candidato à Presidência, não faz campanha, faz comentário, até mesmo nos debates. Estou a vê-lo e a ouvi-lo tal e qual como era na SIC.

Marques Mendes é o candidato do PSD e do CSD, vulgo AD. A família SIC nos comentários após os debates coloca Marques Mendes com classificações acima das do adversário. Outra coisa não seria de esperar. Quando era comentador ele fez parte da família SIC ligada ao PSD. A sua “deformação” profissional como comentador não o vai abandonar o que tem sido evidente nos debates. Se for eleito será um Presidente comentador, mais do que Marcelo. Será um Presidente versão comentador 2.0.

Durante a campanha eleitoral não se desligou dos “tics” de comentador e os argumentos vão na mesma linha. Imagine-se Marques Mendes no papel de Presidente da República a comentar e a pronunciar-se tal e qual como se estivesse numa entrevista e lhe colocassem a pergunta de qual deve ser o papel do Presidente. É um fartote!

A originalidade está a faltar-lhe. Os comentadores da família SIC, especialmente a ancilosada João Avillez, espero não me ter enganado, será com dois “ll”?, espreme-se toda em elogios e em notas altas a Marques Mendes como se fosse o seu aluno preferido.

Marques Mendes não será um Presidente isento, isso vai contra a sua natureza, aliás, não há isenções ideológica elas ficam marcadas no ADN em políticos como Marques Mendes, assim como em outros.

Alguém acha que haverá isenção com Catarina Martins, António Filipe e Cotrim de Figueiredo entre outros? Provavelmente não! Em política, “isenção”, refere-se principalmente ao dever de imparcialidade, apartidarismo e não tirar proveito pessoal das funções públicas. Quem foi político e ideologicamente dedicado a partidos a imparcialidade será muito difícil de conseguir. Exemplos foram poucos ao longo dos cinquenta anos de democracia, mas eram outros tempos e essa exigência era imprescindível.

O “fofinho” António José Seguro levanta as mãos para mostrar que as tem limpas. Ao despertar do seu sono letárgico da política diz que tem a experiência política necessária, ele que é professor universitário e também um pequeno empresário, como se definiu num debate com Gouveia e Melo.

Entre Marques Mendes e Seguro quem se venha a escolher para presidente não se ganha nada. É comentador contra político adormecido. Mas se para si a política e o futebol são a mesma coisa então pode votar em André Ventura, este também comentador que foi comentador, mas de futebol e transferiu o mesmo ânimo para a política. Dará um bom Presidente se for para decidir quem terá chutado a bola para o canto e passará a ser um árbitro que irá marcar falta sempre aos mesmos.

Parece não haver dúvidas de que quem sempre esteve na política, foi dirigente ou militou em partidos políticos terá grande dificuldade com o distanciamento exigido pelo cargo. O esforço pela independência não chega.

Ao longo de quase meio século apenas houve um presidente da república que se partidarizou, mas após ter saído da presidência. Recordam-se de António Ramalho Eanes que em 1985 que estava a cumprir o seu segundo mandato iniciado em 1981 e terminando em março de 1986, e que após esse período esteve ligado à fundação do Partido Renovador Democrático (PRD), que surgiu em 1985, quando ele ainda era Presidente da República, tendo liderado o partido brevemente após deixar Belém.

 

sábado, 29 de novembro de 2025

Presidente comentador versão 2.0

Eleições Presidenciais-Marcelo-Mendes.png


No debate André Ventura com Marques Mendes o primeiro não foi novidade a nuvem de palavra costumeira fluía tocando a mesma partitura. Sobre a pergunta sobre o que faria se fosse eleito presidente como tem sido habitual a resposta nem ouvi-la. A estratégia foi a fuga para a frente.


Marques Mendes lá foi andando com alguns tropeções. Não é fácil debater com Ventura porque é entrar numa espécie de carrocel. André Ventura mostrou que, em assuntos fundamentais, na diplomacia não tem sentido de Estado. Marques Mendes foi acusado por Ventura de ser uma “marioneta de Montenegro”, que não é independente e que era o “comentador do sistema” “alinhado com o primeiro-ministro” disse.


Sobre a justiça Marques Mendes disse que convocaria uma reunião do Conselho de Estado para tratar da corrupção e da reforma da justiça ao que André Ventura, aproveitou para lhe chamar “fofinho” afirmando que preciso é acabar com eles. Ventura só não especificou como o faria.


É provável que Marques Mendes vá à segunda volta, mas se conseguir passar a essa etapa e ganhar vamos ter uma espécie do slogan que Sá Carneiro tendo em 1980 a AD uma maioria absoluta nas eleições presidenciais apoiava o General Soares Carneiro e pedia “uma maioria, um Governo e um Presidente”. Na composição atual do Parlamento há uma minoria AD um Governo e um presidente, Marcelo Rebelo de Sousa.


Parece haver uma dinâmica de comentadores TV e artigos de opinião com tendência para a promoção do candidato Marques Mendes. Já aqui escrevi um texto em relação às opções partidário- ideológicas de comentadores de política e dos candidatos à Presidência da República.


Já temos um Presidente da República em fim de prazo que veio de comentador em canais de televisão e se tornou num selfista, apresenta-se agora à candidatura do cargo uma outra personalidade que, à semelhança do primeiro, também foi comentador político poderemos vir a ter outro, embora com algumas diferenças mas da mesma área partidária. É mais do mesmo.


Analisemos então as diferenças entre as duas versões. Primeiro quanto ao percurso político. Ambos têm trajetórias semelhantes porque foram líderes do PSD e comentadores televisivos.  Marques Mendes tem sublinhado que não é uma “cópia” nem uma “imitação” afirmando que são “muito diferentes” ele e Marcelo Rebelo de Sousa. É uma verdade óbvia. São personalidades diferentes apesar da amizade, vieram do mesmo partido. Há algumas coincidências. Pois, é nas coincidências que pode estar o problema porque é um campo muito vasto para que não haja semelhanças.


Marques Mendes destaca-se pelo apoio explícito ao PSD, mas fez questão de entregar o cartão de militante como gesto simbólico de independência, tal como fez Cavaco Silva. Ora aqui está uma atitude que tem apenas um significado simbólico por que como já escrevi noutro texto sobre Marcelo Rebelo de Sousa “sendo militante do PSD não se desfiliou do seu partido, tendo suspendido a militância quando concorreu pela primeira vez à Presidência da República.  Não existe um requisito legal explícito que obrigue um Presidente da República a desfiliar-se do seu partido, assim, um candidato à Presidência da República pode manter a sua filiação partidária. O que está estabelecido na Constituição da República Portuguesa é que o Presidente da República deve atuar com total independência e imparcialidade para representar a unidade nacional… Contudo, a desvinculação ao partido a que pertence é uma consequência natural e necessária para garantir a sua atuação enquanto Chefe de Estado”


Numa entrevista, ao ser questionado sobre as semelhanças que tem com o atual Presidente da República, Marques Mendes, devido ao facto de terem sido ambos presidentes do PSD e comentadores televisivos rejeitou ser um “filho político” de Marcelo Rebelo de Sousa. Quis demonstrar que é um candidato experiente, preparado e conhecedor sobre o que deve ser um Presidente, o que parece ser arrogância face a outros candidatos, o que pode ser demonstrativo do quanto ele está implicado com o sistema, tal como diria André Ventura se fizesse um cometário a esta afirmação.


Marques Mendes defende ainda que o presidente deve estar preparado para evitar crises e propõe pactos de regime para regenerar a política, aproximando partidos em matérias como ética e justiça. Lugar-comum a quem se candidata a presidente porque não se vislumbra diferença em relação aos outros candidatos que defendem o mesmo, PSD com o CDS-PP.


Para se destacar Mendes exprime um sentimento negativo ao afirmar depreciativamente Rebelo de Sousa dizendo que se fosse presidente reuniria mais vezes o Conselho de Estado e não manteria a prática de promulgar leis e fazer comentários públicos sobre elas, como faz Marcelo. Considera que esses comentários criam “ruído e instabilidade” e não são úteis, pois o presidente não é governo. Marques Mendes seria, portanto, um presidente fugidio, escondido, refugiado no palácio, mais ou menos «à moda» de Cavaco Silva.


Apesar das semelhanças no percurso, Marques Mendes procura afirmar uma postura mais institucional, menos mediática e mais focada na estabilidade política e na transparência. Já Marcelo Rebelo de Sousa é conhecido pelo estilo comunicativo, pelos comentários públicos e pela proximidade com o público. Mendes quer marcar diferença pela forma de exercer o cargo e pela defesa de pactos e acordos claros entre partidos.


Contudo, Marques Mendes tanto distanciamento quer ter de Marcelo Rebelo que se esqueceu, como escreve Ana Sá Lopes no Público, que Marcelo «Foi capaz, entre muitas selfies e outros exageros, de dessacralizar a instituição Presidente da República, o que era fundamental a seguir ao último mandato de Cavaco. Esteve mais perto do povo do que talvez qualquer um dos seus antecessores.». E termina sublinhando que «O excesso de demarcação de Marcelo Rebelo de Sousa pode, se calhar, não ser uma ideia assim tão boa. Ah, basta ver o plano de “paz” para a Ucrânia para ver que o Presidente tinha razão quando considerou Donald Trump “um activo russo”. Confirma-se.»


Marques Mendes defende também que o Presidente da República deve ser “experiente, preparado para evitar crises e independente”, não sendo uma “correia de transmissão” do partido.


Não ser uma “correia de transmissão” do partido surgiu-me uma dúvida filosófica: será que alguém deve demitir-se da sua ideologia enquanto político quando exerce um importante cargo público, por exemplo, como o de Presidente dum país?


Não é possível os candidatos a presidentes demitirem-se totalmente da ideologia, porque toda ação política implica valores e escolhas normativas, é possível, isso sim, suspender a identidade partidária ou suavizar a marca ideológica, apresentando-se como uma espécie de árbitro ou moderador mais ou menos pragmático. Todavia, essa suspensão é sempre parcial e provisória porque a ideologia reaparece nas decisões concretas e na perceção pública.


Prestar juramento de defender a Constituição exige dar prioridade às obrigações constitucionais acima das suas crenças pessoais ou religiosas, mas não obriga à renúncia da ideologia, mesmo que partidária, apesar dessa renúncia ser uma imposição mais de consciência do que outra.


De facto, simbolicamente, a atitude de Marques Mendes pode ser um gesto de distanciamento meramente estratégico, para se apresentar como independente ou pragmático, mas no plano prático, mesmo que rejeite rótulos, as suas decisões continuarão a refletir valores, prioridades e visões do mundo que são em si mesmos ideológicos. Cargos como o de Presidente da República exigem imparcialidade formal, mas não anulam a bagagem ideológica de quem ocupa o lugar.


Assim, a declaração de Marques Mendes de que não será correia de transmissão do partido não fazer mudar a posição dos eleitores visto que estes projetam expectativas ideológicas sobre qualquer candidato, mesmo que este se declare acima das ideologias. Também não é possível demitir-se totalmente do que defende em teores políticos visto que toda a ação política implica valores e opções que, de certo modo, são de carácter ideológico.


Isto ocorre quando a adesão dogmática à ideologia entra em conflito com o dever de servir a nação e o país, com a evidência empírica dos factos e com a racionalidade do indivíduo. O que pode estar em causa é a distinção entre oportunismo de mudança para benefício próprio e uma reavaliação de colocar acima de tudo mudança para servir o país.


A fim de melhorar as suas hipóteses de eleição e para manter a sua influência os políticos, e Marques Mendes é um deles, estão plenamente cientes de sua viabilidade eleitoral e podem modificar as suas posições para se alinhar com as mudanças no sentimento público e perceção dos eleitores fazendo por mostrar que o dever para com o bem comum deve sobrepõe-se à lealdade ideológica. Mas os eleitores que votam num determinado partido irão também votar num candidato a Presidente da República do qual conhecem o seu pensamento em termos partidário-ideológico.  Todos os candidatos a presidentes aquele que ganhar e for empossado tenta procurar distinguir-se do seu anterior e afirmar-se autonomamente perante a opinião pública, mas nem sempre é assim.


Marques Mendes será uma espécie de Marcelo mais contido, mais reflexivo, mas não deixará de ser mais do mesmo porque o “vício” do comentário televisivo não desaparece facilmente defendendo o que a sua consciência partidária lhe ditar. Se não o fizer será para si uma contrariedade como o foi a de Cavaco ao tempo em que aceitou uma “geringonça”.  


Cavaco Silva não aprovava a geringonça porque a considerava uma solução inédita, arriscada e pouco credível, tanto interna como externamente. Aceitou-a apenas por não ver alternativa viável, entre um governo de gestão ou a nomeação de Costa, e procurou reduzir os riscos impondo condições formais.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

De comentador a presidente ex-comentador vai um passo

Eleições-Presidentes.png


Acerca das presidenciais já fiz a minha escolha por entre os candidatos e decidi em quem vou ‘apostar’. Apesar de haver muitos comentadores e colunistas a dar opiniões sobre os candidatos às presidenciais que não revelam as suas preferências e o seu envolvimento nas campanhas e estratégias dos candidatos lá vão por entre linha elogiando os seus preferidos e fazendo por desacreditar outros.  Por isso pretendo ser eu a fazer próprio a minha análise a partir de informação disponível e dos pontos de vista de cada um dos candidatos.


A primeira experiência que tivemos com a eleição dum Presidente da República que passou a ser comentador de política na televisão foi Marcelo Rebelo de Sousa, militante do PSD. Rebelo de Sousa fez comentário político na TVI entre 2000-2004, na RTP entre 2005-2010 e novamente na TVI entre 2010 e 2015. No entanto, sendo militante do PSD não se desfiliou do seu partido, tendo suspendido a militância quando concorreu pela primeira vez à Presidência da República.  Não existe um requisito legal explícito que obrigue um Presidente da República a desfiliar-se do seu partido, assim, um candidato à Presidência da República pode manter a sua filiação partidária.


O que está estabelecido na Constituição da República Portuguesa é que o Presidente da República deve atuar com total independência e imparcialidade para representar a unidade nacional, o que, na prática, significa que deve assumir uma posição de neutralidade e representação de todos os cidadãos, pelo que a sua ligação a um partido político deve ser separada do exercício do cargo presidencial. Contudo, a desvinculação ao partido a que pertence é uma consequência natural e necessária para garantir a sua atuação enquanto Chefe de Estado.


Em síntese, o Presidente da República, após eleição, deve exercer as suas funções com a independência e imparcialidade exigidas pelo cargo, que é um órgão de soberania acima dos interesses partidários, mas a sua filiação a um partido não é um impedimento legal, tal como um candidato a presidente ter sido comentador político de televisão não é impeditivo.


A desfiliação do partido a que pertencem pelos candidatos a presidentes da república parece ser apenas uma formalidade para salvar as aparências. É claro que a sua orientação do ponto de vista partidário-ideológico não se altera considerando que a sua ideologia seja o seu sistema de ideias, crenças e princípios e a visão sobre como a sociedade deve ser organizada e de como os objetivos devem ser alcançados.


Não tenho dúvidas de que os comentadores de política nas televisões têm a sua ideologia política e os seus partidos preferidos. Temos um Presidente da República que já foi comentador, e há atualmente um candidato que também já o foi e não duvido que estes continuam a ter preferência pelo PSD.


A pergunta que podemos colocar é: devemos ignorar textos e cometários de opinião apenas pela sua suposta ideologia política? Artigos de opinião ou comentários políticos devem ser lidos tendo em conta o enviesamento, isto é, o desvio ou deformação na maneira de ver, julgar ou agir, e, por isso, o leitor deve lê-los e ouvi-los com alguma cautela.


Assim, temos de encarar as campanhas dos vários candidatos à presidência da república, cujas campanhas parecem querer mostrar uma aparente imparcialidade e que se afastam de qualquer ponto de vista ideológico com a cautela necessária.


Muitos candidatos abandonam a sua militância no partido em que militaram, tal como fez o ainda atual Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que tentou mostrar que se afastou da sua ideologia política e de qualquer outra. Não há que omitir que política e ideologia andaram sempre a par visto que as democracias revigoram-se com a livre discussão de ideias e com a pluralidade de opiniões e perspetivas de solução dos problemas.


É natural que candidatos que foram comentadores políticos enfrentem desvantagens tais como suspeitas de parcialidade, falta de experiência executiva e confusão entre análise e ação política. Podemos analisar as principais desvantagens associadas a candidatos presidenciais que anteriormente atuaram como comentadores políticos.


Os comentadores são frequentemente associados a posições ideológicas explícitas que podem comprometer da imagem de imparcialidade esperada para um presidente. A transição do comentário para a política ativa pode ser vista como oportunista, especialmente se o comentador criticava partidos que depois passa a deixar de criticar.


Há um caso evidente que foi o do jornalista português, na altura com 28 anos, Sebastião Bugalho que de comentador político se transformou em candidato, pela AD, ao Parlamento Europeu.  Este caso faz parte de uma lista entre outros que, partindo do jornalismo, se lançaram em percursos políticos partindo do comentário político na televisão. Mas, em democracia e num país livre, qualquer um pode tomar as decisões que entender mesmo que entrando em contradição.


Há muitos comentadores e até alguns candidatos que afirmam que não ter experiência em cargos executivos ou legislativos é uma lacuna importante para o exercício da presidência, argumento que utilizam para justificar a sua preferência e o desprestigio em relação a outros candidatos.


Eleições-Gouveia e Melo.png


Os que afirmam, por exemplo, que o Almirante Gouveia e Melo não tem experiência política esquecem-se, ou não se recordam que o General Ramalho Eanes não tinha experiência política significativa antes de ser presidente, a não ser alguma experiência política formal limitada. Ter posições de destaque na sua carreira militar como Chefe do Estado-Maior do Exército e a sua participação no controlo do golpe do 25 de novembro de 1975, assumindo somente, como seria de esperar um papel político operacional e estratégico na transição democrática. Ter também exercido o cargo de relevância pública como presidente da RTP após o 25 de Abril, antes de ser eleito para a presidência não pode ser considerada uma grande experiência política como tal.


Outro caso foi o de Soares Carneiro candidato presidencial nas eleições presidenciais de 1980, cuja intervenção política não era conhecida, a não ser o de ter o apoio da Aliança Democrática na altura.


Do mesmo modo o Almirante Gouveia e Melo também teve um exercício político inerente aos cargos militares que desempenhou, tal como o General Ramalho Eanes que foi Presidente numa época politicamente conturbada e ideologicamente polarizada.


Há sempre vantagens e desvantagens entre candidatos que têm ou tiveram notoriedade como comentadores e militantes de partidos e os sem histórico como comentadores. Os que foram comentadores têm a desvantagens da perceção que transmitem de parcialidade, falta de experiência institucional, contradições públicas em relação a afirmações nos comentários, confusão entre análise e ação política. Pelo contrário, os que não têm histórico no cometário político têm desvantagem porque têm uma menor visibilidade mediática e, por isso, têm necessidade de construir notoriedade e dependência de apoios partidários.


Quanto ao ainda Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e ao candidato à presidência Marques Mendes fizeram do comentário político nas televisões um trampolim para uma intervenção pública, neste caso ao mais alto nível.


Os que têm histórico como comentadores passam uma perceção de imparcialidade      questionada associada a posições ideológicas explícitas, os que não foram comentadores estão geralmente menos expostos a acusações de parcialidade mediática, como é o caso de Gouveia e Melo. A propósito de Gouveia e Melo já começou, por parte de alguns comentadores e jornalistas, porque estarão mais próximos de outros candidatos, a procura de potenciais falhas ou contradições que ele possa cometer para as ‘escavarem’ e repetirem até à exaustão.


O contraste de Marques Mendes com os outros candidatos é apenas e, mais uma vez, o seu percurso político no PSD depois no comentário político em televisão para se colocar na ‘pole position’ na corrida para qualificação para a corrida à presidência.


Quando o comentário político televisivo ao longo de muito tempo garante notoriedade televisiva e até pode garantir visibilidade, mas tem a desvantagem de levantar dúvidas sobre a profundidade do compromisso político e as propostas que defende, esvaziando a credibilidade em futuras carreiras políticas.


Há muitos comentadores e colunistas a dar opiniões sobre as presidenciais sem revelarem as suas lealdades e o seu envolvimento ativo nas campanhas e estratégias dos candidatos. Os comentadores podem ser vistos como bons comunicadores, mas não são, necessariamente, bons gestores ou líderes institucionais.


O Almirante Gouveia e Melo não foi comentador, mas apenas homem que se mostra autêntico. O seu papel não é o de analisar e criticar e, enquanto não político, mostra a vontade de propor, aconselhar e executar ainda que esta posição possa gerar desconfiança sobre a capacidade de transformar no terreno porque não faz parte das competências dum Presidente da República.


Por outro lado, notabilidade televisiva pode garantir visibilidade, mas também levanta dúvidas sobre a profundidade do compromisso político. Esta exposição constante nos meios de comunicação pode criar uma perceção pública favorável e facilitar o reconhecimento imediato do candidato, contudo, não substitui a necessidade de demonstrar coerência e convicção nas propostas que apresenta. A partir daqui candidatos que emergem do comentário televisivo enfrentam o desafio de provar que a sua presença mediática não se limita ao espetáculo, mas está sustentada por um verdadeiro compromisso com o serviço público e capacidade para liderar com seriedade, afastando a ideia de que apenas procuram capitalizar popularidade sem apresentar soluções relevantes para o país. O que afirmo demonstram que declarações passadas podem ser recuperadas e gerar crises de credibilidade, como no caso de Sebastião Bugalho que anteriormente referi, que dizia não ter ambições políticas.


Tal como Marques Mendes que em 20 de outubro de 2016, já lá vão seis anos, afirmava que «Não sou candidato a coisíssima nenhuma. A nada». Na altura Luís Marques Mendes repetiu, por várias vezes, que não iria “candidatar-se a primeiro-ministro na conferência “Portugal em Exame”.


Em setembro de 2022, declarou que não pretendia ser candidato nem tinha essa ambição. Já em agosto de 2023 Luís Marques Mendes, antigo presidente do Partido Social Democrata (PSD), não descartava a hipótese de se candidatar a Belém ao afirmar que «Se um dia achar que, com uma candidatura à Presidência da República, posso ser útil ao país, que é isso que conta, ter utilidade para o país, tomarei essa decisão». Ainda na mesma data passou a admitir a hipótese de se candidatar, dizendo que “se um dia achar que é útil, não excluo”. Ou seja, houve uma evolução: primeiro rejeitou categoricamente a ideia, mas depois deixou a porta aberta, até chegar ao momento atual em que é de facto candidato apoiado pelo PSD.


Em 2 de fevereiro de 2025 Marques Mendes despediu-se do seu espaço de comentário no ‘Jornal da Noite’ da SIC quatro dias antes da sessão de apresentação da sua candidatura às eleições presidenciais de 2026.


A conclusão a tirar é a perceção de que a sua passagem pelo comentário político serviu de trampolim para a intervenção pública ao mais alto nível e revela a constatação de que a cobertura mediática tende a privilegiar rostos conhecidos, o que pode distorcer a representatividade e favorecer alguns candidatos.


Portugal não precisa de presidentes comentadores e de políticos profissionais, precisa, isso sim, dum presidente que se mostre independente e com a neutralidade e imparcialidades necessárias, assumidas e continuadas.


 

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Os jovens o jornalismo e a política

Sebastião Bugalho e terceira idade.png


A juventude pode significar muitas das vezes um pensamento conservador e antiquado embora com pretensões de mostrar uma grande abertura de pensamento. Há um exercício mental que se pode fazer: imaginar, por exemplo, Sebastião Bugalho como primeiro-ministro no lugar de Luís Montenegro. A juventude em certos cargos, que não seja a mera emissão de opiniões e comentários que por serem por vezes polémicos podem demonstrar um pensamento desarticulado com a realidade e, tanto pode ser um pensamento antiquado ou, então demasiado atrevido e progressista em alguns pontos fraturantes.


Por várias vezes tenho escrito aqui sobre a influência dos media televisivos na política partidária com a proliferação de opiniões e comentadores na política portuguesa e como tentam tomar posições ideológico-partidárias de favorecimento a partidos especialmente de direita. Conhece-se a promiscuidade entre a política e o sector privado assim como entre a política partidária e o comentário político. Chegou-se agora a uma dimensão inédita: a transição do jornalismo de comentário para o estrelato da política.


O caso da escolha de Sebastião Bugalho para cabeça de lista às eleições europeias é, no mínimo, intrigante e parece ser um destes casos. Sebastião Bugalho, parece ser um pecado original de caso da promiscuidade político-mediática.


Quem se dedica a ver e a ouvir comentários políticos nas televisões apercebe-se do aumento significativo do número crescente de comentadores, tendencialmente favoráveis à representação da direita, embora ligeira, no período em que houve uma maioria de esquerda no governo. Foi exceção o ano de 2016 em que o equilíbrio se encontrou favorável à esquerda e o ano 2023 que registou um maior desequilíbrio, com 37 comentadores identificados como de direita face de 25 como de esquerda.


No entanto, há dificuldade em identificar o posicionamento ideológico de alguns comentadores e opiniões devido ao acréscimo da categoria daqueles a quem é possível atribuir uma orientação política que se deve ao alargamento do número de comentadores e também ao destaque dado aos jornalistas nos espaços de opinião.


O estudo efetuado considerou a exclusão da análise programas que, sendo semanais e regulares, apresentam convidados pontuais de acordo com a temática da semana são exemplos “É Ou Não É?”, “Expresso da Meia-Noite” ou “Negócios da Semana”, assim como os segmentos de opinião dentro dos noticiários ou outros programas que são protagonizados por comentadores convidados.


Em março de 2024 foi publicado um estudo do ISCTE sobre aquela temática intitulado “Comentário político nos media 2023 Análise ao comentário político em Televisão, Rádio e Meios online em Portugal”. Nesse estudo foram excluídos os que, apesar de incidirem sobre temas da atualidade política que, quer pelo formato, quer pelo conteúdo, se afastavam do comentário político estruturado em torno da opinião pessoal do comentador.


O estudo mostra várias asserções que fazem uma análise sobre os espaços semanais de comentário político em televisão concluindo que tem aumentado de forma acelerada nos últimos anos, passando de 53 em 2016 e em 2019 para 78 em 2023.


Comentadores e política.png


Esta evolução reflete uma aposta crescente neste registando um aumento de 47,2% em relação a 2016.


O Relatório MediaLab do ISCTE refe ainda que “ao longo de 8 anos de maioria à esquerda no governo o comentário político em televisão tem sido marcado por uma ligeira vantagem da representação da direita, com mais comentadores desse espectro político, com exceção do ano de 2016 em que o equilíbrio era favorável à esquerda”.


O ano 2023 é aquele que regista um maior desequilíbrio, com 37 comentadores de direita face a 25 de esquerda. O mesmo relatório mostra “O alargamento do número de comentadores tem aumentado a dificuldade em identificar o seu posicionamento político, crescendo a categoria daqueles a quem não foi possível atribuir uma orientação política seguindo os critérios definidos na metodologia. Este crescimento dos casos considerados “não identificável” politicamente nos últimos dois anos resulta sobretudo do maior protagonismo conferido aos jornalistas em espaços de opinião.”


Comentadores e política2.png


Fica demonstrado que a relação entre comentadores políticos, jornalistas e partidos políticos pode ter implicações significativas para a integridade dos meios de comunicação social, a perceção pública e os processos democráticos.


 


O caso de Sebastião Bugalho, lançado como cabeça de lista às eleições europeias pela AD, pode ser encaixado nestas tipologias. Bugalho destacou-se no cenário jornalístico e político de Portugal devido ao seu olhar crítico e detalhado sobre os acontecimentos contemporâneos. Formado em Comunicação Social, Bugalho começou a sua carreira em diversos meios de comunicação, incluindo jornais, canais de televisão e plataformas digitais.


A independência e objetividade dos meios de comunicação social ficam em causa quando comentadores políticos ou jornalistas participam ativamente em campanhas partidárias levantando questões sobre a sua independência e objetividade e os seus artigos podem ser tendenciosos ou carecer de análise crítica. Assim, comentadores políticos que alternam entre funções de campanha e funções mediáticas podem, inadvertidamente, contribuir para esta perceção.


Quando se foi ou é jornalista e se participa em campanhas de políticas partidárias cria-se uma perceção de conflito de interesses porque quando se é, ou foi, comentador pode dar-se prioridade às filiações pessoais ou partidárias próprias.


Interromper o seu processo de comentador para se candidatar a um cargo político e ao mesmo tempo partidário o seu retorno ao comentário fica comprometido na sua independência e objetividade. Quando os jornalistas são vistos como partidários, isso pode corroer a confiança nos meios de comunicação e o público pode questionar se os meios de comunicação são realmente imparciais. De qualquer modo não parece ser o que irá suceder a Sebastião Bugalho porque terá grandes hipóteses se vir a ser eleito como deputado europeu, mas doravante a sua independência enquanto jornalista passará a ficar comprometida. Tenha-se, contudo, em atenção que Sebastião Bugalho integrou as listas do CDS, como independente. Apesar de não ter aceitado assumir o cargo de deputado em 2021, coloca mesmo assim em causa a sua independência enquanto jornalista, ficando na posição do comentador partidário.


 

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Infiltrações na justiça ou outras que tais

Ministério Público-Balança.png


Sobre a decisão dos desembargadores do Tribunal da Relação de Lisboa que negaram, na globalidade, o recurso que o Ministério Público apresentou das medidas de coação aplicadas no âmbito da Operação Influencer ergueram-se comentadores e os mais diversos escritos de opinião que lançaram para a opinião pública pontos de vista à medida das suas opções políticas  e ideológicas. Por entre eles há dois tipos de gente: há os que se colocam do lado da decisão tomada e os que estão subtil ou ostensivamente contra aquela decisão.


Sobre os primeiros, os que estão do lado da decisão, nada a dizer. Quanto aos segundos encontram-se as criaturas raivosas, vingativas que esperavam uma vendeta. São as que não olham a meios para denegrir quem não gostam. Nestes incluem-se também as criaturas que, sempre que os tribunais decidem do lado que lhes convém e do lado adversário, mesmo que injustamente, rejubilam saudado a decisão. Quando a decisão é contra eles explodem de raiva porque o tribunal não decidiu conforme desejavam.


Tenho uma suspeição de que há infiltrações de alguns setores radicais, obscuros e antidemocráticos no MP ou que tenham uma grande capacidade para o influenciar. Fica-se com a dúvida.


 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

A propósito dum artigo de opinião de Carmo Afonso

Mentiras de Ventura.png


Ser de extrema-direita, populista e demagogo não significa ser boçal, ser ordinário, ter falta de responsabilidade política, não fazer política com seriedade, ser mentiroso. Ventura é tudo isto, parecendo mais aquilo a que os nossos antepassados designavam por carroceiro, com respeito para com essa extinta profissão.


André Ventura é o protótipo da boçalidade, da manipulação e da alucinação, epítetos que lhe assentam com mestria. Demonstra ter ambição, sim, isso é o que quer para ele, mas, e os outros? Diz ser contra o sistema ao mesmo tempo que diz querer fazer parte do sistema ao propor alianças com forças do sistema. Pretende desenvolver o país, substituindo o sistema, do qual diz ser contra. Qual outro sistema e por qual? É uma incógnita!


da violência do ódio), A sua ignorância em termos da aplicação prática política das propostas apresentadas confraterniza com a  com ignorância.


Ventura é um sujeito perigoso, capaz até de se fosse caso disso e conseguisse um dia chegar ao poder absoluto e ditatorial, de matar adversários que se lhe opusessem ou lhe fizessem frente. Associo Ventura a uma espécie de Putin. Porque André Ventura nem o seu partido Chega têm nada a ver com os da maioria da extrema-direita europeia.


Hoje incluo abaixo o artigo de opinião de Carmo Afonso publicado hoje no Público com um título de certo modo sarcástico “Não, a culpa não é do TikTok”.


Acho que vale a pena ser lido, mesmo por aqueles que já decidiram votar no partido que lhes dá esperanças sem fundamento, lhes oferece futilidades não exequíveis e que, por isso, nunca as irão conseguir ou alcançar.


Até pode ser que Carmo Afonso seja de esquerda, até pode ser que seja de extrema-esquerda, até pode ser que seja do centro, até pode ser que seja de direita, mas o artigo que escreveu é de uma evidência e clareza que só os empedernidos intelectuais, os ferrenhos clubistas não entendem, ou não querem entender.


Aqui segue então o artigo de Carmo Afonso:


 


Não, a culpa não é do TikTok


Um artigo de Carmo Afonso


In jornal Público, 16 de fevereiro de 2024


Carmo Afonso.png


Aplaudir o líder do Chega e considerá-lo vencedor de debates, sabendo que mentiu e sabendo que está a enganar uma percentagem assustadora de portugueses, é indesculpável.


As audiências indicam que os portugueses têm assistido aos debates entre os candidatos às próximas legislativas. São muitos debates, uma verdadeira maratona em que cada candidato tem a possibilidade, e o dever, de discutir as propostas que apresenta perante cada um dos candidatos a primeiro-ministro das restantes candidaturas. Sabemos que, a menos que nos espere algum terramoto, só existem dois candidatos a primeiro-ministro. E poderia dar-se o caso de os portugueses guardarem a sua atenção apenas para o debate entre ambos. Mas não, numa grande demonstração de vitalidade democrática têm seguido os vários debates.


Ter esta atenção dos eleitores dá aos debates uma importância fundamental. Não é previsível que a maioria se dedique à leitura dos programas eleitorais ou que se desloque a comícios. É nestes duelos que uma parte significativa dos portugueses decidirá em quem votar. Notem que as sondagens indicam que uma percentagem relevante do eleitorado ainda está indecisa. Serão esses os eleitores que decidirão quem ganhará as eleições.


Os debates são curtos e, também por isso, pouco esclarecedores em relação aos programas de cada candidatura. Não há de facto tempo para aprofundar assuntos. Mas não é só por falta de tempo. O formato destes debates promove uma disputa de aspectos da personalidade e de habilidades. Ficamos a saber quem é o mais rápido, o mais felino e o mais confiante. Também notamos quem se preparou melhor e em que medida é capaz de usar esse conhecimento para contraditar o outro e encostá-lo à parede.


Pergunto: serão estas características as mais relevantes para sabermos qual dos candidatos será o melhor primeiro-ministro? E respondo: não. Ter a arte de dar baile é um detalhe menor, eventualmente dispensável, nas capacidades de um bom político. Os debates, por si, não conseguem ser esclarecedores.


É também por isso que os comentários que se seguem aos debates são tão importantes como os próprios debates. Notem que o tempo concedido aos comentadores excede o tempo concedido aos candidatos. É como assistir a uma curta-metragem seguida de uma extensa discussão entre críticos de cinema.


Nestes debates destaca-se a participação de um candidato que recorre insistentemente à mentira deliberada e à deturpação dos factos. Além disso apresenta propostas não exequíveis e que estão em absoluta contradição com outras propostas que defendeu anteriormente. Tem também o hábito de insultar, interromper e de fazer uma espécie de bullying aos adversários. Suponho que ninguém desconheça a quem me refiro. É o rei dos falsos no fact checking, título que já detinha antes do início destes debates. Isto é ponto assente e todos os comentadores o reconhecem.


Qualquer jogo ou combate tem regras. O incumprimento dessas regras tem consequências e determina penalizações. Os golos marcados por jogadores que estão fora de jogo não são considerados. Se não existissem sanções os jogadores prevaricadores, e as respetivas equipas, seriam beneficiados. Mas é precisamente isso que muitos comentadores estão a fazer.


Ventura acusou o PCP de ter cometido assassinatos no pós-25 de Abril. É difícil imaginar uma mentira mais gravosa. Dita por quem tem no seu partido Diogo Pacheco Amorim, que pertenceu ao MDLP. Esta organização foi responsável por ações violentas no pós-25 de Abril, onde se incluíram ataques bombistas. Morreram pessoas como resultado dessas ações, como o padre Max e a estudante Maria de Lurdes.


Mas houve comentadores que deram a vitória a Ventura no debate com Paulo Raimundo e que voltaram a fazê-lo no debate com Pedro Nuno Santos, onde Ventura voltou a mentir. São, mais coisa menos coisa, os mesmos que acusaram Mariana Mortágua – que deu o verdadeiro baile a Ventura – de ter mentido a propósito do assassinato do padre Max ou a propósito da carta recebida pela avó. Ui, aí rasgaram as vestes. Mas Mariana Mortágua não mentiu e não costuma mentir.


Estamos conscientes de que André Ventura está a enganar milhares de portugueses, pessoas que confiam na sua seriedade. Não me parece que seja o caso de algum comentador. Aplaudir o líder do Chega e considerá-lo vencedor de debates, sabendo que mentiu e sabendo que está a enganar uma percentagem assustadora de portugueses, é indesculpável. Estes comentadores também não cumprem as regras. Depois não digam que a culpa é do TikTok.


A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Afinal de que lado estão eles?

Ucrânia-militares comentadores (2).png


Há uma diferença entre o comentário e a análise política dizem alguns e de certo modo estou de acordo com eles. Esclareçamos primeiramente os conceitos. Comentário político significa uma transmissão de natureza política que é projetado para promover uma discussão pública de questões políticas e pode incluir debates políticos entre pontos de vista diferentes, ou entre indivíduos com opiniões opostas, comentários de notícias, debates, etc.


A análise política é o estudo e investigação levado a cabo por cientistas políticos. A análise política pressupõe-se ser o trabalho de cientistas políticos que ‎‎estudam a origem dos sistemas políticos e como eles se desenvolvem e operam‎‎. Pesquisam e analisam governos, ideias políticas, políticas por eles desenvolvidas, tendências políticas e relações exteriores.‎


Há autores que considerem que a análise política tem três objetivos principais: conhecer o que há de importante na política, isto é, o que influencia ou determina os resultados dos acontecimentos; conhecer a diferença que os resultados políticos produzem nas nossas necessidades, tanto individual como coletivas; conhecer o que é real ou verdadeiro submetendo sistematicamente à verificação os nossos palpites, impressões, crenças populares, até mesmo rumores. Assim, uma análise política visa responder a perguntas sobre um determinado processo político, evento, assim como prever desenvolvimentos futuros.


Após a invasão da Ucrânia os canais de notícias das televisões chamaram oficiais de altas patentes das forças armadas para comentarem a invasão da Ucrânia levada a cabo por Putin. Logo aos primeiros comentários, reporto-me a março do anoa em curso, quem estivesse atento conotaria as intervenções daqueles comentadores como tomando posições pró-russas, diria antes, pro-Putin o que levou muitos a denominá-los “putinistas”.


Estes senhores generais cujos nomes não avanço aqui, mas que se sabe quem são, acham-se credenciados por terem estado destacados em missões especiais onde desempenharam funções, fosse lá onde fosse, que em nada abonam em prol das suas análises políticas porque cada contexto político e geoestratégico tem as suas especificidades. Não há situações comparáveis e esta da invasão da Ucrânia pela Rússia é, por si mesma, muito específica.


Estes senhores generais e coronéis que mais parecem ser agentes do Kremlin alinhados contra o ocidente numa atitude de apoio a Putin. Os pontos de vista deles são idênticos a outros da mesma estirpe que proliferam pelas redes sociais que dizem aos que estão contra a invasão de fazerem parte do “rebanho”.


Face às críticas que dispararam dos mais diversos setores respondem os referidos militares (na reserva?) dizendo que fazem comentários “neutrais” refugiando-se no que eles chamam doutrina militar e geoestratégica. Afirmam não querer diabolizar nenhuma das partes, mas, para quem os ouve, as suas intervenções não correspondem ao que afirmam. Banalizar um mal é um risco seja de que protagonista for, mas nos seus comentários não é mais do que banalizar o mal da guerra colocando Zelensky que, segundo eles, como o grande causador dos males da guerra.


Recuperando algumas das suas afirmações podemos avaliar de que lado eles se encontram e que, por vezes, mais parecem ser agentes infiltrados a mando de Putin mostrando compreensão das razões pelas quais Putin invadiu a Ucrânia.


Um deles afirmou num órgão de comunicação social que “o Presidente russo foi encurralado” pela NATO ao mesmo tempo que não aborda nem justifica fugindo à questão da anexação da Crimeia. Outro disse que a Rússia não ia “permitir a chacina da população ucraniana russa” em Luhansk e Donetsk, e qualificava a parte ucraniana como uma “ameaça”.


Outro ainda, usou (nos três canais de televisão) argumentos idênticos aos russos agressores, tais como “a preocupação dos russos em não causar baixas civis”, (tendo-se verificado o contrário), ao que acrescentava a desvalorização da coluna militar russa na altura paralisada perto de Kiev. Não se ficando por aqui, no dia seguinte à invasão, garantiu que os russos já estavam em Kiev e que Volodymyr Zelensky tinha fugido para Lviv, na zona ocidental. Numa entrevista e com grande desplanto um deles para se defender das críticas diz que “Não são posições pró-russas, são neutrais” e acrescenta que “Ninguém defende o Putin. É geoestratégia, é power politics”, explica com um argumento técnico. Este argumento técnico parece ser aproveitado por ele porque significa que a política de Putin é baseada principalmente no uso do poder como força militar e económica e força coercitiva e não em preceitos éticos.


Um dos militares refugia-se no argumento de que “Temos de nos meter nos sapatos deles e perceber como eles nos olham, e procurar uma solução inteligente”, para o fim do conflito, “onde ninguém perca a face”. Parece-me que para este senhor major-general temos de ficar do lado do invasor por ser uma solução inteligente.  Será assim a estratégia quando se trata de uma guerra de estratégia invasiva devermos apoiar o invasor para o percebermos? Eu, cá por mim, não percebo.


Não são comentadores, são analistas e não têm bolas de cristal, diz um deles, mas, por outro, um afirma que tem obrigação de “perceber estas operações e o patamar político”.  Conforme os conceitos de comentário e análise política que apresento no início do artigo torna-se evidente que não fazem análise política, mas uma aproximação a comentários opinativos com uma forte opção aparentemente ideológica no sentido de compreensão para com uma das partes do conflito, a de Putin.


Ucrânia-militares comentadores2.png


Estas análises(?) parecem ter estado a causar algum desagrado entre muitos que os ouvem que tem levado a publicações em redes sociais como o de um antigo inspetor dos serviços secretos de informações que escreveu em março no Facebook, umas semanas após a invasão da Ucrânia, como podem confirmar abaixo. Por ter julgado como insidiosos os ponto de vista de um dos comentadores militares ao considerar que a NATO tem “vindo a cercar a Rússia”, e, por isso, dirigiu o seu texto a “antiamericanos”, afirmando ainda que que “sob a capa de pensadores não são mais do que vozes recrutadas por esta Rússia, autocrática”. Por outras palavras também já exprimi este tipo de pensamento no blogue “apropositodetudo”.


Sobre estes comentadores militares, outro militar, antigo coronel dos comandos, também escreveu no Facebook sobre um “kamarada general potamófilo” que “vai à televisão, na pose de grande especialista”.


Um professor do ISCTE, citando uma entrevista do general, chegou a afirmar no Twitter que “tem estado tão consistentemente errado face à invasão russa da Ucrânia” o general que negou que alguma vez acontecesse o que, acabava por ser um bom indicador do que vai provavelmente acontecer – o contrário do que ele diz. Apresenta um exemplo que é uma afirmação e o título da entrevista ao DN: “As sanções prometidas à Rússia não amedrontam os seus dirigentes. E, citando o general: “Os russos pretendem apoderar-se da Ucrânia intacta. Com o menor dano possível”, horas depois o exército de Putin bombardeia a maior central nuclear da Europa.”, como escreveu o referido professor.


Ucrânia-militares comentadores3.png


Eu e muitas pessoas têm tentado explicações para as posições destes militares. Se no debruçarmos sobre as posições de alguma extrema-esquerda, nomeadamente as do PCP, podemos verificar a aproximação. Devem ser militares supostamente pertencentes à ala esquerda militar, como são, por exemplo, as do coronel Matos Costa conforme podemos verificar nos posts que escreve no Facebook.


Outras fontes explicam também a posição destes generais por alegadamente pertencerem à ala esquerda militar por alguns argumentos não serem muito diferentes dos do PCP, nomeadamente os que têm a ver com a expansão da NATO e dos ”nazis” nas repúblicas separatistas.


Nas redes sociais chegaram a ligar o major-general ao Valdai Club, um Clube de Discussão fundado em 2004 cujo potencial intelectual é altamente considerado na Rússia e no exterior. Muitos representantes da comunidade académica internacional de vários países participaram das suas atividades, que incluíam professores das principais universidades do mundo. Somente nos últimos anos, as conferências do Clube tiveram a participação de muitos líderes políticos, especialistas, figuras públicas e figuras culturais da Rússia e de outros países. Em 21 de junho de 2018 o secretário-geral da ONU António Guterres terá participado num evento do mesmo grupo, dedicado às tendências atuais das relações internacionais. Funciona como “clube intelectual da discussão que Putin leva em conta”, e que tem a participação de intelectuais estrangeiros “poucos ouvidos nos seus países”


Ana Gomes ex-deputada europeia acrescentava críticas mais radicais às posições daqueles militares ao escrever no Twitter.


Ucrânia-militares comentadores4.png


Um dos generais disse que vê o acontecimento de forma neutral e que ser neutral não é ser pró-russo usando os já gastos argumentos do passado sobre as ditas invasões feitas pelos EUA, como no Iraque, na Jugoslávia ou na Líbia, e acrescentava que nenhum destes países representava uma ameaça aos EUA, como a Ucrânia representa para a Rússia. Podemos perguntar no caso da Ucrânia que tipo de ameaça e quem ameaçava quem, e quem invadiu quem? Um dos militares, um coronel que escreve no Facebook, chegou a sugerir a rendição dos ucranianos.


Há os que consideram que estes militares não conseguem ultrapassar a visão extremamente pessoal de Putin, que acha que a Ucrânia não deve existir.


A 14 de fevereiro um dos generais disse numa rádio que o aparelho militar e de segurança da Ucrânia era dominado por forças de extrema-direita, nacionalistas radicais, que querem fazer um ajuste de contas com a população russa ucraniana. Narrativa muito próxima, senão uma reprodução de palavras tiradas dos discursos de Putin antes da invasão. A isto acrescentava as preocupações de segurança da Rússia, sem apresentar provas, que conduziria à guerra. Acrescentou ainda a “teimosia em não se considerarem as preocupações de segurança da Rússia”, resta sabermos onde estavam os antecedentes que conduziriam objetivamente à segurança da Rússia. Onde encontram antecedentes de que a NATO poderia invadir a Rússia mesmo que, como ele disse na altura, a NATO tenha pisado o que chamou a linha vermelha devido à possibilidade de adesão da Ucrânia. Então, segundo este raciocínio, Putin poderia ter começado outra guerra para invadir países da ex-URSS que, entretanto, entraram para a NATO.


O antiamericanismo e a rejeição dos valores democráticos liberais do ocidente revelam-se claramente em frases como: “Quando digo que os EUA têm um projeto de hegemonia global liberal, são os americanos que o dizem” e que “as pessoas acham que isto é ser pró-russo? Limito-me a regurgitar as teorias americanas”. Será que Putin quer substituir-se aos EUA e ter o seu próprio projeto global iliberal? Será o liberalismo algo a rejeitar e adotar o modelo global pró-totalitário e autocrático de Putin?


Um dos generais apresenta uma teoria da conspiração sobre a Ucrânia e, para isso, recua a 2004 e a 2014 para fazer valer os seus argumentos e, com uma visão distorcida, afirma que andaram a interferir na Ucrânia.


Sobre a Ucrânia, um major-general, para meu espanto, afirmou que em 2014 houve “um golpe de estado promovido pelos americanos, que instalaram um grupo de revanchistas, nazis, que iniciaram uma política xenófoba dos diferentes grupos étnicos” e que “os EUA andaram a interferir na Ucrânia de forma assertiva desde 2004 e que a revolução de 2014 foram eles que a fizeram.


Estes senhores militares que se dizem isentos, mas que se colocam do lado do invasor, para segundo eles o compreenderem parece que têm a memória avariada, e que, para além disso, intencionalmente, deturpem acontecimentos que contradizem as suas teses ou então andam a estudar pelos compêndios de história oficiais e obrigatórios propositadamente produzidos pelo sistema educativo da Rússia de Putin, o que é contraditório com a neutralidade que dizem ter. Claro que há informações e opiniões que desinformam e deturpam os acontecimentos divulgados por elementos que se encontram espalhados por todo o lado e que estão enfeudados ao Kremelin talvez por motivações ideológicas. Eles sabem bem que os meses de protesto na Ucrânia iniciaram-se com a oposição ao movimento do presidente Viktor Yanukovych que pretendia aumentar os laços de ligação com a Rússia.


Todavia o general não tem apontado críticas à invasão da Crimeia, nem aos nacionalistas russos do Donbas nem ao facto de os ucranianos terem preferido a esfera europeia em vez da influência russa em 2014.


O que se passou foi que Yanukovych não defendia a entrada do país para a U.E e pretendia que a Ucrânia viesse a ser um país debaixo do jugo da Rússia não tendo conseguido os seus intentos. Então, na altura, fugiu para a Rússia.  Deixou a capital e foi para Kharkiv dizendo que seu carro foi alvejado quando deixou Kiev, e, através da Crimeia dirigiu-se para o exílio no sul da Rússia. ‎Assim começou a "Revolução da Dignidade" da Ucrânia.


Em 2014 houve eleições livres após a revolução ucraniana de 2014. Poroshenko venceu as eleições com 54,7% dos votos, o suficiente para vencer na primeira volta. A concorrente mais próxima foi Yulia Tymoshenko que obteve 12,81% dos votos tendo a  participação eleitoral de mais de 60%, excluindo as regiões que não estavam sob controle do governo.


Em 2019 na segunda volta realizada entre o então presidente Petro Poroshenko  e Volodymyr Zelensky tendo este vencido as eleições com 73,22% dos votos, enquanto o presidente em exercício na altura, Petro Poroshenko, obteve apenas 24,45% dos votos.


Os senhores comentadores a que me refiro pretendem levar ao engano e omitir a quem os escuta que não é o ocidente que interfere. A interferência russa na eleição faz parte dos esforços do regime do presidente Vladimir Putin para impedir o direito soberano e a determinação da Ucrânia de permanecer independente e escolher o seu próprio futuro e da sua orientação de política externa. Com desinformação e a propaganda russas que tem como auxiliares estes senhores militares que se intitula de analistas procuraram desacreditar tudo sobre a Ucrânia seguindo o manual e a semântica de Putin que pretende enquadrar a Ucrânia como um Estado fracassado dirigido por fascistas e simpatizantes neonazis.


Este mesmo senhor major-general puxa dos galões da sua sabedoria devida a funções de diretor da cooperação regional da NATO, a reuniões com um general posteriormente chefe das Forças Armadas russas e ainda diretor da Divisão de Cooperação e Segurança Regional na qualidade de responsável pelo planeamento estratégico da cooperação militar da NATO com a Rússia, Ucrânia e Geórgia. Talvez, por isso, daí venha a sua posição pró-Putin.


Muito mais haveria para escrever sobre estes senhores que em entrevistas têm tentado “limpar-se dos ataques que sucessivamente lhes são dirigidos e confrontado com falsidade de factos como já aconteceu na intervenção de um deles na TVI ou na CNN Portugal.


Enfim, diz um deles “somos ‘putinistas’ só porque discordarmos do discurso oficial, de que era preciso diabolizar o Putin”. Mas afinal o discurso deles é mesmo o apoiar o pensamento de Putin nem que seja pela deturpação da verdade de factos. Pergunto: serão estes uma amostra do pensamento das nossas forças armadas?


 

sábado, 15 de janeiro de 2022

Comentadores comentados e indecisões dos eleitores

Eleições e indecisões.png


Os comentários que se seguem aos debates é suposto serem feitos por jornalistas credenciados e cada um com a sua orientação ideológica. A meu ver tenho constatado que a isenção e a independência, sobretudo na SIC, não são os pontos fortes dos intervenientes nos paneis de comentário.


Sou dos que considero que a comunicação social deve ter um papel relevante na critica e no escrutínio público do poder e, ao mesmo tempo, ter a liberdade de expressão e de opinião que devem ser estimuladas dentro dos limites da civilidade, da educação, da tolerância e de respeito pelo caráter de cada um.


Naquele canal televisivo os comentadores Ricardo Costa, José Gomes Ferreira e Bernardo Ferrão nos seus comentários tentam fazer passar para os telespetadores uma perceção de distanciamento ideológico, mas, para quem esteja atento aos pormenores, notará que incluem cirurgicamente pequenas "alterações”, provavelmente intencionais, ao significado ou às circunstâncias de um facto que possa sugerir algo em desabono do governo socialista e de António Costa.


Com a proximidade das eleições notam-se mais estas pequenas campanhas detratoras por via de jornalistas e comentadores. São opiniões, dirão. Certo. Mas também nos comentários sobre acontecimentos da política que se relacionem com a justiça e com a economia tiram da cartola algo do passado que introduzem no confuso emaranhado das lógicas em que se embrenham fazendo campanha e oposição partidária ao abrigo de fazer jornalismo. Não admira, têm que estar sintonizados com a “voz dos donos”. É normal.


Os jornalistas também são eleitores e terão as suas simpatias ideológicas e partidárias e alguns não as escondem, pelo que tentam fazer comentários positivos aos políticos do seu círculo ideológico-partidário e negativos para outros candidatos concorrentes colocando-os nos pratos de uma balança. Comentar desfavoravelmente a prestação de um interveniente político num debate que seja da simpatia do comentador pode favorecer o seu preferido em prejuízo do adversário.


Dou um exemplo como hipótese: quem estiver a comentar um debate entre, por exemplo, a líder do BE Catarina Martins e o líder do PSD Rui Rio poderá emitir uma opinião em que a prestação do BE foi mais bem conseguida do que a do PSD evidenciando os argumentos do BE ao fazer críticas ao PS. Assim, ao concordar com a crítica feita pelo BE ao PS potencialmente posso estar a condicionar pela negativa potenciais eleitores do PS que irão para o BE já que é pouco provável que haja eleitores do BE que irão votar PSD mesmo considerando a critica feita ao PS. Mas, pelo contrário, é mais provável que estes mesmos possam votar no PSD.


Como é possível em debates como os que temos visto entrar com pormenores que podem ser tecnicamente relevantes, mas que só contribuem para ruído e compressão da mensagem. Quanto a avaliações, tenham paciência! Catem também as falhas de pormenor nas narrativas de Rui Rio.


A obtenção de mais votos e, consequentemente, de deputados é, em quaisquer eleições, o grande objetivo dos partidos. Para as eleições que se irão realizar em 30 de janeiro há um outro objetivo que se apresenta: o do BE e do PCP é retirar votos ao PS para evitar que este tenha uma maioria absoluta.  Para a direita, no caso do PSD, o objetivo é o de conseguir mais votos alguns retirados ao PS.


Para os liberais de direita e para os extremistas de direita o objetivo é arrecadar mais votos, logo conseguir mais deputados, venham eles donde vierem, para que possam exercer pressão sobre o PSD para negociações pós-eleitorais. Para os partidos à esquerda do PS, chamados de extrema-esquerda, o objetivo é a obtenção de números de votos para pressionarem o PS a uma nova negociação.


Por entre estas competições para a obtenção de votos há também obsessões. A de Rui Rio, de Catarina Martins, marioneta do ideológico trotskista Francisco Louçã, do troca-tintas de André Ventura do Chega é o reconhecimento, mas que não dizem, de que António Costa é um político inteligente e competente que receiam e, por isso, jogam tudo para afastá-lo. É a pessoa de António Costa que é o político, o primeiro-ministro, o secretário-geral do PS e o defensor da democracia e do socialismo liberal constitucional que pretendem afastar.


O BE espera que, com o afastamento de António Costa, possa surgir um novo líder do PS como Pedro Nuno dos Santos que ceda ao BE e ao PCP e constitua uma nova geringonça caso a direita ganhe sem maioria, ou o PS perca as eleições. Só uma maioria absoluta do PS poderá ter a capacidade para afastar essa possibilidade.


O que todos temem por motivos diferentes, mas sobretudo o PCP e o BE, é que o PS liderado por António Costa possa conquistar uma maioria absoluta de deputados nas próximas eleições, que lhes tiraria a possibilidade de limitar e bloquear decisões fundamentais e a continuação de uma governabilidade estável do país para quatro anos.


No campo meramente de competição, para Rui Rio, António Costa é uma obstrução na engrenagem que o poderá elevar até ao poder. Está a ficar mais claro que para Rui Rio chegar ao poder precisa dos votos que possam vir de quem votou anteriormente PS e das franjas da direita que saiam das eleições para poder contar com uma maioria parlamentar, não negando em absoluto a possibilidade de também contar com os deputados do Chega.


No momento em que escrevo uma das últimas sondagens dá uma maioria de esquerda com algumas possíveis nuances. Segundo esta sondagem feita para o jornal Público, RTP e Antena 1 o PS conseguirá obter um mínimo de 104 deputados e um máximo de 113, neste caso a três lugares da maioria absoluta no Parlamento e podendo fazer negociações parlamentares com o PAN e o Livre, como defende Rui Tavares. Mesmo no cenário dos 104 deputados continua a existir uma maioria de esquerda com o BE, CDU, Livre (elege um deputado em qualquer dos cenários) e o PAN. Assim, a direita cresce, mas não ganha. O PSD em caso algum consegue uma maioria de direita para governar – nem no cenário mais otimista, nem mesmo com quatro deputados do PAN. Se assim acontecer Rui Rio vai confrontar-se, mais uma vez, com a oposição dentro do partido.


Mais do que uma maioria do PS é mais de temer uma maioria absoluta do PSD. Rui Rio apesar de se dizer do centro facilmente irá infletir para a direita por pressão da ala mais à direita do partido. Só PS ao conseguir uma maioria confortável nas eleições se pode libertar-se do jugo do PCP e, sobretudo, do BE ao mesmo tempo que poderá também influenciar Rui Rio a manter um rumo diferente. Note-se que para o caso duma revisão constitucional serão necessários dois terços de votos dos deputados.


O que Rui Rio propõe é uma espécie de continuação do modelo social que o governo de Coelho/Portas estabeleceu de 2011 a 2015, mas numa versão mais light.


Pode ser uma versão menos radical, mas, do mesmo modo, pelo que tem vindo a reclamar de modo mais ou menos astucioso é um modelo baseado na redução de impostos às empresas, de salários, do Estado Social, da tendência para a privatização da Saúde, da Educação, Segurança Social, etc., e tudo o mais que a fação mais neoliberal do PSD irá impor a Rui Rio que irá originar o agravamento das condições económicas, financeiras e sociais que se conhecem até que, segundo o próprio, haja crescimento económico. Podemos até concordar com alguns pontos mas o modelo que apresenta pode ser ajustado à realidade portuguesa e de com uma progressão e ritmo adequados seguindo uma outra via.


Tudo isto apesar de, em termos pessoais, apreciar a atitude de Rui Rio como político franco, aberto, por vezes realista, mas outras vezes demagogo e cheio de condicionais “ses”, que capta simpatias, que pretende ser do centro e não de direita, mas lá vai piscando o olho à direita e ao votantes do centro-esquerda verdadeiro partido social-democrata que é o PS em termos de comparação europeia como o Grupo do Partido Popular Europeu a que pertence o PSD e Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Sociais Democratas Parlamento Europeu a que pertence o PS.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O artificialismo da oposição de direita

Oposição.png


Ah! Senhora, Senhora, que tão rica


estais que, cá tão longe, de alegria


me sustentais cum doce fingimento!


Em vos afigurando o pensamento,


foge todo o trabalho e toda a pena.


 Lírica de Luís de Camões Canção IX


O Governo, ao contrário do que a oposição de direita pretenderia, tem funcionado naquilo que mais interessa aos portugueses com a caminho da consolidação das contas públicas, com a redução do défice, o crescimento económico, o investimento, o desemprego, as exportações,  conseguidos e que reconstruiu a credibilidade de Portugal no exterior sem os arbitrários, cegos e interesseiros cortes perpetrados pelo anterior governo em conluio com a troika, em favor de, sabe-se lá, que outros interesses, terá levado o então primeiro-ministro a dizer alto e a bom som que teria que ir para além da dita.


O desgaste do Governo que a direita pretende provocar à custa da tragédia dos lamentáveis incêndios atiçados por terroristas incendiários venham eles donde vierem, não é para o bem de Portugal nem da sua população, é-o, apenas, por questões exclusivamente de interesses partidário.


A direita quando foi governo esqueceu-se dos enormes incêndios e não descobriu na altura falhanços em SIRESP ou outro, fechava-se em copas indo de férias e a Proteção Civil que se amanhasse. Tendo falhado no compromisso para com os portugueses quer também que este falhe. Esta é a pior direita de que tenho memória (não contando com os tempos quentes de 1975 e 1976), quer nos processos, quer nos métodos de atuação.


Durante os dois anos e meio da chamada geringonça a direita caldeou conspirações e preparou o terreno a vários níveis. O ministério público por exemplo parece um cacifo com caixinhas de surpresas que vai abrindo ao saber de certas agendas políticas quando se aproximam eleições, e fecha aquelas cujo seu conteúdo possa vir a quebrar as telhas de quem tem telhados de vidro. Chama-lhe a isso tempo judicial. Não me recordo de ver o mesmo afã diligente quando se trata de corrupção e outros feitos de políticos ou figuras públicas da direita.


Canais de televisão procuram por todo o lado quem sem credibilidade queira dar a cara para, por tudo por nada, atribuir culpas ao Governo. Veja-se um indivíduo da região de Leiria que a TVI descobriu na altura da catástrofe de Pedrógão Grande atribuindo-lhe tempo de antena na hora nobre. Nada disse, mas serviu para atacar o Governo mesmo sem apresentar provas ou qualquer argumento válido. Tudo serve!  Na anterior legislatura passava-se o inverso, procurava-se tudo e todos os que viessem a dar o seu contributo a favor do governo.


O que se passou, e ainda passa, no último mês não é a favor de Portugal é contra Portugal. É a síndroma da perda do poder por uma direita capaz de “tudo” para recuperar o que, por culpa dela, perdeu, pretendendo voltar a recuperar mesmo sem um projeto definido para apresentar.  Alimenta-se de casinhos por aqui e por ali pata fazer oposição


Sem nada para oferecerem os partidos da eis aliança PáF, PPD/PSD e CDS-PP, cada um por sua vez, ou em simultâneo, voltam-se para acossar o Governo e os seus ministros que, afinal, é uma forma de esconderem as suas próprias fragilidades.


As eleições autárquicas aproximam-se e a preparação do Orçamento de Estado para 2018 já está em curso, há que fazer propaganda. Utilizam todos os canais disponíveis, redes sociais incluídas, para a desinformação e para criar instabilidade.  Não propõem soluções porque as não têm. Fazem um tipo de oposição partidária que recolha alguns dividendos eleitorais e nas sondagens. Os canais de televisão, em conluio, dão uma ajudinha para deitarem lume na fogueira. Não informam, atiçam o lume com a desculpa de ter que servir todas as tendências, é assim a democracia na comunicação social. Verificamos isso pela proveniência dos comentadores selecionados que comentam sem contraditório. Desconheço o critério, mas parece que, segundo eles, os espetadores não têm nada que saber. É comer e calar. São mais de noventa por cento da oposição da direita. As exceções são sempre em debate a dois e poucos todas as outras são monólogos escondidos sob uma falsa isenção. Os jornalistas moderadores muitas das vezes até facilitam tendencialmente a tarefa ao interlocutor. Há exceções, claro. Mas refiro-me uma visão generalista e de conjunto.


A isenção no comentário político não existe. Há sempre uma vinculação quer ideológica quer partidária. É assim, sejam ele da direita ou da esquerda.  Outra coisa é confrontarmo-nos com uma grande maioria de comentadores da direita que falam sem serem contraditados.


À boa maneira da estratégia de comunicação que beberam e que veio do tempo de Salazar têm agora ao seu dispor para a propagar novos meios de comunicação para onde lançam notícias falsas, numa tática de contra informação, deturpando acontecimentos, enganando e cultivando ódios. Utilizam o regime democrático que dizem defender, mas que, nem sempre, perfilham. Isto é, apenas o perfilham, quando lhes é conveniente. Fazem de qualquer acontecimento um sismo de alta magnitude na escala política com a ajuda de alguns servos fiéis e dedicados à causa.


Pelo meio geram-se sinistras e poderosas cumplicidades que acabam por trazer para o debate político casos pontuais que vão desenterrando aqui e ali, mas que nada têm a ver com o debate daquilo que às pessoas interessa, ajudados pelos fiéis instalados nos órgãos de informação que, em vez de informarem, utilizando-os para levar ao público, ele mesmo desinformado, um escrutínio pré condenatório, seja do que for, sem julgamento, ultrapassando o limiar da luz dos factos.


Para a direita há nomes que devem ser queimados a todo o custo. Não vivem bem com a competência à esquerda, preferem que a sua própria incompetência seja a que custo for, mesmo que os portugueses tenham que pagar por ela. Não gostam que a verdade atrapalhe um bom plano desestabilizador.


 


 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Política do sofisma ou a direita enganadora

Retórica.png


A ação política faz-se pela palavra, pelo discurso. O discurso, mormente o discurso político, passa necessariamente pelos media, particularmente a televisão.


A linguagem dos políticos, todos, e dos comentadores da política, também, é sempre baseado na retórica. Tenho ao longo dos textos neste blog utilizado algumas vezes o conceito de retórica que atribuo aos discursos de alguns políticos, mais a uns do que a outros, embora tente distanciar-me, por vezes, sem sucesso. Vejam-se os comentadores da política que não de distanciam nem um milímetro da sua área ideológica, mesmo que a evidência da verdade lhes caia em cima da mesa do debate, o que é válido quer para os de direita, quer para os de esquerda.


Mas afinal o que se entende por retórica? Sem querer entrar na filosofia, ramo que não é do meu domínio, retórica é uma técnica de construção do discurso, cultivada pelos sofistas, que visa a criação de um texto fortemente persuasivo, através de um uso correto da linguagem e a que Platão opôs a dialética que é verdadeiro ou filosófico.


O filósofo belga Michel Meyer define retórica como “o encontro entre os homens e a linguagem na exposição das suas diferenças e das suas identidades. Sempre e em todos os casos, a relação retórica consagra uma distância social, psicológica e intelectual, que é contingente e de ocasião, e que é estrutural ao manifestar-se, entre outras formas, através de argumentos ou da sedução.”. Vemos que esta definição se encaixa perfeitamente na atitude política.


Quem tem paciência para assistir a debates políticos apercebe-se facilmente que há uma técnica já interiorizada pelos intervenientes cujo objetivo é o de levar aos que os escutam mudar sua opinião sobre determinada matéria ou questão, ou a reafirmá-la, se for o caso em que o emissor da mensagem se mostra convincente pelos gestos, pela voz, pela postura, pelo estilo, pela construção de silogismos retóricos através de vários estratagemas discursivos.


É isto que políticos e comentadores fazem, mesmo que contrariando evidências factuais reformulando todo o discurso desviando uma evidência para outro facto favorável a sua tese. Um exemplo evidente é o caso do PSD quando pretender transformar um sucesso do governo no seu próprio sucesso através de sofismas utilizando, para tal, argumentos deliberadamente falsos para tentar induzir em erro quem os escuta.


Sobretudo para a direita a verdade, como algo que à parte de e em possível conflito com as conveniências políticas e partidárias, deixou de fazer parte do seu universo de retóricas. Podemos, então, distinguir dois tipos de uso do discurso retórico: o pedagógico e esclarecedor e aquele que é demagógico e manipulador. Este último é o preferido pelos adeptos dos partidos, especialmente dos da direita, (embora à esquerda também se verifique, mas em menor escala), porque gostam de o ouvir não se apercebendo de que também estão a ser manipulados.


Assim, e para concluir, como se processa esta retórica dos inimigos do povo, como lhes chamam alguns radicais de esquerda?


Destruir e economia portuguesa fazendo crer que tudo o que fazem é a bem da economia e da competitividade com o sacrifício de muitos e, ao mesmo tempo, dizendo que é para bem de todos num futuro de amanhãs que cantam.  


Demonstrar que o que eles fazem ou dizem é a verdade absoluta e para os seus antagónico a verdade é sempre relativa.


Fazer constar que os indicadores sociais e da economia quando se encontram no poder são sempre positivos mesmo que o não sejam.


Mostrar que os mesmos indicadores quando favoráveis a quem está no poder são enganadores e que, se são positivos, é devido à ação da direita quando está no governo.


Demonstrar que qualquer decisão tomada que não seja pela direita conduzirá à chegada do diabo e ao cataclismo.


Retirar (cortar) o máximo de direitos básicos e ou constitucionais se possível que lhes possa dar mais margem de manobra.


Eliminar paulatinamente a classe média.


Fazer a apologia da austeridade drástica e intransigente com a título de reformas profundas na organização social sem explicitar o que por isso entende.


Mandar os jovens para o estrangeiro e os idosos (a peste grisalha) para o cemitério através de mecanismos que dificultem o acesso á saúde e propondo o corte nas reformas segundo o princípio demagógico de que não há alternativa.


Ampliar e maximizar o poder e os lucros dos seus fiéis para que lhes possam propiciar a sua permanência no poder.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Garimpeiros

Garimpeiro.png


O Natal já lá vai e a política da oposição de direita é a de continuar à procura de prendinhas preciosas para oferecer a si própria. Mas não é só a oposição, são também alguns que, não sendo da oposição de direita e considerando-se do PS, fazem oposição ajudando a meter golos na baliza do “clube” a que dizem pertencer.


A pesquiza de preciosidades e a procura de brechas insipientes na política do Governo são a oportunidade que resta à direita para fazer oposição fácil porque oposição afirmativa séria e alternativa, não sabem como fazê-la.


A oposição a Passos Coelho dentro do PSD começa a borbulhara e a fazer sair da penumbra a que se votaram, depois da perda do poder, alguns senhores que então o apoiavam.  Saltitam alguns reagindo a uma possível aliança do partido com o CDS para a Câmara de Lisboa. Autarcas e ex-autarcas sugerem um congresso extraordinário do PSD.  


Seguem-se outros de direita, nomeadamente colunistas de jornais diários que aproveitam para pegar em tudo quanto o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, diz ou possa ter dito para fazer manchetes e para o criticar oraculizando esboços de divergência institucionais com o Governo.


Há ainda outros, os que escrevem em editoriais que  o “Presidente não é o menino Jesus e que  por muita fé que tenha, o boletim meteorológico continua a apontar para mau tempo.” Fazem parte do grupo que, entrando na carruagem de Passos Coelho, esperam ansiosos pela paragem onde entra o diabo. Estes eram os defensores das políticas de Passos Coelho no passado.


Vão escavando, garimpam aqui e ali, em tentativas de procurar algo fazendo uma oposição sem consistência. Primeiro foi a CGD, agora são os lesados do GES para os quais Passos, enquanto esteve no Governo, não conseguiu, não quis ou não soube arranjar uma solução. Surgem como senhores das trevas que dizem defender o interesse de Portugal.


Timidamente vão saindo da nebulosidade outros comentadores e opositores vindos duma direita  enfezada, porventura devido a estarem próximo do diabo que dizem estar para vir. Tecem estes críticas veladas ao Presidente da República, ainda de forma comedida, mas que, entre linhas, vão insinuando que o Presidente está em consonância com o Governo por estar a fazer discursos pacificadores. Estes são os mesmos que, durante a campanha eleitoral, faziam campanha e elogiavam Marcelo. Anseiam agora por conflitos institucionais, querem instabilidade porque é isso que os torna vivos.


Estou à vontade para escrever porque sempre critiquei Marcelo Rebelo de Sousa para Presidente. Reconheço o meu erro, apenas, e só, porque, ao contrário do que pensava na altura, ele veio trazer um contributo para a paz social com uma atitude contrária ao passadista Passos Coelho que, durante o seu mandato, criou feridas, crispações e instabilidade sociais dividindo o que deveria unir, até porque Portugal estava confrontado com dificuldades a ultrapassar que necessitavam de união e não de divisão. Sobre esse tempo e essa atitude, neste mesmo sitio, várias vezes manifestei-me contra.


É mais do que certo que, nem tudo o que o Governo fez, ou se proponha fazer, está isento de críticas, nem tudo tem sido perfeito, mas qual foi a perfeição do Governo da passada legislatura. Aqui entram, mais uma vez, os que exaltam o que bom fez o Governo de Passos que preparou o terreno do que, dizem, estar o atual a aproveita-se.


Não falemos agora da saída limpa e do que, para isso, esconderam sobre o estado da banca!…


Garimpam desesperadamente em terrenos onde nada existe para garimpar.


Apenas como uma nora final tomem nota senhores autarcas do PS, atuais, futuros ou recandidatos, os garimpeiros da política andam por aí e a caça ao nepotismo e a outras atividades menos éticas já começou com a aproximação das eleições autárquicas.  Essas vão ser duras, mais do que se estivéssemos num Governo do PSD onde muita coisa seria ocultada, desculpada e dada sombria visibilidade.


 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O comentarista transparente

Marques Mendes4.pngMarques Mendes no seu tempo de antena, aos domingos na SIC, dedica-se à propaganda da oposição do PSD ao Governo. Para ele toda a especulação serve para ter audiências e para se projetar tirando disso proveito de visibilidade. Segue uma estratégia diferente de Medina Carreira que utiliza para quem nada tem solução perdendo-se em gráficos que mostram as catastróficas as finanças, mas a finalidade é mesma.


Marques Mendes é uma divindade profética que fala do olimpo televisivo profetizando sobre política, de forma cada vez mais derrotista. Ele colmata a lacuna necessária para a oportunidade da instabilidade política. Se compararmos os seus comentários de hoje com os do tempo do Governo de Passos Coelho os seus comentários eram, na altura, dignos dum menino do coro celestial se soubesse cantar comentários políticos.


Ele fala sobre tudo, anuncia tudo, tem conhecimento de tudo, faz juízos intencionais, amplifica o mau, esconde o bom, desacredita tudo quanto venha da governação. Para Marques Mendes o Governo está envolto num intenso nevoeiro, nada é transparente, nada está claro, tudo precisa de ser clarificado, nada é transparente porque o Governo esconde, vê intencionalidades ocultas. Fala como se no tempo do Governo do líder do seu partido tudo fosse transparente. Se, revisse a imprensa da época…. Enaltece, valoriza, dá corpo a tudo quanto venha da oposição de direita e sobretudo se vem da oposição de esquerda que, ao mesmo tempo e em certas condições, apoia o Governo. Decide virtualmente demissões de ministros, aconselha sobre quem fica e quem sai.


Marques Mendes faz o jogo da esquerda quando lhe convém para, logo depois, apoiar a direita e embaraçar os dois partidos da esquerda do apoio parlamentar. Não faz comentário, faz oposição ao Governo. Dá uma ajuda pelo comentário à oposição de direita. Quer protagonismo como Marcelo Rebelo teve no seu tempo de comentador, mas nunca lá vai chegar com a técnica das comadres que, duma qualquer janela, dum qualquer bairro popular, juntam as razões para estarem contra a vizinha do terceiro que deita água em cima da roupa lavada.


Para ajudar à festança oposicionista, por vezes sem razões, há jornais que aplaudem e ajudam à visibilidade com parangonas de primeira página.


Saudades do comentador pantomineiro Marcelo Rebelo de Sousa, como eu o designava, e não sei se mais alguém.


Como já várias vezes disse a Caixa Geral de Depósitos – CGD é, para a direita, à falta de melhor, uma forma que encontrou para fazer uma oposição. Para a esquerda é mais um populismo que complementa o jogo da direita. O que a CGD é uma instituição pública com características diferentes das habituais, é um banco que, embora público, tem que competir num mercado concorrencial e, como tal a sua administração tem que ser idêntica à do mercado, tem que ter estabilidade para competir no mercado. Marques Mendes parece não compreender isso. Se não fosse apenas para ter visibilidade, para dizer eu existo, aceitaria que a SIC lhe pagasse um valor abaixo do mercado para fazer comentários?  Se fosse convidado para ocupação dum alto cargo de responsabilidade, como é o da CGD, e lhe oferecessem um salário de primeiro-ministro aceitaria o cargo? Se disser que aceitaria para poder servir o seu país, essa não cola.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Confuso ou talvez não

Mediaconfusão.png


Duma maneira geral a comunicação social é vista como um dos fatores mais responsáveis pela criação de instabilidade social e de desconfianças sobre as práticas políticas dos diversos atores em presença. Não inventa as notícias, elas existem, mas molda-as, adequa-as para terem mais impacto, alterando ou acrescentando sentidos. Os objetivos para tal podem ser vários e dependem das linhas editoriais, da necessidade de amplificação do impacto que o acontecimento ou a notícia possam ter para atrair o interesse do público para a compra e, no caso da televisão, para o aumentar as audiências.


Sem que seja caso único é um bom exemplo o que tem alimentado nos últimos dias, debates, notícias, informações e contrainformações sobre o caso dum potencial imposto sobre o património acumulado desnecessariamente causado por Marina Mortágua do BE.


A liberdade de imprensa que temos (impressa e televisiva) é um bem que deve ser preservado, contudo, corre sempre o risco de estar a ser limitada, condicionada, mesmo não existindo trâmites censórios próprios dos regimes ditatoriais, como era no tempo de Salazar e Caetano.


A pergunta que podemos colocar é a de saber se em democracia existe ou não uma tendência para o controle da comunicação social por grupos económicos através de "correias de transmissão" ligadas a ideologias e partidos políticos, mais ou menos dissimuladas.


A análise dos jornais, noticiários e comentários televisivos mostra-nos algumas tendências que se manifestam mais a favor, ou mais contra, consoante o ponto de vista ideológico de quem está no poder.  


Não deve ser noticiado apenas o que é bom e agradável mas estamos exaustos de ver e ouvir todos os dias notícias negativistas, o fatalismo como sendo as únicas notícias. Noticia-se o que é superficial e fútil e não o relevante. Sabe-se, eles sabem, os da comunicação, que isso é que "vende" e, por isso, insistem. A competição comercial entre canais a isso obriga, deixando a ética como se fosse um objeto sem valor. Espetacularização e sensacionalismo são a chave do negócio.


O alinhamento noticioso dos canais de televisão começou a adotar o modelo de outros canais como o CMTV onde, diariamente, se gasta tempo demais com são oferecidos crimes, marginalidade, corrupção, dinheiro sujo, estúpidos concursos, factos privados enfatizados ad nauseam, gira-se à volta de quem tem dinheiro e declarações de má política, mas compacta-se ao máximo no espaço e no tempo uma qualquer ideia, reflexão construtiva ou qualquer contributo positivo.


O que vemos nos canais noticiosos será de facto o retrato do país onde tudo o que acontece é mau? Desde que não esteja em linha com o que ideologicamente eles, os senhores dos comentários, pensam e que acham deveria ser e porque se quer estar do lado dos opositores que perfilham é tudo mau. Foi assim no passado recente, mas ao contrário.


Não se pode ser otimista irrefletido mas, o que se vê na "fotografia" dos media é um pessimismo paralisante e um fatalismo permanente. Comentar é também criticar com imparcialidade, com isenção, não apenas atacar por mera fação e questão ideológica de que, afinal, acusam outros. Ou, então, criticam porque sim.


Penso que já referi várias vezes neste blog a impressão negativa que tenho sobre alguns comentadores da televisão e sobre artigos de opinião escritos, independentemente de estar ou não de acordo com eles, venham da direita ou da esquerda. Nem tudo o que uns gostam de ouvir ou ler agradará a outros. Uma coisa é o debate de ideias e de pontos de vista em democracia, outra é o "arranjo" argumentativo falacioso propositadamente construído com deturbação e interpretação abusiva de opiniões, acontecimentos ou factos ainda não comprovados. Outro caso ainda é dizer-se que uma coisa é preta quando é evidente a perceção comprovada de que é branca. Isto é, nega-se uma realidade, lança-se-lhe umas pinceladas de frases mais ou menos demagógicas e populistas para se poder a continuar a dizer que aquela coisa é preta.


Neste segundo semestre aconteceu haver uma agitada dança de cadeiras a nível das direções em jornais e rádio, o que para o cidadão comum não é novidade. As justificações são sempre as mesmas, reorganizações, ajustamentos, rentabilizações, etc. e, por vezes, estas mudanças estão também ligadas a mudanças de orientação editorial. Desta vez estas mudanças verificam-se ocasionalmente num ano em que um Governo é apoiado por uma maioria parlamentar de esquerda.


Na direção do Diário de Notícias encontra-se desde setembro Pedro Baldaia que era diretor da TSF; David Dinis que saiu do jornal Sol, fundou com outros o jornal online Observador e foi para diretor da TSF donde sairá para passar a dirigir, a partir de 3 de outubro, o jornal Público. Também, José Miguel Tavares, passou a ter direito naquele jornal a mais um diazinho por semana para divulgar as suas facciosas opiniões. A direção do jornal i que mudou várias vezes (em pouco mais de seis anos de vida, o jornal já teve quatro proprietários e sete direções), cabe desde 15 de dezembro de 2015 a Mário Ramires que também é presidente do conselho de administração da proprietária do jornal, a NEWSPLEX, SA., e também do semanário Sol. O jornal i e o Sol anteriormente pertenciam à Newshold, empresa angolana liderada por Álvaro Sobrinho que tinha investido na entrada do capital da Cofina, (dona do "CM" - Correio da Manhã) e da Impresa (dona do Expresso).


A crise que há na imprensa escrita vai alastrando e por ela a liberdade de expressão dos jornalistas pode ser condicionada face a uma potencial perda de emprego à vista. As razões apresentadas são várias, normalmente de natureza financeira e económica que levam ao despedimento e a rescisões por mútuo acordo de jornalistas. A razão para que este ano exista tal azáfama leva-me a pensar. Mas isto de momento não nos interessa.